O paraíso

4 A terceira pessoa


Uma força descomunal atraiu Hawks para o céu azul; não em um voo, mas em uma queda. Suas asas se ataram às costas, os braços se fixaram em suas laterais. Imobilizado, limitou-se a arregalar os olhos e a boca enquanto seu corpo atingia velocidades supersônicas. Um show de luzes e cores se apresentou; o azul-celeste se tornou verde, depois amarelo, depois laranja, depois vermelho, depois tudo se misturou em um branco luminoso.

*

Hawks despertou em uma sala vazia, limitada por um teto baixo e paredes de metal, onde o seu corpo flutuava no ar frio. Olhou ao redor com o cenho franzido. Nenhuma pessoa estava por perto; nenhuma porta lhe oferecia saída. Apreensão se infiltrou em seu peito. Detestava lugares fechados. Havia apenas uma janela, pequena e redonda. Hawks usou movimentos de nado livre para se aproximar. Apoiou-se no vidro gélido e, com o coração pulando uma batida, soltou um palavrão.

Pontinhos incandescentes salpicavam a imensidão escura do espaço sideral.

Uma voz eletrônica encheu a sala:

— Senhoras e senhores passageiros, é com alegria que os recebo para um passeio pelo cosmos. Nesse momento, estamos contemplando o hemisfério celestial sul. Se olharem à sua direita, verão a imponência do Cão Maior. Não se preocupem, ele não morde. — Um conjunto de estrelas brilhou mais forte no tapete do universo. Não se assemelhava a um cão, mas era impressionante o bastante para encobrir esse detalhe. — É realmente magnífico, só lembrem de dar um oi para o Cão Menor. Ele é ciumento. — Um novo grupo de estrelas, menor e mais humilde, cintilou no céu. — Ah, vejam quem se aproxima: a constelação da Fênix! Sua estrela mais brilhante é uma gigante vermelha chamada Alpha Phoenicis. De tirar o fôlego, não?

Hawks concordou com a cabeça, emudecido. A voz continuou a apresentar constelações — Capricórnio, Órion, Escorpião. Depois, trouxe à tona alguns planetas — Saturno, Netuno e a Terra. Em seguida, celebrou a passagem flamejante do cometa Halley.

Sob o brilho da cauda do cometa, Hawks reencontrou sua capacidade de falar.

— Isso é inacreditável.

— Isso é o meu paraíso. — A voz esbanjou satisfação. — Nasci em uma família católica. Quando era pequena, uns oito anos ou nove anos, perguntei para o padre como podíamos ter certeza da existência de Deus. Achei que ele fosse me dar uma longa explicação ou, sei lá, uma bronca por duvidar de Deus, mas ele só sorriu e disse: “Olhe para as estrelas, Saeko-chan. As maravilhas do universo são a prova de que existe um criador detalhista e amoroso.” Não entendi muito bem, mas segui o conselho. Comecei a observar o céu noturno. Estrelas, planetas, cometas... Nunca mais tive dúvidas. O universo é incrível demais para não ser obra de um grande artista.

Hawks apenas aquiesceu. Independentemente de sua posição religiosa — ou falta dela —, o céu espacial tinha um jeito peculiar de impor humildade nos corações humanos. Só gostaria de entender por que aquela vastidão parecia mais sufocante do que a salinha onde estava.

A voz — Saeko-chan — gargalhou.

— Não é um paraíso para qualquer um, é?

— Acho que não. Então... você é a minha terceira pessoa?

— Isso aí! Fujiwara Saeko, ao seu dispor.

Ele buscou na memória algum eco daquele nome. Não encontrou.

— De onde nos conhecemos?

— Bem, não nos conhecemos. Vi você uma vez. Estava de noite, a estrada estava bastante escura. Você ficou parado no acostamento. Tentei falar com você, mas você fugiu. Acho que estava assustado.

Confusão comprimiu as sobrancelhas de Hawks.

— Não me lembro disso.

— É porque faz um tempão. Você era só uma criancinha... e tinha acabado de salvar a minha vida.

