O paraíso de Ana
2 O menino da escadaria
Notas iniciais
A cavalgada fora rápida, logo as árvores deram espaço para uma construção que Ana jamais imaginaria ter visto em sua vida, uma enorme estrutura circular feita de mármore e granito se fundia entre a vegetação daquele lugar.
Grossas e escuras colunas se misturavam com as paredes de tons diversos como se alguém pegasse o um balde com tinta e jogasse nas paredes. Porém o que mais chamou a atenção da pequena Ana fora o teto de vidro que refletia os resquícios do sol que se escondia entre as árvores no horizonte. O que quer que fosse aquilo, Ana poderia admira-lo por um dia inteiro se possível.
Os cavalos pararam em frente à construção, uma escadaria de pedras lambuzadas por várias cores de tinta levava para uma porta de vidro, contudo a escadaria estava repleta de pessoas algumas subiam correndo enquanto outras desciam e outras estavam ali sentadas com olhares distantes, pensando sabe lá o que. Finalmente Ana notara as pessoas ao seu redor, desde que a construção entrara em seu campo de visão, tudo a sua volta parecia apenas um borrão.
– Que lugar é esse? – Perguntou Ana ao descer do cavalo.
– O Gran Teatro. – Respondeu Madame Matriarca com um tom esnobe e tentando transbordar elegância. – É aqui que acontecerá a festa.
– Gran Teatro. – Falou Ana baixinho enquanto entupia seu olhar mais uma vez com a beleza da construção.
– É incrível. Não é? – Soou uma voz grave próximo a escadaria.
Um garoto magricela, porém extremamente alto. Com cabelos parecendo um monte de arame farpado embolados, seu rosto transpunha da mesma magreza do corpo, porém isso parecia o deixar mais belo. Seu nariz era um tanto grande comparado com as outras partes do seu rosto, lábios fino e olhos que parecia sempre estar semicerrados.
– Todos aqui são incríveis. – Disse Madame Matriarca se inflando seu pequeno ego.
– Realmente, — Respondeu o garoto -, pena que o ego de alguns não seja tanto assim.
Ana não pode deixar de ri dos olhos furiosos de Madame Matriarca para o garoto, parecia que o jovem havia acertado em cheio em um ponto vital.
– Enfim vou ajudar nos detalhes para a festa. – Falou a mulher com palavras flamejantes de raiva.
– Não ligue algumas pessoas não tem amor próprio. – Falou o garoto para Ana com um sorriso acolhedor. – Alias, me chamo Oliver.
– Não estou me importando com isso, na verdade, nem sei como estou aqui. Apenas, estou me deixando levar. – Respondeu Ana com tristeza em suas palavras.
– Estar perdido é normal por aqui, contudo, uma vez li em um livro que quando você não sabe para onde ir qualquer caminho serve. – Ana sorriu em resposta, ela sentia segura mesmo sem saber de nada.
– Mas, você não tem curiosidade de saber como veio parar aqui? – Perguntou ela tentando ficar seria perante o sorriso de Oliver.
– Curiosidade todos temos, mas existe coisas que, as vezes, é melhor ficar nas sombras do mistério. – Respondeu ele com pesar, como se aquilo o incomodasse muito.
Uma musica sutil começou soar, era longe julgou Ana, contudo era agradável para seus ouvidos. Algumas pessoas começaram a dançar, algumas envergonhadas com passos tímidos e discretos, mas outras pareciam ter saído de um circo, davam piruetas, viravam cambalhotas e esbanjavam um sorriso contagiante de uma alegria infantil.
– Sente-se ao meu lado e aprecie, assim como alvorada lunar, o início dessa festa. – Falou Oliver lançando seus sorrisos encantadores para Ana apenas agiu.
– Que festa é essa? – Perguntou Ana encarando todos ali que pareciam crianças em corpos grandes demais para uma alma tão jovem.
– Uma festa, o que mais seria? Um momento para sermos quem somos. Nós divertirmos e nos iludirmos com nossa liberdade. – A resposta de Oliver fez Ana esboçar um sorriso, ela gostava da sensação de liberdade.
– Por que você não está se divertindo? – Perguntou a ela ao encontrar o olhar do garoto.
– Quem disse que não estou me divertindo. Não preciso dançar ou sair correndo por ai nu para me sentir feliz, eu só preciso sentir. – Oliver encarou a multidão ao terminar de falar, ele respirou fundo, enchendo muito seus pulmões e então, soltou o ar calmamente, relaxando todo o corpo.
– Sentir o que? – Perguntou Ana.
– Sentir a energia desses sorrisos transbordando, isso que me deixa feliz, é isso que me acalma em um mundo tão caótico.
Ana refletiu sobre o que Oliver havia respondido. Fazia tempo que ela não sentir a pureza de um sorriso tão natural, tão verdadeiro. A última vez que ela havia visto tal sorriso foi quando seu namorado havia pedido sua mão. Seu namorado, por algum motivo ela não conseguia lembrar-se de seu rosto, mesmo que se esforçasse a imagem do rosto dele não passava de um borrão, porém ela se lembrava do seu sorriso, clamo e sincero, às vezes, ele não precisava falar nada apenas sorrir que Ana sabia exatamente o que ele queria dizer. O que tinha acontecido como ele? Por que as lembranças relacionadas a eles estavam tão foscas? Contudo, seu coração sabia que amava alguém.
– O que foi? – Perguntou Oliver ao seu lado preocupado ao estudar a expressão.
– Existe uma pessoa que amo, mas não sei mais quem ela é. – Falou Ana deixando uma lágrima escorrer pelo seu rosto. Uma sensação de vazio começava a brotar em seu peito.
–Você sabe que o ama? – Perguntou Oliver atraindo o olhar dela.
– Dói o meu peito, só pensar que não sei mais quem é ele, na verdade não sei mais o que está acontecendo. – Respondeu Ana.
– Se você não sabe procure, busque é para isso que foi dado a inteligência, o mundo é um livro enorme esperando para ser lido, contudo ele sempre irá cobrar um preço e espera que você esteja disposta a aceitar esse preço. – Oliver deslizou sua mão pelos cachos revoltados de Ana enquanto ela digeria o que ele havia dito. – E se você realmente o ama ele estará ai no meio da multidão, aproveitando a festa. – Ana sabia que ele falava isso para conforta-la, mas acendeu algo dentro dela, um pequeno e fino fio de esperança. – Tenha fé, pois como dizem por aí, ela é capaz de mover montanhas.
O sorriso de Oliver se tornou ainda mais cativante, mas sereno. Ana sorriu com tanta vontade, ela sentia a esperança, de alguma forma, crescer dentro dela. Para ela agora parecia que conhecia Oliver há tanto tempo que poderia chegar a dizer que ambos estudaram no fundamental juntos, brincaram na rua ou contasse uma história louca de uma brincadeira que não deu muito certo.
– Obrigada- Disse ela com extrema suavidade.
– Agora vá lá procura o que deseja qualquer coisa eu estarei aqui te observando sempre. – Ele deu um beijo na testa de Ana e riu ao ver ela corada. – Vai! – Oliver encorajou Ana, antes de ela levantar e se misturar na multidão.
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