O país secreto.

14 Minha conversa com Hellena.


Notas iniciais
Gente, perdão por não postar sempre, é que agora que as aulas voltaram, e eu sou uma simples estudante de quinze anos do primeiro ano do ensino médio, as coisas se complicam. Meu período de postagem é bem curto, já que estudo a tarde e devo dedicar-me aos estudos o máximo que puder.

Sentada no chão da sala e olhando para a parede, relembro todos os fatos estranhos que ocorreram até então. Primeiro, minha mãe me diz que Vanessa e seus filhos viriam para minha casa, como se estivesse prevendo a aventura que seriamos forçados a viver. Segundo, Dianna começa a me dizer sobre pressentimentos estranhos que vinha tendo. Terceiro, meu irmão idiota sugere que saiamos de casa no meio da noite. Quarto, revejo a casa onde fiquei misteriosamente trancada, anos atrás e Stive decide adentrá-la, mesmo sabendo do perigo. Quinto, uma bola de luz nos puxa para seu interior, e desmaio por horas, e quando acordo estou num lugar desconhecido. Sexto, um velho me diz que sou, supostamente, uma princesa, neta de um rei, e que tenho poderes mágicos. Sétimo, descubro que sou capaz de pegar fogo. Oitavo, conheço um garoto que não sabe o próprio nome.

Sou arrancada de meus pensamentos quando Hellena se joga ao meu lado.

–Legal, você pega fogo e eu congelo.- Ela diz. Acho que descobriu seu dom.- Birc me bateu no meu sonho, ele me sacolejou forçando-me a descobrir meu poder.

–E doeu?- Pergunto, olhando-a.

–Claro que não- Ela gira os olhos.- Foi só um sonho.

Balanço a cabeça e olho novamente para a parede.

–Porque você está molhada?- Ela diz, apoiando a mão na minha roupa.- Esteve no lago?

–Estive.- Digo.

–Sozinha?- Ela se surpreende.

Assinto.

–E por que está com essa cara de mosca morta?- Ela pergunta e olho-a diretamente nos olhos.- No que está pensando?

–Não sei.- Dou de ombros.- Acho que em tudo. E em nada.

–Como?- Ela pisca.

–Hoje eu conheci alguém. E pelo que parece, alguém sem identidade.- Digo.

–Como assim? Não tem nome?

–Acho que mora na floresta.- Digo.

Nesse instante, Stive aparece segurando a barriga. Está tão verde quanto os cabelos de Birc, e parece assustado.

–Que houve?- Pergunto, estudando-o.

–Meu sonho foi nojento.- Ele faz uma careta.- Eu vomitei em Birc. Pensei que não ia acabar mais. E o pior é que nem mesmo pude descobrir meu dom.

Tento não rir, e Hellena parece fazer o mesmo.

–Não é tão engraçado quando se vê ao vivo.- Ele retruca, enjoado.

–Quem ainda está lá?- Pergunto.

–Acho que só o Will. A Dianna foi para o quarto dela.- Informa Stive.

–E você deveria fazer o mesmo.- Ri Hellena.

Ele balança a cabeça e sai dali, com a mão ainda sobre a barriga, na altura do estômago.

–Você sabe que temos poucos dias aqui nessa casa, não sabe?- Hellena diz, retomando o tom sério.

–Acho que sim.- Digo.

–Muito em breve teremos que partir.- Ela diz.- Talvez até morramos no caminho.

Assinto. Hellena, embora seja apenas uma criança de doze anos, muitas vezes nos surpreende com sua inteligência e realismo. É como se fosse a mais velha de todos, embora seu rostinho angelical dissesse o contrário. Sua determinação, confiança e seu jeito rebelde de ser, admira a muitos de nós, pois ela não se importa com o que dizem os outros. Ela ignora a qualquer um que a compare com a irmã gêmea, ela faz e diz o que quiser, na hora que quiser, sem se preocupar com as consequências. Imagino o quanto sua mãe deve ter ralhado com ela quando a mesma fez mechas azuis no cabelo. Ou como seu pai briga com ela, quando ela decide usar roupas pretas e curtas. Mas eu a admiro muito, por ser ela mesma. Será que eu sou eu mesma? Será que faço coisas para agradar aos outros, ou para agradar a mim? Sempre a menina correta, com cabelos castanho e lisos, que nem ouso repicar como gostaria, ou mesmo pintar. Sempre com pouca maquiagem para que os outros não falem mal de mim. Eu tenho quinze anos, deveria agir como quero. Mas não ajo.

–Se morrermos, quero que saiba que gosto muito de você.- Digo.

Ela pisca, um pouco confusa. Etão sorri.

–Eu também.- Ela diz.

–Me desculpe.- Digo com um nó na garganta.- Por ter deixado sua irmã ir para... aquele negócio.

Me refiro à bola de luz. Sabe, agora percebo que isso estava entalado na minha garganta até agora. Ela tenta não chorar, e passa a mão no meu cabelo. Seus olhos estão marejados.

–Você não teve culpa.- Ela diz com a voz apertada.- Foram os idiotas dos seus irmãos.

Era disso que estava tentando me convencer. Mas vejo que quanto mais tento pensar dessa forma, mas a culpa pesa em meus ombros. Não é culpa minha, de fato. Mas sinto como se fosse. Sinto algo descer pela minha bochecha, e sei que não é a água do lago. É uma lágrima, que desceu antes que pudesse segurá-la.

Hellena me abraça, ignorando o fato de eu estar molhada.

–Eu sinto falta dela.- Ouço ela murmurar.

–Que lindo!- Will entrara na sala e agora está nos aplaudindo. Passo a mão no rosto para secar as lágrimas, e Hellena faz o mesmo.

–Some daqui, garoto!- Hellena se levanta, vai até ele e o esmurra. Ela está chorando.- Foi sua culpa. Unicamente sua! Minha irmã pode estar morta por causa de você!

Ela tira a sandália com agilidade e aponta para ele.

–Se não sumir daqui agora, eu faço você engolir essa sandália!- Ela berra.

Agora não há mais lágrimas em seus olhos, mas seu rosto está com uma expressão zangada. Will olha dela para a sandália, e depois novamente para ela.

–Eu só...- Ele tenta dizer.

–Você só coisa nenhuma!- Ela bate no braço dele com a sandália.- Dá o fora daqui, anda!

–Mas...

–Isso é uma ordem.- Ela diz com a voz mais controlada, mas ainda com a sandália apontada na direção do rosto do meu irmão.

Isso vem acontecendo frequentemente. Quero dizer, as brigas. Desde que chegamos aqui, Will e Hellena não podem se encontrar, sem que acabe em ela dando umas porradas nele. Eu, particularmente, acho hilário, mas Dianna não gosta. Hellena já tentou bater em Stive também, mas ele tem dezoito anos, de modo que umas pancadas de uma garotinha não doí nem um pouco.

Depois que Will sai, Hellena me olha e lança-me um sorriso contido.

–Seu irmão é um otário, sabia?- Ela diz.- Na verdade, seus dois irmãos são.

Assinto, sorrindo.

–Acho que também vou tomar um banho.- Ela diz. Quando vou discordar e dizer que ela não deve ir sozinha, ela me interrompe.- Não vou para lá sozinha, porque não sou louca como você. Vou chamar a Dianna.

Balanço a cabeça e continuo ali, pensando em não sei o quê.

Notas finais
Beijos, obrigado por ter lido, e se houver erros em minha escrita, me alertem para que eu possa consertar ;)