*

Fujiwara Saeko tinha catorze anos quando viveu um milagre. Naquela noite, a mãe dela dirigia pela Rota Circular da via expressa de Fukuoka. O rádio oferecia notícias sobre a previsão do tempo enquanto mãe e filha planejavam o que comeriam no jantar. A banalidade do momento se rompeu no segundo em que o motorista de um caminhão perdeu o controle da direção. Em alta velocidade, o veículo invadiu a contramão e avançou sobre dois carros de passeio. Diante da luz dos faróis do caminhão, Saeko só teve tempo de agarrar a barra da blusa da mãe e soltar um grito de terror. Foi quando o milagre aconteceu.

*

— Um anjo! — disse ela aos policiais. — Um anjo nos salvou!

Os policiais olharam para a confusão de ferro e chamas dos três veículos envolvidos na colisão; depois, olharam um para o outro; por fim, olharam para a menina que sorria de orelha a orelha.

— Você está em estado de choque — informou um deles. — Vamos ver os paramédicos, tudo bem?

Saeko deu a mesma declaração para os paramédicos: um anjinho de asas vermelhas e cabelos claros os livrou das garras da morte. Contudo, ninguém além dela testemunhara a aparição angelical. Os demais sobreviventes só relataram o repentino puxão que os arrancou de dentro dos veículos segundos antes da batida. Era impossível negar que algo incrível aconteceu ali, mas um anjo?

*

O que ninguém sabia era que o episódio representava uma convergência de acasos.

– Naquela semana, o motorista do caminhão ficara de licença do trabalho devido a um forte resfriado. Com medo de perder o emprego, dobrou a dosagem dos remédios e se apresentou para o serviço dois dias antes do tempo recomendado pelo médico.

– Naquela tarde, Hawks — então um Keigo de sete anos — usara suas penas para roubar uma carteira pela primeira vez. Em posse de um punhado de dinheiro e um coração cheio de remorso, o menino foi ao mercado comprar comida. Ao retornar para a mãe, pensava em maneiras de compensar suas más atitudes.

– Naquela noite, um homem marcara de encontrar os amigos em um bar. Ansioso para deixar a esposa e o filho em casa, ele dirigiu acima do limite de velocidade e não conseguiu frear quando o caminhão desgovernado surgiu no caminho.

– Naquele grupo de amigos, havia um agente do HPSC que ouvira boatos sobre a presidência buscar novos talentos heroicos. A caminho do bar, recebeu a notícia do acidente e se dirigiu ao local para oferecer ajuda.

– Naquele acidente, de todas as pessoas que poderiam ter visto Hawks no acostamento, a única que o fez foi a menina que acreditava em anjos.

*

Hawks flutuou na gravidade zero enquanto as revelações de Saeko reconstruíam seu passado. Por um lado, sempre se perguntou como a Comissão o conectara ao acidente em alta velocidade. Por outro lado, nunca se importou em procurar a resposta. Saber ou não saber não mudaria os fatos.

— A Comissão me encontrou — disse, o olhar vagando no mar de estrelas. — Eles me compraram. Me treinaram. Me tornaram um herói. Tudo o que sou... ou era... devo à Comissão. E a você.

Uma batida de silêncio encheu a sala.

— É estranho, não é? — disse Saeko. — Perceber como somos formados por coisas pequenas. Se um homem não tivesse tomado tanto xarope, se uma criança não tivesse roubado uma carteira, se amigos não tivessem marcado um encontro, se uma menina não tivesse fé...

— O herói das asas jamais existiria. — Era difícil imaginar o que teria se tornado se as coisas acontecessem de outra forma. Ser um herói não era um sonho antes da Comissão aparecer. O jovem Takami Keigo não tinha sonhos, apenas uma vaga esperança de não acabar como seus pais. — Acho que tive sorte.

— Sorte?

— Sim. — Um sorriso enviesado ganhou espaço nos lábios dele; não era alegre, mas também não era triste. — Minhas outras opções eram o crime, o vício ou uma morte trágica antes da maioridade. Em vez disso, pude fazer algo útil da minha vida. Pude ajudar pessoas.

