O país secreto.
46 Um imprevisto
Notas iniciais
Minha mente é um turbilhão, repassando a todo o instante a conversa entre Stive e Larm. De uma forma muito especial, o que Larm dissera mexeu comigo. Não sei por que ainda ajo como uma menininha boba, sorrindo sempre que lembro seu sorriso, ou suspirando ao ouvir alguma declaração dele sobre mim. Eu não agia assim desde os treze anos, quando fui "apaixonada" por um metido idiota quatro anos mais velho. Mas é uma grande tolice comparar Larm à ele; o que eu senti aos treze anos é completamente distinto do que Larm me faz sentir hoje em dia. Acho que nunca gostei tanto assim de alguém.
É no momento em que avisto ao longe o nosso grupo que pondero que vou abrir meu coração para Larm. Vou lhe dizer o que jamais teria coragem se não estivesse indo para uma guerra impossível. Direi absolutamente tudo; desde como meu coração balança ao vê-lo até... Até o quanto achei-o fascinante desde a primeira vez em que nos vimos. Sei que pode parecer clichê, mas o que tenho a perder? Larm já deixou claro que gosta de mim. Já nos beijamos e já passamos muito tempo juntos. Eu até havia dito que o amo! Mas nunca tivera coragem de dizer-lhe, em detalhes, como o amo. O que eu sinto quando estou com ele. O efeito que ele me proporciona. Só não quero morrer antes de poder lhe dizer isso. Fazer ficar claro o quanto ele importa para mim...
Sacudo a cabeça e recomeço a andar, só então me dando conta de que havia parado. Uma brisa morna atinge meu rosto, esvoaçando o cabelo curto, e o céu não possui quaisquer vestígios de nuvens, apenas um sol muito brilhante que me faz lembrar o Rio de Janeiro... Meu lar. Lá as estações são bem malucas, e a temperatura está bastante alta na maioria das vezes. Ah, como eu sinto saudades!
Meus pés esmagam gravetos, e o som é o único que se faz ouvir além dos farfalhares das árvores e as risadas distantes dos meus amigos. Assim que vou dar outro passo, no entanto, sinto uma mão cobrir minha boca e me puxar para uma moita.
Eu quero gritar; tento morder a mão da pessoa, mas não consigo. Só quando ele me força a abaixar, e eu posso ver seu rosto — ou melhor, seus rostos — me contenho.
Se trata de um casal — provavelmente irmãos. Ambos possuem a pele negra e o cabelo encaracolado, e seus olhos vermelhos são bem diferentes dos de Demmie — muito mais intensos e cintilantes. Eles são lindos, tanto ele, quanto ela. Ele é forte, de feições duras e barba rasa, com um jeito de olhar bastante peculiar, emanando perigo e superioridade. Ela, dona de um corpo curvilínio e rosto fino emoldurado pelos belos cachos de cabelo. Vestem-se como se viessem de algum deserto, com apenas farrapos encardidos, mas ainda assim estão em condições admiráveis para quem mora numa floresta.
Ele pressiona o indicador nos lábios quando eu faço a menção de gritar, o que seria difícil com a mão dele cobrindo minha boca. Só quando me tranquilizo, ele recolhe sua mão.
– Quem são vocês? — Disparo, recuando. — O que querem? Por que me abordaram? O que vão fazer comigo?
Ela olha para ele, e ambos assentem.
– Nikay roier seerd ol kmiss, Feln? — Ela sussurra para ele, numa língua totalmente desconhecida por mim.
Ele me olha de esguelha, como se avaliasse o meio mais fácil de acabar comigo.
– Ner, Delli. — E, só então, resolve falar de um jeito que eu entendo. — E ela fala português.
Apesar do seu sotaque arrastado, ele incontestavelmente fala muito bem meu idioma. Engulo em seco, sentindo o arbusto espetar minhas costas enquanto recuo.
– Por favor, não façam nada comigo — Suplico. — Por... Por favor.
A mulher abre um sorriso.
– Olhe, Feln. Parece um bichinho acuado.
Feln a censura com o olhar, deixando claro quem dá as ordens por aqui. Ela não monstra-se intimidada, apenas dá de ombros como quem diz que não está nem aí.
– É Emma, não é? — Indaga Feln. — Estive aguardando o momento em que estivesse sozinha. A vi conversando com um tal de Dill, uns minutos atrás, mas Delli e eu sabemos que você é única com quem poderíamos ter essa conversa.
Alterno olhares entre Delli e Feln, desconfiada.
– O próprio Doquo está aqui — Digo. — Por que eu seria mais importante que ele para vocês?
Feln segura meu braço, numa urgência inacreditável.
