O parar do relógio
1 Véspera de natal
Notas iniciais
Nico já tinha tampado aquele maldito relógio com uma fita negra para não ver as horas que faltavam para encontrar a pessoa que era destinado, mas isso não o impediu de decorar quanto tempo faltava e saber exatamente a hora que o encontro aconteceria, mesmo com o pulso coberto ele ainda contava os minutos ao encarar qualquer outro relógio da casa.
- Maldição!- murmurou ao olhar para o relógio do computador. Trinta horas. O garoto suspirou ao se debruçar sobre o teclado e ficou observando o chat do fórum que participava ir mudando.
Su: “Faltam só algumas horas para mim!”
Lu: “Como será a pessoa?”
LV: “Tenho preferência por mulheres, espero que seja uma bem gostosa!”
Lu: “Nojento!”
Su: “Você tem que pensar que será o amor da sua vida, não se vai ser gostosa!”
LV: “O amor é meu e eu digo que vou gostar mais dela se for uma mulher peituda e loira! Vlw, Flw!”
Nico começou a rir daquela conversa. Ele não conhecia nenhuma daquelas pessoas, os nomes eram todos fakes ou simplesmente bateram a mão no teclado e ficou por aquilo mesmo, por isso ele nem os lia, só observava os diálogos.
SM: “Eu só espero que a pessoa seja feliz ao meu lado...”
PM “Onnnwwwt *--*”
AC: “ Falta quanto para você seu fofo?”
SM: “Prefiro não dizer... há chance de ser um de vocês, e não quero estragar a surpresa ou ficar mais ansioso.”
Su: “Ai meu deus, eu vou te morder!”
LV: “Você é uma loira alta e gostosa?”
AC: “Cala a boca”
PM: “Cala a boca”
Su: “Cala a boca”
Lu: “Cala a boca”
CL “Cala a boca”
LV: “Ahahahaha ,não... é ou não é gostosa?”
SM: “Desculpe cara, mas acho que não sou loira e gostosa...”
LV: “Uma pena, uma pena... Pra mim faltam trinta e três horas em gatinhas B|”
AC: “Aff...”
Nico negou com a cabeça e olhou o relógio mais uma vez. Vinte e nove horas. Ele deu de ombros e começou a digitar.
AdN: “ O tempo custa a passar, não...?”
AC: “Nem me diga...”
PM: “Sabe gente, o lado bom é que será em pleno natal!”
Su: “Imagina se você encontrar a pessoa bem em baixo do visgo! *--*”
LV: “ Que gay...”
SM: “Achei clichê...”
AdN: “ Achei gay e clichê...”
PM: “ Já sabemos que tem três meninos na conversa então... ¬¬”
Nico riu novamente e encarou a janela. A neve caia vagarosamente e se depositava no parapeito, seu quarto estava em uma temperatura confortável pelo aquecedor, mas ele podia imaginar a temperatura do gelo em suas mãos e a sensação dele se derreter, ele já podia imaginar a si mesmo ao lado de outra pessoa no dia seguinte em meio a aquele véu branco que caia devagar. Ele olhou para o relógio do computador novamente, Vinte e oito horas e quarenta minutos. Ele deu de ombros e voltou a acompanhar a conversa.
AM: “Eu só sei que eu estou assustado! Fala serio gente, o que eu vou fazer quando ver a pessoa? Sou lerdo pra tudo, vou acabar nem percebendo quando o relógio parar e nem vou saber quem é o meu destino!”
AdN: “Eles dizem que a gente sente certo arrepio quando ele para...”
AM: “Isso não ajuda... se eu estiver entretido com algo não vou perceber...”
SM: “Que a sorte esteja ao seu favor então e a pessoa não seja lerda igual você...”
AC: “Tenho dó dessa pessoa...”
LV: “Só sei que eu vou comer muito e ficar sempre na cola das mulheres bonitas, ai tem mais chance de ser uma delas!”
