O paraíso

5 A quarta pessoa


Notas iniciais
A intenção era terminar a fic em janeiro e já estamos chegando em abril, mas não tenho do que reclamar. Adorei escrever esse capítulo. <3

Hawks fluiu à deriva em um universo de cores vibrantes e pensamentos dispersos.

Amarelo.

Como será o meu paraíso?

Laranja.

A minha vida foi uma bagunça.

Vermelho.

O meu coração nunca foi muito confiável.

Roxo.

Eu tenho um paraíso?

A correnteza o jogou contra uma parede. O impacto enviou uma onda de dor pelo seu ombro e costas. Cambaleou para trás e percebeu que chegara ao novo destino. Um corredor de paredes brancas se estendia ao infinito à esquerda e à direita. Uma única porta se encontrava diante dele. Era de madeira clara e lisa, com uma maçaneta redonda e... O coração de Hawks martelou contra as costelas.

Uma placa de metal exibia os números 643.

*

Ao longo da vida, Hawks possuiu um incontável número de residências — desde a velha cabana de sua mãe a uma mansão caríssima nos arredores de Tóquio. Contudo, apenas três endereços conquistaram espaço permanente nas paisagens do seu afeto. Todos em Fukuoka, sua amada terra natal.

O primeiro ficava em Hakata, centro da cidade. Era um apartamento funcional e bem localizado, concedido pela Comissão assim que Hawks completou 18 anos. Ele o usava para realizar reuniões de negócios e receber visitas. Após a guerra, mudou-se para as dependências do presidente da Comissão, mas manteve a posse do apartamento pelo seu valor estratégico. Mais tarde, ofereceu-o para Tokoyami como um incentivo para estabelecer sua agência de heróis em Fukuoka. Tokoyami morou ali até se casar.

O segundo ficava em Meinohama, na ala oeste da cidade. Era uma casa térrea, cercada por jardins arborizados, a dez minutos de caminhada da praia. Hawks a comprou aos 21 anos, pouco depois de sofrer sua primeira crise de burnout. Desde então era seu local de descanso durante as recuperações médicas e nas raras noites de folga. Poucas pessoas conheciam a localização; menos ainda chegaram a visitá-la. Hawks a manteve como um refúgio privado por toda a vida.

O terceiro endereço ficava em Nakasu, o distrito de luz vermelha de Fukuoka. Era um apartamento studio compacto e confortável, situado na cobertura de um prédio discreto. Hawks o alugava com um nome falso desde os 20 anos. Para lá levava seus encontros de uma noite. Durante a guerra, um ataque de vilão destruiu o quarteirão inteiro e matou sete pessoas. Após o fim do conflito, construíram um parque na região com um memorial em homenagem às vítimas. Hawks participou da inauguração. Apenas fisicamente. Sua mente insistiu em ficar no passado, no interior do apartamento 643.

*

Hawks sabia quem estava ali.

Sua mão trêmula envolveu o metal frio da maçaneta e um pensamento outrora recorrente se esgueirou por sua cabeça: Detesto usar portas, o trinco emitiu um clique ao abrir, prefiro entrar pela sacada. O genkan era ainda menor do que em suas lembranças. Percorreu o corredor estreito com as asas raspando nas paredes. Ao virar a esquina, deparou-se com a sala de estar. Um sofá marrom dominava o ambiente, a televisão ocupava metade da parede e, mais para frente, as cortinas escuras da sacada balançavam ao vento. Um retrato perfeito do passado longínquo.

— Ei.

Uma dor surda se alastrou pelas costas de Hawks — suas penas incharam e encolheram com os ecos de um calor consumidor. Virou-se para a cozinha devagar, dando a si mesmo tempo para administrar o choque.

Apoiado na ilha de mármore, Touya ergueu uma caneca fumegante em um gesto casual de saudação.

— Então você finalmente morreu, hein?

*

Trinta e seis anos atrás...

Hawks culparia a Comissão. A constante exigência por resultados o obrigou a fazer qualquer coisa para se aproximar da Liga dos Vilões. Também eram culpados por mantê-lo a rédeas tão curtas que mal teve tempo de se masturbar nas últimas semanas. Talvez tivesse um pouco mais de autopreservação se não estivesse tão reprimido a ponto de achar um vilão desfigurado atraente.

