Notas iniciais
Ai meu coração...

TRÊS ANOS DEPOIS

Aos poucos, vi que era melhor me contentar com o que havia acontecido ao invés de inventar mentiras para mim mesma. Não que não tenha sofrido — na verdade, foi muito mais do que eu deixava transparecer — mas tinha que me manter firme, para não deprimir minha mãe, ou Myafa. Meu pai morreu de depressão no ano seguinte ao meu retorno; era muito próximo aos dois filhos e perdê-los de uma vez só, fez crescer uma tristeza tão profunda em seu peito, que logo se transformou em depressão. Após sua morte, mamãe piorou ainda mais, se é que possível. Já eu, guardava minhas lágrimas para as noites, onde eu podia escancarar a janela da sala e soluçar despreocupada, pois nenhum dos meus dois irmãos viria me interromper. Quanto ao sol, eu não sentia mais prazer em vê-lo despontar no céu cinzento da madrugada. Ao contrário disso, dormia até quase o meio dia. Sei lá; acho que a realidade dos sonhos é bem mais bonita do que a vida em si.

Agora, as coisas têm ficado menos tensas. Larm está sempre escondido nos cantos mais inimagináveis e toca à penumbra aquela melodia de seis notas, que poderiam fazer até os homens mais durões cederem aos seus encantos; eu, pessoalmente, amo essa canção. E a pequenina Anna Luize não fica muito atrás — quando o som doce e calmo invade-lhe os ouvidos, a menina de apenas dois anos, põe-se a andar em sua direção, chacoalhando os bracinhos gorduchos e abrindo e fechando as mão, como quem pega algo invisível. Myafa cai na gargalhada ao vê-la tropeçando nos próprios pés e enche os olhos prateados de lágrimas ao observá-la se aproximar de Larm e interromper sua canção com um abraço repentino. Ele, inicialmente, se assustava com a reação da garotinha. Mas, agora, simplesmente ama quando ela faz isso; Larm não é acostumado com demonstração de afeto. E quando viu a menininha de cabelos verdes esvoaçantes e olhos amendoados chamá-lo de tio pela primeira vez, ele adotou uma expressão surpresa... Aquela que pouco usa. Nos aproximamos bastante nesses anos, principalmente depois de ele me pedir oficialmente em namoro, em uma tarde de almoço, após meu aniversário dezessete anos. Avisou que logo viria a data mais especial, o casamento, mas por ora estava de bom tamanho.

Hellena tem me escrevido, sempre que pode. Fico muito grata por poder ler aquelas palavras e, de algum modo, tê-la mais perto de mim. Dianna, por outro lado, vem me visitar sempre que dá. Talvez para ela isso seja uma tarefa mais fácil, por morar mais perto. Hellena também nos visita sempre que consegue, porém em raras ocasiões. Contudo, para mim, só o prazer de vê-las já vale muito a pena. Armamos uma espécie de jogo, que condizia em não chorar ou relembrar de nada o que ocorreu enquanto estávamos em Oliut. Não falar das perdas é um alívio enorme para mim. Todavia, é bem improvável que não abordemos algum assunto que envolva qualquer um dos falecidos... E aí as lágrimas, as quais tentávamos reprimir, acabam descendo discretamente e sem o nosso concentimento. Pronto: jogo arruinado.

Fora isso, as visitas de ambas me inundam de alegria, me fazem sentir um pouco melhor. Liam, que voltara de Oliut um ano após eu vir, também montara seu próprio jogo. Um diferente, e mais depressivo. Eu nunca pensei em Liam como um cara de sentimentos, e ele está disposto a provar o contrário. Decidiu ir à minha casa todas as sextas-feiras, ao meio dia, sem falta e nem atrasos, e estender-me um buquê de flores. Margaridas. São sempre margaridas.

De princípio, eu me senti desconfortável em aceitar as flores; suspeitava que pudesse ser algum tipo de cantada, ou coisas do tipo. Mas todos e cada um daqueles buquês vêm com um bilhete. Pequeno e quase imperceptível no meio de tantas flores; mas eles estão sempre ali. Cada bilhete vem com o nome de um dos meus primos ou do meu irmão, mortos na guerra, ou antes disso. E, sob seus nomes escritos de caneta esferográfica preta, há a seguinte frase: "Estaremos de eterno luto". Nos primeiros dias, eu chorei. Coloquei um dos buquês endereçados à Stive ao lado de minha cama e, quanto aos outros, organizei todos em uma estufa velha que há em nosso jardim. Há muito não usamos mais aquela estufa. Entretanto, veio bem a calhar.

