O paraíso de Ana
3 O Balançar da vida
Notas iniciais
O céu havia sido devorado pela escuridão, pequenos pontos brilhantes começavam ganhar espaço naquele breu e a leste a alvorada lunar trazia as canduras da noite. Enquanto diante da pequena Ana a festa ganhava ainda mais vida, a música rugia com força, fazendo todos ali dançarem e vibrarem sua alegria entre os olhares.
Havia luzes de múltiplas cores penduras nas árvores, junto com enfeites feitos de panos coloridos, CDs e papel e outras tantas coisas que Ana não conseguia decifrar o que eram. Contudo, algo chamou a sua atenção. Alguns metros a sua frente uma gigantesca fogueira começava a ganhar vida, o fogo começa e consumir a madeira como um animal sedento de fome que gritava a cada mordida insana.
Algumas pessoas esbarravam nela por causa de suas danças sem nexo, ela não podia deixar de rir com toda aquela animação que agora adentrava em cada um de seus poros, seus problemas pareciam tão pequenos, que não podia conter a vontade de dançar, de rir, de simplesmente ser feliz. Sem temer o que irá acontecer no futuro. Isso seria se sentir livre?
— Ei! Dance comigo bela moça? –Falou um rapaz com roupas que mais pareciam ser um pijama.
Ana não conteve o sorriso, ela queria muito dançar, porém não sabia. Seu corpo parecia uma rocha. Sempre fora assim, um desastre nas artes cênicas. Quando tinha oito anos ela tentou participar de um grupo de dança, mas desistiu logo na primeira semana, de tanto que o professor implicou que ela deveria soltar mais o seu corpo e deixar a música guia-la.
— Não posso. – Respondeu ela baixinho.
— Eu insisto! – Disse ele enquanto a reverenciava, mantendo um tom cortes e sedutor ao mesmo tempo.
— É... que eu não... sei dançar. – As palavras tropeçaram na boca de Ana, ela gaguejava enquanto tentava encarar o azul turvo dos olhos do garoto.
— Ninguém aqui sabe. Não estamos aqui para apenas dançarmos, estamos aqui sermos felizes e eu acho que não é preciso saber muito para se ter a felicidade, basta saber ver os detalhes da simplicidade. – Seu olhar penetrou nas profundezas da alma de Ana como um raio, ela se sentiu nua com isso, nem mesmo seu namorado havia consigo tal proeza. Seu namorado? Ela nem sequer lembrava-se de seu rosto, mas sentia o suficiente para saber que ele ainda não havia a tocado tão profundamente, como o garoto estranho a sua frente. – Então, vamos dançar? – Ele refez o convite.
— Mas...
— Não existe “mas”, apenas feche seus olhos. – Falou o garoto. Ana hesitou, contudo por fim obedeceu. – Aliás, meu nome é Davi, — ele sussurrou em seu ouvido, — agora me diga, como você se sente ao ouvir essa música? – A voz de Davi era rouca e sutil, o que deixava Ana arrepiada dos pés a cabeça.
— Não sei explicar o que sinto. – Ela se sentia nervosa, como podia deixar aquilo acontecer, um completo estranho tão próximo.
— Fique calma, relaxe. – A voz dele se afastou um pouco. Ana sentiu as mãos de Davi se fecharem levemente em seus pulsos e conduzir seus braços serem conduzidos e leves movimentos. – Agora solte as pernas levemente e deixe a música possuir seu corpo.
Quando ela se deu conta já estava dançando, claro, seu corpo ainda estava meio regido, porém não como antigamente. Sentia-se leve, conforme o ritmo inundava cada parte do seu corpo, mais amplos eram seus movimentos. Sorrisos não paravam de vir em seu rosto.
— Viu? Você está dançando! – Disse o garoto.
Ana não falou nada, apenas rodopiou por entre a multidão dançante até cair no chão, tonta. Ela não conseguia conter a gargalhada por ter feito algo tão tolo, pois uma adolescente na idade dela jamais faria um ato desse sem estar bêbada.
— O que está acontecendo comigo? – Perguntou para si mesma. – Por que estou fazendo isso? Nem sei que lugar é esse, mas estou aqui dançando, rindo e olhando um céu extremamente belo, sem me importar?
— É pelo motivo de você querer viver e não morrer, que você não se importa. – Respondeu uma voz feminina.
Ana rolou pelo chão ao ver um vulto branco deitado ao seu lado. Era uma menina que parecia usar um vestido de casamento, só que um lençol branco cobria seu rosto e parte do seu vestido, como aquelas crianças no Halloween, quando pegam um lençol branco de suas mamães, fazem dois furos e jogam sobre as cabeças. A menina lembrava isso, só que o seu lençol não havia furos.
— Quem é você? – Perguntou Ana se levantando.
— Eu sou Bethe – Respondeu a menina ao ficar de pé. – E você?
— Ana. – Respondeu na defensiva.
