Ainda meio perdida entre o sono, Mônica abriu os olhos lentamente, piscando algumas vezes enquanto a claridade que entrava pela janela começava a iluminar o quarto Por alguns segundos, ficou encarando o teto e tentando lembrar por que tinha acordado tão cedo, até que, virou-se para o outro lado da cama.

Estava vazio.

Mônica franziu a testa e passou a mão por onde Cebola costumava dormir, sentindo os lençóis já frios.

Ele já deve ter saído

Soltou um pequeno suspiro. Sabia que Cebola precisava trabalhar naquela manhã, mas ver aquele lado da cama vazio a fez se sentir ..sozinha

Mônica afastou o cobertor e se sentou na beirada da cama, ainda sonolenta. Passou a mão pelos seus cabelos curtos bagunçados, tentando acordar de vez, ficou alguns minutos assim. Olhava para o chão enquanto começava a se lembrar de todos os acontecimentos do dia anterior.

Os enjoos.

A fome estranha.

O cansaço.

E aquela possibilidade que ela tinha tentado ignorar toda a noite.

Mônica apertou os lábios.

Hoje eu vou descobrir.

Só de pensar nisso, sentiu o estomago apertar.

Ela respirou fundo e apoiou as mãos no colchão, preparando-se para levantar. Porem, assim que ficou de pé, uma tontura repentina fez com que perdesse o equilíbrio por um instante, Mônica arregalou os olhos e segurou-se rapidamente na cama, esperando até que a sensação diminuísse.

- Ugh…

Permaneceu imóvel por alguns segundos, respirando devagar, até finalmente conseguir endireitar-se.

Aquela sensação fez seu coração acelerar.

- De novo...?

Mônica olhou para a porta do quarto e depois para a bolsa que estava sobre a cadeira. O teste ainda nem estava ali — precisava primeiro ir à farmácia -, mas só a ideia de comprar um teste já fazia suas mãos ficarem inquietas.

Ela fechou os olhos por um momento e respirou fundo.

- Primeiro, eu tenho que tomar o café da manhã... depois penso nisso.

Era uma tentativa de se convencer de que tudo estava sob controle.

Mesmo que, no fundo, soubesse que não estava.

Mônica balançou a cabeça, tentando afastar aqueles pensamentos, e decidiu que pensar naquilo de estômago vazio não ajudaria em nada. Ainda um pouco sonolenta, saiu do quarto em direção à cozinha, mas, assim que passou pela porta, uma fome repentina tomou conta dela, tão forte que chegou a parar no meio do caminho.

- Nossa...

Levou a mão à barriga e franziu a testa, surpresa. Até poucos segundos atrás nem estava pensando em comida, mas agora parecia que poderia comer qualquer coisa que encontrasse pela frente.

Mônica abriu rapidamente a geladeira e ficou olhando para dentro, procurando alguma coisa que lhe apetecesse. Pegou uma coisa, depois outra, e quando percebeu já estava colocando vários alimentos sobre a bancada sem sequer parar para pensar muito no que estava fazendo.

Começou a comer quase imediatamente, primeiro devagar, mas logo percebeu que estava comendo muito mais do que costumava. Quando terminou uma coisa, já estava procurando outra e outra, como se seu estômago nunca parecesse satisfeito.

Só depois de alguns minutos Mônica parou, segurando o último alimento que tinha pegado, e olhou para a bancada cheia.

- ...Eu comi tudo isso?

Ela piscou algumas vezes, completamente confusa, e olhou para o frigorífico como se ele pudesse explicar o que tinha acabado de acontecer.

O que é que deu em mim?

Por um instante, uma lembrança passou pela sua cabeça.

De novo...

Aquela fome repentina, os enjoos, o cansaço...

Mônica ficou seria.

Talvez realmente não fossem apenas coincidências.

(...)

Depois de terminar de se arrumar, Mônica ficou alguns segundos parada diante do espelho, ajeitando o cabelo pela última vez. Tentava parecer normal, mas bastava olhar para o próprio reflexo para perceber que estava mais nervosa do que gostaria de admitir. Pegou na bolsa, conferiu se tinha tudo o que precisava e saiu de casa, fechando a porta atrás de si.

O caminho até à farmácia não era muito longo, mas naquele dia parecia diferente. Mônica caminhava devagar, com os olhos perdidos na rua enquanto sua cabeça estava muito longe dali. Tentava pensar em qualquer outra coisa, mas acabava sempre voltando ao mesmo assunto.

E se for mesmo verdade?

Ela apertou um pouco mais a alça da bolsa.

Como eu vou contar ao Cê?

Por alguns segundos, imaginou a reação dele. Provavelmente ficaria completamente em choque, talvez começasse a fazer perguntas sem parar... ou então simplesmente ficaria sem saber o que dizer.

Mônica deixou escapar um pequeno sorriso ao imaginar a cena, mas logo voltou a ficar séria.

Ainda não fazia sentido criar expectativas antes de saber o resultado.

Continuou caminhando até finalmente avistar a farmácia. Respirou fundo antes de entrar, tentando convencer a si mesma de que aquilo era apenas uma ida rápida à farmácia.

