O país secreto.

26 A reação de Hellena


Notas iniciais
Gente, desculpem a ausência, é que está complicado postar devido à internet que não ajuda. Mas o capítulo a seguir foi feito com carinho, e espero que gostem :D

Alguns minutos depois, estou caminhando distraidamente rumo a caverna. Não sei como, mas vou dizer toda a verdade à Hellena. Demmie tem razão. Devo ser forte, corajosa, mesmo que às vezes isso pareça impossível. E Hellena, mais do que ninguém, sabe se manter de pé mesmo quando o mundo desaba à sua volta. É a pessoa mais corajosa, mais destemida que conheço. E por isso a admiro. Se tivesse um terço de sua coragem, não teria deixado Luize morrer, a teria resgatado antes da tragédia. Teria erguido a cabeça e seguido em frente, encarando o que viesse no caminho. Até mesmo encararia a morte, se necessário fosse, apenas para salvá-los. Libertá-los. É exatamente isso que eu quero: Vê-los livres.

Então avisto a caverna. Há duas pessoas discutindo e, meus instintos me dizem que uma delas é Hellena. A outra não consigo identificar ao longe. Mas posso vê-lo recuar, enquanto Hellena investe contra ele com pontapés e tapas.

Hellena sendo Hellena.

Sei que seus tapinhas não causam efeito algum sobre quem quer que ela esteja brigando, pois além de mim e dela, só há mais quatro pessoas que vivem na caverna: Todos eles homens. Quase todos adultos, com exceção de Liam. Então presumo que ela não esteja fazendo mal algum a ele, senão o assustando com sua fúria transparente.

Continuo a andar rumo a eles, semicerrando os olhos para identificar a outra pessoa.

Liam.

Ela o empurra para trás, gritando ofensas que prefiro não mencionar. Os olhos verdes amarelados de Liam estão arregalados, mas não ousa levantar a mão para ela.

Permito-me um sorriso, diante da cena engraçada. Os olhos de Liam me encontram, suplicantes.

Parece que cheguei na hora certa, pois os cabelos de Hellena já estão começando a ficar brancos e a pele a perder toda a cor.

–Eu falei para você!- Ela ralha com ele.- Para não me encher o saco! Escuta aqui, seu metidinho, eu não respondo pelos meus atos!

–M-mas o que eu fiz?- Sua voz é um gemido.

–Tirou sarro de mim!- Ela grita.- Você pode até ser bonitinho, mas ninguém, repito, ninguém, tira sarro de mim!

Me aproximo mais, pigarreando o mais alto que consigo, para chamar a atenção de Hellena. Seus olhos inteiramente negros voltam-se para mim. Os lábios estão tão roxos que é como se estivesse dormido em uma geladeira.

–Péssima hora, moça, péssima– Ela diz, irritadiça.

Suspiro.

–Eu...- Engulo em seco.- Preciso falar com você.

Vejo, com o canto do olho, Liam soltar o ar dos pulmões de uma só vez, aliviado.

Ela olha para trás, e Liam lança-lhe um olhar desconfiado, Receando que ela fosse congelá-lo ali mesmo. Depois, Hellena olha novamente para mim, suspirando.

–Pode ser.- Ela diz, ainda com a aparência bizarra. Flocos de neve presos em seus cílios e sobrancelhas.- Vai falando.

–Nós... nós poderíamos conversar no riacho?- Digo, com a voz trêmula. Estou me sentindo péssima, como se meu coração tivesse sido arrancado do peito e substituído por um mais velho e mais cansado.

–Por que? Não quer que o metidinho escute?- Ela olha para trás, mas Liam já havia saído, e eu nem mesmo percebera.

–Hellena, por favor...

Ela cruza os braços e me fita.

–Certo.- Ela diz, lentamente.- Mas vê lá o que vai me contar hein, moça? Não quero nada muito... bombástico.

Forço um sorriso nervoso. Se ela não está preparada para algo... bombástico, como reagiria ao saber da verdade devastadora? Espero a pior das reações, e serei o mais cautelosa possível.

Hellena e eu seguimos pela floresta, com ela reclamando o tempo todo de várias coisas como por exemplo de Liam, dos Buzzes, de Stive, da caminhada cansativa, entre outras. Mas minha mente está longe o suficiente para não prestar atenção à nenhuma palavra dita por ela.

Quando chegamos ao riacho, sua aparência já está parcialmente normal, com exceção dos lábios arroxeados e do cabelo que ainda está branco, mas começa a revelar algumas de suas tradicionais mechas azuis. Ela se senta à margem do riacho de pernas cruzadas e me lança um sorriso sem mostrar os dentes. Mas não me mexo. Continuo paralisada a encará-la, imaginando várias reações que possivelmente teria ao saber da verdade. Congelaria o riacho e, juntamente com ele, Jayssa? Me congelaria? E agora?

