O olho de Épon.
2 Capítulo 2
Era quase noite, os soldados faziam os últimos preparativos para receberem os prisioneiros que chegariam no dia seguinte. Na sala principal superiores estavam reunidos aguardado a chegada do general. Se perguntavam, o porquê disso, o porquê de estarem ali. Ao ouvirem o ranger da porta uma mulher de cabelos ruivos adentra no local já entrando em posição de continência para a anunciar a chegada do general.
—Senhores, o general está entrando.
Todos então se levantam para receber a autoridade, que entra na sala com um sorriso no rosto. Todos assumem posição de sentido para a autoridade que ali entrava. E num tom único e forte todos dizem
— Boa noite, vossa mercê!
O sorriso do general se estende, enquanto Victoria se permanecia imóvel com um olhar fixo ao vazio da sua frente.
— Descansar senhores!
Diz o general, então todos se aliviam.
— A partir do momento que chegamos neste local, abrimos mão de qualquer honra que já pensamos ter, então não há mais porque de formalidades, não acham?
O general dizia aquilo com tamanha frieza, mas sem tirar o sorriso de seu rosto, todos ali estavam incomodados com exceção da figura do general que parecia aceitar muito bem seu papel ali. Victoria permanecia em pé, friamente posicionado ao lado do general que era a figura central da mesa.
— Senhor general, precisamos discutir melho...
—Sim, sim!
O general interrompeu um dos homens que propunha a falar.
— Os prisioneiros chegarão amanhã, preciso tirar de vocês qualquer duvidam que tenham, qualquer questionamento do que estamos fazendo aqui, não é mesmo.
A calma com que ele falava incomodava a todos que estavam ali.
— Meus amigos, antes de continuar falando preciso ter certeza de que todos que estão aqui entendem a nossa posição, a nossa posição nessa guerra, a nossa posição como pessoas dispostas a dar tudo pelo bem maior dessa nação. Estou certo?
Então um dos presentes se levanta e direciona as palavras ao general.
— É por entender muito bem a nossa posição, general, que fica difícil compreender a racionalidade de toda essa ação. Sacrificar nosso próprio povo por uma manobra arriscada, por um mito!?
O general então se ajeita em sua cadeira, mas sem perder a curva cínica de seus lábios.
— Major, como posso ver o senhor entende a nossa posição como defensores da nação, mas esqueceu de nossa posição na guerra. duas de nossas cincos cidades principais já foram tomadas, metade de nosso exército está morto, nossas vilas são invadidas noite e dia, crianças são mortas nos colos de suas mães, mulheres estupradas na frente de seus maridos. O país se encontra no desespero total e momentos desesperadores exigem medidas desesperadas.
O major revida:
—Então vamos jogar nossa última esperança em um mito que nem sequer pertence a nossa cultura. Pensando assim seria mais fácil irmos todos as capelas e rezássemos para que Deus desça do céu e corte a cabeça de nossos inimigos. Francamente, é uma opção mais honrosa do que machucas as pessoas que deveríamos defende...
— EU NÃO JÁ LHE DISSE!?
O general interrompeu em tom alto o major. Trocando o que era, até então, um sorriso no seu rosto por uma expressão séria.
— Eu não já lhe disse. A partir do momento que estamos aqui, abrimos mão de qualquer conceito de honra, até porque não existiu honra em momento algum, não existe honra alguma na guerra. Se acredita tanto em seu Deus para proteger nosso povo, por que não sai dessa sala agora e começa a rezar? Se o Deus de bondade que você diz existisse ele já teria parado os caminhões com os prisioneiros vindo pra cá, ele nem sequer teria deixado essa guerra acontecer, mas olhe só, ela está acontecendo e estamos perdendo, não, sendo massacrados. O ódio inteiro de uma nação rival cai sobre nós, e não vamos nos defender com compaixão, pelo contrario nossa maior arma para o ódio é o próprio ódio!