Culpa do azul brilhante dos olhos de Dabi, que capturaram a atenção de Hawks desde o primeiro encontro e o fizeram ignorar todo o resto — cicatrizes, grampos, ficha criminal e uma personalidade de merda. Hawks estava fazendo o melhor que podia dentro das condições disponíveis. Nesse sentido, em um nível estritamente racional, transar com Dabi em seu apartamento secreto era uma decisão aceitável, mesmo que condenável.

Desça pelas escadas — disse Hawks, vestindo as calças. — Os elevadores têm câmera de segurança.

Dabi permaneceu estirado na cama; um cigarro a queimar entre os dedos, os olhos fixos no teto.

Você tem prática.

Hawks abriu um sorriso torto.

Achou que eu fosse virgem?

Não. — Dabi levou o cigarro aos lábios, puxou uma profunda tragada e expeliu uma nuvem de fumaça. — Você tem prática em descartar pessoas.

Por um microssegundo, o sorriso de Hawks cedeu. Então, ele riu.

Sem amarras, coisa quente. Gosto assim. Fique o tempo que quiser, só não seja visto.

Hawks disparou pela porta como se fugisse da cena de um crime.

*

Os olhos azuis ainda tiravam o fôlego de Hawks. Brilhavam como gemas de safira por entre as mechas de uma franja displicente; os cabelos de um branco invernal. Cicatrizes desenhavam padrões familiares abaixo dos olhos, maxilar, pescoço e ombros, porém nenhum grampo parecia ser necessário para manter a pele unida. Touya vestia uma blusa larga sem mangas e calças de moletom que combinavam com sua aparência jovem. Diante dele, Hawks ficou muito consciente dos 58 anos a pesarem em seus ombros.

Touya morreu antes de alcançar os 25.

Os lábios incompatíveis de Touya formaram um sorriso afiado.

— Envelhecer é superestimado. Olhe só para você. — Deslizou um olhar julgador pela extensão do corpo de Hawks. — Virou um velho acabado.

As asas de Hawks se encolheram. Essa conexão mental unilateral atingiu um novo patamar de desconforto. O redemoinho de sentimentos em seu peito não era algo que revelaria para Touya de bom grado.

— O que está fazendo aqui?

Touya revirou os olhos e a familiaridade do gesto obrigou Hawks a conter um soluço.

— Tenho certeza que já te deram o discurso de boas-vindas: estamos mortos, esse é o céu, você vai encontrar cinco pessoas, blá, blá, blá. Pule as perguntas idiotas.

Hawks olhou ao redor, incapaz de sustentar o olhar do outro. A cozinha estava limpa e organizada. A cafeteira piscava no balcão da pia e o cheiro de café fresco flutuava no ar. Ao lado, a porta do quarto entreaberta revelou a cama com lençóis bem-arrumados. À primeira vista, não parecia um lugar ruim.

O inferno de Endeavor também não pareceu.

— Por que está aqui, nesse lugar?

Touya encolheu os ombros, sua expressão era a típica máscara de indiferença zombeteira que tanto confundiu Hawks no passado.

— Esse é o meu inferno.

Hawks mordeu o interior da bochecha. A picada de dor era uma gentil distração do buraco que se abriu em seu estômago. Seria impossível negar que o relacionamento deles fora digno de um inferno, ainda assim... ainda assim...

— Também é o meu paraíso — acrescentou Touya.

*

Trinta e seis anos atrás...

Hawks pousou na sacada e avançou para a sala de estar a passos pesados. Seu sangue fervia com uma irritação indisfarçável.

São duas da manhã. É melhor ter um bom motivo para invadir o meu apartamento.

Dabi sequer o olhou. Zapeava os canais da televisão como se estivesse deitado no sofá de sua própria casa.

Não é invasão quando você entra pela porta da frente.

Você arrombou a minha porta?

Usei a chave.

Como diabos conseguiu a minha chave?!

Dabi sorriu.

Sou um homem de muitos talentos.

