O nó sinoatrial

14 Um retorno frio


Durante todo o voo, Emma pensou nas mil e uma sensações que teria ao voltar para o Maine. É claro que, entre a noite em que havia tomado a decisão e o momento em que se preparava para desembarcar, houve muitas lágrimas.

Era complexo, para uma médica tão cética, ter que dar algum crédito aos posts de internet que passavam em seu feed e falavam sobre pessoas que se reinventavam depois dos trinta. Gente que recomeçava do zero sem medo, que se permitia realizar sonhos. Mesmo que ela estivesse fazendo o contrário e voltando ao berço depois dos sonhos realizados, ainda se via como alguém que estava recomeçando; deixando para trás uma carreira como cirurgiã cardiovascular para se dedicar à medicina geral. O que a assustava, no entanto, era pensar que existiam outros tantos cirurgiões cardiovasculares mais do que prontos para substituí-la, enquanto em Storybrooke não existia outro clínico-geral. Era quase uma blasfêmia pensar que sua clínica seria mais importante do que consertar corações.

Mas era exatamente como ela pensava.

E, ao desembarcar do avião, não houve alívio, medo ou felicidade. Emma sentiu frio.

Como em Los Angeles, ali também era final de outono. No entanto, a cidade que havia deixado para trás ainda registrava temperaturas altas, com palmeiras balançando ao vento e pessoas usando protetor solar nas praias, enquanto em seu destino as folhas das árvores já haviam caído completamente e os galhos se esticavam nus em direção ao céu. Sim, precisaria de roupas melhores.

Como pretendia ficar, seu carro esportivo havia sido vendido ainda em Los Angeles e, ao chegar, Emma optou por comprar um SUV igual ao que alugara anteriormente e que tinha atendido bem às suas necessidades.

Emma não tinha certeza do que encontraria ao voltar para o rancho. Estivera preocupada com os excessos do pai, embora Regina tivesse enviado ao menos uma mensagem diária para comentar que a situação não havia mudado. Mas, entre todas as coisas que imaginava que poderiam acontecer, a recepção nada calorosa de David a pegou de surpresa.

— Que merda você tá fazendo aqui? – Foram suas exatas primeiras palavras, no momento em que abriu a porta da varanda ao ouvir o carro e deu de cara com a filha.

Por alguns instantes, Emma apenas o encarou, sem reação. Estava presa em algum lugar entre o completo desconcerto pelo que ouvia e a análise das marcas no rosto do pai, que desbotavam do roxo para um amarelo doentio.

Todas as coisas que ela gostaria de dizer se juntavam às que ela precisava dizer. Mas todas acabavam presas em sua garganta, e a médica sabia que ainda não estava pronta para rebater as grosserias do pai na mesma moeda. Podia muito bem jogar a culpa disso em todos aqueles anos convivendo com a elite médica de Los Angeles, onde seus reais pensamentos deviam estar sempre escondidos sob uma grossa camada de profissionalismo, sorrisos falsos e elogios rasos.

Dentre esses três, ela optou por aquele no qual era realmente boa. Avançando alguns passos, Emma logo estava com as pontas dos dedos tateando o rosto do pai.

— Vire a cabeça para o lado, assim. É melhor termos certeza de que nada foi fraturado.

— O que? Saia daqui – David tentou puxar a cabeça, mas Emma o segurou firme.

— Fique quieto – Ralhou e continuou seu trabalho.

David a olhava, atônito. Qualquer um que o visse conseguiria dizer que aquela não era a reação que ele esperava, e isso, provavelmente, foi o que o deixou ainda mais irritado. Precisava que a filha desaparecesse do rancho, voltasse para a sua vida longe de Storybrooke. Mas ela insistia em retornar, recusando-se a deixar-se abalar por grosserias que, para ele, tinham o mesmo sabor de engolir uma caixa de grampos.

— Nada quebrado, ótimo – Emma se afastou – Imagino que não tenha usado nada para aliviar a dor ou as marcas. Deve estar bom em umas duas semanas – Ela sorriu, sem humor – Se por acaso resolver ter a cara partida nesse meio tempo, aconselho que vire o outro lado.

— Mais alguma coisa, doutora? – David ironizou – Eu não preciso do seu tylenol, meu whisky funciona muito bem.

— Claro que funciona, pai.

Ignorando-o, Emma se virou e puxou uma mala do carro. Os móveis haviam sido vendidos, de modo que o porta malas e o banco traseiro estavam lotados com malas de roupas, sapatos e outros itens pessoais.

