O país secreto.
36 Adeus, porão
Notas iniciais
Os dias seguintes foram os mais alegres desde que cheguei. Mas, até aqui, já deu para ficar bem claro: felicidade é algo temporário para um Bouringor. Enquanto eu estava naquele porão, treinando e lutando, amando e sendo amada, sorrindo e sendo retribuída... Nossa, minha vida estava linda!
Não... É claro que não.
Como poderia estar perfeita? Que egoísmo, o meu. Não deveria pensar assim nunca, quando meu irmão, meus primos, estão todos sendo torturados ou mortos. Eu não superei; me adaptei. Se deixar a dor me consumir, só vou morrer mais rápido. E, naqueles dias, mais que nunca, eu estava contente e feliz. Larm e eu escapávamos para ver as estrelas e a lua, juntinhos, confessando as coisas mais loucas que já havíamos feito, ou os pensamentos mais obscuros de nossas mentes.
Em uma dessas noites, o céu estava escuro e de poucas estrelas. A lua se escondia atrás de uma nuvem monstruosa e cinzenta. Larm me abraçou e descancei sobre seu ombro.
Havíamos fugido para longe de todos, nos acomodávamos na margem úmida do rio mais próximo. Ele apontou para a nuvem e disse:
– Aquele é Arismir. A lua ali atrás sou eu.
Separei-me dele, para ver seu rosto.
– Por quê?
Ele voltou aqueles olhos escuros perfeitamente normais para mim.
– Ele quer ofuscar meu brilho.
E riu. Depois de lhe dar um tapinha brincalhão e gargalhar alto, voltei ao aconchego de seu abraço.
Não sei por quanto tempo ficamos ali, nem lembro o que mais foi dito. Só o que ouvi, além de sua respiração e o correr das águas, foi um farfalhar. Um farfalhar bem atrás de nós.
Quando o som se fez ouvir, Larm e eu tomamos a mesma iniciativa: olhamos para o lugar de onde vinha. Não havia nada e nem ninguém. Pensamos sobre isso por horas, antes de nos convencermos de que se tratava de algum bichinho arisco.
Hoje, pensando melhor, não acho que era.
Outro fator muito estranho ocorrido entre os quatro dias que permanecemos no porão, após o despertar de Dianna, foi a conversa que eu tive com ela. Dianna se recuperara bem, mas ainda parecia divagar. Eu me sentei ao seu lado, no chão frio e imundo do porão, e tentei ser gentil.
– Oi, Didi — Sussurrei. — Está um pouco frio. Não quer que eu faça uma fogueira?
– Não, por favor, não — Ela segurou os joelhos junto ao peito, apoiando a cabeça neles. — Eu não gosto de fogueiras.
Franzi o cenho. Como assim? Será que eu tinha ficado tempo demais afastada dela e acabei esquecendo o seu jeito de agir? Dianna não rejeitava uma gentileza, nunca, não falava assim e, aliás, adorava fogueiras. Abanei a cabeça, percebendo que poderia ser o trauma. Estaria Drafe a ameaçando com fogo? Muito improvável. Giroy me garantira que ele não tocaria em um fio de cabelo sequer de Dianna.
– Você está abatida. — Observei, afastando os volumosos cabelos castanhos de seu rosto e depositando-os atrás de uma de suas orelhas pontudas. Ao realizar o movimento, percebi uma coisa: o brinco dourado de cruz. O presente que havia ganhado de sua mãe certa vez. Ele simplesmente não estava mais lá. — Oh, Dianna... — Murmurei. — Você perdeu o seu brinquinho...
Instintivamente, a mão dela foi a orelha e apalpou onde deveria estar o objeto. Sua face se inundou de desapontamento.
– Nossa. Ele sempre me trouxe tanta sorte...
– Eu sei. — Olhei para frente uns segundos, para ter certeza se deveria perguntar o que estava prestes. — Didi... Sobre Drafe... Como foi o tempo que passou com ele?
Seus olhos castanhos brilharam bastante e tremeluziram. Por um tempo, cheguei a pensar que haviam se tornado cinzas e, em seguida, retomado a cor usual. Depois, só me convenci de que era uma ilusão, uma coisa inventada pela minha mente. Sua boca parecia uma linha sem expressão, as sobrancelhas desceram um pouco, quando ela disse:
– Uma merda.
Ergui as sobrancelhas instantaneamente.
– Drafe é ridículo. Acha que algum dia eu vou gostar dele. — E bufou. — Fala sério.
