Notas iniciais
Se preparem, bebezões. Faltam exatamente 3 capitulos além deste para concluir a história :'(

"Quando eu era pequena, sonhava em visitar um outro mundo. Sempre, em minhas fantasias, eu era uma rainha, e tudo girava em torno de mim... Hoje percebo o quanto fui tola em desejar algo assim. Responsabilidade e luto são duas coisas com as quais eu jamais conseguirei lidar. Ter uma coroa de ouro, vestidos caros e um castelo não compensam toda a dor que eu sinto hoje, e que sentirei pelo resto da minha vida...

Aperto a caneta-tinteiro entre os dedos, pressionado-a no pedaço de pergaminho como se quisesse furá-lo. Algumas lágrimas respingam, manchando as palavras recém-escritas.

"... Algumas vezes, eu penso se não seria melhor se eu estivesse morta. Sem meu irmão, sem Annabely e sem Luize, as coisas parecem não fazer sentido. Eu tenho sido forte durante toda a viagem, mas agora, que estou em segurança e me preparando para me tornar uma rainha de verdade, sinto como se estivesse a um passo de desistir. Suicídio... É, talvez essa seja uma carta de despedida, e talvez eu a deixe sobre o travesseiro enquanto acabo com a minha vida. Para ser bem franca, a única coisa que me impede de fazer isso é a ciência de que os outros ficariam arrasados. E meu irmão, Will, já sofrera bastante...

Deixo o pergaminho de lado, pegando um outro.

"... Eu não seria cruel a esse ponto. Três dias se passaram desde a guerra, e desde a morte de Annabely. No começo, foi difícil para todos nós acreditarmos que tudo finalmente havia acabado, e levamos um dia todinho nos recuperando. No segundo dia, um memorial foi feito em homenagem a todos os mortos, tanto em batalha, quanto antes disso. Fizeram um cemitério atrás do castelo, e eu passei a tarde inteira olhando para a lápide de Stive. Nem mesmo percebi a hora em que adormeci, mas quando acordei, Larm estava lá. Ele ficou comigo, e cuidou de mim, e quando tornei a dormir, foi ele quem velou meu sono. Doquo mandara construir mais três tronos, já que na sala do trono já haviam cinco. Mesmo que apenas cinco de nós tivéssimos sobrevivido, ele assegurou que os outros não deveriam ser ignorados. Cada trono ganhou uma decoração especial, correspondente ao dom de cada um de nós. O de Annabely ficava ao meu lado, coberto de heras e florezinhas. No terceiro dia, os preparativos para a festa de coroação começaram a ser feitos, e nós, os sobreviventes, nos refugiamos nos nossos quartos absorvendo a dura realidade. Hoje, o quarto dia, é em fim o dia em que seremos coroa...

– Buh.

Me sobressalto, interrompendo a escrita na mesma hora. Meus olhos estão marejados, mas ver Larm parado na porta, usando um terno risca de giz e com as mãos nos bolsos dianteiros das calças me faz sorrir. Eu ainda não me adaptei a vê-lo todos os dias de banho tomado e roupas chiques, portanto fico feliz que ele tenha conservado o cabelo bagunçado e a barba.

– Posso entrar?

Escorrego da cama, deixando meus pergaminhos e minha caneta sobre ela. Meu vestido longo perolado quase me faz levar um tombo, porém eu me equilibro bem a tempo. Eu, que detesto penteados, vestidos longos e muita maquiagem, estou me sentindo uma palhaça. Meu cabelo dividido em dois coques pequenos, com o restante solto sobre a nuca, e o decote enorme do vestido só me fazem sentir desconfortável. Seco apressadamente o rosto riscado de lágrimas, torcendo para não ter borrado a maquiagem.

– Você deveria estar ajudando Myafa com as flores — Digo.

Larm pigarreia, rindo. Ele entra no quarto com seu gingado característico, e lhe dou as costas, com a desculpa de me olhar no espelho enorme com moldura dourada.