— Já parou para pensar que talvez eu não a queira aqui? – Ele tentou outra vez.

— No rancho? – Emma se virou, encarando-o.

— Em Storybrooke, no rancho... Em qualquer lugar da minha vida – Deu de ombros, vendo-a respirar fundo – Eu sei o que você planeja, Emma. Surge do nada, com seu papinho de tratamento e ajuda, como se eu não soubesse que sua intenção é me tomar as terras.

— O que...

— Eu já as passei para você, tudo isso é seu – Ele abriu os braços, gesticulando ao redor – Fiz isso porque pensei que assim me deixaria em paz, porque eu quero paz nos meus últimos anos. Mas ao invés disso, você está aqui de novo. O que mais você quer, Emma?

Há muitos anos, quando Emma estava finalizando seu internato, ela conheceu uma moça. Tinker era pequena, delicada e de um narcisismo estonteante. É claro que essa última parte só foi descoberta meses depois. A médica havia finalizado o relacionamento ao descobrir uma sequência nada agradável de traições e, ao contrário do que acontecia nas brigas anteriores, tinha bloqueado Tinker em todas as redes sociais antes que a moça o fizesse.

Vários dias se passaram até que se encontrassem em um evento de gala do hospital, onde sua ex-namorada estava abraçada a um dos médicos residentes, fazendo questão de dizer a todos como finalmente tinha encontrado alguém que a entendia e amava, ao contrário de sua última relação. Emma se lembrava de vê-la desfilar por todo o salão, exigindo que as pessoas lhe parabenizassem pelo relacionamento com o médico. Ao chegar até onde a médica estava, Tinker, com o ego nas alturas, perguntou se ela poderia ser parabenizada ou se a loira ainda estava sofrendo por perdê-la. Emma havia sorrido, piscado algumas vezes e perguntado, com serenidade, quem Tinker era. Ofereceu desculpas por não se lembrar dela e voltou para casa. Chorou sozinha por algumas horas, mas, no outro dia, descobriu que a moça tinha perdido completamente o controle.

Pensando nisso, ela respirou fundo e sorriu para o pai com tudo o que tinha, observando a pose do homem se desfazer diante dos seus olhos.

— O que mais eu quero? Uma cerveja seria ótimo, mas está frio, então talvez eu opte por um gole do seu whisky – Ela levantou a cabeça – Quanto ao resto... Você não pode controlar quem fica ou não em Storybrooke, caso eu decidisse ficar em um hotel na cidade. Mas isso não faria sentido, faria? Já que você passou essa casa para o meu nome e, portanto, ela é minha.

David a encarou por vários segundos. Suas mãos se fechavam e abriam, até que ele, por fim, socou a porta do carro ao lado dela. Emma sentiu o corpo inteiro gelar com o gesto; no entanto, não se moveu. Por fim, ele saiu resmungando consigo mesmo e partiu em sua própria caminhonete.

Só então Emma relaxou. Sentiu as lágrimas se acumulando em seus olhos, mas não chorou. Em vez disso, puxou suas coisas para o quarto que ocuparia e serviu-se de uma dose de whisky, fazendo questão de deixar o copo vazio sobre a pia bagunçada.

Após um banho e um lanche rápido, Emma sabia que dormir estava fora de cogitação. Tentou se deitar, mas, depois de meia hora se virando sob o peso das cobertas, desistiu. Decidiu que era melhor usar seu tempo arrumando as coisas nos armários e gavetas. Começou pelas roupas; pendurou-as nos cabides e as dobrou nas gavetas, quase tão organizadas quanto costumavam ser no antigo apartamento, apenas mais apertadas, já que o espaço ali era consideravelmente menor.

Para os sapatos, não teria espaço. Deixou na sapateira os que sabia que acabaria usando com mais frequência; os outros, guardou dentro de uma caixa de papelão grande, enfiada sob as roupas nos cabides. Passava pouco da meia-noite quando se lembrou de que não havia avisado as amigas de sua chegada, mas considerou que aquele não seria um bom horário para mensagens e deixou o celular de lado, focando nas joias que guardaria em seguida.

Dessa vez, havia trazido seu porta-joias. Deixou-o sobre a penteadeira — a mesma de sua adolescência — e abriu a gaveta, procurando pela caixinha onde tinha deixado as peças que não levara para Los Angeles. A caixinha estava no mesmo lugar; no entanto, suas mãos travaram no ar, os dedos em um movimento perfeito de pinça, prontos para agarrar o objeto, encontrando apenas o vazio.