– Você está tão diferente.
– E você, tão linda! — Afagou-me os cabelos. — Sempre gostei desses cabelos curtos assim. Dá um ar jovial, realça seu rostinho...
Dianna se levantou e saiu do porão, murmurando o quanto sempre amou meus cabelos curtos. No começo, me senti muito grata pelo elogio. Porém, passados os minutos, percebi uma verdade inevitável:
Dianna nunca vira meu cabelo curto antes.
Agora, quatro dias depois de ela ter acordado, e no dia em que finalmente deixamos o porão para rumar ao castelo, estudo cada perímetro de Dianna. Há duas possibilidades: Ou está traumatizada, ou louca. Estamos caminhando há meia hora e ainda tento decidir entre as duas coisas.
Em um de meus devaneios, Larm me dá um peteleco no ombro.
– Pensando em quê?
– Nada — Sacudo a cabeça. — Só no quanto a Dianna está estranha.
– Sério? — Ele arqueia uma sobrancelha, diminuindo os passos para me acompanhar. — Não esqueça que ela é sua parente.
– E eu com isso?
Demmie abre espaço entre nós dois, mordiscando uma fruta e diz:
– Larga de ser lerda, ele te chamou de estranha.
Depois une-se aos outros, mais adiante.
– Hey, obrigado, Ruivinha! — Ele grita, pondo as mãos em concha dos lados da boca, e voltando-se para mim em seguida. — Ela é demais.
– Eu ouvi isso, bonitão! — Ri Demmie, na frente da fila.
– E eu também. — Jogo-o para o lado e ele não tenta voltar. Vai para perto de Stive e Liam, pegando a espada da mão de meu irmão e fazendo uns golpes no ar.
Hellena ocupa o lugar de Larm, ao meu lado, e faz cara de quem entendeu tudo. Se eu conheço bem a prima que tenho, ela não descansará enquanto eu não contar a ela o que está acontecendo entre Larm e eu. Hellena me dá uma cotovelada e sorri torto.
– E aí?
– E aí o quê?
– Nada — Dá de ombros. — Você e o harpeiro são apenas amigos.
Olho-a, boquiaberta. Seus olhos são extremamente grandes naquele rosto oval, e os lábios parecem insistir em ficar roxos. Vedir dissera que seria bom Hellena e eu levarmos alguma arma, como todos os outros, porém, ambas recusamos prontamente. Ainda posso escutar a voz de Hellena na minha cabeça: "Ah, fala sério queridinho. Se eu posso fazer qualquer coisa virar uma pedra de gelo, pra que vou querer essa geringonça?"
– Sim, Hellena Maria Bouringor Fidalgo. Só amigos.
Seus ombros caem e ela me fuzila com os olhos normais.
– Poxa, cara — Diz, seca. — Podia ter omitido o "Maria".
Percebendo que a driblei, sorrio, triunfal.
– Vou te chamar de Mariazinha agora, perfeito?
– Vai se...
– Ei! Ei-ei-ei! — É vedir. Ele pára ao lado da geladinha e posso perceber que são praticamente do mesmo tamanho. Ele a vence em poucos centímetros. — Olha a boca, Majestade.
– Majestade? — Hellena olha dele para mim. — Gostei dessa.
E a caminhada segue. Tento não pensar mais em Dianna, e não dizer nada sobre seu comportamento no porão e a mudança esquisita em seus olhos. Me distraio contando os passos e conversando com um e outro. O único momento em que é inevitável pensar em todo o conjunto de problema, é quando finalmente paramos para acampar, ao anoitecer. Ninguém é obrigado a ficar de vigia, uma vez que Vedir criara uma de suas paredes invisíveis indispensáveis em volta de todos, contudo eu ainda preciso ficar de olhos abertos. Não estou triste, nem com raiva... Na verdade, para ser franca, não sei o que sinto. É uma sensação perturbadora de cansaço. Não um cansaço físico. Um cansaço emocional. Olho para o pingente e o abro, fitando a segunda foto. Mesmo à penumbra, posso localizar Dianna sorrindo no cantinho. Sua fantasia de índia comporta um cabelo dividido em duas tranças, a blusa curta marrom exibindo a barriga, e a saia retalhada... Aquela era Dianna. Essa menina que surgira em seu lugar não chega nem perto.
Olho para trás e tento sorrir.
Ao menos ela está viva. Ou quase, dependendo do ponto de vista.
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