A adaptação de Myafa foi a coisa mais complicada. Ela não entendia nada sobre equipamentos eletrônicos e passou noites em claro com medo do ar-condicionado. Sem contar outras esquisitices, como apagar e acender as luzes freneticamente, e gargalhar por isso, ou fechar a geladeira lentamente para ver a luz interna apagar. Brincar com o congelador, enfiando as mãos nuas dentro dele e arrancando algumas lascas de gelo; ficar horas olhando para o ventilador de teto, tentando imitá-lo com a cabeça até ficar tonta. No entanto, houve coisas com as quais ela não se deu muito bem. Na primeira noite, ela veio até mim exausta e perguntou onde ficava o lago, pois ela precisava de um banho urgente.

— Desculpe, Myafa, não temos um lago. — Informei.

Sua expressão foi de espanto imediato.

— Como assim, não têm lago? — Perguntou, com um fio de voz.

— Não, linda, não temos.- Ri.- Mas pode usar o chuveiro, se quiser.

— Chuveiro. — Ecoou, assentindo. — Sim, eu posso usar o chuveiro. O que é mesmo um chuveiro?

Revirei os olhos, sorrindo.

— Olhe, o banheiro fica depois da cozinha, em um corredor logo ali na frente. — Indiquei. — Vá até lá, abra a porta e vai encontrar uma pia, um vaso sanitário, um armário de cosméticos, loções, sabonetes, xampus... E um chuveiro. O chuveiro vai ser aquele negócio branco e alto que tem furinhos. Abaixo dele, você vai encontrar um registro... Tipo... Hm... Uma parada redonda e prateada. Você gira ele. Pronto.

— Gira o registro? — Franziu as sobrancelhas. — No que isso vai me ajudar a tomar banho?

Suspirei, alegre pela descontração.

— Faz o que eu disse, O.K.? Depois você me conta.

E ela se foi, rumo à um dos banheiros da casa. Eu não esperava que ela se saísse muito bem em sua primeira visita à um banheiro descente. Talvez se encantasse com a forma que a água caía daqueles pequenos furinhos, ou se surpreendesse ao apertar a descarga do vaso sanitário. Só que foi muito mais que isso. Myafa simplesmente veio correndo na minha direção, enrolada em uma toalha laranja e arfando, com o topo da cabeça molhada.

— Emma! — Gritou esganiçada. — Aquilo... Como aquilo...

— Myafa, fique tranquila... — A segurei pelos ombros.

— O seu banheiro queria me atacar! — Replicou. Ri, pois aquilo soava realmente muito estranho. — Tinha um monte de registos e de todos os lugares vazava água! Emma, o seu banheiro vai inundar desse jeito.

— Myafa... Isso...

— E eu não terminei. — Cortou. — Caiu água de cima. Como que cai água de cima? A menos que seja do céu, isso é impossível. E por que sua privada inundou quando eu apertei um botão? Não era pra apertar? Ai papaizinho, eu fiz merda, não foi?- Apertou as bochechas.

— Myafa, acalme-se. — Falei, com a voz mansa. — É assim mesmo, assim que funciona. Não precisa ficar preocupada, é só ligar o registro do chuveiro, entrar de baixo dele e tomar seu banho. Fácil.

— Tem certeza? — Perguntou, me estudando.

— Claro, pode confiar.

E lá se foi ela mais uma vez.

— Ah, e Myafa? — Chamei. Ela se virou e esperou que eu dissesse algo. — O xampu é o frasco rosa, você passa no cabelo e esfrega até espumar. Mantenha os olhos fechados, por favor. Depois que você enxaguar, passe no cabelo um pouco do conteúdo do frasco amarelo, que é o condicionador. E enxague.

Ela murmurou algumas coisas em uma língua que eu desconheço e foi para o banheiro.

Até que não se saiu muito mal para quem nunca havia tomado um banho normal.

Ao passar dos meses, e anos, ela foi se acostumando. Hoje, nem se nota que ela é uma maluca que nunca viu um chuveiro na vida.

O mais gratificante, sem dúvidas, foi ver a barriga de Myafa crescendo. Nessa época, a nova mamãe ficou muito emotiva e sensível. Tínhamos que tomar cuidado com tudo o que dizíamos, ou ela caía em prantos. E, no dia 21 de novembro, a pequenina nasceu, em casa mesmo. Ao vê-la pela primeira vez, já me apaixonei. Tem os olhos de meu irmão; os meus olhos. Os cabelos verdes como os da mãe e é tão bonita quanto. Havíamos passado muito tempo pensando em nomes, e ainda não sabíamos qual. Minha mãe segurou-a cuidadosamente entre os braços e pediu que entrássemos.

— Ainda não temos um nome. — Avisou, balançando-a levemente.

Todos os olhares estavam sobre a pequenina.

— Podia chamar de Myafa... Zinha — Começou Larm.

— Não, isso soa ridículo. — Discordou minha mãe.

— Ou Natália. — Sugeri, lançando um olhar à Myafa, que fez uma careta. — Ou não...

