O país secreto.
11 No jantar.
Notas iniciais
Depois de toda aquela história contada por Arismir, o velho maluco, ninguém ousa pronunciar uma só palavra durante o jantar. Estamos os sete em volta da mesa, Arismir e Birc comem sua janta sentados na poltrona. Há uma cadeira vaga ao meu lado, que Myafa ocupa assim que termina de nos servir. Sinceramente, aquela é janta mais esquisita que já comi em toda minha vida, mas minha cabeça está tão envolta em pensamentos que nem percebo o que estou comendo até que a colher- que pode servir como faca também, devido à sua ponta, que não é arredondada como as colheres normais, mas reta, podendo assim cortar o alimento.- chegue à minha boca. Quando o gosto doce, que lembra baunilha, toma conta de minha língua, automaticamente abaixo o olhar para o prato. O que estou comendo é uma espécie de geleia de mato, sei lá. O sabor é bem estranho, já que se trata de um jantar, e sabores doces como baunilha, não deveriam fazer parte do cardápio. Ao lado tem uma fatia de alguma coisa, que poderia ser presunto. Ergo os olhos e olho os outros, que estão tão surpresos quanto eu, e depois baixo novamente o olhar, interessada em experimentar a tal fatia. Corto-a com a ponta da “colher” e depois levo-a lentamente a boca. Arregalo os olhos quase imediatamente, sentindo minha boca queimar. Parece até que estou comendo pimenta, imediatamente começo a abanar minha boca com a mão, chamando a atenção de todos. Myafa se levanta afobada, e busca um galão de água, colocando um pouco num pote, que eles usam como copo.
Ela parece desapontada.
O efeito é o mesmo para meus irmãos, Dianna, Liam e Amélia. Apenas Hellena parece ter gostado. No fim, o galão d'água está vazio, e Myafa parece magoada.
–Eu achei que gostariam de Kirqs.- Ela diz, se jogando na cadeira.- Preparei eles com carinho, e peguei do estoque de caça de meu pai.
–Eu gostei.- Diz Hellena, com os lábios mais vermelhos que o normal. Myafa lhe lança um sorrisinho fraco.
–Esquece, Myafa.- Birc diz, sem paciência.- Dá logo a notícia.
–Notícia?- Pergunto ainda com a boca ardendo.
–Meu pai pediu para mim treinar vocês.- Myafa diz, apontando para a poltrona vaga. Não sei como, mas Arismir saiu dali e eu nem percebi. Acho que foi na hora que minha boca pegava fogo.
–O que quer dizer com “treinar”?- Pergunta Stive.
–Ajudar vocês a descobrirem seus dons.- Myafa diz com simplicidade.- Mas vou dar um aviso: É possível que alguns de vocês não possuam dom nenhum, já que são filhos de nativos daqui com nativos do mundo de lá.
–Mas... posso te perguntar uma coisa?- Pergunta Hellena, e eu já fico atenta esperando alguma ironia.- Se tivermos poderes poderemos fazer aquele treco maneiro com os olhos?
Vejo Dianna girando os olhos para o que ela disse.
–Naturalmente.- Birc diz.- Mas isso exige muita prática e esforço.
–Ih, então esquece.- Hellena cruza os braços.
–Eu espero vocês amanhã na sala de treino.- Myafa diz, só que eu não faço a menor ideia de onde fica esse lugar.- Por favor, não demorem. Devemos começar bem cedo, já que terão de embarcar em uma missão perigosíssima.
Myafa sai da cozinha, e nós nos entreolhamos.
–Acho que Amélia e eu ficaremos por aqui mesmo.- Diz Liam.
–Bom pra vocês.- Retruca Hellena.- Pelo menos nós vamos nos divertir nessa tal de missão.
–Ou morrer.- Completa Will, sombrio.
–Pra mim tanto faz ir ou não.- Dianna dá de ombros.- De qualquer forma estamos condenados a ficarmos presos para sempre.
–Talvez não.- Digo.- Se for realmente verdade o que o velho disse, nós bem que poderíamos procurar esse ex-rei e pedir para ele conjurar um portal.
–Se for verdade o que Arismir disse- Stive diz, pensativo.- Nós, como netos do rei, poderíamos conjurar o portal sozinhos.
Desvio o olhar para Birc, que tenta guardar cada palavra dita por nós. E se Stive tiver razão? E se, depois do devido treinamento, pudermos conjurar um portal sozinhos? Balanço a cabeça, convicta de que já estou ficando maluca por acreditar nessa história. Se fosse verdade, minha mãe já teria comentado isso comigo. Mas não pode ser... Ou pode? O fato é que vim parar num lugar desconhecido, com pessoas de olhos esquisitos, numa casa completamente fora do normal, então, a essa altura, acho que tudo é possível.
Me levanto e saio vagarosamente da cozinha, recebendo o olhar de todos os outros.
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