O paraíso
3 A segunda pessoa
A realidade se desmanchou em cacos cristalizados que voaram em um redemoinho ao redor de Hawks. Rajadas de vento o açoitaram, empurrando-o de um lado para o outro. Perdeu o equilíbrio e caiu sobre as mãos e os joelhos. Ao olhar para baixo, encontrou seu reflexo encarando-o de volta. Sua aparência revelava cada um dos 58 anos que viveu — rugas e marcas de expressão no rosto, mais fios grisalhos do que louros no cabelo e no cavanhaque e uma leve flacidez sob o queixo. Contudo, os sinais de sua longa doença se foram, assim como as velhas cicatrizes de batalha. As asas se assomavam atrás dele, mais vermelhas do que as memórias ditavam. Por um segundo, Hawks não se reconheceu. Piscou duas vezes e a sensação se dissipou. Esse sou eu, pensou, oferecendo um sorriso tenso para si mesmo. Uma luz ofuscante brilhou — em cima ou abaixo, não sabia dizer. Branco dominou sua visão enquanto o redemoinho reorganizou os cacos em uma nova realidade.
*
A primeira coisa que Hawks notou foi a luz do poste. Branca e intensa. A segunda coisa foram as nuvens tempestuosas no céu noturno. Chuva caía em gotas finas e esparsas. A terceira coisa foi o marrom-avermelhado do prédio da Daimaru, uma tradicional loja de departamentos, do outro lado do quarteirão. Ele estava na avenida Watanabe-dori. A quarta coisa foram as luzes caleidoscópicas da sirene de uma viatura de polícia. Um acidente aconteceu.
*
Mais ou menos 52 anos atrás, um incidente assustou turistas e frequentadores da avenida Watanabe-dori, um popular destino de compras no centro de Fukuoka. Testemunhas viram um carro atropelar a cancela do estacionamento da Daimaru e disparar pela rua. O motorista avançou o sinal vermelho, passou raspando na traseira de um ônibus e saiu cantando pneus no asfalto molhado. Um rastro de gritos e exclamações o seguiu, o que atraiu a atenção de um herói em patrulha. O herói interrompeu aquele passeio alucinado, arrancou o motorista de dentro do carro e lhe deu um soco tão forte que o homem apagou. Nos dias seguintes, os jornais falaram sobre o aumento de tentativas de roubo na região, sobre a conduta violenta de certos heróis e sobre a inesperada captura de um assassino.
*
O som demorou a penetrar a bruma na cabeça de Hawks. Carros buzinavam no congestionamento, um guarda de trânsito soprava o apito e pessoas se aglomeravam na calçada, conversando entre si. Hawks tentou falar com elas, porém ninguém o via ou ouvia. Resignado, aproximou-se da fita de isolamento e estudou a cena. O carro avançara contra a vitrine de uma loja de calçados. A frente do veículo estava amassada; cacos de vidro cobriam o capô e um solitário pé de tênis repousava no banco do passageiro. A porta do motorista jazia no chão. Marcas de derrapagem pintavam o asfalto, sugerindo a soma entre alta velocidade e uma parada brusca.
O que diabos aconteceu aqui?, perguntou-se Hawks.
— Uma tentativa frustrada de roubo de carro — respondeu uma voz familiar.
As penas de Hawks incharam. Virou-se com os olhos arregalados e uma onda de euforia o atingiu.
— Endeavor!
O velho herói das chamas esboçou uma expressão de contentamento — sorrisos não eram seu forte, mas a severidade de sua carranca suavizava quando algo o agradava. Ele acenou a cabeça em um cumprimento.
— Hawks.
Um sorriso dominou o rosto de Hawks. Suas asas se abriram e, sem perceber, começou a flutuar. Quase uma década se passou desde a última vez que viu Endeavor. Na época, o homem estava preso à cadeira de rodas, o corpo desgastado pelo tempo e pelas feridas de batalha. Agora, Endeavor se erguia sobre as duas pernas. Seus sapatos de couro brilhavam sob as luzes da rua, tão austeros quanto a camisa de botões azul-escura e a calça social cor de areia. Sua estrutura era larga e sólida como em seus dias de herói número um, mas os cabelos exibiam o branco puro que a idade lhe trouxe. Apenas uma cicatriz marcava sua pele — aquela no lado esquerdo do rosto, resultado da luta contra o High-End.
