O olho de Épon.
1 Capítulo 1
Notas iniciais
O dia estava ensolarado como todos os outros, as crianças do orfanato brincavam nos jardins enquanto uma alta moça de cabelos ruivos e olhos carmesim as observava. Era Victoria, a compaixão que tinha pelas crianças podia ser lida em seu rosto acompanhando os pequenos se divertindo um com os outros...Mas a sua tristeza se escondia em suas memorias de um passado no qual ela não se dava o direito de esquecer.
...
Eram 5 anos antes, em um campo de concentração escondido entre as montanhas nos escombros de uma sociedade que vivera ali a milênios de anos. Os prisioneiros chegavam enfileirados, em suas faces um semblante que ia do desespero à desistência. Eram de uma vila próxima que fora invadida pelo exército da própria nação, não sabiam o que iam passar ali dentro, mas pela forma que foram capturados e levados contra a vontade, sabiam que coisas boas não viriam.
Entre eles uma menina magra de cabelo curtos, se revoltava, não admitia a situação em que se encontrava, usava das correntes para tentar acerta os guardas que a continham, seus gritos de ódio logo se transformaram em um choro desesperado que clamava por respostas, um choro que chegava até os ouvidos de uma mulher de cabelos ruivos com olhos carmesim que se encontrava no portão de entrada em pose de sentido com os braços para trás, seu olhar frio era a recepção de todos que entravam no campo. Era Victoria...
....
—Ah...Tia Victoria?...
Enquanto se afundava em suas memorias uma voz de uma criança a traz de volta.
—Sim, meu querido.
Victoria então se curva para criança que se mostrava preocupada, com os olhos querendo lacrimejar.
—Eu...eu e a minha amiga estávamos brincando quando sem querer ela...digo eu, quebrei um vaso com as flores da senhoria. Tia Victoria, por favor nos ajude.
Disso o menino com as mãos tremendo para logo em seguida abraçar Victoria.
—A senhoria vai ficar muito brava conosco, falamos com você, porque é tão calma e bondosa, mas por favor nos puna se for preciso!
— Victoria então sorrir para o menino, o que acaba acalmando-o.
— Não há necessidade de punição se você já aprendeu a não fazer de novo, certo? Venha vamos até lá, vou ajuda-los e depois conversar com a senhoria, não se preocupem!
Disse Victoria enquanto o segura a mão do menino.
—Mas a senhoria gosta tanto desses vasos de flores. Você também Victoria!
O garoto apertava fortemente as suas roupas com a mão, em uma demonstração de medo.
— Escute.
Victoria novamente se curva para ele enquanto olhava em seus olhos.
—Vocês são nossos verdadeiros amores, vocês valem mais do que infinitos vasos de flores. Tanto para mim, quanto para a Senhoria. Se for precisa nós quebraríamos esses infinitos vasos por vocês!
Chegando ao local do vaso quebrado, Victoria começa a escutar o choro da criança, um choro que traz à tona seu passado...
...
— Capitã Victoria!
Um soldado se direciona fazendo continência para ela que se encontrava em frente ao portão, observando friamente todos que entravam.
—Um jovem está se opondo fortemente e assim atrapalhando a marcha dos prisioneiros para entrar no campo...Devemos fazer alguma coisa?
O soldado perguntou.
—Apenas a nocauteie se for preciso e a levem desacordada, ainda a muitos prisioneiros para entrar e não podemos nos dar o luxo de ficar perdendo temp...
—Victoria!
Uma voz fria a interrompe, um homem de postura imponente surge e se direciona a Victoria e ao soldado, os dois imediatamente entram em posição de continência, falando em tom alto.
—SIM, SENHOR GENERAL!
O general sorri enquanto se aproxima de Victoria colocando a mão em seus ombros. O corpo de Victoria se contrai, mas sem perder a postura.
—Victoria, logo você se esqueceu de tudo isso? Dos nossos objetivos aqui? Trazemos o nosso próprio povo aqui com o único objetivo de lhes causar dor, uma dor que se transformara em salvação para nossa nação. Não estão sendo descartados aqui, estão sendo sacrificados!
Sem mover um músculo, Victoria apenas acena com a cabeça dizendo:
—Entendido senhor.
—Se aquela jovem garota chora você precisa dizer a ela para parar, para aceitar o que ela é agora. Mostre que ela é a salvação..., mas faça que ela diga isso... através de seu ódio! Pois somente através do ódio dos que entram aqui, que conseguiremos a arma definitiva para ganhar essa guerra e assim da a liberdade para essas futuras almas!
Victoria então se vira ao soldado lhe dando uma ordem:
—Soldado... Traga a vareta...
O soldado internamente assustado com a situação a responde.
—SIM SENHORA!
....
Ao chegarem no local, Victoria e o menino encontra a garota chorando, Victoria se aproxima e percebe suas mãos sangrando...