O general ia abaixando o tom de voz à medida que ia falando, até sua voz se tornar fria novamente. Ao final da fala do general o silencio tomou conta da sala por uns instantes.
— Certo, explicarei novamente do início, mas dessa vez não estou na frente de oficias fazendo uma proposta, mas sim dizendo o que vai acontecer! Victoria traga aquilo.
Victoria então acena a cabeça se retirando da sala.
— Enquanto a capitã vai buscar o que quero lhes mostrar, vamos recapitular bem esse “mito”: Essa terra em que estamos pertenceu a um antigo povo, os Kabi, povo esse que foi conquistado e dizimado pelos nossos antepassados. Esse povo contava uma história interessante, sobre uma época em que serviram a um tirano que os governava sobre um regime de tortura e dor. Certo dia uma grande luz caiu do céu acertando a montanha em cheio, o povo que estava sofrendo, num ultimo suspiro de desespero, correu a montanha achando que seria um “Deus” que iria salva-los. O Rei não gostou do que viu, chegando lá todos estavam cultuando a cratera que emanava uma forte luz no fundo, mas quando se olhava de perto o que viam era a figura de um olho. Sendo o tirano que era, ele ordenou que jogasse todos que estavam cultuando no buraco, e foi fazendo assim com todos que torturava e matava no seu regime, porém à medida que foi fazendo, a luz do buraco se tornava cada vez mais escura.
Neste momento Victoria entrava na sala com um objeto coberto em suas mãos, todos que estavam ali começaram a sentir uma sensação estranha. Diferentes emoções começavam a apertar o peito dos presentes. Até mesmo Victoria mostrava apertar com mais força do que devia o objeto misterioso. O único que nada parecia sentir era o general, que continuou a história.
— De todas as pessoas, a que mais sofria com tudo aquilo era a filha do rei, Épon. Ver seu pai matando inocentes dia após dia a dilacerava por dentro, até que num momento se voltou contra seu pai, mas foi fortemente repreendida e recebeu o mesmo destino de todos aqueles que ela teve pena. Jogou-a na cratera. Porém, nesses instantes a gravidade se reverteu e a filha do rei começou a levitar no buraco, o rei sentiu medo e pela primeira vez arrependimento, mas já era tarde demais para este sentimento, com o poder do olho, Épon destruiu tudo. Sua força veio do ódio, da dor, da solidão, da tristeza, do medo, de todos esses sentimentos que vocês estão sentindo agora.
Todos na sala estavam apavorados sentiam tudo aquilo que o general falava, já tinha uma ideia do que poderia está coberto nas mãos de Victoria que cerrava fortemente os dentes por trás dos lábios. A tensão tomava conta do local.
— Desde então o povo kabi, que havia sobrevivido, tomou uma postura de sempre manter a paz e nunca buscar a guerra, era uma paz regida ao medo, paz esta que os tornou alvo fácil da expansão territorial dos nossos antepassados, mas antes para evitar o pior, eles esconderam o local da cratera. Mas anos atrás nossos exploradoras encontraram isso.
O general então se dirigi a Victoria, suas mãos estavam suando, então ele pega o objeto e de suas mãos finalmente o revelando: era uma placa com escritas antigas.
— O QUE!?
Todos na sala ficaram sem entender, o que seria aquela placa.
—hahaha
O sorriso voltou ao rosto do general.
— Vocês acharam que eu estaria com o olho de Épon aqui? Está e a placa que conta a lenda, ainda não conseguimos a traduzir por completa, mas já temos informações suficientes do que fazer. Depois da grande destruição Épon desapareceu, e com ela, o olho, mas a maldição e a força mística ainda permanecem neste lugar. Os senhores devem ter percebido, há energia e calor neste local embora não passe nenhum fio de fora ou subterrâneo. Toda essa energia vem da cratera que conseguimos escavar. Isso antes era um campo pra prisioneiros inimigos de guerra. Foram pouco, mas já conseguimos produzir força o suficiente para abastecer esse lugar, porém a nossa situação na guerra se tornou desfavorável então teremos que recorrer ao nosso próprio povo, não estamos matando, estamos sacrificando-os, para então obter a arma mais poderosa que já existiu. Sobre o que os senhores sentiram não se tratava da placa, mas sim desse lugar ao todo, com o poder deste local viraremos a guerra para o nosso lado, com o poder do ódio...