— Você quer balançar comigo? – Perguntou Bethe apontando para um velho carvalho, onde uma tábua presa por cipós balançava com o vento.
— Não sei. – Respondeu Ana com relutância.
— Venha. Não há o que temer. – Disse a menina com uma voz doce e mesmo com o rosto coberto Ana podia sentir um sorriso vindo da menina.
Quando se está perdido, não há outra opção a não ser, em seguir em frente. Esse pensamento está vivo dentro de Ana, ela sabia que ficar ali no meio daquela festa, não lhe traria as respostas que tanto desejava.
A pequena Ana seguiu Bethe o carvalho, suas folhas verdes agora já se misturavam com os mistérios da noite, seu tronco era grosso e robusto, deveria ter centenas de anos pensou Ana.
— Venha. Suba. – Falou Bethe parada de pé em cima do balaço feito de cordas grossas trançadas em algum tipo de trepadeira que seguravam um pedaço de madeira envelhecido. – Fique de frente para mim.
Foi o que Ana fez. Ficou cara a cara com Bethe, encarando seu rosto coberto. Imaginado como seriam seus olhos. Então o balançar começou, gradativamente, ganhando forças ao pouco. Ana ouvia a leve risada de Bethe, o que a vez rir também.
— A festa está cada vez mais viva. – Falou Bethe. Ana olhou sobre o ombro e viu que mais pessoas haviam se juntado.
— Que lugar é esse? – Perguntou Ana ao voltar a encarar o lençol que escondia Bethe.
— Esse é lugar onde tudo converge. Dores. Alegrias. Tristezas. Sonhos. Medos. Esperança. Por isso festamos. – Respondeu Bethe.
— Como assim? – A voz de Ana saiu confusa e assustada.
— Experiências de vida. Esse é o maior motivo para vivermos. O sofrimento que passamos, os momentos de felicidade e de lágrimas derramadas para que no final do tear da vida, evoluirmos. Esse é o motivo dessa festa. – Bethe parecia tão presa aos seus pensamentos. – Compartilharmos essas experiências aqui, pois quando o nosso fim chegar, nossa alma vá além desse universo.
— Mas... – Ana não sabia mais o que falar, as palavras de Bethe pareciam como milhares de agulhas penetrando em seu ouvido. Aquilo não fazia o menor sentindo aos olhos dela, era tão surreal quanto um sonho. Ela queria correr dali, mas seu cérebro estava ocupado demais tentando digerir o que Bethe havia dito. – Isso só pode ser um sonho. – Pensou ela, não haveria outra explicação lógica. – Bethe, como você chegou aqui?
— Eu não me lembro, apenas acordei deitada no bosque com essas roupas. – O tom da voz de Bethe era calmo demais como se aquilo para ela não tivesse nenhuma importância.
— Você não se preocupa em como veio parar aqui? – Ana escolhia muito bem suas palavras, pois o receio do rumo que aquela conversa tomava fazia seu coração quase parar.
— Não tenho motivos para isso, afinal, olhar demais para trás faz você esquecer-se do futuro. — Bethe transmitia uma aura calma e antiga. Uma aura que Ana já vira. – Ana. Apenas viva os momentos e tire deles tudo que você puder, não se prenda as dúvidas.
Ambas pararam o balanço, Ana mantinha a cabeça baixa, estava confusa, porém tinha conseguido uma esperança havia brotado dentro dela, ela tinha que seguir em frente somente assim ela iria descobrir que lugar realmente era aquele, e qual o sentido das coisas ditas por Bethe.
— Não fique pensando nessas coisas, assim você ficara presa. – Disse Bethe descendo do balanço.
— Presa ao que?
— Presa em você mesma, assim sua alma jamais ira evoluir. – A mão de Bethe segurou o queixo de Ana e levantou seu rosto.
— Mas eu não quero evoluir agora, eu não estou morta ou estou? – O medo voltou a se alastrar pelas veias de Ana.
Bethe soltou uma leve risada aconchegante antes de responder.
— Eu não posso responder isso, é você quem tem que me dizer se quer viver ou morrer, pois afinal, a vida é sua, é você que decide isso. Se você quer morrer? Morra. Contudo, se você quer viver? Lute. Somente assim você se sentirá viva para seguir em frente. – A voz de Bethe para tão doce, trazia a paz que contaminou Ana e afugentou as lágrimas que ousaram tentar fugir do rosto juvenil de Ana.
— Obrigada. – Respondeu Ana.
— Não precisa agradecer, é como eu disse, aqui é onde tudo converge. Uma festa para trocarmos nossas experiências de vida, a maior riqueza de estarmos vivos. Bem... – Disse Bethe em um suspiro e indo em direção à aglomeração de pessoas ao redor da fogueira. – Vamos a mais pessoas que devemos conhecer antes de tudo acabe.
Ana viu Bethe se tornar apenas uma silueta na escuridão, antes de voltar a festa também.
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