Hawks bebeu da visão dele até a presença de Endeavor preencher o vazio de deixado por sua ausência. Era bom ver uma figura familiar.
Na verdade, era bom ver Endeavor.
Gargalhando, Hawks afastou a umidade dos olhos.
— Faz um tempo, hein? — disse, a voz embargada. — Vem cá, deixa eu te abraçar!
— Não se empolga, pirralho. — Endeavor se esquivou, mas o contentamento ainda estava lá. — Já te explicaram as regras?
Hawks relembrou as palavras de Towa.
— Estou morto, este é o céu e... tenho que achar o meu paraíso?
Endeavor aquiesceu.
— Vou encontrar cinco pessoas — prosseguiu Hawks. — Você é a segunda.
— Muito bem, vamos lá.
Endeavor atravessou a rua a passos largos. Hawks flutuou ao lado dele.
— Isso parece uma missão. De volta aos velhos tempos, hein? — Ele sorriu para Endeavor. — Para onde estamos indo?
— Para a delegacia.
— Delegacia?
— Sim, você precisa ver o seu pai.
Hawks desabou em uma poça. Bateu o queixo no chão e uma pontada de dor percorreu seu maxilar — passou tão rapidamente que ele mal percebeu. Lama fria encharcava a frente da bata hospitalar quando ele se levantou. Estreitou os olhos para Endeavor.
— O que?
Endeavor sustentou o olhar dele. A cicatriz no rosto se destacou em sua habitual carranca, a carne vermelha como se fosse um ferimento recente.
— O céu pode ser implacável, Hawks. Fugir do passado não é uma opção. Mais tarde, você decide se é uma benção ou uma maldição. Agora, se recomponha. Precisa ver o seu pai.
*
O pai de Hawks era uma pessoa. Ele nasceu, cresceu e morreu como qualquer pessoa nascia, crescia e morria. Teve uma infância conturbada, assim como a maioria das pessoas pobres, sem estrutura familiar e com uma peculiaridade mutante. Ele foi moldado por suas experiências — boas, ruins e péssimas —, tal qual todas as pessoas foram. Possuía sonhos e tentou realizá-los segundo as medidas de bem e mal que conhecia, exatamente como as pessoas costumavam fazer. Cometeu erros e, numa atitude comum entre as pessoas, fugiu das consequências. Sentiu frustração, medo, raiva, ansiedade e tristeza como qualquer outra pessoa. Perpetuou sua infelicidade, construindo uma família caótica muito parecida a de todas as pessoas presas na espiral do fracasso, culpa e violência.
O pai de Hawks era apenas uma pessoa.
*
A delegacia estava silenciosa. Endeavor liderou o caminho por corredores vazios. Parou diante de uma porta e olhou para trás. Hawks endireitou os ombros, mas as asas se encolheram contra suas costas, delatando seu desconforto. Impassível, Endeavor abriu a porta.
Era uma sala de observação. Uma mesa estreita e duas cadeiras de rodinha ocupavam o espaço apertado. Na parede lateral, um painel de vidro espelhado revelava o interior da sala de interrogatório, onde um policial encontrava-se frente a frente com um homem.
O pai de Hawks.
Hawks se deteve no batente da porta. Uma enxurrada de memórias recaiu sobre sua cabeça. Penas cor de sangue seco se destacavam em meio a gritos, ameaças e surras. A raiva correu em suas veias, camuflando o peso do pânico em seu estômago.
— Por que tenho que fazer isso? A minha mãe, eu entendo. Ela era indiferente e esquisita, mas tínhamos uma ligação. Esse homem... ele me odiou desde o dia em que nasci. Não dou a miníma se ele tem uma historinha triste no passado. Para mim, ele sempre será um vilão!
A respiração pesada de Hawks ecoou no silêncio.
— Sabe o nome dele? — questionou Endeavor.
— Isso importa?
— Sabe ou não?
— Digamos que nunca fomos devidamente apresentados.
A mãe dele só chamava o homem de “querido” e o desgraçado odiava que Hawks lhe dirigisse a palavra, fosse como pai ou qualquer outra coisa. Já o HPSC manteve as informações do homem trancadas a sete chaves. Hawks nunca se importou em procurá-las.
