O ninho

9 A casa da mãe Joana


Notas iniciais
Rodada 9. Tema: Música "Ne me quitte pas" de Jacques Brel. . Para quem não conhece a letra, vou pôr aqui alguns versos aleatórios traduzidos pela staff do UFC: "Não me deixes" "Esquecer o tempo dos mal-entendidos e o tempo perdido" "Te oferecerei pérolas de chuva vindas de países onde nunca chove." "Nós temos muitas vezes visto fogo da repercussão do antigo vulcão que julgávamos velho?" "Até há quem fale de terras queimadas a produzir mais trigo que a melhor primavera." "Vê como o vermelho e o negro não se misturam para que o céu se inflame" "Não vou chorar mais" "Escondo-me aqui para te ver dançar e sorrir" "Deixa-me ser a sombra da tua sombra"

Depois de dias argumentando com muito esforço, eu e minha nora convencemos meu filho a me visitar. Trinta minutos foi tudo o que ele cedeu, mas isso seria suficiente.

Quando Tiago chega, levo-o direto para a sala de estar, onde podemos sentar e conversar sossegados.

— Mãe, eu concordei em vir, mas…

— Não diga nada. Me deixe falar, por favor.

— Tudo bem, fale.

Respiro fundo, preparando-me para o que está por vir.

— Eu nunca planejei um filho, mas, quando fiquei grávida de você, não consegui considerar a ideia de abortar. Então, eu te criei e minha vida se resumiu a você. Eu cuidava de sua saúde e alimentação, arrumava a casa, lavava as roupas e te deixava na creche quando ia cumprir minhas 8 horas de trabalho diário. Eu perdia noites de sono com tanta coisa para fazer, mas eu não me importava porque tudo que eu sempre quis foi a sua felicidade. Eu faria o impossível por você porque você merece o melhor.

Dou uma pequena pausa para respirar.

— Eu não quero me distanciar de você. Sei que fiz coisas erradas, mas eu me arrependi. Se você for capaz de me perdoar, prometo que farei meu melhor para que tudo fique bem!

— Mãe, mas a questão não é apenas o passado! Sabe como a falta de um pai me fez falta? Isso moldou meu caráter! Sabe aquela expressão: a casa da mãe Joana? É como minha cabeça está agora. Descobrir que meu pai não me abandonou… E ficar perto de você só piora esse meu estado mental — Tiago diz com os olhos lacrimejando.

— Tem razão. Sei que te desapontei de várias maneiras, mas não posso mudar o passado, apenas esquecê-lo. Gostaria de te manter sempre por perto, mas sei que não posso te obrigar a isso. Terei que ficar feliz em ser apenas uma observadora. Mas saiba que você sempre será uma parte importante de minha vida. — Contenho minhas lágrimas para poder acabar de falar. — Não posso consertar os erros do meu passado, mas deixe-me consertar o presente.

Levanto-me da cadeira em que estava e vou até o meu quarto. Abrindo a porta, vejo a pessoa com quem eu tinha falado mais cedo.

— Pode vir. Ele está te esperando. — Ao chegar na sala de estar, eu o apresento a nosso filho. — Ricardo, este é Tiago, seu filho. Tiago, este é Ricardo, seu pai. Eu expliquei tudo ao Ricardo há alguns dias. Sei que já é tarde para isso, mas espero que vocês ainda possam se conhecer e criar memórias.

Os dois trocaram um “oi”, tímido e sem jeito. Não sabiam exatamente como agir diante daquela situação. Gostaria de tentar ajuda-los nisso, mas a relação deles era algo que eles deveriam descobrir sozinhos.

— Vou deixá-los sozinhos — digo, enquanto me dirijo para fora de casa para dar um passeio.

— Mãe! — meu filho grita enquanto corre atrás de mim. Ele me dá um beijo na testa e dá um sorriso um pouco forçado. — Obrigado!

Eu sorrio de volta. Nada está como antes, mas sei que tudo vai ficar bem.