O passado oculto de Suzuya
2 Primeiro dia letivo
Notas iniciais
Matriculei-me em um colégio distante do local onde estava morando, então logo cedo resolvi me aprontar, apesar de não achar que eu estivesse preparada tanto fisicamente quanto psicologicamente. Ao chegar me espantei com a quantia de pessoas, e suas vestimentas, tão bem uniformizados, e eu com minha calça jeans, meu moletom magenta, e meus cabelos castanhos quase pretos cortados uniformemente em degradê e presos por uma presilha.
Sabia que teria que me apresentar perante a classe, porém tudo que conseguia pensar era no acontecimento da tarde anterior. O professor indiciou que eu era uma aluna transferida e pediu que os outros alunos fossem gentis comigo devido a situação pela qual estava passando e então levantei-me de minha carteira e pronunciei:
—Meu nome é Suzuya Shizuko me transferi de uma escola em Kyoto para cá, devido alguns motivos, entre eles o falecimento de meu pai, espero que possamos todos ser bons amigos durante os próximos bimestres.
Um garoto ergueu a mão e me fez a seguinte pergunta:
—Ei, é verdade que seu pai foi assassinado por alguém da máfia?
Apenas me mantive em silêncio e me direcionei de volta para meu lugar, era improvável que tal boato se espalhara, afinal ainda era meu primeiro dia naquela escola, embora eu tenha chegado em pleno mês de Maio. Depois que aquele garoto fizera tal pergunta foi irritantemente impossível ficar em silêncio, a todo instante alguém viera até mim, questionando-me sobre a morte de meu pai, de fato não sabia exatamente quem havia tomado sua vida, ele se envolvera com algumas pessoas ruins, talvez isso tenha ocasionado sua morte, ele morreu em meus braços e enquanto chorava me lamuriando quase decido por ir atrás do assassino, que com um tiro o tirou de mim, minha única família não mais existia, somente a tristeza emergira em meus pensamentos, novamente a vontade de ficar aos prantos me atingira.
Uma garota muito fofa chamada Alice estava tentando me ajudar com o conteúdo que havia perdido, embora eu fosse boa em várias matérias, a álgebra era minha maior complicação, ela me entregou um caderno xerocado com as anotações de tudo que já havia sido aprendido durante o bimestre passado. A expressão dela era encantadoramente delicada, -com seus cabelos castanhos cor de mel cortados em um formato chanel, seus olhos castanhos quase negros com longos cílios, e sua feição passiva/ meiga se somadas a sua estatura baixa a tornavam extremamente fofa- depois de observa-la por alguns segundos, agradeci, e assim passamos o restante da aula.
Ao final do dia optei por convida-la para ir até minha humilde residência, ao chegarmos apresentei a cabana e uma parte do local. Logo então me apressei a preparar um chá com algumas folhas de Hydrangea macrophylla (hortênsia) pelo fato de ser uma planta comum no Japão ela havia crescido em grande quantia no canteiro de flores ao lado norte da cabana.
Conversamos muito, contei todo o caminho que trilhara até aquele momento, falei sobre a morte de meu pai com as seguintes palavras:
— Meu pai morrera a exatos 12 meses, ele foi brutalmente assassinado logo após meu aniversário de 15 anos, devo dizer que foi a pior forma de se “comemorar” um aniversário, naquele momento fui capaz de ver e sentir a alma de meu pai se esvair aos poucos de seu corpo.
Com uma expressão doce e comovida ela tornou a dizer:
— Meus pêsames, mas você não possui mais nenhum parente? Digo além de seu falecido pai.
— Bem, eu tenho a Nora minha irmã, mas não a considero mais como uma Shizuko...
Naquele momento havia decidido contar sobre minha irmã Nora Shizuko e o real motivo pra ter me mudado de moradia.
— Nossa, mas o que ela fez para ser tão desmerecida?