SM: “Não acho que isso vá funcionar...”
LV: “ Shiiiii.... me deixa sonhar Sr.fofoso.”
- Nico!- gritou alguém do lado de fora do quarto. Nico minimizou a aba e abriu uma nova no Google. – Querido, você já escolheu sua roupa para amanhã? – perguntou sua mãe ao entrar no quarto com um sorriso doce. – Você sabe que passaremos na praça esse ano, o prefeito Dionísio dará um banquete para todo o bairro e você deve usar sua melhor roupa! – Nico se levantou da mesa com as mãos tremendo por ter quase sido pego e foi ate o armário.
- Eu vou com o sobre tudo que o papai me deu e com a blusa vermelha que comprei com Bia ontem... — disse forçando a voz a parecer calma, a mãe o observou e estreitou os olhos.
- A calça e os sapatos?...- Nico suspirou.
- Calça inteira, sem nenhum rasgado e botas. – disse cansado, a mãe continuou a encará-lo e ele enfiou as mãos no armário tirando o par de botas que sua irmã o havia comprado junto a blusa.
- Ótimo! Você vai ficar lindo! – disse a mulher acenando com a cabeça e Nico jogou o calçado na cama junto ao resto da roupa que usaria na festa. – Desculpe forçar você a usar roupas mais... hum... convencionais Nico...- o garoto revirou os olhos sabendo que ela estava era gostando muito de o forçar a parecer “normal” pelo menos uma vez durante o ano. – Mas temos que causar boa impressão! Seu relógio pode não parar por alguns anos, mas quem sabe podemos chamar a atenção de uma garota ate lá? – Nico deu de ombros.
- Quem sabe...- balbuciou fechando o armário.
- Sabe Nico...- começou a mulher e Nico caminhou ate a mesa do computador já prevendo o discurso. – Você sabe que eu tive outros namorados ate conhecer seu pai, que ele era amigo de um antigo namorado meu quando nossos relógios pararam... – ela riu feliz ao se lembrar. – Lembro que Zeus não ficou feliz ao perceber o que aconteceu, mas não da para evitar quando essas coisas acontecem... – ela olhou para a cara de tédio do filho e se recompôs pigarreando. – O que eu quero dizer é...
- Que eu devo tentar um relacionamento mesmo sabendo que não vai durar para sempre? – Nico bufou. – Temos idéias diferente. Eu não consigo fazer isso. De que vai adiantar eu dedicar tempo e carinho a uma pessoa que eu sei que vai me deixar ou que eu vou instantaneamente parar de gostar algum dia? – Maria tocou o próprio rosto intrigada quanto à maneira de pensar do filho.
A maioria dos meninos ia adorar a ideia de sair por ai e ter o maior número de experiências ate encontrar o seu destino e ser preso a ele, mas Nico não. Nico queria pertencer totalmente a pessoa a qual é destinada e somente a ela, queria que a pessoa fosse seu passado, presente e futuro. Uma ideia extremamente romântica, porem triste. Algumas pessoas de azar só encontram seu destino na velhice ou em situações que as impedem de ficarem juntas e serem felizes. Maria temia que seus filhos tivessem tal futuro, porem sua preocupação com Nico era maior que por Bianca ou Hazel, suas filhas haviam concordado em tentar com alguém que não fosse seu destinado se um dia acontecer de gostar de outra pessoa, mas Nico se recusava veemente.
-Você sabe que eu só quero seu bem não é querido? – disse a mulher calmamente e Nico a olhou nos olhos.
- Eu sei mamma, mas eu agradeceria se você deixasse eu escolher como quero viver minha vida quanto a isso... – Maria sorriu sem graça e se abraçou.
