O país secreto.
21 Seria esse o mesmo sol que via da janela de minha casa?
Notas iniciais
Vários dias se passaram desde aquela conversa estranha que tive com Larm. Agora, devo estar completando duas semanas, eu acho, morando na floresta. Descobri que não é algo tão ruim, basta saber o básico como por exemplo, caçar, vigiar, se esconder e ficar sempre alerta. Acho que confio mais em Larm e em meu avô agora. Eles ainda não me mataram, pelo menos. Larm e eu combinamos o tempo em que cada um ficaria de vigia de noite, e acho que isso o deixa mais contente, embora ele não admita. Larm nunca dormia, suponho. E se o fazia, provavelmente era umas duas horas e poucas. Suas olheiras até diminuíram quando eu cheguei para vigiar também e deixá-lo dormir um pouco.
Acordo bem cedo, afinal já me adaptei a isso com o tempo que fiquei aqui. A caverna está escura, mas posso distinguir a silhueta de Doquo, que dorme em seu canto, sem emitir nenhum ruído sequer. Meu olhar varre o ambiente em busca de Larm, mas me parece que ele não está aqui. Meu olhar vai instintivamente para a entrada da caverna. Não vejo ele. Vejo os tons alaranjados do céu que sugerem o nascer do sol.
Um nó começa a se formar em minha garganta quando lembro do quanto eu amava ver o sol nascer. Vê-lo da janela da minha casa. A casa que talvez não veja nunca mais. A família que deve estar sofrendo graças a nossa ausência.
Levanto e caminho cuidadosamente até o buraco da caverna, que me acostumei a chamar de porta. Saio por ele, com mais habilidade que costumava sair quando cheguei aqui. Fico de pé, agora do lado de fora. Meu olhar está paralisado, fixado no céu. No sol, que cada vez aparece um pouco mais. Será que o sol daqui é o mesmo sol lá do meu mundo? Balanço a cabeça para me livrar do pensamento. Não seria possível. Ou seria? O sol poderia ser a única ligação que ainda tenho com o mundo exterior? Com minha família? Seria louco demais. Estranho demais. Mas eu gostaria que fosse verdade.
–Pensando?- A voz me surpreende.
Eu estava tão imersa em pensamentos que nem ao menos notara que Larm estava ali, sentado no chão e me olhando como se eu fosse louca.
Larm me intriga, não nego. Seu jeito sombrio, suas frases sem final... Eu sei que seu passado é ruim, mas às vezes ele deixa a entender que não se trata apenas disso. Às vezes, parece que ele não confia em mim. Nem em Doquo. Nem em ninguém.
–Você é esquisita.- Ele arqueia uma sobrancelha.- Antes eu achava, mas agora tenho certeza.
–Por que?- Pergunto na defensiva.
–Sei lá, fica olhando para o alto como se fosse retardada.- Ele diz.
Sinto vontade de chorar. Desabar, falar tudo o que estou sentindo, toda a saudade que está acumulada em meu peito. A verdade é que estou a ponto de explodir. Meus irmãos, meus primos... Todos podem estar mortos. Todos. Já faz vários dias que não os vejo. E meus pais. Mas apenas engulo em seco para reprimir as lágrimas que estão querendo descer a qualquer custo.
–Você não sabe nem metade do que estou sentindo.- Digo com a voz abafada, sentando-me ao seu lado com as pernas cruzadas e escondendo o rosto nas mãos.
–E suponho que não esteja disposta a contar isso para um completo estranho.- Ele fala, o que me faz olhar para ele.
–Você não é um estranho.- Digo, sentindo os olhos inundarem.- Pelo menos não agora.
Ele estica a mão e seca uma lágrima que escorreu involuntariamente por meu rosto com a ponta do dedo.
–Eu posso estar errado, mas acho que você está carregando mais peso do que pode suportar em suas costas.- Ele diz, colocando uma mecha do meu cabelo atrás da orelha.
Não hesito, o abraço e deixo todas as lágrimas acumuladas rolarem por meu rosto. Ele acaricia meus cabelos, me consolando.
–Meus pais... Stive... Will...- Digo, soluçando. Eu queria dizer mais, mas não conseguia.
–Eu sei, eu sei.- Ele murmura.- Deve amá-los muito, não é?
Saio do abraço e seco as lágrimas de minha bochecha.
–Mais do que a mim mesma.- Digo soluçante.
–Nós já deveríamos ter começado a busca por seus parentes.- Ele diz.- Mas tenho medo de deixar seu avô sozinho.
–Está brincando?- Fungo.- Ele é Doquo. Muito poderoso, por sinal.
