— Além de não aparecer na escola durante três dias, quando resolver vir, chega atrasado – O professor continua a falar, mas não dou a mínima para isso. Tudo que eu quero, é que meu corpo se mova e eu não pareça um estranho (mais do que já sou).

Lá estava ela, sentada com as pernas cruzadas, vestindo a saia azul e a blusa social branca do uniforme escolar. O cabelo comprido, agora preso, deixando a mostra um par de brincos de brilhante:

— Moleque esquisito. Não para de encarar a garota nova- Ouço alguém falar, porém continuo não ligando. Apenas fico encarando aqueles olhos verdes, enquanto ela esboça um sorriso para mim, ao mesmo tempo em que desvia o olhar para o meu novo lugar, aparentemente me indicando para ir sentar.

Consigo me mover, tentando parecer calmo, todavia, a cena que fiz até agora, nega isso. Minhas pernas tremiam e tinha começado a suar. “O que ela está fazendo aqui? Ela veio me matar? Quem é ela? ”. Minha mente estava a mil, cheia de dúvidas sem ao menos uma resposta.

Nada faz sentido. Provavelmente ela tinha vindo terminar o que começou aquela noite. Sentia o olhar dela nas minhas costas, fixado em mim. Parecia que observava dentro da minha alma, como uma serpente paciente, esperando o momento certo de dar o bote. Tentei olhar disfarçadamente por cima do ombro e percebo que ela continua a me encarar, ainda com aquele sorriso sínico, entretanto lindo. Confesso que é lindo, acompanhado de uma beleza que faria qualquer um se ajoelhar aos seus pés; todavia, estava tão assustado que só me vinha na cabeça o que ocorreria quando a aula acabasse.

No intervalo o Daniel veio falar comigo:

— Até que fim resolveu aparecer, em? – Colocou a mão no meu ombro, dando umas tapas de leve, mas percebeu que eu não estava te dando muita atenção- Continua pensando na Lara? Ela é realmente perfeita e pelo papel de bobo que você vez, ficando paralisado como uma estátua na frente da sala toda encarando ela, você já se apaixonou- Ele ri enquanto abaixo o rosto e tudo o que ocorreu até agora me vem a mente.

— Quem é Lara?

— Lara Akemi. Veio do Japão para o Brasil e agora estuda na nossa sala. Além de linda, aparentemente é um gênio em todas as áreas acadêmicas, fora o fato de que o pouco que conversei com ela, aparentou ser uma pessoaextremamente simpática e nada metida. Mulher perfeita, não acha?

Dou de ombro e volto para o meu lugar, dessa vez colocando o capuz e os fones, ligando a música no máximo, tão alto que quem esta próxima a mim consegue ouvir claramente e espero o final das aulas, já temendo o que viria.

A aula acabou, arrumei minhas coisas, sabendo que morreria e que não teria a mesma sorte que tive no outro dia, sai pela porta da minha sala e vejo a Lara, caminhando em minha direção. “Será que ela vai me matar agora, na frente de todos?” Quanto mais perto ela chegava, menos eu me movia e meu coração acelerava, até que ela passou ao meu lado.

Novamente aquele sorriso em seu rosto, enquanto eu não conseguia nem respira e ela passou calmamente por mim, sem nem ao menos falar comigo. Sua atitude é de quem não me conhece. Não sei se ficava aliviado por isso, ou se ficava mais assustado.

Já que nada tinha acontecido e eu ainda estava vivo, literalmente corri para a minha casa. Não esperei o Daniel e vou o mais rápido possível, torcendo para ela não aparecer do nada. Corri tanto que quando finalmente cheguei em casa, estava sem folego e quase morrendo por causa do meu condicionamento físico de um belo sedentário.

Joguei as coisas no sofá e subi para o meu quarto, abri a porta e cai de joelhos sabendo que tinha chegado o meu fim. Ela estava sentada na minha cama. Lara Akemi, ainda com o uniforme e aquela expressão feliz, olhando fixamente para mim:

— Olá Lucas.

Vasculhei com os olhos todo o local, procurando algo para usar como arma:

— Tudo o que você sabe está errado. Pode ficar tranquilo, não vim te matar, muito pelo contrário, estou aqui para te mostrar a verdade.

— A verdade? — O ódio já toma conta de mim e falo sem pensar- Que você matou minha mãe, tentou me matar duas vezes, sem sucesso, e agora veio aqui terminar o que começou?

— Argumento um – ela saca arma e atira na minha cabeça. Meu corpo é lançado para trás, me fazendo bater as costas na porta, fechando a única saída existente. Sinto uma dor incrível na testa, mas aparentemente ainda estou vivo. – Essa bala nunca te mataria. Ela é apenas para impacto, utilizada como treinamento. Como eu já havia lhe dito, em nenhum momento eu estava tentando te matar, apenas te libertar.

Endireitei meu corpo, voltando a olhar para ela, espantado e surpreso, passo a mão no chão e pego o objeto que acertou minha testa. Um projetil que estourou quando acertou minha testa:

— Me libertar?Do que você está falando?

— Vamos com calma- Ela jogou a arma para mim, que segurei desajeitadamente sem saber o que fazer. – Talvez assim você se sinta mais seguro e acredite em mim quando digo que não vim te matar.

Fico mais tranquilo, entretanto sei que ela possui outra arma na cintura que pode estar carregada com munição verdadeira. Quemme garante que tudo não passa de mentiras? Então não baixo a guarda em nenhum segundo, entretanto tinha conseguido algo para usar em minha defesa:

— Argumento dois- Ela continua, sem desviar o olhar de mim- Albert Einstein, Leonardo da Vinci, Galileu Galilei. Essas são algumas pessoas que são consideradas gênios até hoje. No entanto, o que difere essas pessoas do resto do mundo?