Hawks se perguntou pela milésima vez por que não enviava esse babaca para uma cela do Tártaro. Bem, se a Comissão não o permitiu prender Dabi após o fiasco com o High-End, uma invasão de propriedade dificilmente seria um bom motivo.

Foda-se, o que você quer?

Dabi soltou o controle remoto e se concentrou nele.

Você anda meio distante, penas. Está repensando sua lealdade?

A pergunta vagou na linha tênue entre uma brincadeira e uma acusação. A ambiguidade era uma característica do vilão, o que sempre colocava em dúvidas o quanto ele acreditava no compromisso de Hawks com a Liga. Às vezes, Dabi parecia refém dessa teia de mentiras. Outras vezes, como agora, parecia a própria aranha a tecer os fios.

Hawks elaborou a resposta com cuidado.

Sabe que tenho uma imagem para manter. A agenda do herói número 2 é um caos, não tenho tempo nem para me coçar. Seu último pedido colocou ainda mais trabalho na minha mesa.

E vai fazer?

Pode apostar. Só estou esperando o momento certo. Não posso deixar brechas para que desconfiem de mim, não é? — Na verdade, matar um herói do alto escalão seria mais simples se Hawks estivesse realmente disposto. Forjar uma morte era bem mais complicado. — Tenha paciência, coisa quente. Não vou te decepcionar.

Dabi se ergueu do sofá e se aproximou.

Pobrezinho, está sobrecarregado com tanto trabalho? — Dabi tocou as penas primárias da asa dele. O calor de seus dedos enviou arrepios pela pele de Hawks. — Posso te ajudar a relaxar.

Hawks planejara passar uma noite tranquila. Restos de okonomiyaki e quatro horas de sono o esperavam em sua casa em Meinohama. Curvar-se sobre o encosto do sofá enquanto Dabi arremetia por trás foi uma grande mudança de planos, mas... certas coisas eram inevitáveis.

*

— Inferno e paraíso podem ser o mesmo lugar? — questionou Hawks.

— Eu sei, é estranho. Minha teoria é que inferno e paraíso são estados de espírito. Tudo aquilo que te fez infeliz em vida pode virar o seu inferno. O que te fez feliz, pode virar o seu paraíso. No fim, o lugar faz pouca diferença.

Um silêncio denso encheu o ambiente enquanto Hawks reuniu coragem para perguntar:

— O que esse lugar é para você agora? Inferno ou... paraíso?

Os olhos de Touya se fixaram nele, frios e afiados como a ponta de uma lâmina.

— O que acha?

*

Trinta e seis anos atrás...

Hawks se sentou na beirada da cama. O vento gelado a entrar pela janela o incitou a retornar para debaixo dos cobertores e se enrolar outra vez no corpo quente de Dabi. Hawks se levantou, tanto porque estava atrasado para o trabalho quanto para provar a si mesmo que poderia resistir às tentações. Aquilo não era real. Quer dizer, o frio do inverno e o calor agradável de Dabi eram reais, infelizmente. Contudo, o conforto de uma companhia ao amanhecer era o tipo de ilusão que Hawks tinha que evitar. Dabi não significava nada, a relação deles se baseava em conveniências. Hawks o mandaria para a prisão na primeira oportunidade.

Vestiu-se em silêncio, sem olhar para a forma adormecida entre os lençóis. Saiu do quarto e só então invocou as penas de volta para as asas. Skeptic não parecia interessado nos encontros sórdidos entre um herói e um vilão, mas nada o impedia de reunir vídeos comprometedores para o futuro.

Hawks devia ir embora. E estava indo embora. Só que seus pés fizeram um desvio para a cozinha. A cafeteira recém-comprada oferecia uma vantagem tática: não precisava parar em uma loja para comprar café. Isso poupava preciosos minutos no caminho para a agência. Se a máquina evidenciava a frequência com que dormia aqui, bem... ainda era uma vantagem. E se deixava uma caneca de café preparada para outra pessoa beber, bem... estava apenas sendo gentil.

*

— Não sei o que achar.

— Sabe, sim. Só está com medo de admitir.

— Poderia ficar fora da minha cabeça? Por favor?