Endeavor cruzou os braços e observou a sala de interrogatório.
— Na noite em que foi preso, ele se apresentou com o sobrenome Takami e disse que não possuía um nome próprio. O idiota estava tentando despistar a polícia. Os policiais acharam graça e o apelidaram de Takami Ladrão. Foi assim que os jornais se referiram a ele. Quando descobriram sua verdadeira identidade, encontraram um mandado de prisão em aberto por um assassinato que tinha acontecido há mais de 7 anos. Um crime brutal. Você sabe o quanto a mídia adora esse tipo de reviravolta. Fizeram um alarde sobre o caso. Todos queriam saber como ele burlou a justiça por tanto tempo. Não acompanhei a história, mas lembro de uma notícia sobre o julgamento. Consideravam se ele pegaria ou não prisão perpétua. Eu tinha certeza que ele pegaria, a única coisa que chamou minha atenção era que continuavam a chamá-lo de Takami Ladrão. Sabe o que pensei? — Endeavor olhou para Hawks. — “Esses imbecis estão alimentando as mentiras de um assassino.” E você está fazendo o mesmo.
Hawks negou com a cabeça. Nunca pensou naquele homem como Takami Ladrão. Ele não era um Takami, muito menos um simples ladrão.
Endeavor esfregou o rosto.
— Olha, não sou a melhor pessoa com as palavras, sabe disso... O que estou tentando dizer é: quanto mais você evita esse homem, maior é a sombra dele sobre você. Para encontrar seu paraíso, precisa enfrentar as piores partes de si mesmo. — Apontou o polegar para a sala de interrogatório. — A vida inteira esse babaca foi uma corrente de chumbo no seu calcanhar. Essa é a sua oportunidade de se libertar.
Hawks desviou o olhar para seus pés descalços. Os crimes e mentiras daquele homem moldaram cada detalhe da vida dele — desde uma infância em carcere privado até uma multidão gritando “filho de um vilão” em frente ao prédio do HPSC.
Hawks enrolou as mãos em punhos e se aproximou do painel de vidro. Colocou-se ao lado de Endeavor — talvez mais perto do que o necessário — e enviou agradecimentos a entidade divina no comando desse lugar. Nada como ter o apoio do seu maior herói quando enfrentava o seu maior vilão.
Ao primeiro olhar, Hawks percebeu que o homem era bem menor do que as lembranças diziam. O corpo magro arqueava-se sobre a mesa metálica. Algemas maciças prendiam seu pulsos nos braços da cadeira de ferro. As penas vermelho-cobre se projetavam ao longo dos antebraços, gastas e ressecadas. O rosto largo e quadrado, velho demais para a idade que Hawks achava que ele tinha, ostentava uma expressão de puro tédio. Um hematoma roxo cobria o maxilar dele — cortesia de Endeavor. Os olhos castanhos encaravam o policial com uma raiva fria e silenciosa.
Abatido e preso, o homem não representava perigo. Constatar isso aliviou a bolha de tensão no estômago de Hawks.
De repente, o policial se levantou e saiu pela porta. No segundo seguinte, a porta desapareceu. As paredes da sala de interrogatório mudaram de cor — de um branco limpo para um cinza opressivo. A mesa metálica se dissolveu em pó e a luz das lâmpadas fluorescentes diminuiu pela metade, mergulhando o cômodo na penumbra.
A cabeça do homem tombou para trás e seus olhos mortos se fixaram no teto escuro.
— O que aconteceu?
— Esse é o lugar aonde ele está agora — respondeu Endeavor. — Um inferno pessoal.
Apoiando as mãos no vidro, Hawks se inclinou para ver melhor. No espaço de um piscar de olhos, a aparência do homem mudou. Os cabelos castanhos se tornaram grisalhos e rarearam no topo da cabeça. A pele do rosto ficou flácida e enrugada; uma infinidade de manchas de sol surgiu na testa e bochechas. Sua figura solitária se misturava às sombras da sala, apenas o metal das algemas refletia a pouca luz.
Uma emoção ácida ergueu os cantos dos lábios de Hawks.
— Então essa é a minha pior parte? — Ofereceu o sorriso torto para Endeavor. — Ficar feliz por ver esse cara no inferno?
— Só você pode dizer.
