O país secreto.
31 O pingente
Notas iniciais
Dois dias depois da mudança de esconderijo, decidi de vez que era a hora de um banho. Contudo, antes de fazer isso, eu simplesmente fecho os meus olhos e penso por alguns instantes, sentada, impotente, na margem do riacho. Quando disse que viria, Jayssa me repreendeu, é claro. Mas eu sou persistente, acho que isso já ficou obvio até aqui. Ela acabou cedendo, e disse que o lugar mais adequado era um rio que ficava a poucos minutos dali. E eu? Lógico que não concordei. Desviei o caminho para o riacho... O meu riacho.
Estou sentada aqui há pelo menos meia hora...
Senti que precisava refletir, parar um pouco de me lamentar. Isso não vai levar ninguém a nada. Minha mente parece um turbilhão, percebi que faria bem deixar os pensamentos fluírem como a água do riacho, lentamente, e um pouco da minha vontade de vir tomar banho baseava-se nisso. Me aprofundo um pouco mais em minhas lembranças, de um modo a não me fazer chorar, mas sim me motivar e me fortalecer. Fecho os olhos com força, prometendo a mim mesma que, ao menos dessa vez, não deixarei a tristeza me consumir...
Minha mente divaga para uma antiga lembrança... A primeira vez que soube que Vanessa e seus filhos passariam o final de semana na minha casa, juntamente com tia Bel e tio Billy e meus amados primos. Lembro de ver mamãe entusiasmada, com uma lista de atividades preparada para os dois dias que passariam ali. Ela não desgrudava do telefone um só instante, e isso já estava me dando nos nervos. Apesar dos meus nove anos, era bem... Revoltadinha? Acho que sim. Hellena diria que revoltadinha não é a palavra certa, e sim chorona.
–Mããããe!- Reclamei.- Por que eles tem que vir? Justo os detestáveis metidos a bonitões!
Minha mãe girou os olhos, colocando o telefone no gancho novamente e suspirando em seguida. Olhou ligeiramente para baixo para me localizar.
–Se você continuar com esse comportamento, passará seu fim de semana no quarto.
Bufei, cruzando os braços e olhando para a única coisa na minha frente: a barriga da minha mãe.
–Fala sério, mãe.- Fiz bico.- O Júnior é um porre. A Amélia tem uma cara de nojo que parece até que chupou limão. E o Liam me odeia! Eu juro, mãe, que quando entro naquela escola, posso esperar qualquer coisa vinda desses três.
O telefone tocou, e o barulho me fez rangir os dentes. Minha mãe alternou olhares entre mim e o objeto berrante, contudo optou por atendê-lo. Irritada, saí da sala a passos pesados e subi cada degrau da escada como se estivesse marchando.
Dou um sorrisinho ao me lembrar disso. Eu costumava ser uma garotinha cheia de vontades e mimos também. E hoje, o que tenho afinal? Praticamente nada. E isso não me revolta. O que me deixa de cabelo em pé, é o fato de meus primos e Will estarem sequestrados. Não me importo de ter que dormir em um chão duro e frio, de destripar animais nojentos e em seguida comê-los. Nem mesmo ligo para o fato de correr riscos o tempo todo... Parece que me adaptei rápido.
Lembrando-me de Amélia, lembro também do colar que ela me presenteou. Deslizo a mão pelo decote do meu surrado vestidinho roxo e apanho-o. Tãp bonito... O material dourado sugere que tenha sido feito com puro ouro. E por que não? Sua mãe tinha dinheiro para comprar a lua para a menina. E aquele lustroso pingente de coração... Mas por que para mim? Justo eu que adorava ridicularizá-la. Que abominava ela, e ela sabia bem. Por que presentear alguém que te julgou a vida toda?
Abro o fecho do pingente cuidadosamente e, dentro do coração, encontro duas pequenas fotos...
Sinto que meus olhos começam a arder, então engulo em seco para reprimir as lágrimas, e encaro as duas fotos, sorrindo.
Na primeira, Amélia sorri animadamente, com os olhos verdes brilhando. Seus cabelos, naturalmente lisos, dessa vez estavam arrumados com vários cachos belamente produzidos, e o vestido era daquele tipo princesinha da corte. Ao seu lado, nada mais, nada menos, do que eu. Só que bem menos alegre. Estava vestida com uma blusa preta justa, um boné que pertencia ao meu irmão Will, e olhava de lado para a metida. Meus cabelos, enormes, lisos e castanhos, continuavam do mesmo jeito, e de maquiagem, nada além de um brilho labial.
Quando essa foto foi tirada, Amélia completava quinze anos.
Eu estava conversando com Will, Dianna e Stive sobre o quanto festas temáticas são ridículas, quando minha mãe me arrastou pelo braço.
–Que foi, mãe?- Perguntei, um pouco confusa.
–Todos já tiraram fotos com a aniversariante. Sua vez.- Sorriu.
Bufei e gritei para Will jogar o boné. Ele o fez, por pouco não atingindo minha mãe, e coloquei-o na cabeça a fim de esconder minha cabeleira esfiapada.
