O nó sinoatrial

5 Trio da confusão


No anoitecer seguinte, Emma ainda não conseguira falar com o pai.

Era difícil dizer se ele continuava chegando em casa ao amanhecer apenas para não conversar com a filha, ou se aquele era um hábito comum. Emma acreditava que, embora fosse um costume de David voltar de madrugada, era provável que ele estivesse contente em esticar o horário para evitar a presença dela. No entanto, em algum momento seria preciso dialogar.

Sua própria humilhação a estava impedindo de forçar qualquer conversa, desde sua visita à Regina. A pele clara estivera marcada pelos dedos da morena por várias horas após ela voltar para casa. Sabia que devia um pedido de desculpas para a outra mulher e precisaria encontrar uma maneira de fazê-lo. Independente de quais fossem as verdadeiras circunstâncias ali, sua perda de controle era algo do qual não se orgulhava.

Como prometido, havia ligado para Elsa, na noite anterior. As duas conversaram por horas até finalmente admitirem que uma ligação não seria o suficiente para que colocassem todo o assunto em dia e graças aos desaparecimentos constantes de David, decidiram que a casa de Emma seria um bom lugar para o reencontro do velho trio da confusão.

Sabendo que a casa do pai não estava apta para receber visitas, Emma passou boa parte do dia limpando os cômodos do primeiro andar. Cantos foram varridos, móveis afastados e sofás aspirados. Era difícil imaginar que uma casa poderia acumular tanto pó.

Um longo banho veio depois. Sentia falta da banheira de seu apartamento em Los Angeles, os anos passados no conforto da cidade grande a haviam deixado mal acostumada e a água da residência Swan parecia nunca esquentar o suficiente. Ainda assim, naquele dia ela tirou um tempo para lavar os cabelos loiros.

Olhar-se no espelho a incomodava. Mesmo que a marca física do tapa de Regina Mills já não estivesse em seu rosto, ela podia sentir o contorno dos dedos firmes da mulher, enquanto passava uma leve camada de maquiagem.

O barulho de pneus na entrada da casa avisou-a que suas amigas tinham chegado, Elsa dirigia o velho carro do pai e Emma acabou sorrindo ao ver a caminhonete antiga. Elas certamente tinham memórias de diversões perigosas na caçamba do veículo.

— Emma! – Elsa correu para abraçá-la – Saiba que se eu matar minha irmã, a culpa vai ser inteiramente sua. Anna não para de contar vantagem sobre ter visto você antes que eu visse.

— Por que mesmo a Anna nunca fez parte do nosso grupinho? – Ruby questionou, aproximando-se com as sacolas de bebidas e petiscos.

— Porque ela é três anos mais nova – Elsa revirou os olhos – Ela ainda brincava de bonecas quando a gente ia no cinema com os meninos.

— Não exagera – Emma ralhou, divertida.

— Mas é verdade – Juntas, as três entraram na casa e foram direto para a cozinha, como se nunca tivessem parado de se encontrar – Eu tinha dezesseis anos quando perdi a virgindade com o Jack e quando eu cheguei em casa, ela literalmente estava brincando de boneca.

— Nossa, eu total tinha esquecido que você perdeu a virgindade com o Jack Frost – Ruby comentou.

— Por que o apelido dele era Jack Frost mesmo? – Emma perguntou.

— Porque ele era albino e tinha o cabelo quase branco, igual o personagem dos filmes.

Ainda relembrando os tempos da adolescência, as três mulheres se moviam em sincronia pela pequena cozinha. Emma pegou os copos e se encarregou de abrir as garrafas de cerveja, enquanto Ruby buscou pelas tigelas e Elsa abriu os pacotes de salgadinho. Juntas, marcharam para a sala, onde se jogaram nos dois sofás.

Para qualquer um que visse a cena, seria inegável que elas haviam crescido juntas. Desde sempre, conheciam a casa uma da outra como sua própria, não existia qualquer obstáculo que as impedisse de abrir a geladeira e até mesmo cozinhar, quando a ocasião pedia.

E Emma precisou admitir para si mesma que sentiu falta disso. Mais do que isso, ficou aliviada ao ver que a intimidade entre elas não havia se perdido. Mesmo que não entendesse ainda os motivos, tinha a impressão de que precisaria das amigas durante sua estadia em Storybrooke.

As horas passaram rapidamente. Ruby falou sobre os vários namorados que tivera durante os anos em que estavam separadas, Elsa fazia questão de tecer um comentário ácido sobre cada um deles, o que fazia com que as três caíssem na gargalhada. Elsa, então casada, compartilhou um pouco de sua frustração por não ter ainda conseguido engravidar, mas logo pediu para que mudassem de assunto, não querendo pesar o clima.

Emma, obviamente, foi a questionada da noite. Subitamente, se viu obrigada a relembrar as mulheres com quem havia saído ainda na faculdade e discorrer toda uma narrativa de sua própria vida na cidade grande.

Em algum momento da noite, as amigas abriram uma garrafa de tequila e a conversa se tornou ainda mais solta.

— Emma... – Ruby falou, pensativa – Você chegou a ir no escritório da viúva?

— A Mills? – Elsa quase engasgou – O que diabos você foi fazer no escritório dela?

— Sim, fui. Bem.... Digamos que ela está total e completamente envolvida com os problemas que David está tendo com o rancho – Explicou para Elsa, que não disfarçou a surpresa.

Emma então passou a próxima hora discorrendo todos os detalhes, a partir da noite que recebera o e-mail de Regina. Falou sobre o vício do pai em jogos, que já era um tema entre elas ainda na adolescência e sobre como o nome da viúva estava em todos os documentos.