Assim que entrou, porém, o cheiro característico dos medicamentos fez seu estômago revirar novamente.

Mônica fechou os olhos por um instante e respirou devagar.

Por favor, não agora…

- Mônica ?

Ela abriu os olhos e levantou a cabeça.

Atrás do balcão estava Seu Juca, que já conhecia ela e a turma há bastante tempo. O homem tinha passado por tantos trabalhos ao longo da vida que Mônica já tinha perdido a conta de quantas profissões diferentes ele dizia ter tido. Agora, mesmo já estando numa idade em que poderia muito bem estar aproveitando a reforma continuava trabalhando tranquilamente na farmácia.

- Seu Juca! -respondeu Mônica, tentando sorrir.

- Ora, que surpresa a ver por aqui tão cedo,está tudo bem?

Mônica hesitou por um instante.

- Esta... sim.

Seu Juca levantou uma sobrancelha, percebendo a pausa que fez

-Tem certeza?

-Tenho! — respondeu rapidamente.

O homem soltou uma pequena risada.

-Okay, okay. Não precisa me convencer

Mônica riu sem jeito e aproximou-se do balcão.

- Na verdade, eu vim comprar uma coisa.

- E o que seria?

Ela olhou discretamente para os lados, como se tivesse medo de que alguém estivesse prestando atenção, e então baixou um pouco a voz..

-Um teste de gravidez.

Seu Juca ficou em silêncio por um segundo, mas não fez nenhuma pergunta. Apenas assentiu e virou-se para procurar os testes.

- Claro.

Mônica ficou esperando, mexendo nervosamente nos dedos.

Quando Seu Juca voltou, colocou uma caixa sobre o balcão.

Mônica olhou para ela.

Depois olhou para ele.

E, antes que pudesse pensar muito, apontou para as outras caixas.

- Pode me dar... três?

Seu Juca olhou para ela, ligeiramente surpreso.

- Três?

Mônica ficou vermelha como um tomate.

-É que... eu quero ter certeza.

Seu Juca sorriu de leve.

- Justo.

Ele colocou mais dois testes sobre o balcão e Mônica rapidamente os guardou na bolsa.

-Obrigada.

- Espero que descubra o que precisa descobrir.

Mônica ficou alguns segundos em silêncio, sem saber exatamente como responder.

- Eu também.

Pagou e despediu-se de Seu Juca e saiu da farmácia.

O caminho de volta pareceu ainda mais longo.

Agora havia três pequenas caixas dentro da sua bolsa, e Mônica não conseguia parar de pensar nelas. De vez em quando, sua mão ia até à alça da bolsa, como se precisasse confirmar que elas ainda estavam ali.

Quando finalmente chegou a casa, abriu a porta e entrou.

O silêncio a recebeu novamente.

Mônica fechou a porta devagar e ficou parada por alguns segundos, olhando para a sala vazia.

Cebola ainda estava no trabalho.

Seu coração começou a bater mais depressa.

Mônica caminhou até ao quarto, deixou a bolsa sobre a cama e ficou olhando para ela.

Durante alguns segundos, não fez nada.

Ficou segurando-a entre as mãos, lendo as instruções mais uma vez, embora já tivesse lido tudo no caminho de volta.

É agora.

Mônica respirou fundo e caminhou lentamente até ao banheiro.

(...)

“ 1 Risco = Negativo, 2 Riscos = Positivo” Era isso que dizia na no papel de instruções.

Mônica segurava o teste entre os dedos esperando ansiosamente pelo resultado. Cada segundo parecia demorar uma eternidade, não conseguia tirar o olhos dele, sabia que tinha que esperar mais um pouco.

Quando o teste finalmente deu uma resposta, respirou fundo e olhou para baixo.

Seus olhos se arregalaram.

dois tracinhos.

- Não..

Seu coração começou a acelerar e uma mistura estranha de emoções tomava conta dela. Havia felicidade, surpresa, medo e uma ansiedade.

-Eu estou grávida..- suas palavras sairam que nem um susurro.

Mônica sentou-se na cama com o teste ainda em mãos com os olhos vidrados nele.

- Estou mesma gravida..- Falou, desta vez mais alto para si mesma.

Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.

Mônica ia ser mãe, e Cebola pai.

Várias perguntas vinham em sua mente.

Será que estou preparada?

O que o Cebola vai dizer?

Como vai reagir?

O que acontece agora em diante?

Ainda não estava completamente convencida.-Só para ter certeza..- pegou nos outros dois teste que estavam na bolsa e voltou ao banheiro.

“positivo”.

Pegou outro.

“positivo”

Mônica ficou em silencio. Três testes e três positivos.

Mônica olhou para os três testes sobre a cama e soltou uma pequena risada, ainda incrédula.

Ela colocou uma mão sobre a barriga, quase por instinto.

Ainda não havia nenhuma mudança visível, mas, de repente, aquela barriga parecia carregar o maior segredo da sua vida.

E agora só faltava contar ao Cebola.




Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.