— Bem, não estou me sentindo o mais caridoso dos homens no momento. — Olhou outra vez para o velho preso à cadeira. — Se o paraíso existe, é justo que uma criatura tão desprezível não o encontre.
Endeavor não respondeu.
— E agora? — questionou Hawks.
— Agora, vou te mostrar outra criatura desprezível.
*
Todoroki Enji, reconhecido internacionalmente como Endeavor, o herói das chamas, também era apenas uma pessoa.
*
A escuridão da sala de interrogatório avançou pelo painel de vidro e escorreu como piche ao redor deles. Hawks e Endeavor existiram em meio ao nada absoluto, então a massa negra se dissipou para revelar um novo cenário.
A sala de jantar da mansão Todoroki.
Madeiras de um profundo marrom e paredes de papel cor de creme criavam um ambiente tradicional e luxuoso. A decoração era minimalista e masculina, assim como seu proprietário. Uma luminária redonda pendia do teto e derramava luz dourada sobre o chabudai retangular. Uma farta refeição ocupava a mesa, na qual seis assentos estavam a postos.
Hawks sorriu para o cenário familiar. Guardava boas lembranças dos jantares ali.
— Devia ter me dito que viríamos pra cá. — Indicou a bata hospitalar suja de lama. — Teria me vestido melhor.
Endeavor ignorou a brincadeira. Fitou o chabudai com uma expressão contemplativa, quase triste. O sorriso de Hawks diminuiu.
— Algum problema?
— Esse é o meu inferno, garoto.
*
Todoroki Enji faleceu aos 71 anos. Apesar da cadeira de rodas, da falta de um braço, das inúmeras cicatrizes e dos remédios para hipertensão, era considerado um idoso saudável. Seguia uma dieta rica em nutrientes, fazia hidroginástica três vezes por semana e participava de um clube do livro para a terceira idade. Morava sozinho, mas raramente se sentia sozinho. Fuyumi e seus filhos o visitavam com frequência, assim como os amigos de longa data. Trocava cartas com Rei para falar da vida, da família e de coisas que nunca teriam coragem de dizer pessoalmente. Uma vez por mês ia ao restaurante de Shoto para compartilharem uma tigela de soba frio.
Certa noite, Enji entrou no restaurante do filho e descobriu que sua mesa habitual estava ocupada por Natsuo e sua família. O grupo celebrava o nascimento do primeiro neto de Natsuo. Constrangido por interrompê-los, Enji os parabenizou e se virou para ir embora. Natsuo o deteve. Um convite foi feito; não de uma forma alegre ou simpática, mas com uma resignação cansada, como o hastear de uma bandeira branca após anos de guerra. O convite foi aceito; não como uma vitória para se orgulhar, mas com a humildade e gratidão de quem recebia uma concessão imerecida.
Enji se acomodou ao lado de Shoto e passou as duas horas seguintes contendo as emoções do seu velho coração. A esposa de Natsuo era gentil; seus filhos, divertidos e inteligentes; e os olhos de Natsuo transbordaram amor ao descrever seu neto. Uma família feliz.
No dia seguinte, Enji narrava o inesperado encontro em uma carta para Rei quando um formigamento se espalhou pelo seu braço. Seu olho esquerdo se recusou a piscar e o canto de sua boca vergou para baixo. Assustado, acionou um dos funcionários da residência Todoroki, mas, antes do homem chegar aos aposentos dele, uma súbita dor de cabeça arrancou a consciência de Enji. O funcionário o encontrou caído sobre os papéis.
Levaram Enji para o hospital. A equipe médica constatou uma hemorragia no cérebro e, imediatamente, o encaminhou para a cirurgia. No corredor do centro cirúrgico, Enji recuperou a consciência por tempo suficiente para lançar um último olhar para sua família. Fuyumi chorava. Shoto franzia as sobrancelhas. Rei oferecia um sorriso encorajador. E Natsuo... Natsuo estava lá.
Enji não resistiu ao procedimento. Em seu funeral, comentários afirmavam que ele cumpriu sua missão, fez as pazes com a família e partiu sem arrependimentos.
*
Hawks contemplou a sala de jantar sob uma nova luz. A amplitude do cômodo se encheu de um vazio sem fim. A decoração luxuosa era artificial, impessoal. A farta refeição inspirava a melancolia de saber que ninguém viria apreciá-la. Solidão e confinamento. Um inferno semelhante ao...