— Por quê? Isso está sendo bastante útil. — Touya apoiou o cotovelo no tampo da ilha e descansou o queixo na palma da mão. — É a primeira vez que te vejo por completo. Sem máscaras, sem mentiras. Entendo porque tem tanta dificuldade em se expressar. Você é uma bagunça perturbadora. Quer um pouco de ajuda?

— Não.

Touya sorriu. Um sorriso cruel.

— Você está assustado.

— Isso é ridículo.

— Não esperava me encontrar; não entre as suas cinco pessoas, não no seu apartamento. A minha aparição te aterroriza. Ao mesmo tempo, está aliviado por me ver de novo. O embate entre um e outro está te partindo ao meio.

Hawks engoliu em seco, sem conseguir contradizê-lo. Touya continuou:

— A ideia de que esse é o meu inferno te enche de remorso. Você sabe que estragou tudo...

— Não estraguei tudo.

— ... e está em negação.

— O que queria que eu fizesse? A Liga planejava destruir o país. Centenas de vidas inocentes se perderam por causa da guerra que vocês causaram. Jamais apoiaria isso. Mesmo se não fosse um herói, jamais ficaria do lado dos vilões. Quem estragou tudo foi você!

*

Trinta e cinco anos atrás...

Hawks parou diante da porta. O cansaço de dezesseis horas de trabalho retardou os movimentos de sua mão em busca das chaves. Detestava portas. A sacada oferecia uma entrada mais rápida e prática. Contudo, um vilão de gosma ácida garantiu que ele não conseguiria voar por alguns dias. Suspirou ao entrar no genkan e abaixou-se para retirar as botas. Devia estar em sua casa espaçosa em Meinohama, onde o retumbar das ondas na praia embalaria seus dias de recuperação. Em vez disso, percorreu o corredor do pequeno apartamento, onde os sete andares de altura pouco abafavam o vibrar dos carros na rua.

Música preenchia o ambiente — batidas fantasmagóricas de um subgênero eletrônico que devia ser febre entre as boates clandestinas do país. Dabi estava na cozinha, de costas para Hawks, balançando a cabeça no ritmo da música enquanto mexia nas panelas no fogão. O cheiro familiar indicou que teriam soba para o jantar.

Um sorriso dobrou os lábios de Hawks contra sua vontade. Dabi daria uma ótima dona de casa: sabia cozinhar, tinha um forte senso de organização e até costurava as próprias roupas. A tendência ao mal humor era administrável; a personalidade ácida era meio divertida. O sexo era fantástico. E, olhando por um determinado ângulo, ele quase parecia bonito. Hawks não sabia o que fazer com essas informações, só podia imaginar o que faria se Dabi fosse qualquer coisa menos um vilão de rank A que ameaçava a segurança nacional.

Vai ficar parado aí pra sempre? — indagou Dabi, ainda mexendo nas panelas.

Bem que queria — respondeu Hawks, e o repentino acesso de sinceridade o pegou desprevenido, assim como a pontada de dor entre as costelas.

Não havia para sempre no futuro deles.

*

— Você jogou a sua vida fora por uma vingança sem sentido! — acusou Hawks. — Seu ódio te transformou em mais uma ferramenta descartável nos planos do All for One. E tudo pra que? Destruir a carreira do seu pai? Vai se foder, Touya! Você morreu com 24 anos! — A voz dele embargou. — Você foi a sua maior vítima.

A expressão de Touya suavizou. Resignação ou tristeza, Hawks não conseguiu definir, mas machucou mais do que os olhares cáusticos.

— Quem disse que me importava? Morrer, viver, pra mim dava no mesmo. Minha “vingança sem sentido” — desenhou as aspas no ar — foi a única coisa que me manteve de pé por tanto tempo. Sem isso, eu nem teria te conhecido... Mas já passei pelas minhas cinco pessoas, Hawks. Agora, é a sua vez. Vamos falar sobre a vida exuberante que construiu nas últimas décadas. Foram dois casamentos, certo?

— Isso não é da sua conta.

— Ah, desculpe, três casamentos. E três divórcios. Todos pelo mesmo motivo: a sua obsessão pelo trabalho. Convenhamos, admitir que tem dificuldade em se relacionar com outros seres humanos seria complicado demais. É mais fácil culpar sua extensa carga horária por não conseguir conversar com sua própria esposa.