-Você sabe Nico, quando você e Bianca nasceram, eu e seu pai nos prometemos não nos meter quanto à hora de vocês encontrarem seus destinos. Por isso pedimos aos enfermeiros para tamparem seus relógios para que nós não víssemos quando aconteceria e mantemos aquelas bandagens em vocês ate que tivessem condições de escolher nos mostrar ou não... – a mulher virou o rosto para a parede lateral do quarto do garoto onde varias fotos da família e amigos estavam penduradas. – Bianca escolheu deixar seu relógio a vista, mas se recusa a fazer as contas... eu escolhi não fazer também, mas sei a numeração... mas você Nico... — o garoto desviou o rosto para a tela por alguns segundos, a barra do chat piscava exigindo atenção, mas ele voltou a olhar a mãe. — Você nunca deixou ninguém ver seu relógio, você mesmo o tampa... Como saberá quando a hora chegar? Penso que você vai querer conversar sobre antes de isso acontecer... Saber como é... Não precisa ter medo de ver e achar que esta muito longe... Achar que vai estar velho de mais... – Nico se virou para a tela do computador e escondeu o rosto nas mãos.
Ele não havia contado. Não queria dizer que estava a poucas horas de distancia de seu destino. Ele tinha medo de sua família ficar em cima, não dar espaço a ele e querer ficar atrás para poder ver o momento exato que ele achasse a pessoa que dividiria o resto da vida. Seria constrangedor de mais. Fora o fato que viriam as “conversas”... Nico sentia vergonha só de imaginar como seria a cena. E ainda tinham as variantes... e se fosse um cara? Se fosse uma garota estranha? Se fosse bem mais velha? Se fosse mais nova? – ele já viu acontecer de um cara ter o relógio parado ao conhecer a filha recém nascida de uma amiga, foi um escândalo. Ele não queria passar por nenhum momento constrangedor – mais que o esperado e normal — ou preocupação... Ele só queria ter esse momento para ele. Sentir sozinho o peito se encher e ser preenchido.
Desde que reparou que seu relógio tinha menos números que o da maioria dos adolescentes ele escondia e o tampava de toda a forma. Não queria que as pessoas o olhassem com expectativa e vivessem o cercando para, se tivessem sorte, presenciarem o momento mágico que as almas gêmeas e encontrassem. Nico tinha consciência que ter o relógio parado ainda na adolescência era considerada uma dádiva, que maioria das pessoas só encontram seus destinos já adultas, e isso tornava a coisa morna. Por isso eles estimavam os amantes que se encontravam na adolescência, com tantos hormônios a flor da pele, tantas mudanças, energia, liberdade e descoberta... era uma coisa almejada por muitos viver um amor adolescente, e se não, ao menos presenciar um. Nico não queria ser o programa favorito de sua família e conhecidos.
- Se estiver com medo ou ter desistido de encontrar seu destino... — tentou a mãe mais uma vez, Nico se controlava para não pedir que ela saísse do quarto e o deixasse sozinho. Ele sabia que ela só estava tentando ajudar e sua recusa em aceitar os conselhos ou mostrar o relógio só a fazia ficar com mais medo de que sua numeração estivesse muito distante. Apesar de essa ser a sua intenção, tinha esses momentos de efeito colateral, momentos em que ele pensava seriamente se valia a pena esconder e ser obrigado a ouvir, mas isso o fazia lembrar que a situação seria pior e ele receberia dez vezes mais atenção e conselhos caso ela soubesse a verdade, então agüentava a falação calado.
– Nico... – continuou. — Saiba que todos tem uma alma gêmea em algum lugar, uma pessoa por quem se apaixonar e que sentirá prazer em viver a vida ao lado e compartilhar tudo que tem de corpo e alma... Você não é diferente de ninguém, então não perca as esperanças... O que tem de ser seu será, não importa o tempo que demorar, a distancia que estiverem um do outro... As almas sempre se encontram. – a mulher respirou fundo ao perceber a falta de interesse que o filho demonstrava por suas palavras, ele continuava com o rosto escondido nas mãos e virado para a tela do computador. – Eu amo você querido...- disse segurando a maçaneta da porta se preparando para sair.