As amigas ouviram atentamente. No entanto, quando ela relatou sua última frase para Regina, Ruby cuspiu sua bebida e caiu na gargalhada, enquanto Elsa a encarava como se um chifre estivesse crescendo entre seus olhos.

— Você o que?

— Gente, não tem como chegar em outra conclusão – Emma se defendeu – Essa mulher apareceu do nada, agindo como uma boa samaritana? Não faz sentido.

— Emma! – Ruby a chamou, ainda rindo – A Regina é sapatão.

— Ela... O quê? – Emma pediu a todos os céus para que seus ouvidos simplesmente não estivessem funcionando direito. Preferia ter que visitar um otorrino a encarar uma revelação como aquela – Não, vocês não estão me dizendo que eu levei um tapa porque sugeri que uma lésbica estava dormindo com meu velho pai.

Isso só serviu para fazer a gargalhada de Ruby ficar ainda mais alta.

— Emma... – Elsa tentava não rir – Como você simplesmente chegou assumindo coisas assim sobre alguém que não conhece? Convenhamos que talvez o tapa tenha sido merecido.

— Como eu ia saber que ela é lésbica? – Emma se defendeu, outra vez.

— Amiga, você não tem um... Como eles falam? – Ruby pensou um pouco – Um gaydar?

— Claramente não – A médica suspirou, emburrada – E se tenho, está com defeito. Mas você disse que ela era viúva, eu pensei que era viúva de um marido.

— Ela é viúva – Elsa explicou – Mas é viúva de uma mulher, Kristin. Elas se mudaram para cá pouco tempo depois de você ir embora. Você se lembra que quando estava quase indo, a terra onde fica o haras estava passando por uma reforma? – Emma assentiu – Então, o haras foi um presente de casamento da família de Kristin para as duas.

— Meu Deus – Emma afundou o rosto entre as mãos.

— Kristin era muito legal – Ruby lembrou – Ela logo fez amizade com todo mundo na cidade e gostava muito, tipo muito mesmo de jogar. Acho que foi onde nasceu a amizade com o seu pai.

— Verdade, David era bem feliz – Elsa acrescentou – Eles jogavam juntos no bar e em almoços que sempre faziam.

— A filha que ele desejava ter – A médica comentou, desgostosa.

— Não dá pra negar que eles tinham muito em comum – Elsa deu de ombros – Acho que já naquela época, a Kristin e a Regina tentavam maneirar as apostas que ele fazia, meio que tentaram tirar ele do meio dos outros caras, sabe? Jogavam em casa, bebiam em casa e apostavam coisas tipo quem ia consertar a cerca.

— E quando Kristin morreu, foi seu pai quem ajudou a Regina – Ruby havia se recuperado totalmente da crise de risos e estava séria outra vez – Ela enfrentou uma depressão bem ruim. Mas ele sempre dizia que entendia o que ela estava sofrendo.

Emma encarou o próprio copo, pensativa. Lembrava-se claramente de ter tido a atenção completa do pai por algum tempo, após a morte da mãe. O homem que parecia se quebrar um pouco mais a cada dia juntava os próprios pedaços para ajudar a filha. Aquela foi, provavelmente, a única época em que foram próximos.

— Ele é bom nisso – Ela comentou, de repente – Ajudar pessoas que estão enfrentando o luto. Acho que os meses depois da morte da minha mãe foram os únicos que a gente realmente conversava e ele me dava atenção.

— Você não estava aqui, Emma – Elsa falou, um pouco sem jeito – Eu sei que sua relação com David sempre foi complicada, distante. A gente viu acontecer boa parte do tempo. Mas quando você foi embora... Foi como se ele estivesse desaparecendo diante de todos. Se você quer saber o que eu acho, é que sua mãe e você eram as únicas coisas que o impediam de perder o controle sobre os próprios vícios.

— Mas você sabe, aliás, vocês sabem como ele era antes de eu partir – A médica suspirou, irritada – David sempre agiu como se minha mãe e eu fossemos um móvel de dentro da casa. Boa parte das minhas memórias de infância são sobre minha mãe chorando na cozinha porque ele tinha saído de novo, dela pedindo para ele ficar em casa. Mas ele continuou indo. Não dá pra agir assim uma vida toda e depois esperar que as pessoas saibam que são importantes.

— Eu sempre fiquei pensando... Se tinha algo a mais – Ruby comentou, ganhando a atenção das duas amigas – Só que toda vez que eu questionava minha avó, ela dizia para que eu cuidasse da minha própria vida. Acho que ela sabia que tudo o que me dissesse seria como dizer direto para você.

— Algo a mais?

— Sim – A moça deu de ombros – Vícios são um tipo de cola que a gente usa pra tentar grudar o que quebrou por dentro.

Nenhuma delas tinha muito a dizer sobre isso. Elsa, percebendo que a sala rapidamente caia em um estado de melancolia, encarou Ruby com seu melhor sorriso.

— Não sabia que você era poeta.

E isso bastou para que elas rissem outra vez, embora a mente de Emma não tivesse deixado de lado o que haviam acabado de falar.

— No fim das contas, eu devo um pedido de desculpas duplo para a Regina – Comentou – O que acham que eu poderia mandar para ela, acompanhando o cartão de desculpas?

— Um buque com vinte e quatro rosas vermelhas – Ruby gracejou e Elsa concordou – Uma reserva naquele restaurante caro que tem na entrada da cidade.

— Ruby, eu quero só pedir desculpas – Emma revirou os olhos – E não me casar.

— Não sei – Ela deu de ombros – Até onde tenho conhecimento, você e ela são as únicas duas lésbicas de Storybrooke, então meio que faz sentido.