— Eu tentei concertar o vaso Tia Victoria, mas acabei cortando as minhas mãos, por favor aceite isso como punição por meus erros...
Disse a menina chorando e com a voz tremula...
Mas Victoria não respondeu...
— Não se preocupe Judith, já conversei com a tia ela vai nos ajudar....
...
—Você veio me ajudar?
Diz a menina acorrentada jogada no chão olhando diretamente para os olhos cor de fogo, porém tão gelados de Victoria, que se encontrava com os braços cruzados para trás. A garota sabia que não teria ajuda, mas seu desespero era tanto que via um fio de esperança em qualquer lhe aparecesse em sua frente.
Victoria nada disse e apenas descruzou os braços revelando um bastão fino de metal que guardava em suas costas. Seus olhos olhavam diretamente para a garota quando começou a bate-la intensamente. Os gritos da garota só não eram tão altos quanto o barulho da chibatada. Ela apanhava e apanhava, os prisioneiros ao redor apenas podiam abaixar a cabeça e tampar os ouvidos, os soldados ordenavam que tirassem para que pudessem ouvir os gritos e assim entender que seriam punidos caso errassem.
Victoria batia e batia, mas o tempo todo olhava incessantemente para a garota que mesmo com os olhos cobertos de lagrimas e sangue ainda olhava para Victoria...
....
—Victoria!
Era a senhoria que chamava.
—Posso saber o que está acontecendo!?
Victoria então retoma a consciência enquanto observava a mão da criança com um leve corte que sangrava. As crianças com medo da senhoria escondiam nas costas de Victoria.
—Me desculpe minha senhoria, as crianças encontraram esse vaso quebrado, elas tentaram concertar, mas acabaram se machucando.
Victoria diz enquanto retirava do bolso um lenço, e contornou com ele o corte da mão ferida da menina.
—Tudo bem apenas termine de fazer o curativo e traga as crianças, o jardineiro irá cuidar desse vaso depois.
A Senhoria então se retira, mas antes deixa um aviso:
—Ah! Victoria depois de cuidar das crianças preciso que você venha até mim no quarto vazio, há algo que precisamos conversar.
—Sim Senhoria!
Diz Victória com uma calma voz.
Após terminar o curativo, as duas crianças a abraçam fortemente e começam a chorar dizendo
— Muito obrigado, tia! A senhora é muito bondosa conosco, é nossa confiança!
Victoria sorrir e retribui o abraço às crianças com um sorriso gentil no rosto, porém, sua mente estava pesada ao olhar para o curativo na mão da jovem. Ela pensava:
— “Eu sou digna de ser agradecida por ajudar alguém, depois de tanto que machuquei os outros? Sou digna de ser a confiança de alguém.”
As lagrimas começaram a descer, mas não teve tempo para continuar a chorar, deixou as crianças aos cuidados de uma colega e seguiu em direção ao quarto vazio. No corredor se encontrou com a senhoria.
—Victoria! Como sempre muito bondosa. Fico chateada de ter mentido para mim...
Nesse momento Victoria congelou, teria a Senhoria descoberto os pecados já cometidos por ela?
— ..., mas ao ver como aquelas crianças confiam em você eu fico muito feliz por ter alguém assim, eu as vi quebrando o vaso e já ia repreende-las, mas fiquei feliz com o desenrolar da situação. É por isso que eu a confio tanto.
Victoria se acalmou um pouco, mas seus sentimentos de angustia ainda eram fortes por relembrar.
—Sabe, Victoria... A guerra acabou, mas as cicatrizes dela duraram para sempre...
Victoria sabia muito bem disso.
— Sim, eu sei minha senhoria....
Concordou Victoria.
— E uma dessas cicatrizes caiu aos nossos cuidados hoje. Recebemos uma pessoa, que sofreu muito com esta guerra, ela está cega e nega o cuidado de todos, sente medo de todos, a achamos vagando pelas ruas de uma vila, ela foi abandonada e seus traumas são fortes.
Victoria de repente começou a sentir algo forte, uma sensação de medo começava a pegar fogo dentro dela.
—Por isso eu a confio a você, sei que você pode restaura-la, embora ela não seja mais criança ela é tão frágil quanto.
A senhoria então se direciona ao quarto e abre a porta.
O revelar ao abrir da porta congela Victoria, uma garota magra e de cabelo negro curto, seu corpo estava todo riscado de cicatrizes e usava uma bandana que cobria os seus olhos, mas não o suficiente para que Victoria não pudesse congelar.
Victoria não podia acreditar, não era possível. Ela sabia que esse dia chegaria, mas não de tal forma. Seu passado havia voltado, não havia mais como fugir. Sem saber como a garota que um dia foi espancada pela Capitã Victoria no portão do campo de concentração agora retornava, baqueada triste. Victoria estava em choque quando a senhoria lhe dirigiu as palavras.
—Victoria...Essa é Ana, lhe confio os cuidados dela a você.
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