– Doquo destruiu nossa aldeia há muito, depois de uma grande parte de nós lutar contra ele numa batalha. Poucos conseguiram continuar vivos, mas os que conseguiram acabaram se aliando à Vindre, quem nos deu uma grande bênção... — Ele olha para cima. — A capacidade de encarar o dia sem temor. Desde então, lobos vêm tentando destruir o restante de nós. Eles tentam a todo custo. E o único jeito de acabar com eles é o fogo mágico.
– O raro fogo mágico — Ecoa Delli, dispersa.
Deixo o medo de lado por um instante para ligar os pontinhos e desvendar esse enigma. Eu costumava ler muitos livros e adoro filmes fantasiosos. Não demoro a perceber com quem estou falando, e me levanto num pulo, apontando de um ao outro.
– Vampiros! — Exclamo. — Vocês são vampiros! Aversão à luz do dia... Rivalidade com lobos... É claro!
Delli solta o ar dos pulmões enquanto seu irmão se levanta e segura em meus ombros.
– Emma, não há tempo — Diz ele entre os dentes. — Você precisa nos ajudar. Atacar a matilha... Eu te levo até lá. Somos mais velozes do que imagina. Prometo que voltamos antes do anoitecer, mas venha conosco.
Abaixo as pálpebras e coloco as mãos nos quadris feito uma velha.
– Por que eu faria isso?
– Porque se não fizer — Delli se levanta. — Te matamos e sugamos seu sangue.
Meu coração erra uma batida. Feln, no entanto, lança outro de seus olhares severos à ela e ela mais uma vez pouco se importa. Ele se volta para mim.
– Se não fizer — Começa. — Todos os que ama vão sofrer. Os lobos estão vindo, e eles não estão para brincadeira. Afora isso, também tem os vampiros que fazem de tudo por um pouquinho de sangue. Você quem sabe: ou luta contra uma alcateia, ou contra uma alcateia e um monte de vampiros sedentos de sangue. A escolha é sua.
Fecho os olhos com força, até minha cabeça doer. É só eu encontrar Drafe, me teletransportar para perto do castelo e terminar de vez com essa porcaria. No entanto, se esses dois vampiros estão aqui, e Drafe só consegue teletransportar o total de quatro pessoas por vez... Alguém vai morrer. É a minha vida pela vida deles. Eu preciso fazer isso.
– Tá ok — Digo, abrindo os olhos e assentindo. Delli enrola um cacho de seu cabelo com um ar de divertimento no rosto e Feln mantém sua expressão séria e impenetrável. — Eu vou com vocês. — E logo acrescento: — Mas... Se eu vencer, seu grupo e vocês terão de lutar ao nosso lado contra Vindre.
Delli ri, sem qualquer humor.
– Fala sério — Resmunga. — Foi ele quem nos presenteou com a capacidade de transitar em plena luz do dia. Foi ele quem esteve ao nosso lado quando Doquo estava contra. Se o matarmos, o que acontece conosco?
Espero outro olhar rígido de Feln para ela, mas agora ele parece estar de completo acordo. Pigarreio, disfarçando o incômodo que isso me causa.
– Então esqueçam, sem negociação — Minha voz tremula, e eu me xingo mentalmente por isso. — Nosso grupo é composto por um rei poderoso, cinco de seus netos fantásticos, cinco guardiões imortais, um hipinotizador muito impressionante, uma protetora e... E um... Humano.
Bem, digamos que o Liam mancha a nossa reputação de "super grupo". Todavia, para não ficar por baixo, completo rapidamente.
– Um humano que sabe usar o arco e flecha como ninguém.
Delli abafa o riso, no passo que Feln suspira, vencido.
– A palavra é algo que se preze em um vampiro — Ele diz, brando. — Nós somos conhecido por nossos juramentos eternos e inquebráveis. Se jurarmos lutar ao lado do vosso avô, lutaremos. — Quando sinto uma pontinha de alívio, ele aponta para o meu nariz. — Contudo, podemos ser considerados completamente intolerantes quando somos traídos. E, na correnteza da traição, vai embora todo o juramento que um dia fizemos; portanto — Ele aproxima seu rosto do meu, passando a sussurrar. — Quebre sua promessa e mataremos, um a um, aqueles que ama. E o primeiro vai ser o seu avô; por último, você. Quero que assista a cada um deles agonizando e implorando pela morte. Quero que veja a dor nos seus olhos. Que sinta seu desespero.
É como se alguém tivesse jogado um monte de areia na minha boca e me obrigado a engolir. Sinto os olhos arderem; o medo crescer ainda mais. Não sei como pensei que eles ficariam do nosso lado, à primeira vista, mas agora eu vejo que estou muito encrencada. Recuo dois passos, espreitando rapidamente por cima do ombro para ver se posso enxergar meus amigos... Mas só vejo mato. Não tenho coragem para chamá-los, temo que as palavras de Feln se concretizem; então assinto, cerrando os punhos, e digo:
– Conta comigo.
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