Dessa vez, o silêncio de Saeko se estendeu por um longo tempo.

— Saeko? Ainda está aí?

— Ser um herói te fez feliz? — indagou ela.

— Essa é uma pergunta bem repentina.

— Eu só quero saber. Você era feliz?

Uma resposta automática pulou para a ponta da língua de Hawks. Sim, é claro! Porém, as palavras ficaram lá, imóveis e pesadas, enquanto avaliava por que soavam falsas.

*

Aos sete anos de idade, Takami Keigo disse adeus a sua mãe e ao seu nome.

Aos oito anos de idade, Hawks aprendeu a ler e escrever.

Aos nove anos de idade, Hawks passava quatro horas por dia no campo de treinamento.

Aos dez anos de idade, Hawks iniciou as aulas de oratória, inteligência interpessoal e teatro.

Aos onze anos de idade, Hawks passava seis horas por dia no campo de treinamento.

Aos doze anos de idade, Hawks concluiu o ensino fundamental.

Aos treze anos de idade, Hawks pediu para cursar o ensino médio na UA, mas a Comissão achou melhor mantê-lo nas aulas particulares.

Aos catorze anos de idade, Hawks passava oito horas por dia no campo de treinamento.

Aos quinze anos de idade, Hawks conseguiu a licença de herói e começou a estagiar nas agências filiadas a Comissão.

Aos dezesseis anos de idade, Hawks se apaixonou por um colega de estágio. Temendo escândalos sobre a identidade de gênero do pupilo, a Comissão o afastou daquela agência.

Aos dezessete anos de idade, Hawks iniciou o tratamento hormonal sob o mais absoluto sigilo.

Aos dezoito anos de idade, Hawks estreou como herói profissional e abriu sua própria agência.

Aos dezenove anos de idade, Hawks trabalhava doze horas por dia.

Aos vinte anos de idade, Hawks teve sua primeira vez com um estranho que conheceu em um bar. O elaborado disfarce que usava não afastou o medo constante de ser reconhecido. Eles nunca mais se encontraram.

Aos vinte e um anos de idade, Hawks trabalhava quinze horas por dia.

Aos vinte e dois anos de idade, Hawks subiu ao topo do mundo e desceu ao mais profundo abismo.

Aos vinte e três anos de idade, Hawks se aposentou do heroísmo.

*

— Eu não... — A voz dele se extinguiu. O nó em sua garganta era um obstáculo para a sinceridade. Engoliu em seco, respirou fundo e tentou outra vez. — Eu não sei se... tive tempo para... apreciar o momento? — Puxou as asas para mais perto, o ambiente parecia mais frio. — O homem rápido demais para o seu próprio bem, esse era o meu slogan. Fiz muitas coisas legais, coisas incríveis, mas... a minha vida foi... como o cometa Halley.

— Como assim?

— Ah, você sabe, brilhante, fascinante e... tão breve que você perde se piscar os olhos. Eu pisquei e quando percebi já não era mais um herói. Tudo estava acabado e eu só sentia...

— Sentia?

Hawks se enrolou ainda mais em suas asas. O pensamento ocupou os fundos de sua mente por décadas sem ser avaliado. Agora, o pegou nas mãos; mediu, pesou e concluiu que não valia a pena continuar guardando-o.

— Me senti aliviado. Ser um herói era... exaustivo. Quando acabou, me senti leve.

Saeko não respondeu. Em vez disso, uma porta se abriu.

*

Hawks se impulsionou para a porta. Um corredor estreito e circular desafiou sua capacidade de encolher as asas. A luz azulada no fim do caminho alimentou sua curiosidade. Emergiu em uma cabine de controle semelhante a de um avião, embora o para-brisas ocupasse mais da metade da frente da aeronave.

A cadeira do piloto girou e uma menina sorriu.

— Olá, anjinho!

— Saeko?

— Eu mesma — respondeu a menina.

Vestia um uniforme escolar composto por blazer e saia pretos e um lenço vermelho na gola. Os longos cabelos castanhos flutuavam ao redor de sua cabeça, uma franjinha cobria sua testa. Seu sorriso revelou as covinhas nas bochechas. Os olhos grandes, muito escuros, carregavam o brilho de alguém que desconhecia os males do mundo.