— Nunca fiz isso!

— E voltamos para a negação. Você acredita que deu o seu melhor em cada casamento, mesmo tendo rejeitado qualquer sugestão de fazer terapia de casal. Na sua opinião, os términos foram amigáveis, mesmo que seu último marido tenha jurado nunca mais olhar na sua cara. Hawks, Hawks, Hawks, quando vai parar de justificar os seus erros?

Os olhos de Hawks arderam sob a pressão das lágrimas represadas.

— O que quer que eu fale? Que minha vida amorosa foi um completo fracasso? É, ela foi. Sei que cometi erros, muitos erros, mas fiz o possível para compensá-los. Não é o suficiente?

Touya desviou o olhar para o fundo de sua caneca. O leve franzir entre suas sobrancelhas revelou um toque de pesar.

— Alguns erros não podem ser compensados. Tudo o que pode fazer é aceitar as consequências.

Uma premonição derramou água fria nas costas de Hawks.

— Isso não é sobre os meus divórcios.

Touya o encarou, os olhos encapuzados por emoções densas e ilegíveis.

— Não.

A temperatura do ambiente aumentou, assim como o medo dentro de Hawks.

— Do que está falando?

Touya colocou a caneca de lado e se aproximou dele. Hawks se enrolou em si mesmo enquanto seus instintos guerreavam entre o impulso de correr do outro ou correr para ele.

— Quer ouvir um segredo que carreguei para o túmulo? — perguntou Touya. Os poucos centímetros a separá-los sufocaram qualquer resposta de Hawks. — Lembra quando disse que nunca confiei em você? Pois é, eu menti. Você me enganou direitinho.

*

Trinta e cinco anos atrás...

Hawks sabia que era a última vez e por saber agiu como se fosse a primeira. Adentrou o apartamento com uma porção generosa de frango frito e uma garrafa do melhor shochu. Levou Dabi para a sacada, onde comeram e beberam entre brincadeiras e risadas. Lavaram a louça juntos, e juntos se sentaram no sofá para assistir a um filme. Ainda nos créditos de abertura, Hawks se debruçou sobre Dabi, ansioso por um beijo que aplacasse o latejar da saudade já presente em seu peito.

Dabi o chamou de afoito. Hawks culpou a primavera.

É a temporada de acasalamento.

Os dois se dobraram de rir, bêbados de álcool e de uma intimidade que ia além dos corpos nus. Transaram no sofá, no chão e contra a porta do quarto. Desabaram na cama com os membros entrelaçados. Dabi dormiu o sono dos mortos. Hawks mapeou as linhas do rosto dele até conseguir vê-lo de olhos fechados. Quando o sol raiou, vestiu o uniforme reserva no armário, tomou café, preparou o café de Dabi e deixou uma mensagem:

Vou ficar fora da cidade esta semana

Te vejo na Vila Gunga

Partiu sem analisar o porquê de seus olhos lacrimejarem.

*

O coração de Hawks murchou. Os sentimentos presos em sua garganta fizeram seus lábios tremerem.

— Não tive escolha...

— Hawks...

— ...você estava errado...

— ...pare de se justificar...

— ...a Liga queria destruir o país...

— Chega! — A voz de Touya chicoteou no ar. A temperatura entre eles atingiu o ponto de ebulição. — Isso não é sobre a Liga. Você, seu traidor filho da puta, você partiu o meu coração.

— Você queimou as minhas asas!

— Sim, queimei! E fiquei muito satisfeito. Está vendo só? Não é tão difícil admitir as próprias merdas. Por que não experimenta?

— Eu me apaixonei por você! — exclamou Hawks. — Sabia que era errado, sabia que terminaria em uma tragédia, mas não me importei. Queria ficar com você. Eu dizia para a Comissão que tinha reuniões urgentes com a Liga sempre que queria te encontrar. Meus amigos perguntavam se eu estava saindo com alguém e eu queria dizer que sim, que tinha encontrado uma pessoa com quem poderia passar a vida inteira, mas você era a porra de um vilão e eu tinha que te prender. Então eu mentia. Mentia para todo mundo o tempo todo. Mentia para você. E para mim. Tudo para esconder o quanto te amava.