Parei ao lado de Amélia e disse um rápido oi. Sem nem mesmo sorrir, aguardei a foto ser tirada e voltei o quanto antes para meu grupinho.
Passo o dedo pela foto, pensando no quanto um dia tão comum agora faz tanta falta. Fito a segunda foto, na qual está todos os atores da peça de teatro da escola. Sim, eu estava ali, abaixada e sorridente, com a minha fantasia de camponesa. De pé, no lado esquerdo da foto, encontrava-se Amélia e, ao lado dela, Hellena. No lado direito, eu ainda localizei Dianna e Chris...
Uma coisa me intriga. Por que Amélia andava com aquilo pendurado no pescoço? Será que ela gostava mesmo da gente? Será que se importava mesmo?
–Oi- Uma voz me sobressalta.
Viro-me para trás imediatamente e encontro Larm, parado ali, olhando-me com curiosidade. Fecho o pingente rapidamente e passo a mão no rosto para secar quaisquer vestígios de lágrimas.
–Desculpa interromper seu momento.- Continua.- É que senti que precisava de um banho.
Rio da melhor forma que consigo, tirando o colar do meu pescoço e colocando-o na grama seca.
–Bem, acho que eu também.
Ele hesita, me fitando meio de lado.
–Eu não mordo.- Brinco.- Não vou te matar afogado.
–Na verdade, eu não me importaria se você me mordesse.
Coro ligeiramente e trato de pular na água de uma vez, para que ele não note esse detalhe. Submerjo e fico assim até me faltar o ar. Afasto a água dos meus olhos e o encaro. O que mais me incomoda é o tamanho do seu sorriso, quase que satisfeito.
–Vem cá- Convido, incerta de mim mesma.- E pare de me olhar com essa cara.
–Você é besta- Conclui.- Se acha que vou confiar em você.
–Ridículo.- Gargalho.
Larm vem correndo ao mesmo que tirando a camisa e a jogando no chão ao lado do meu colar e, com um salto mortal, cai no riacho, fazendo tudo balançar ao meu redor. Com esse movimento, bebo um pouco d'água involuntariamente e ponho-me a tossir, em meio a risadas.
Sua cabeça emerge da água e ele a sacode para secar um pouco dos cabelos, rindo também.
–Eu costumava vir aqui sozinho, sabe?- Diz. Ele fica ainda mais bonito molhado, com as gotículas de água grudadas ao seu rosto bronzeado e os cabelos pingando.
–Você costumava me deixar aqui sozinha.- Dou-lhe um empurrãozinho e ele joga água no meu rosto de brincadeira.
–É estranho tomar banho com outras pessoas...- Ele fala, ainda com aquele sorriso encantador.
Passo a mão nos cabelos para afastá-los do rosto.
–Eu que o diga.- Mergulho e nado para a margem, onde me seguro. Ele me segue, parando ao meu lado.
–Vai dizer o que via quando eu cheguei?- Pergunta.
Encaro a outra margem do riacho, meio que lembrando daquelas fotos e de tudo que passara até aqui. Estar com Larm quase que anula todos os meus pensamentos negativos, porém eu ainda sinto um vazio enorme no meu coração. Aquelas fotos, das quais eu nem me lembrava mais, me deixaram ainda mais triste, ou feliz, dependendo do ângulo em que olhar.
–Se eu te dissesse, você não entenderia.- Encaro-o.
Ele ergue uma sobrancelha, mordendo o lábio inferior. Céus, espero que ele não volte a fazer isso.
–Está me chamando de burro?
–Não, Larm, não é isso.- Pego uma madeixa do meu cabelo curtinho e castanho e foco minha atenção nela.- Você não sabe o que são fotografias, nem conheceu a irmã do Liam...
–Liam- Ecoa, virando-se para frente e olhando para o outro lado.
–A irmã dele, Amélia.- Explico, temendo que o tom que usara fosse uma espécie de ciúmes.- Ela me deu um colar, com duas fotografiazinhas.
–Você tem razão.- Suspira.- Eu não sei o que é isso.
Rio, saindo do riacho e sentando-me na margem.
–Eu já vou indo, viu?
–Certo.- Ele mergulha.
Prendo o fôlego ao vê-lo nadar até o outro lado e apanho meu colar, prendendo-o sozinha em meu pescoço. O que sinto quando estou com Larm? Eu não sei explicar. Uma espécie de inquietação, um acelerar involuntário no meu coração, um frio na barriga... Eu não posso me apaixonar por ele. Não posso me dar a esse luxo. Se for recíproco, ele poderá sofrer com a minha morte quase certa.
Espere, Emma, no que você está pensando?
Sacudo a cabeça bem no momento em que Larm aparece mais uma vez.
–Que foi, meu amor?- Ele pergunta, divertido.- Tem algum buzz te incomodando? Vai ficar aí parada olhando para mim?
–Cala a boca!- Gargalho.
Me viro antes que diga algo errado, e suspiro para esquecer todos os pensamentos que ameaçam invadir minha mente.
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