Lembrando do encontro com Endeavor, Hawks também sorriu.

— Voltar a ser criança é uma tendência por aqui? — brincou, porém embalou uma pontada de inveja por não possuir uma infância digna de um paraíso.

O sorriso de Saeko diminuiu.

— Na verdade, não. — Balançou os pés calçados em sapatos de fivela. Era tão pequena que as solas mal tocavam o chão. — Eu morri sete dias depois de você me salvar.

*

Um Infarto Químico Espontâneo (IQE) era um fenômeno raro que atingia indivíduos cujas peculiaridades interferiam nas substâncias internas do corpo. A doença se caracterizava pela súbita interrupção no fluxo sanguíneo para o coração durante o uso da peculiaridade. Os sintomas eram idênticos aos de um infarto fulminante e, em 90% dos casos, levava a morte.

*

Saeko utilizava sua saliva anestésica para acalmar uma picada de abelha na orelha do seu cachorro quando sofreu o IQE. Seus últimos momentos na terra foram marcados por uma intensa dor no peito, os latidos de Sora e a ausência de um salvador com penas vermelhas.

*

— Eu tinha muitos sonhos — contou ela, após narrar o prematuro fim de sua vida. — Queria cursar astronomia na Universidade de Kyushu, conseguir um bom emprego, fazer várias viagens, ter um namorado bonito... Nada disso aconteceu. Como foi que você disse? Uma morte trágica antes da maioridade?

Hawks cobriu sua boca grande com uma das mãos.

Saeko o estudou. Apesar da aparência jovem, havia um grau de maturidade em seu olhar.

— Algumas coisas estão fora do nosso controle. Tive uma vida curta, mas uma vida feliz. Foi ainda mais feliz naqueles sete dias. Encarar a morte de perto me fez valorizar mais as coisas. O sorriso do meu pai, o cheiro da minha mãe, o abraço das minhas amigas... Cada amanhecer era um novo milagre. — Sorrindo, ela soltou o cinto do assento e se jogou nos braços de Hawks. — Obrigada por me salvar!

Hawks a envolveu em um abraço hesitante. Não podia dizer que estava só fazendo o seu trabalho. Naquela época, salvar pessoas não era sua responsabilidade. Ser um herói, receber agradecimentos, ganhar atenção, ele não esperava nada disso. Sua única motivação fora ver alguém precisando de ajuda.

— Eu só fiz a coisa certa.

Saeko aconchegou a cabeça no peito dele.

— É por isso que você é o meu anjo.

— Sabe que não sou um anjo de verdade, não é?

— Sei.

— Tudo aquilo foi uma grande coincidência.

— Talvez.

Os dois pairaram no ar, o cintilar das estrelas a emoldurá-los.

— Ainda acredita em milagres?

— Com certeza!

Hawks sorriu e apoiou a bochecha na cabeça dela. Quem era ele para duvidar, se pelo canto dos olhos viu o cometa Halley fazer outra aparição?

*

— É hora de ir — disse Saeko.

Hawks esperou outra mudança abrupta de realidade. Em vez disso, a menina flutuou até a porta na lateral da cabine e a abriu. Uma luz amarela intensa ocultou o que quer que estivesse do lado de fora.

— Não está me pedindo para pular no sol, está? — gracejou Hawks.

— Não, seu bobo. Sou eu que vou pular.

— Que?

Saeko riu.

— É a minha hora de ir. Sempre quis viajar pelo universo e o céu realizou o meu sonho. Esse paraíso me fez muito feliz, mas não posso ficar aqui pra sempre. Agora que já te encontrei, tenho que seguir para a próxima etapa.

— Para onde você vai? — questionou ele.

Saeko sorriu.

— Na hora certa, você vai descobrir. Até lá, procure o lugar onde seu coração sempre desejou estar. Ali encontrará o seu paraíso. Te espero do outro lado!

A luz intensificou até dominar a visão de Hawks.