— Do seu pai — completou Endeavor, quando Hawks se impediu de continuar. — No fim das contas, ele e eu temos muito em comum.
— Não se compare com aquele cara. Você errou, eu sei, mas se arrependeu e pediu desculpas. Aquele homem? Ele nunca se desculpou pelo estrago que fez na minha vida. A única carta que recebi dele era um pedido de perdão de pena. Dá pra acreditar?
— Você o perdoaria?
— Claro que não! Joguei a carta no lixo.
— Quero dizer, se ele pedisse desculpas. Você o perdoaria?
Hawks abriu a boca para negar, mas obrigou-se a analisar a questão. Se o pai pedisse perdão... se mostrasse verdadeiro arrependimento... se tentasse uma reconciliação... ainda assim...
— Nada pode apagar o que ele fez.
Endeavor aquiesceu e, novamente, encarou o chabudai vazio.
— Esse é o ponto: a morte não apaga nossa história. O mal que fizemos, ou o bem que fizemos, nos acompanha para sempre. Machuquei minha família de formas irreparáveis. O perdão deles não foi um mérito meu.
Hawks puxou as asas para mais perto do corpo. A quietude do ambiente machucou seus ouvidos. Não conseguia imaginar Endeavor sozinho ali. Endeavor era uma boa pessoa.
— E é por isso que estamos aqui — disse Endeavor. — Não existem pessoas boas ou ruins, Hawks. Existem pessoas.
— Sabe, esse negócio de ler a mente é bem desconfortável.
— Não mude de assunto. — Endeavor se colocou de frente para ele. — Todos têm um inferno, independente se foram bonzinhos ou malvadinhos durante a vida. Ele é construído em cima dos nossos erros, arrependimentos e medos. Você ficará preso nele para sempre se não entender.
— Entender o que?
A carranca de Endeavor suavizou.
— Entender que a escolha é sua. Inferno ou paraíso, você decide.
— Espera, espera. — Hawks ergueu as mãos. — Isso não faz sentido. Uma pessoa que fez coisas terríveis na vida pode apenas escolher ficar no paraíso?
— Se fosse tão simples assim, acha que seu pai estaria no inferno?
Hawks duvidou. Um homem egoísta como aquele não hesitaria em ignorar o mal que causou para passar a eternidade no conforto. Nesse caso, qual era o critério?
— Não vou fingir que sei a resposta para essa pergunta — disse Endeavor. — O céu segue sua própria lógica. Só tenho duas certezas: é impossível mentir aqui e essa não é a última parada. Vejo esse lugar como uma etapa de transição. A sua verdade decidirá se você vai passá-la no melhor ou no pior momento da sua vida.
Hawks acenou para a sala de jantar.
— Qual verdade te mandou para cá? Você se redimiu dos seus erros na terra, todos reconheceram isso. Até Natsuo participou do seu funeral.
Os ombros de Endeavor cederam, uma expressão pensativa comprimiu seu rosto.
— Por anos busquei me reaproximar da minha família. Achei que só assim encontraria a paz. Mas... lá no fundo... nunca acreditei que fosse digno de perdão. Esse era o destino que eu merecia.
Uma dor se alojou na base do peito de Hawks. A indiferença com que contemplou o inferno do pai deu lugar à desolação de imaginar Endeavor passando pela mesma experiência. A parte racional do cérebro dele acusou a parcialidade do julgamento; a parte emocional amaldiçoou os deuses e suas decisões injustas.
— Isso está errado. Você não merece ficar aqui!
Endeavor abriu um pequeno sorriso.
— Quem disse que estou aqui?
*
A sala de jantar ondulou como um espelho d’água. As formas se perderam, as cores se misturaram. Um borrão líquido se assomou sobre Hawks. Por reflexo, fechou os olhos e, quando nada aconteceu, os abriu. Deparou-se com um parque. Um lago de água escura refletia a luz do sol, que reinava soberano em um céu azul. Sob as sombras das árvores, pessoas faziam piqueniques, crianças brincavam de pega-pega e uma mulher atirava uma bolinha para o cachorro. Paralelepípedos desenhavam uma ciclovia em meio a grama verde e um menino de boné se equilibrava na roda traseira da bicicleta.
Hawks procurou Endeavor, mas não o avistou.