A caixa estava vazia.

Propositalmente, ela ignorou o primeiro pensamento que lhe veio à mente. Embora tivesse plena certeza de tê-las deixado naquele exato local, procurou por todo o quarto. Abriu gavetas, portas e até mesmo levantou a tábua solta que usava como esconderijo em sua juventude. Não havia nada.

Era, portanto, difícil ignorar o sexto sentido que continuava gritando em seu ouvido. O pai não estaria em casa pelas próximas quatro horas, no mínimo, e isso era tempo mais do que o suficiente. Apressada, Emma atravessou o corredor e abriu a porta do quarto de David, seus sentidos sendo invadidos pelo cheiro característico da colônia do pai misturada à cerveja velha, derramada no tapete.

Justo quando ela pensava que já tinha tido choques suficientes por um dia, seus dedos bateram no interruptor e a luz, agora acesa, iluminou a parede à sua direita, revelando um mural dedicado exclusivamente a ela e à sua carreira.

Havia recortes de revistas em que tinha aparecido, menções honrosas, páginas de internet impressas, títulos de artigos que ela mesma havia escrito e até mesmo uma cópia de seu diploma — o mesmo que costumava ficar pendurado na parede de seu consultório em Los Angeles e agora estava guardado na mala, no quarto ao lado.

Emma se aproximou devagar, as pontas dos dedos tocando o próprio rosto impresso. Seus olhos pousaram sobre uma carta, a primeira e única que havia escrito para o pai, logo após começar a faculdade. Lembrava-se da menina inocente que a tinha escrito, embora não pudesse mais se conectar com ela. A mensagem falava de suas aulas, da ansiedade pela prática médica e terminava dizendo que o amava.

Ele nunca respondeu ou mencionou a carta nas ligações que fizeram depois, e ela nunca mais escreveu. Mas a folha desgastada estava ali, e as manchas sobre o papel indicando que havia sido lida várias vezes ao longo dos anos.

Será que aquilo tudo era culpa dela? Será que, se tivesse ficado em Storybrooke ou ao menos retornado depois da faculdade, teria salvado o pai da decadência e do vício?

Ela se afastou, com as joias completamente esquecidas agora e os próprios olhos impressos a encarando da parede, culpando-a por tudo o que havia acontecido com David. Sentiu-se tonta, nauseada. Sentou-se na cama, apoiando a cabeça em ambas as mãos.

Foi quando viu a gaveta meio aberta, a ponta de um papel escapando pelo espaço livre. Uns diriam que aquilo era apenas sua mania de organização tentando encontrar um foco para o cérebro; outros chamariam de destino. Mas o nome era o menos importante no momento em que a gaveta se abriu por completo, revelando estar cheia de promissórias.

Uma após a outra, Emma as leu. Três estavam pagas... pelas joias dela.

Todas as coisas possuem um limite de quebra. Podemos esticá-las e dobrá-las até o momento em que alcançam esse limite e se partem. Aquele era o ponto máximo de Emma Swan.

Ela fechou a gaveta, deixando o papel à mostra — exatamente como estava antes —, apagou a luz e fechou a porta. Trancou o próprio quarto, levando a chave consigo para o carro. Precisava sair daquela casa, distanciar-se da parede em sua homenagem e das promissórias escondidas.

Emma não tinha um destino ou um objetivo; ela só precisava sair. O caminho até Storybrooke foi rápido demais, então ela passou direto e continuou até que as luzes da cidade vizinha estivessem visíveis. Fez o contorno em um gesto automático, os dedos gelados agarrados ao volante como uma tábua de salvação.

Quando estacionou o carro, não saiu. Seus olhos mantiveram-se fixos em um ponto qualquer, sem realmente enxergá-lo. Alguma parte de sua mente registrou a luz que se acendeu no segundo andar, seguida pela luz da varanda. Mas seu cérebro foi incapaz de conectar-se ao corpo quando Regina abriu a porta da frente, apertando o roupão pesado ao redor do corpo, tentando se proteger do vento gelado da madrugada.

Ela não se mexeu quando a morena cortou o espaço até o carro e bateu no vidro três vezes. Continuou parada mesmo quando a porta ao seu lado foi aberta.

— Ah Swan... Venha, vamos para dentro. Está congelando aqui fora.