— Ela começou a mudar drasticamente, se tornou violenta, grosseira e ignorante o suficiente ao ponto de me machucar, nunca fomos muito próximas, ela sempre se envolveu em problemas, só que em pouco tempo ela adquiriu “poderes ” e esses poderes subiram a cabeça dela, fazendo-a se esquecer do que era importante, antes ela já era forte mas com essa super força se tornara imbatível, se não fosse por meus próprios poderes talvez eu nem fosse capaz de estar aqui neste lugar.
— Poderes? Que tipo de poder você tem? – indagou Alice com extrema curiosidade– Pode me mostrar estes poderes?
— Primeiramente possuo certa habilidade pra fazer premonições o que me possibilita ver e me comunicar com seres que não somos capazes de compreender, e em segundo meus poderes de cura que adquiri com o passar do tempo, mas ainda não os aperfeiçoei, este lugar, por exemplo, é repleto de espíritos e almas corrompidas que se prontificam a espreitar e esperar por uma vítima que possam atacar.
Saímos da cabana e fomos até a floresta onde aparecera o garoto misterioso, reconheço que eu queria somente uma desculpa, porque desejava cada vez mais entrar na floresta, aquele garoto me despertara tamanho interesse e pensava que talvez pudesse vê-lo novamente. Foi então que a raposa com tons translúcidos de azul reapareceu, e nos empenhamos em segui-la. Quando nos demos conta a raposa havia desaparecido e havíamos ido a um lugar com um ar diferente, contaminado, já era noite, minha visão fora tomada pela escuridão não era mais capaz de ver Alice e ela não respondia meus chamados, até que um grito ecoou pela floresta obscura:
— AAAAAAAAAHHHHHHHHHH!!!
Era a voz de Alice, fui claramente capaz de reconhecer, meu coração começou a palpitar mesmo sem enxergar o que havia a minha frente me pus a correr, mesmo tropeçando continuei a correr, precisava encontra-la, talvez ela estivesse em perigo por minha culpa. Com medo pensei em cantar, afinal isso sempre fora algo que muito me ajudara, me trazia paz e calma ao coração, então com voz tremula, cantei tal canção:
“Olhando pra lua
Sou capaz de notar o porquê das coisas
O porquê de fazer tal coisa tal lazer
Olhando pra lua
Eu posso perceber o porquê
De querer tanto 1 minuto com você
Acho que pra mim tanto faz
Eu só quero me manter em paz
1 minuto da sua atenção
Peço com clemência
Não sei se faz diferença
Toda essa crença
Tanta desavença
Acho que pra mim tanto faz
Eu só quero me manter em paz
Eu tento olhar pra frente
Mas esse peso me leva pra trás
Me tira do caminho
Como se descrevesse um pergaminho
Olhando pra lua
Sou capaz de entender
Se tudo fosse fácil
Se eu pudesse te entender
Seria tão simples que graça teria?
Afinal o mundo é composto de teoria
Pra mim tanto faz,
Eu só quero me manter em paz”
Ao parar de cantar, a raposa reapareceu e como se quisesse me guiar iluminou tudo a minha volta, assustada segui a raposinha e chegamos ao ponto de onde a voz de Alice ecoara, mas para meu espanto... Havia uma espécie de parede invisível nos separando, podia ouvi-la gritar e chorar podia sentir seu coração palpitar, e também podia enxergar a quantia de demônios que ali estavam, ela não podia vê-los, tentei quebrar a barreira mas não consegui. Devia ter assimilado tal risco, afinal Alice era tão inocente, poderia se tornar facilmente uma vítima para aqueles monstros que buscavam saciar uma sede imensa de sangue e negritude.
A raposa me apontou uma falha na barreira, pelo qual Alice poderia tentar escapar, tratei de anunciar:
— Alice, olhe pra sua esquerda, existe uma fenda pela qual pode sair deste pesadelo, basta que tome controle sobre sua mente, antes que estes demônios bastardos te devorem!
Ela sem conseguir me ver fez um barulho como quem dira “posso tentar” e assim tomada pela preocupação me pus a esperar, afinal aquela era uma batalha na qual eu não poderia intervir.
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