–Pode começar quando quiser- Ironiza, endireitando-se.- Só não fique aí com cara de paisagem.

Solto um suspiro. As lágrimas ameaçam brotar em meus olhos, mas não posso permitir isso. Não agora.

Aproximo-me dela e sento-me à sua frente. Ela me estuda atentamente.

–Emma, o que foi?- Pergunta, mais séria.- Está muito abatida...

–Só me prometa uma coisa, Lena- A interrompo.- Seja lá o que eu te disser, não vai fazer nenhuma... loucura.

Ela me lança um olhar desconfiado, e fica de joelhos, sentando-se sobre as pernas.

–Eu... Emma, por favor...

–Birc invadiu meu sonho noite passada.- Solto.- Ele me levou à um tour por sua casa e pelo castelo. Vi Will chorar, Annabely usar seus poderes mediante ao desespero, Júnior cantarolar, Dianna ser jogada violentamente na cela, Chris consolar a irmãzinha...

Seus olhos estão marejados e, com um sussurro quase inaudível, ela pergunta:

–E... e minha irmã, Emma?

Mordo os lábios com força para não cair em prantos.

–Emma...- Seus olhos transbordam e sua voz está abafada.- E Luize...?

–Ela... ela...- Respiro fundo, soltando algumas lágrimas involuntariamente.- Hellena, não chore, por favor...

Ela começa a soluçar descontroladamente e afunda o rosto nas mãos.

–Ela morreu, não morreu?- Pergunta.

Me aproximo dela e a abraço, o mais forte que consigo.

–Responde!- Vocifera.- Ela morreu?

–Hellena...

Então ela me empurra para trás e se levanta, fervilhando de ódio. Sua aparência torna a ficar bizarra, e ela vai em direção oposta ao riacho e depois vira-se para mim, recuando , afastando-se cada vez mais. Não é capaz de controlar as lágrimas, que descem descontroladamente por seu rosto abatido e raivoso.

–Não tem coragem de me dizer?!- Ela grita.- Fala, Emma! Tem pena de mim?!

–Não... não vá fazer nenhuma loucura... Hellena...- Digo, soluçante, me levantando.

–Eu não sou digna de pena!- Brada.- E se... se mataram-na, pagarão um preço alto por isso. Ouviu bem? Alto!

Hellena se vira e sai correndo rumo a floresta. Me levanto e parto atrás. Sinto-me sufocada, frágil, abalada. Entre tropeços e soluços, tento alcançá-la, mas ela foge de meu campo de visão antes que eu consiga dizer mais alguma coisa.

–Hellena!- Chamo com a voz trêmula, mas não há resposta.

Meus olhos vasculham a floresta, mas já a perdi de vista. Deixo-me cair no chão e afundo o rosto nas mãos.

–E-Emma?- Alguém diz, atrás de mim. Viro-me e flagro Liam. O que faz tão longe da caverna? Talvez tivesse vindo para cá depois da briga com Hellena.

Me levanto e o abraço, afundando meu rosto em sua camisa. Hesitante, ele retribui.

–O que foi?- Pergunta, afagando-me os cabelos.

–Ela fugiu, Liam!- Digo, esganiçada.- Hellena fugiu...

–O que?- Ele diz, surpreso.

–Ela vai acabar morrendo...

–Emma, se acalme, vamos voltar à caverna.- Ele diz.

Me afasto dele e limpo o nariz com as costas da mão. Ele me envolve com o braço e nos dirigimos à caverna.

Descemos pela entrada, e eu me encolho em um canto, enquanto Liam vai para outro, e diz alguma coisa a Larm.

Stive me observa, preocupado e se aproxima.

–Aconteceu alguma coisa?- Pergunta.

–Luize morreu.- Falo, soluçando descontrolada.- Hellena fugiu.

Seus olhos se arregalam e ele sacode a cabeça, incrédulo.

Puxo-o para mais perto e o abraço. Ele retribui, e por um momento, me sinto segura. Como se enquanto eu estivesse abraçada ao meu irmão, nada pudesse me atingir. Ele é a única família que tenho perto de mim. Afinal, por mais que Doquo e eu compartilhemos o mesmo DNA, não posso vê-lo como meu avô. Acabo de conhecê-lo e, mesmo que confie nele, ele não é nada além de um completo estranho para mim.

Notas finais
Beijinhos, anjos, e se houver erros, peço que me alertem (sou muito distraída)