- Eu sei mãe... Eu sei de tudo isso...- ela o olhou novamente, Nico agora encarava o chão virado para ela. – Eu sei que você só quer meu melhor e teme por mim e tal... Mas eu já sei disso tudo... Não precisa repetir tanto... Eu não estou com medo de demorar a achar a pessoa, não tenho medo de dividir as coisas com meu destino...
- Eu sei que posso ser chata com isso Nico... Mas não posso evitar, sou mãe... mães se preocupam assim...- disse tombando um pouco a cabeça e sentindo alivio em saber que ele, mesmo não demonstrando se interessar, a ouviu.
- E eu sou seu filho de quinze anos, e eu, definitivamente, não estou com medo ou interessado nisso agora!- disse sorrindo ao levantar o rosto, a mãe riu. – Mas agradeço por se preocupar...
- Tudo bem então!- disse ela se endireitando. – Vou te deixar sozinho com seus amigos virtuais e chatear Bianca e Hazel. – Ele riu quando ela mandou um beijo a ele ao sair do quarto gritando pelas filhas e fechando a porta.
Nico respirou aliviado e se largou na cadeira ao abrir a aba do chat.
SM: “Sabe o que é o por de tudo nisso? A expectativa da família! Francamente, eu devia ter escondido essa desgraça de relógio assim que percebi!”
PM: “Você esta caindo no meu conceito SM, achei que era um cara fofo ¬¬”
SM: “E eu sou, mas no momento estou ligado no modo ‘ mãe, sai do meu quarto e para de falar de como conheceu meu pai, porra’. Me deixe reclamar PM!”
AC: “Pobre menino... falando nisso... nesse chat tem só adolescente?”
AM: “Eu tenho 17”
SM: “16”
AC: “17”
PM:”16”
LV: “16”
AdN: “15 ‘—‘... serio que sou o mais novo?”
SM: “aahahhahahaha um BB entre nós! Achei que tinha saído AdN!”
Adn: “Cala a boca! E você não é o único com problemas com a mãe quanto ao maldito relógio.”
Su: “19”
Lu: “25... Me sinto velha...”
AM: “Relaxa tia!”
LV: “Me amarro em mulheres mais velhas em!”
Lu: “Dispenso LV.”
Nico negou com a cabeça feliz por ter encontrado aquele fórum ao acaso. Nem sabia direito como havia entrado ali, mas agora sentia como se um peso tivesse sido tirado de suas costas, não era o único a passar por aquilo, outros adolescentes estavam tão nervosos quanto ele e tão frustrados e revoltados quanto nos mesmos aspectos. Era reconfortante.
SM: “Falando serio agora... eu estou ansioso para saber como é a pessoa... o que devo fazer quando encontrá-la?”
PM: “A beije!”
AM: “Diga ‘Amor, por muito tempo te esperei (8)’ ahahah”
LV: “Eu vou logo lascar um beijo nela!”
AdN: “Não faça nada disso! Serio, se fosse comigo eu ia morrer de vergonha!”
AM: “Então o que sugere menino envergonhado?”
AdN: “Acho que um ‘olá’ seria ótimo para começar.”
AC: “Simples, mas eficaz!”
PM: “Sem graçaaaaa”
AdN: “Eu prefiro que seja assim.”
SM: “Concordo com você AdN... Eu não tenho a acara de pau de agarrar alguém, e imagina se for uma criança! Ou um cara com o dobro do meu tamanho?!”
AM: “Ai você me avisa por que vai ser hilário filmar sua reação ao ver tais pessoas!”
LV: “Dou RT no comentário do AM!”
Lu: “O importante, SM, é você ser você mesmo. Apenas faça o que o coração mandar, não tenha medo, é a pessoa que esta destinada a ficar com você e te amar, nada que você faça será errado, desde que você faça por si mesmo.”
Nico sorriu para a tela do computador e encarou o relógio.
Vinte e seis horas.
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