O outro lado da Porta.

Arthur Araújo Barros.

Fábio sempre se sentia depressivo às cinco da manhã. Levantava, tomava um banho frio (o chuveiro elétrico quebrara duas semanas atrás), comia qualquer coisa que estivesse pronta dentro da geladeira, geralmente eram frutas (não havia nada mais pronto que isso), escovava os dentes como se eles fossem inquebráveis, vestia uma roupa qualquer (seu armário não era o mais eclético em termos estilísticos), e saía, fechando o apartamento alugado com cuidado.

Aquela rotina era o que o fazia se sentir humano, parte da sociedade e blá blá blá... Não fossem os hábitos diários, ele seria apenas como um animal qualquer. Entretanto, se ele pudesse escolher, seria um Acinonyx jubatus, o guepardo (chita para os mais íntimos). Criatura imponente, o mais rápido do reino animal. Se fosse um desses, fugiria para longe daquela vida medíocre.

Faculdade. Ele cursava biologia em meio período, e os estudos pela manhã o ajudavam a acordar (ambíguo? Eu sei!). Ele via nas estruturas moleculares, nos livros e nos animais uma saída momentânea da própria realidade, se sentia parte de uma coisa maior. Era parecido com o que sentira pela primeira vez que lera Poe. “O coração que palpitava sem cessar, mesmo depois da morte de seu dono, assassinado.”, descrevera seu pai, quando lhe recomendou o autor pela primeira vez.

Trabalho. Em uma loja de eletrodomésticos. Já estava lá a um ano e meio, como jovem aprendiz, louco para ir embora. Já esperava o resultado de um concurso da prefeitura, trabalho administrativo. Nunca mais pisaria em uma loja como aquela novamente. Realmente, não pisou.

Naquele fim de tarde, na hora de fechar tudo (ele era sempre o último a sair), viu as luzes ascenderem no almoxarifado. “Talvez o João ainda estivesse por lá, arrumando o inventário.”. Mas não era, o João saía sempre na hora, gostava de passar na padaria antes de ir para casa, nunca adiava sua saída.

Fábio foi até lá e desligou as luzes. “Problemas elétricos, vou ligar pro técnico pela manhã.”. Poderiam ser problemas na fiação, mas isso não explicava o porque de uma das televisões ligar do outro lado da loja. As imagens eram da propaganda da loja, e se repetiam, sem som.

Ele novamente checou as tomadas, e as desconectou da rede elétrica. A televisão desligou, e ele ficou novamente no escuro. Quando se virou para sair, jurou ter visto uma silhueta grande na frente da porta de saída. Ele parecia acenar para Fábio, como em câmera lenta.

Quando chegou em casa, ele não se sentiu depressivo, não tomou banho, nem comeu frutas no jantar. Apenas abriu a porta da varanda, e avançou o parapeito, mergulhando, foi rápido como um guepardo. Atingiu o chão em segundos que equivaleram os sete andares. Encontrara uma fuga melhor que se tornar felino, melhor que a biologia matinal. Uma fuga melhor do que Poe.

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