...
Um ódio tão frágil... Era o que via Victoria ao olhar para Ana. A menina cega se encontrava abraçando a suas pernas enquanto se reprimia contra a parede.
—Ela é um caso difícil, Victoria.
Disse a senhoria.
— Foi encontrada jogada em um beco de uma cidade, ela negava ajuda a qualquer um que tentasse, nos trouxeram na esperança de ajuda-la.
— Eles me trouxeram porque não me queriam sujando a sua rua!
A garota que até então estava calada, respondeu em tom alto a senhoria e continuou.
— Uma jovem fedorenta que afastava os clientes, uma possível ladra para os feirantes ficarem com medo é isso que eles viam. Não queriam me ajudar, queriam me garantir longe dali.
Victoria estava congelada enquanto Ana falava. Ela se perdia em seus pensamentos na frente de Ana.
“A pessoa a quem tanto feri...que tanto machuquei e causei dor, agora está aqui na minha frente...E agora depende de mim? Por que? É uma punição para mim? É um teste?”
Ela pensava.
Victoria olhava para Ana e à medida que ia afundando em sua reflexão seus pensamentos começaram a deixar de ser sobre si para serem sobre a pessoa que estava a sua frente.
"O que ela sente? É esse ódio que o general tanto buscava, mas não há força nisso. E tão delicado, é tão triste..."
—Ei você!
A fala de Ana desperta Victoria:
— Sinto que há alguém parado em minha frente, saia, não quero ninguém por perto, SAIAM TODOS DE PERTO DE MIM!
Victoria sabia que aquilo não era um grito de ordem, mas um grito de medo.
—Victoria, vamos dar um tempo para ela, ainda está muito traumatizada.
A senhoria disse a Victoria que então se levantou sem tirar a vista de Ana, que estava com os olhos cobertos e cabeça abaixada ainda em posição retraída.
—Ana...
Pela primeira vez disse Victoria com a voz tremula, ela tinha medo de que Ana a reconhecesse, ainda tinhas muitas duvidas em sua mente. Como aquela garota havia sobrevivido? O que eram aquelas cicatrizes e em seu corpo, não lembrava de ter feito alguma delas no campo. Mas as dúvidas eram subjugadas pelo sentimento de compaixão por aquela pessoa, ela não queria ser perdoada, se negava. Mas sentia que devia proteger aquela pessoa a sua frente.
—Ana... quero que saiba que ninguém irá te tocar aqui sem que você permita. Mas também precisa saber que se precisar de alguém, eu estarei aqui, se precisar de ajuda, eu estarei aqui por você...
Ana apenas abaixou a cabeça e não disse nada. Victoria então junto com a senhora se retiram do quarto, mas antes de sair Victoria rever mais uma vez a pobre Ana encolhida no canto do quarto.
—Eu não preciso de sua ajuda...
...
— Por favor me ajude, alguém!
Dizia a pobre Ana sozinha com seus extensos hematomas deitada no chão da cela. Enquanto os olhos frios de uma capitã a observavam do outro lado das grades, para então desligar a luz da cela deixando-a sozinha.
....
Olhos vermelhos, esquentados pelas lagrimas agora observavam a pequena Ana, que negava qualquer ajuda. Com um prato de comida na mão Victoria se aproxima e coloca na frente de Ana dizendo.
—Trouxe sua comida, por favor sirva-se. Se tiver qualquer dificuldade estarei aqui, por você, o tempo todo...
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