O peso de uma escolha.
21 Tapa na cara
Notas iniciais
Carlos estava apreensivo, era a primeira vez em muito tempo que ele iria conseguir falar com a esposa. Sentiu um frio lhe percorrer a espinha. Era a hora do almoço do seu trabalho,
— Alô Sarah.
— Seja rápido, eu não posso demorar nessa ligação, tenho de trabalhar e...
— Eu sei de tudo Sarah, sei que você não tem de trabalhar coisa nenhuma.
Houve silêncio do outro lado da linha. Então o homem continuou.
— Eu vi tudo Sarah, eu juro a você que eu não quis acreditar, que pensei que aquilo fosse apenas uma ilusão. Mas infelizmente aquela é a verdade. Você está me traindo com uma mulher. — ele respirou fundo.
— Precisamos conversar. — ela disse em tom seco.
— Agora você quer conversar? Depois que me traiu, depois que abandonou os seus filhos no pior momento da vida deles? Depois que surrou a sua filha quase que sempre quando você tinha uma raiva qualquer.
— Você não tem direito de me julgar. Você não tem...
—Eu sei Sarah, eu sei que eu não tenho direito algum. Mas ao invés de fugir da minha realidade eu dei a minha cara a tapa. Eu enfrentei os meus problemas, estou correndo atrás da solução. Você ao menos se importa de que nos poderíamos ter perdido a guarda dos meninos? Importa-se em que seu filho já saiu do hospital psiquiátrico? Que sua filha esta começando a perder peso e arrumou um namorado? Que ela completou quinze anos e quase foi estuprada um dia antes? Você ao menos entende tudo isso? NÃO SARAH. — ele gritou. — Você não sabe de nada. Por que estava mais ocupada se lamentando por ter uma vida ruim que não entendeu que as pessoas a sua volta estavam doentes. Que seus filhos precisavam de você. Que eu fui um fraco e cai em uma depressão. Eu sei Sarah. Eu...- ele não conseguiu mais dizer nada. Tirou o celular por um instante do ouvido e deixou algumas lágrimas rolarem.
— Carlos?
— Sim.
— Me encontre hoje, as dezoito na praça.
— Eu trabalho até às vinte horas.
— Certo, ainda é no bar no Elvis?
— Lá mesmo.
— Te espero na saída.
— Certo.
E ela desliga o telefone como se estivesse marcando uma simples reunião de trabalho, deixando um homem destroçado banhado no desespero.
...
O vento que cortava a cidade era uivante e discreto, deixando a noite mais fria. Carlos esperava de pé em frente ao bar. Trajava um casaco escuro bem acolchoado. O inverno ameaçava não querer partir tão cedo. Seu relógio de pulso era sempre consultado, já se passavam vinte minutos de atraso e nada da mulher que um dia foi sua aparecer. Quando ele ia dar meia volta para entrar no bar um carro estaciona do outro lado da sua. Então ele pode ver uma mulher no volante e saltando do veiculo. Era Sarah. Que toda alegre dá a volta no carro e diz alguma coisa para a motorista que sorri e depois olha o homem meio que de soslaio e da à partida no carro. Quando ele já está bem distante a mulher atravessa a rua e encara o homem que estava a sua espera.
— Quer entrar? — ele convida.
— Sim. Preciso de uma bebida.
Assim sendo eles adentram o bar, pedem uma bebida e se sentam-se à mesa mais afastada. A aquela hora o dono já não estava mais no local. Apenas alguns poucos funcionários e alguns clientes assíduos.
— Preciso que fique calado e me escute. O que eu tenho a dizer não é pouco e não quero que me interrompa.
Ele fez que sim com a cabeça.
— Quando você perdeu o emprego eu pensei que tudo fosse apenas uma fase ruim. Que logo iria passar e que nossa vida continuaria da mesma maneira de sempre. Mas então as coisas não foram bem assim. Eu te via se afundar em um poço. Como se não houvesse mais forças pra lutar. Como se aquele emprego fosse a única coisa. Sabendo que você também era bom em outras áreas. Aos poucos eu te via morrendo. Tentei ser compreensiva no começo. Te deixar a vontade para tentar se reerguer. Mas as coisas não foram bem assim. Então as coisas começaram a ficar pior em relação aos meninos. Ehtan se fechou em um casulo que eu não conseguia abrir e Elisa comia e comia, como se aquilo fosse te fazer arrumar um emprego. Acho que a maneira que ela encontrou para se livrar do estresse foi aquela. Assim sendo eu aceitei mais um turno do trabalho. Eram dois turno cansativos. Eu tinha um chefe muito mandão, que resmungava de tudo e por mais que eu batesse a minha meta ele me empurrava mais e mais. Eu estava a tempos de explodir. Chegava em casa cansada e ao invés de conseguir um abraço e um alento eu via o meu marido deitado, enchendo a cara e gastando as poucas economias que eu tinha com bebida. Isso era o que eu sabia. Para completar olhava Ehtan e Elisa. Sempre juntos e ela descuidado da aparência. Isso me irritava por muitos motivos. Já que eu sabia que doenças poderiam surgir no trajeto. — ela tomou um gole grande de cerveja e continuou. — Aos poucos eu te via pior e meu filho teve de arrumar um emprego