O menino da bicicleta interrompeu a manobra, caindo bruscamente sobre as duas rodas, acelerou pela ciclovia e parou jogando poeira em cima de Hawks.
— Cuidado, rapazinho — disse ele, antes de se lembrar que ninguém ali poderia vê-lo.
Contudo, o menino sorriu. Um sorriso amplo, cheio de dentes e travessura, que quase ofuscou a imensa cicatriz a ocupar a porção esquerda de seu rosto. Mechas de cabelo ruivo espreitavam embaixo do boné, tão reconhecíveis quanto o azul-turquesa dos olhos afiados.
— Endeavor?!
— Hawks — cumprimentou, em uma réplica do primeiro encontro deles no céu. A diferença era que agora aparentava uns 12 anos de idade, tinha bochechas roliças e um corpo franzino. Usava uma camiseta preta sem mangas, bermuda jeans desfiada e tênis sujos de terra. Seu sorriso era leve e fácil, como se nunca tivesse experimentado a seriedade. — Bem-vindo ao meu paraíso.
Hawks o encarou, sem palavras. Diante de seus olhos, a morte ganhou um novo grau de bizarrice. Endeavor curvou os lábios em um beicinho.
— É feio julgar o paraíso dos outros.
— Desculpe, é que... você... eu... — Uma risada se formou dentro de Hawks, escalou por sua garganta, sacudindo seus ombros, então escapou por sua boca aberta. O som voou para longe, levando consigo qualquer possibilidade de contenção. Hawks caiu de joelhos na grama macia, trêmulo de gargalhadas e alívio. — Ainda bem... você está feliz.
Endeavor sorriu outra vez, como se fosse incapaz de evitar. Apoiou os braços finos no guidão da bicicleta e, com paciência atípica, esperou Hawks se recompor.
— Percebi uma coisa enquanto estava no inferno — disse ele. — A culpa é um peso que se carrega sozinho. No início, te ajuda a reconhecer suas falhas, seus erros; mas com o tempo se torna inútil. Você não pode mudar, não pode apagar; você só pode aceitar. Foi o que eu fiz. — Balançou uma das mãos para indicar o parque. — Então cheguei aqui.
— Ei, Enji! — Um homem acenou o braço. Estava sentado em uma das toalhas de piquenique, abraçado a uma mulher de longos cabelos vermelhos. — Está na hora de comer!
O brilho nos olhos de Endeavor competiu com o sol.
— Já vou, oyaji! — respondeu, em seguida, retirou do bolso um papel dobrado e o estendeu para Hawks. — Pegue isso.
Hawks pegou.
— O que é?
— Aí vai encontrar o nome do seu pai — respondeu Endeavor. — Você não é obrigado a ler, nem a perdoar aquele homem. Se te serve de consolo, nada que fizer pode tirá-lo do inferno. Só ele mesmo. Mas tenha em mente que ele é uma parte da sua verdade.
— E qual é a minha verdade?
Endeavor sorriu.
— Me diga você.
Ele disparou em direção aos pais.
Hawks estudou o papel. Fora dobrado até caber na palma da mão, de um jeito displicente e inofensivo como uma lista para o supermercado. Parecia uma página de jornal — a textura áspera, as bordas manchadas pelo tempo e a palavra Julgamento em letras garrafais espreitando na lateral.
Ali continha a resposta para uma pergunta que ele nunca se fez. Quem era Takami Ladrão? Hawks sabia o que precisava saber: um vilão, um assassino e um homem que sob nenhuma hipótese deveria ter se reproduzido.
Talvez a verdade de Hawks fosse reconhecer a frieza de seu coração, pois, sem um fio de remorso, rasgou o jornal em tiras.
— Até nunca mais, seja você quem for.
Uma brisa carregou os frangalhos do papel. Hawks os observou espiralarem e torceu para aquele ser o ponto final na sua história com aquele homem.
De repente, a brisa se transformou em uma forte rajada. Uma pressão envolveu o corpo de Hawks; uma força imaterial, como o impulso de uma corrente de ar ascendente. Procurou Endeavor com o olhar.
A criança Endeavor ergueu uma das mãos. Um gesto de despedida.
— Sua próxima pessoa te aguarda — exclamou ele.
No segundo seguinte, Hawks foi varrido da terra.
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