–Eu sei.- Ele assente.- Mas ele não aguenta andar muito. Com oitenta anos, caminhadas estão fora da lista de atividades.
–Temos que falar com ele.- Esfrego os olhos.- Temos que achar meus irmãos e primos. Se...
–Se?- Ele faz sinal para que eu prossiga.
–Se eles ainda estiverem vivos.- Digo com mais uma lágrima descendo.
–Não fique assim.- Ele diz.- Não gosto de ver garotas chorarem. Apesar de não ter visto muitas.
Sorrio.
–Está vendo? Assim você fica bem mais bonitinha.
Abraço-o mais uma vez.
–Obrigado de novo, Larm.- Digo em meio ao abraço.- Não sei o que faria sem você.
–Não há de quê, meu amor.- Nos separamos.- Sei que sou demais.
Ele sorri. Seus olhos continuam como buracos negros. E agora sinto a necessidade de perguntar:
–Por que seus olhos não fazem... aquilo?- Ele parece não entender a pergunta então continuo.- Tipo assim: Piscam e ficam normais. Como os meus.
Ele solta uma gargalhada, que me assusta.
–Se refere ao blint? Acho que sim.- Ele para de rir e pigarreia- Nota-se que é uma turista, meu amor. Qualquer um sabe que hipnotizadores só adquirem a capacidade de passar por blint quando passam por uma experiência completamente nova. E isso só é possível depois dos doze anos. Mas tem que ser algo bem esplêndido, algo que faça você se sentir muito feliz, muito triste, ou mesmo muito furioso.
–Isso é bem esquisito.- Concluo, mais calma agora.- Mas isso só se aplica aos hipnotizadores?
–Vê como o mundo é injusto?- Ele sacode a cabeça sorrindo.- Os que nascem com olhos verdes, azuis, pratas, dourados ou castanhos tiveram sorte. Minha aparência assusta a muitos.
–Não me assusta.- Digo.
–Claro que não, você é tão maluca quanto eu.
–Devo tomar isso por elogio?
–Tome, se quiser, mas não foi.- Ele responde, se levantando e pegando sua harpa e faca que estavam no chão. A faca ele joga pela entrada da caverna e a harpa e coloca na cintura pelo gancho.- De qualquer modo, os malucos são os melhores.
Ele estica a mão para me ajudar a levantar, e eu aceito a gentileza.
–Agora, se não quiser morrer desidratada, vá pegar a garrafa para enchê-la d'água.- Larm diz e eu o obedeço, sem resistir.
Quando subo de novo, com a garrafa, encontro-o virado para uma árvore. Parece que está escrevendo algo, com alguma coisa. Me aproximo para ver o que é.
Ele está escrevendo seu nome no tronco da árvore com uma pedra pontiaguda. “LARM” Com letra sofrida e espremida.
–Vai ser minha árvore.- Ele olha para mim, satisfeito com o trabalho.
–Legal.- Sorrio.- Mas como aprendeu a escrever?
–Nasci sabendo.
Ficamos em silêncio, eu olhando para ele, incrédula e ele mantendo a expressão séria. Mas então ele solta outra gargalhada assustadora.
–O velho mentiroso me ensinou.- Ele diz, e suponho que esteja se referindo a Arismir.- Acredite ou não, falo sete línguas diferentes.
–Sete?- Arregalo os olhos.
–Dessa vez não é brincadeira.- Ele diz.- É isso que aprendemos nas escolas. Em alguns casos, aprendemos em casa mesmo.
–E quais são as sete que sabe?- Pergunto, cruzando os braços.
–Português, Francês, Italiano, Inglês, Espanhol, Kanky e Oliut.- Ele diz, contando nos dedos.- A do nosso país é Oliut, afinal o país se chama assim. Eu deveria ter aprendidos mais um monte, se Arismir não fosse um...
–Certo, certo.- Respiro fundo.- Recapitulando. O nome do país é como?
–Oliut, por que?- Ele diz.
–Porque parece nome de marca de iogurte.- Digo, mas ele parece não entender. Faz a menção que vai falar, mas suspiro e arranco a pedra de sua mão, o que tira sua atenção e, provavelmente, faz esquecer o que ia dizer.
Embaixo do nome dele, escrevo o meu, com minha letra tão feia quanto a dele, senão pior. Sublinho meu nome e volto meu olhar para Larm.
–Eu disse que essa árvore é minha.- Ele pressiona o indicador sobre o peito.
–Pois eu digo que essa árvore é nossa e pronto.
Ele gira os olhos.
–Vamos logo, eu estou com fome.- Ele diz, mudando de assunto.
Ele me dá as costas e começa a andar rápido. O acompanho, por vezes sendo obrigada a correr.
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