— Que isso — Suponho que isso foi uma descordância da parte dela.

— Pode ser Beatriz, também, se quiser. — Disse mamãe humildemente.

— Acho que eu a chamaria de algo mais simbólico. — Disse Myafa, com a voz cansada — Como uma homenagem. Quais netas de Doquo morreram na guerra mesmo?

Olhei para meus próprios pés descalços.

— Luize e Annabely.

— Então está decidido. — Disse ela. — Minha filha e de Stive se chamará Anna Luize.

Sorri, grata. Eu nunca duvidei do sentimentalismo de Myafa. Sei que posso contar com ela para o que for, e foi muita bondade da parte dela batizar minha primeira sobrinha com o nome de minhas duas primas mortas.

Com o tempo, a garotinha provou que é mesmo uma Bouringor. Ela, com apenas um ano, era uma grande fujona. Ela realmente esgota Myafa, e eu faço o possível para ajudar. Quando Myafa vai trocar sua fralda, a neném sai correndo pelada pela casa, com uma rapidez admirável, e é preciso cercá-la para que não vá muito longe.

Anna Luize foi uma espécie de distração de tudo o que estávamos passando.

Agora, três anos depois, eu publiquei um livro intitulado "O País Secreto", e que relata todas as minhas aventuras em Oliut. O livro até hoje tem sido um sucesso, não apenas no mundo onde vivo, como também em Liberty, Hope e Oliut. Por mais que eu saiba que esses países existem, pelo menos o mundo dos "sem-dom" acredita que é apenas uma história para crianças...

Hoje eu acordei para lembrar. Lembrar de tudo o que foi ruim, de tudo o que foi bom, de tudo o que foi engraçado. Meu quarto costumava ficar vazio, e agora, a nova mamãe de cabelos verdes, decidiu se mudar para ele. Sentada em minha cama, eu apenas observo-a dormir. Nossa, o quanto devo à essa mulher! Ela salvou meu irmão, salvou Hellena, salvou Larm, e, como se não bastasse, me trouxe algo para me lembrar de Stive para sempre. Todo o apoio que tenho lhe dado, não é nada perto do que ela já fez por nossa família.

Jogo os cobertores para o lado e encosto os pés nus no chão frio. Por um instante, fecho os olhos com força, imaginando meus irmãos adentrando o quarto e me jogando travesseiros, como costumavam fazer. Sei que nunca mais isso acontecerá. Que minha vida tomou um rumo completamente diferente. Sem meu pai, sem meus irmãos... Um pedaço de mim foi arrancado. E o que sobrou? Uma garota solitária e triste.

Abaixo-me de joelhos e olho sob a cama. Sim, ela permanece ali. Uma caixinha pequena, porém muito significativa, onde eu guardo tudo o que é lembranças dos meus tempos felizes. Sento-me novamente na cama, colocando o objeto no colo e estudando-o. Antes de abrí-la, prometo à mim mesma que não vou chorar, que não vou deixar os muros de tranquilidade que eu erguera com muita dificuldade, desmoronar novamente. E então, abro-a.

Coisas velhas repousam ali. Pego entre os dedos o colar de Amélia, que eu guardara há muito.

Amélia. Só o pensamento já me faz sentir mal. Porque eu a julguei errado, a desprezei, sem parar para pensar em tudo o que ela sofrera. E o pior é que nunca poderei dizer-lhe que me arrependo.

Guardo o objeto novamente e pago um laço vermelho, muito antigo. Me lembro quando o ganhei. Foi um presente de Annabely.

Ela usava aquilo quase sempre, até os nove anos. Então, em uma visita à minha casa, ela retirou-o de seu cabelo e pôs no meu. Eu quis saber o porquê do presente, mas ela retrucou: "Que foi? Não posso te dar presentes mais não?"

Passo a mão no rosto, para ter certeza de que não há lágrimas e, nesse instante, Anna Luize entra no quarto.

— Tia — Fala.

Estico os braços para ela e ela caminha até mim, desengonçada. Afasto a caixa para a cama, pegando a menina no colo.

— Tia — Repete. — Fala pro tio Larm tocar. Eu quero ouvir ele tocar.

— Ah, Anna... — Suspiro, prendendo no seu cabelo encaracolado o laço de Annabely. — Você tem o nome dela. Então... Nada mais justo.

— O quê? — Ela agarra meu rosto com suas mãozinhas gorduchas, inclinando a cabeça de um jeito fofo. — O quê, tia? O quê?

— Nada, pequena. — Digo, sorrindo — Você vai ter tempo para descobrir.

E é nesse instante que percebo: A história não terminou. Ela acabou de começar.

FIM!

Notas finais
É muito ruim dizer "adeus" :( A próxima história a sair é Missão Secreta, que se passa em Liberty, o mundo comandado pelo Will :)