*

Trinta e cinco anos atrás...

Hawks brincou com a chave em suas mãos. O celular a vibrar em seu bolso era um lembrete de que não deveria estar ali. As penas deformadas que eclodiam do tecido cicatricial em suas costas mal serviam para sentir a vibração de outras pessoas. Sozinho, era um alvo fácil para os vilões à solta na cidade. Porém, preferia correr o risco e ouvir as broncas de Best Jeanist do que explicar o que aquele pequeno apartamento significava.

Prendendo a respiração, destrancou a porta. Saber que não havia ninguém lá dentro incomodava tanto quanto a possibilidade de haver. Dabi... ou melhor, Touya... só retornaria para aquele lugar se fosse para dar um fim definitivo à vida de Hawks. Por que diabos estava ali?

A resposta não estava no genkan, nem na sala, nem na sacada, nem na cozinha, nem no quarto, nem no banheiro. A resposta estava no vazio de bordas afiadas que se abriu dentro dele ao perceber que nunca mais teria o soba de Touya para o jantar. Não era o melhor soba do mundo, mas era o único cujo cozinheiro beijava os lábios de Hawks antes e depois da refeição.

Na solidão da cozinha escura, derramou lágrimas silenciosas. Depois, enxugou o rosto, guardou seu coração e foi embora.

*

Hawks espalmou as mãos na boca. A confissão pairou no ar escaldante, expondo suas partes mais vulneráveis ao olhar penetrante de Touya. O silêncio se instalou. Touya se contentou em olhá-lo nos olhos, como se medisse as rachaduras recém-expostas. Não havia prazer em seu rosto, apenas uma resignação cansada.

— Eu também te amava.

A tensão vazou do corpo de Hawks conforme o conceito se assentava. Seus músculos perderam a firmeza; suas asas cederam, seus ombros despencaram. O vazio o preencheu enquanto contemplava a grandiosidade de uma vida com a qual nunca se permitiu sonhar: uma vida amando Touya e sendo por ele amado.

Ao redor deles, o apartamento entrou em combustão. Chamas azuis se alastraram pelo teto e desceram pelas paredes. O brilho do fogo iluminou a extensão dos arrependimentos de Hawks.

— Eu estraguei tudo.

— Nós estragamos. — Touya ergueu uma das mãos. Em sua palma, o azul do fogo era ainda mais intenso. — Arruinamosum ao outro. Não dá para mudar.

A compreensão despertou um fio de alarme, mas Hawks não se permitiu acalentar a ideia de resistir, barganhar ou fugir. Concentrou-se na lição que Touya deixou em sua curta passagem pela terra e que só agora fazia completo sentido.

— O passado nunca morre.

Touya tensionou o maxilar. Seu cenho franzido não encobriu o brilho aquoso em seus olhos.Hawks daria qualquer coisa para saber o que passava na cabeça dele. Touyaestendeu a mão devagar, evidenciando o movimento em direção a uma das asas— um gesto que poderia ser chamado de gentileza.Os dedos quentes acariciaram uma pena primária e Hawks apertou as pálpebras fechadas. O toque suave despertou lembranças soterradas pelo tempo. Durou pouco, muito pouco.

Logo, tudo o que Hawks sentiu era o arder do fogo.

*

As chamas se espalharam pelas asas em segundos. Dor e agonia bombardearam a conexão tátil entre penas e cérebro. O instinto incitou Hawks a rolar no chão em busca de alívio. Manteve-se imóvel, cerrando os dentes para conter os gemidos. Sua mente se transportou para as ruínas da Vila Gunga, para o caos de uma batalha de vida ou morte da qual saiu vivo, porém derrotado. Quando o fogo atingiu os apêndices, consumindo pele, músculos e ossos, os joelhos dele fraquejaram e seu corpo vergou. Braços ampararam seu peso até o chão e um peito firme ofereceu refúgio para o seu rosto banhado em lágrimas.

Um pássaro engaiolado ou um pássaro sem asas. Fosse pelos erros dos outros ou pelos seus próprios, Hawks nunca voou livre.

