O peso de uma escolha.
2 Uma viva obsessão.
Notas iniciais
Ehtan sempre a olhava de uma maneira que ela não gostava, era uma mistura de carinho com algo mais. Ela não conseguia entender, mas nunca perguntava ao irmão. Sempre aceitava tudo de bom grato.
— Vai dormir comigo hoje de novo. — ele dizia.
— De novo? — ela sempre questionava, mas cedia e ia. Dormiam lado a lado. Sempre que o irmão queria. Isso começou a seis meses.
— Sim. — ele disse baixinho. Ela apenas assentiu com a cabeça. Continuaram sua caminhada.
Sempre que chegavam ela ia pro quarto, o peso não ajudava para que ela fosse rápido. Tinha dificuldades de andar.
— Vou preparar o seu almoço. — o irmão gritou. — posso por o que eu quiser não é?
— Sim. — respondeu ela.
Elisa nem sempre fora assim. Nem sempre descontava a culpa e a dor nos alimentos. Quando tinha doze anos era magra. Mas quando completou treze anos começou a engordar. Seu irmão lhe dava sempre comida e mais comida. Ele dizia que ela era pequena demais e precisava crescer um pouco. Assim sendo ela começou a comer, também para se esconder das crescentes brigas com os pais e das palavras da mãe.
Olhou para o espelho. Seu fiel inimigo. Odiava o com todas as forças do mundo.
Tentou respirar, estava difícil a cada dia que passava, seus pulmões estavam reclamando da falta de oxigênio que ficava escassa a cada segundo. Desceu vagarosamente e sentou-se a mesa. O prato estava cheio, mas dessa vez o irmão não colocara as coisas gordurosas que ele sempre fazia ela comer. Tinha alguns legumes e uma fruta como sobremesa. Ela estranhou, porém comeu tudo sem resistência. A refeição foi leve. Ela não se sentia saciada, mas algo era diferente. Sorriu para o irmão que logo estava beijando seu rosto. Começou pela bochecha e desdeu pro queixo.
Ela sempre estranhava o comportamento dele de uns anos para cá. Mas sempre ficava calada. Tinha medo de perder a atenção da única pessoa que o fazia naquela casa.
— Eu amo muito você. — ele dizia acariciando seu braço esquerdo.
—Eu também. — ele a olhou com um ar de espanto.
— Tem certeza que sim? Seria capaz de tudo por mim. — ele colocou seu rosto com as mãos tranquilas e ela sorriu.
— Claro...
— Que seja sempre assim. — ele disse beijando seu nariz.
O pai dos dois interrompeu a cena de carinho com um grito.
— Ei, o que estão comendo? — questionou os filhos.
Ehtan apontou para as panelas e depois subiu puxando a mão da irmã.
— Vem Elisa. Você precisa estudar.
Ehtan era extremamente ciumento com a irmã, não deixava que ela se dirigisse a palavra ao pai e em relação aos garotos que ele via se aproximando dela, logo dava um jeito de expulsa-los.
Elisa estava tão preocupada se sentindo a pior das criaturas que não percebia os olhares que o irmão lhe lançava quando ela não estava percebendo.
— Eu não sei essa questão. — ela dizia apontando para o caderno aberto.
— Me deixa ver. — ele pegou o material e observou por um tempo. — Você tem de ler esse paragrafo aqui e depois explicar com suas palavras o que foi a primeira Guerra Mundial. — ela sorriu e se voltou para a leitura.
Seus olhos cor de âmbar fitaram o jeito como a irmã fazia cada movimento. Ela estava gorda demais e ele sabia disso, precisava cuidar da saúde dela. Tinha medo que algo pior pudesse acontecer.
— Amanhã nós vamos começar uma caminhada. — ele disse pegando uma caneta dela a esmo.
— Eu tenho vergonha de sair de casa, quanto mais caminhar. — Ela baixou a cabeça.
— Não há porque ter vergonha. Você vai conseguir emagrecer e eu... — ele parou no meio da frase fitando os olhos castanhos claros da irmã.
Ela esperou que ele terminasse de falar, mas foi interrompido por uma mulher extremamente raivosa que gritava sem medir o tom. Sim, sua mãe já estava brigando com o pai deles.
Não bastando isso ela adentrou o quarto da garota que olhou assustada para a porta.
— Quem deu permissão pra vocês comerem as minhas cenouras? — ela vociferou contra os filhos.
— Eu peguei, não sabia que eram suas, se tivesse avisado eu não teria chegado perto. — o rapaz levantou-se e sentou ao lado da irmã. Ele sabia que ela estava tremendo de medo. Já que a mãe deles tinha mania de bater em Elisa quando ele não estava em casa.
— O que você fez com elas? Se cozinhou ou usou em alguma receita eu não estou vendo. Cadê? — ela questionou.
— Eu cozinhei e comi junto com a minha irmã e seu marido.
Ela gargalhou e depois saiu batendo a porta com força.
Elisa se tremia inteira, pensou que fosse apanhar outra vez. Como tantas vezes sem motivo algum.
— Calma. Eu estou aqui. — ele abraçava a garota que respirava com mais dificuldade do que o habitual.
— Não fique nervosa. Ela não vai bater em você de novo. Eu não vou permitir.
Mais a noite ela caminhou para o quarto. Era sempre o mesmo ritual. Deitavam- se juntos. Ela o abraçava por trás e ele segurava sua mão. Ela roncava, muito. Alto e isso incomodava. Mas ele queria, fazia questão de ter o corpo dela junto ao dele.
Sua obsessão pela irmã não tinha limites.
— Eu não aguento mais. — ela disse parou pela quinta vez. Seus tornozelos doíam muito e ela não conseguia mais dar nem sequer um passo. Quis chorar. Quis correr e se esconder em seu quarto, em seu mundo. Não queria estar nem mais um instante ali. A avenida era movimentada e muitas pessoas se exercitavam, assim como ela. Sentia uma vergonha enorme por estar com aquelas roupas de ginástica que nunca usava e queria desesperadamente sair do alcance da vista dos outros.
— Eu não permito que você desista agora.
No fundo o irmão sabia que a culpa seria toda dele, quando percebeu que ela fugia dos problemas comendo ele a ajudou. Dando a ela sempre os mais gordurosos alimentos que podia. Retirando a atenção que ela poderia ganhar. Era dele e somente dele.
Segurou a mão trêmula da garota que suava frio. Andaram daquela maneira.
Uma hora depois eles estavam indo pra casa.
— Está vendo, você consegue. — ele dizia enquanto massageava os pés da irmã.
— Só porque você estava lá comigo. — ela completou timidamente.
Ele sorriu, queria ter certeza de que ela sempre estaria lá quando ele precisasse.
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