Faço um sinal de que não sei, movendo a cabeça, me questionando onde ela quer chegar com tudo isso. Já não bastava as aulas entediantes da escola e agora ela veio me ensinar em casa?

— Eles descobriram a chave. Eles não são os únicos gênios- ela levantou da cama, veio em minha direção e me deuum peteleco na testa- Muitas pessoas hoje em dia também descobriram. Você é uma delas.

Não conseguia entender nada do que ela falava, mas tentei mostrar que estava captando tudo:

— Ai, ai, ai... – Ela suspirou, levando a mão até a cabeça, ajeitando a franja que caia sobre seus olhos- Você não entendeu nada, né?

Como ela sabia? Acho que não consegui fingir muito bem e minha cara me entregava.

— Vamos colocar de outra forma- fez uma breve pausa, como se estivesse pensando em como iria me explicar aquilo, e continuou a falar- Você gosta de jogos, não é mesmo?

— Sim. Por que?

— Em termos leigos, podemos dizer que o universo em que estamos, não passa de um jogo – Eu sabia que esse não era o momento correto, porém não conseguia me segurar e cai na gargalhada- Qual o motivo da risada?

Olhei para ela e vi um olhar pesado:

— Isso é sério?

— Sim- Confirmado. Estou no quarto com uma pessoa que além de assassina, é louca- Esse mundo não é exatamente um jogo. Na verdade, é uma simulação criada por alguém ou alguma coisa muito superior a nós.

Quanta criatividade vinda de uma única pessoa....

— Como em um jogo, você tem regras, mas você pode fazer o que bem quiser. Dessa mesma forma é o nosso universo. Entretanto, algumas pessoas conseguem fazer coisas que as diferem das demais, como os hacks em jogos. Essas são consideradas gênios. A diferença entre eles e os demais seres é a descoberta da chave.

— Chave? – Perguntei começando a entender tudo.

— Sim. Essas pessoas conseguem utilizar uma parte maior do seu cérebro ao mesmo tempo, como se uma porta fosse destrancada em suas mentes. Isso faz elas pensarem mais rápido e armazenar informações com mais facilidade. Nunca se sentiu entediado pelas matérias da escola e ao mesmo tempo achou fácil os desafios que outros amigos seus achavam impossíveis de serem resolvidos?

Agora que ela tinha falado, eu dormia na escola por que sempre achava tudo um saco. Passava sempre na escola com notas medianas pois fazia apenas questões suficientes para passar e dormia. Não achava difícil, apenas não ficavaafim de resolver por ser fácil de mais, chegando ao ponto de ser entediante.

— Mas isso não é tudo- Ela começou a andar de um lado para o outro do quarto- Hoje em dia, muitas pessoas vão além e conseguem usar 100% da função cerebral ao mesmo tempo. Quando isso ocorre, uma habilidade única para cada ser humano é despertada. O que você sentiu quando eu fingi tentar te matar e como desviou da bala?

— Senti algo diferente no meu olho direito, como um calor, então comecei a ver tudo em câmera lenta.

— Aí entra o meu terceiro argumento. Vai se olhar no espelho.

Vou até o banheiro do quarto e me surpreendo com o meu olho. O esquerdo, normal, com a mesma cor castanha escura de sempre, enquanto o direito esta brancoe com um circulo em volta da minha pupila. O que é isso? Fico paralisado no mesmo local, agora tendo certeza de que tudo o que ela falava era verdade:

— Então tudo isso é mesmo..

—Sim- Ela me interrompeu- Tudo é mesmo real e você faz parte disso.

Voltei para o quarto e olhei para ela, que ainda estava com aquele sorriso sínico em sua face.

— Mas como tudo isso pode ser verdade? Quem criou tudo isso? Por que criou?

—Calma, calmagaroto. São muitas perguntas e não tenho todas as respostas.

— POR QUE VEIO ATRAS DE MIM?? –uma fúria incontrolável começoua tomar conta do meu ser e perdi o controle, avançando pra cima dela, armando um soco com a minha mão direita. Com muita facilidade e ainda sentada na minha cama, ela apenas desvia, movendo a cabeça para a esquerda, me fazendo socar a parede quequebra, abrindo um buraco “de onde veio essa força? “

—Você precisa relaxar um pouco- ela alisou meu cabelo e me deu um beijo no rosto, enquanto tirou minha mão de dentro da parede – Amanhã temos aula e você tem que melhorar desses ferimentos. Boa noite Ohara.

Então ela saiu pela porta do meu quarto, deixando uma faca em cima da minha cama, um pouco diferente das que eu já vi em toda a minha vida. Ela era grande e pesada com o cabo preto e a lâmina metade negra e metade branca, ambas as cores brilhavam, iluminadas pela luz que vinha da rua e transpassava o furo que eu mesmo fiz na minha parede. Juntamente com a arma, estava um bilhete escrito a mão em um pedaço de papel com apenas uma palavra.

Cuidado.

Mal consigo dormir. Toda essa história fica remoendo na minha cabeça, tentando acreditar ou achar algum sentido em tudo o que ela falou. Tantas questões não respondidas, tantas dúvidas e nenhuma resposta significativa, explica o porquê de tudo isso estar ocorrendo com uma pessoa tão insignificante quanto eu. Senti minhas forças indo embora, uma cansaço inigualável tomando conta do meu corpo e então desmaiei na cama.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.