*

O incêndio se extinguiu por conta própria. Em seu rastro ficou um apartamento carbonizado e um par de asas reduzido a cinzas. A dor se foi; restou a desolação de costas leves demais. Hawks se agarrou a Touya com mais força. Preferia enfrentar as chamas outra vez do que chorar na frente de alguém, porém seu autocontrole se rompeu e o rio de lágrimas transbordou. Sem outra opção, engoliu a vergonha e chorou as mágoas de uma vida inteira, desde o nascimento indesejado à morte solitária.

Uma eternidade se passou antes das lágrimas se acomodarem em um nível administrável. Hawks ergueu o olhar para Touya.

— Você me odeia?

Os olhos azuis deslumbrantes, intimidantes, o encararam por um longo segundo. Hawks se arrependeu da pergunta, temendo os estragos da resposta.

Touya juntou suas testas.

— Veja por si mesmo.

*

A paisagem interna de Touya era quente como um dia de verão à beira mar. Suas emoções irradiavam a luz ofuscante do sol do meio dia. Seria insuportável sem a brisa orvalhada de uma mente em equilíbrio. Os pensamentos fluíam em correntes oceânicas. Levaram Hawks para uma viagem pela vida de Touya — lembranças e traumas, esperanças e frustrações. Todas as peças daquela trajetória caótica e prematura se organizaram para revelar a imagem de uma criança machucada demais para evitar a própria tragédia.

Testemunhar o comportamento de Endeavor em primeira mão obliterou os argumentos de defesa de Hawks. A única alternativa era aceitar que seu maior ídolo fizera coisas imperdoáveis.

Curiosamente, no âmago incandescente de Touya, a memória do pai não invocava raiva, ressentimento ou ódio. Havia um pulsar de tristeza que logo se transformava na mais leve das aceitações. Hawks estudou o sentimento com espanto. De todos os adjetivos que passaram em sua mente, o mais adequado para aquilo era paz.

E estava correto.

No céu, Touya encontrou a paz — o passado passou, as feridas cicatrizaram e ele seguiu em frente. Mil paraísos se apresentaram para ele, mas o único a cativar seu espírito residia em um pequeno apartamento,onde um mar de mentiras dividia espaço com uma doce expectativa:

Quando ele vai chegar?

*

Hawks arregalou os olhos.

— Você estava me esperando.

O vínculo a conectá-lo com Touya revelou uma onda de constrangimento.

Não fique convencido, idiota.

Hawks colocou as mãos na cabeça. Sentia Touya em sua mente tanto quanto o sentia pressionado ao seu corpo. Os pensamentos e sentimentos deles se embaralhavam em um ritmo frenético.

— Você se acostuma — disse Touya.

Acasualidade deleplantou uma risada nervosa na garganta de Hawks. Não conseguiu definir se estava triste, feliz, os dois ou umaquarta alternativa.Concentrou-seem algo mais simples:

— Você acha que envelheci bem.

Os olhos de Touya brilharam. Dedos longos brincaram com uma mecha do cabelo de Hawks.

— Até que branco combina com você.

O peito de Hawks expandiu e encolheu. Segurou a mão de Touya e mergulhou na imensidão dos olhos dele. Palavras se tornaram desnecessárias conforme suas mentes entravam em sincronia. A intimidade era esmagadora; a vulnerabilidade era ainda pior, mas Hawks podia fazer isso. A necessidade de mentiras e subterfúgios ficou no passado. Não havia mais HPSC ou Liga dos Vilões. Havia apenas ele, Touya e os sentimentos outrora sufocados.

Eu te amo.

Você me magoou.

Fique comigo.

Sinto muito.

Você me faz feliz.

Eu te perdoo.

Hawks repousou a cabeça na curva do ombro de Touya. Ele cheirava a café recém-passado e uma manhã preguiçosa na cama. Era o cheiro que Hawks procurou em seus casamentos — o que conduziu a espetaculares fracassos. Mas estava ali outra vez, ao alcance dos sentidos, trazendo o conforto e o contentamento de, finalmente, estar em casa.

— Então é assim? — indagou Hawks. — Estar no paraíso?

Touya não respondeu.

Não poderia responder.

Assim que as palavras deixaram os lábios de Hawks, Touya desapareceu.