para custear seus gastos e os da irmã. Mesmo que a casa fosse sua. Mesmo que as contas não fossem tantas. Eu me sentia encurralada. A pressão vinha por todos os lados e me exprimia contra uma parede invisível. Então um dia eu bati na Elisa por causa da louça suja. Lembro-me que essa foi à primeira vez. Senti-me aliviada por gritar com ela e bater nela. Aquilo me deixou mais leve, mas no fundo eu sabia que não podia fazer isso. Que era errado e eu estava sendo o pior tipo de mãe possível. Mas foi um caminho sem volta. Eu não consegui mais parar. Chegava do trabalho cansada e quando via ela descontava minha raiva. Aos poucos eu fui me acostumando. Às vezes criava motivos que não existiam. Mas depois eu me arrependia e vinha à amargura depois do alivio. Chorava sozinha e queria parar. — ela hesitou ao ver o olhar do homem. Voltou os olhos pra bebida e continuou. — Então Ehtan começou a defendê-la. Impedia que eu encostasse um dedo na menina. Eu fiquei frustrada e tinha vontade de bater nele também. Mas não consegui. Aquele olhar que ele me lançava me dava medo e eu sabia que tinha algo errado com o meu garoto. Que ele não estava normal. Porém eu estava tão emergida no meu mundo que deixei esse fato passar. Senti-me doente. Me senti um nada. Um monstro. Até ela aparecer. Roberta Hans. Foi assim que ela foi apresentada pelo novo chefe. A psicóloga da empresa. A primeira pessoa que tinha uma consulta marcada com ela era eu. E eu desabei. Contei a ela tudo. Contei sobre você, sobre o que eu fazia com a minha filha. Contei sobre o Ehtan. Tudo. E ela me ouviu. Era apenas isso que eu queria. Alguém que me ouvisse. Que deixasse esse rio de dor que havia no meu coração escorrer. E eu me senti aliviada. Ela me receitou um tranquilizante. – Ela bebeu mais um pouco como quem toma coragem e continuo. — No inicio eu tomava um pouco e chegava em casa entorpecida. Sem vontade de bater na minha filha. Apenas dormir. Mesmo que ela receitasse apenas um comprimido ao dia eu tomava dois, três. E perdia a vontade de gritar com ela de ser um monstro. Apenas eu queria dormir. Esquecer. E me envolvi com a Roberta. No início ela me chamou pra beber. Percebi que ela era lésbica e eu nunca tive interesse em mulheres. Só que a ajuda que eu preciso vinha dela. O carinho e a atenção vinham dela. Assim eu cedi. Ficamos uma vez e eu gostei. A forma como fui tocada me deixou anestesiada. E por um instante eu me esqueci da mãe e da esposa e me preocupei somente com a mulher que precisava ser amada.
Carlos não dizia nada. Apenas a ouvia sem reação. Tudo era uma bomba para si e ele não sabia como responder ao que estava sendo lhe passado.
— Assim nós começamos um romance. — ela continuou. — Quando Ehtan tentou se matar eu não sabia o que fazer, ainda mais quando você me disse que ele tentou violentar a irmã. Corri pra Roberta. Eu precisava me esconder em algum lugar e pensar. Aquilo tudo era muito difícil pra mim.
— Então você simplesmente escolheu fugir. — ele falou em fim.
— Sim, eu fugi. Mesmo que a Roberta me dissesse para estar ao lado de vocês. Eu fugi. Como uma covarde que eu sou. Encolhi-me no meu mundo e somente agora que estou renovada eu vou encarar a minha realidade. Me desculpar.
— Você acha que vai ser fácil assim? Chegar lá e pedir perdão por toda a dor que causou a Elisa?
— Eu sei que não. Não espero que ela me perdoe mesmo. Quero apenas me explicar. Eu amo minha filha. Mas eu sinto que não estava sabendo como mostrar isso e fazendo da vida dela um verdadeiro inferno.
— Ehtan não é mais o mesmo. — ele balbuciou sem tirar os olhos do copo.
— Eu percebi. Apenas me deixe tentar. Eu quero ser uma pessoa melhor e tentar concertar tudo.
— Você não pode chegar assim do nada e se arrepender do que fez a eles.
— Então quer dizer que só você é quem pode fazer isso? — ele se calou. Estava se equivocando. Por um momento ele percebeu que fez o mesmo que a esposa, só que em uma vertente diferente. O homem se calou e por fim olhou para ela. — Eu te trai, não nego. Arrependo-me de não ter acabado esse casamento ou lutado por ele. Eu não sei. Mas agora eu estou aqui. Não vou fugir mais. Vou encarar a realidade.
Ele estava sem argumentos. Não podia julgar a mulher que bateu em sua filha se ele nunca levantou um dedo para impedir. Não podia julgar a mulher que era fria e indiferente se ele mesmo era assim o tempo todo.
Estava em um impasse.
— Tudo bem Sarah. Eu errei assim como você. Mas se nós não temos jeito juntos vamos pelo menos salvar a vida dos nossos filhos.
— Alias, — ela disse virando o copo de cerveja e dando uma breve pausa. — eles não tiveram culpa de nascer.
O homem concordou com a mulher e voltou se a sua bebida. Assim como o liquido que jazia dentro do copo ele precisava terminar o que começou.
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