– Que rude, Meu Amor — Larm coloca as mãos em meus ombros, o que envia uma onda de arrepios pelo meu corpo. Seu rosto, pelo espelho, está tranquilo e divertido. — Eu só queria ver como você está. — Ele encosta o nariz no meu cabelo, aspirando o cheiro doce dos "xampus" daqui desse mundo. — Agora que olho para você, de banho tomado e com esse vestido... Percebo que eu estou mesmo doidinho por você.

Sinto meu rosto enrubescer, e o empurro para trás, saindo dali e indo para a outra extremidade do quarto. Larm se vira lentamente, com um sorrisinho sarcástico.

– A Ruivinha Nervosinha mandou eu te avisar que Hellena está te esperando no cemitério — Ele diz. — Melhor você ir logo. A cerimônia de coroação começa daqui a uns instantes.

Acompanho-o com o olhar enquanto ele caminha para a porta e, quanto está para sair, eu ofego.

– Larm.

Ele estaca. Do mesmo jeito, de costas, com um pé do lado de fora e o outro ainda no quarto. Vou até ele, parando bem atrás e olhando para suas costas. Outra vez, a vontade de chorar faz meus olhos pinicarem, mas há uma coisa que eu tenho que dizer a Larm e não posso adiar.

– Larm. — Repito. — Obrigada. — Fecho os olhos com força. — Quando eu vim para Oliut acidentalmente e passei a morar na casa de Arismir, eu só pensava na minha família o tempo inteiro, e a cada dia, a dor ia me consumindo por dentro. Eu estava arrasada, deprimida, e não acreditava que voltaria a ser feliz outra vez. Mas aí eu vi você, naquele lago. Você era a única coisa bonita nesse mundo feio. Você, Larm. O cara que não queria dizer seu nome. O cara que morava no meio do mato. O cara que não dormia ao relento, porque não era idiota. E o cara que, acima de tudo, tinha o talento de me fazer sorrir, quando eu queria mesmo é chorar. — Encosto as mãos em suas costas tensas. Larm respira compassadamente, mas não se move. — Foi quando eu te conheci, Homem da Harpa, que eu soube que uma flor pode nascer em um deserto. Você foi a luz no fim do túneo. O... Obrigada. Eu te amo, e te amarei pelo resto da minha...

Ele se vira, já me abraçando, e quando eu menos espero, me beija. Pensando melhor, para que eu me suicidaria? Se eu tenho Larm, eu tenho esperança. Tenho pelo que lutar, e lutarei até onde puder. Enquanto eu tiver Larm perto de mim, me beijando, me cuidando, me amando, a vida vale a pena.

Durante o beijo, ele solta uma risada, e eu o encaro, intrigada.

– Você é tão bobinha, Meu Amor — Ele sorri torto, enquanto seus olhos normais se abrem devagar. — Sou eu quem devo te agradecer, você não acha? Eu, que fui a criança mais infeliz, o adolescente mais problemático e o adulto mais deprimido do mundo. Obrigado, Meu Amor. Obrigado por ser uma chata o tempo inteiro.

Empurro-o para longe, de brincadeira.

– Seu estúpido! — Gargalho. — Chata é seu...

Ele coloca o dedo nos meus lábios para me silenciar.

– Shhh — Faz. — Está ouvindo?

Apuro minha audição, mas não capto nenhum som além do da minha própria respiração.

– Não ouço nada.

Larm abre outro sorriso enorme.

– Exatamente. — Diz. — Percebe como é agradável o som do silêncio?

Reviro os olhos, mas Larm não está nem aí para isso.

– Vá ver a Gelinho. Ela deve estar cansada de te esperar.

Assinto, só conseguindo pensar no quanto Larm é especial para mim. Cada vez que ele sorri, eu sinto que sou capaz de qualquer coisa... Eu o amo verdadeiramente; agora e sempre.

Notas finais
O último capitulo totalmente Larma da história ;-;