O nó sinoatrial
6 Segredos de família
Ironicamente, Emma acabou cuidando do jardim.
Respondeu e-mails, usou de seu privilégio no hospital para estender sua licença por mais alguns dias e, deixando o celular de lado, saiu para a varanda. O sol da manhã estava agradável, mas havia algo como abandono emanando do quintal, sempre que olhava para o mato alto que escondia parcialmente as flores. Com mil diabos, era preciso mostrar que pessoas viviam naquela casa, que cuidavam das plantas que rodeavam as paredes.
E com esse pensamento em mente, ela buscou pelo equipamento de jardinagem da mãe e perdeu a conta das horas, perdida entre as flores e os amontoados crescentes do mato ainda com raiz que retirava da terra.
Seu pai chegou um pouco depois da hora do almoço. Emma sabia disso porque seu estômago estava reclamando já há algum tempo, quando a caminhonete mal cuidada estacionou ao lado de seu próprio carro. David desceu devagar, trazendo consigo duas sacolas do diner da avó de Ruby e ficou parado ao lado dos veículos, olhando para a filha com uma expressão quase triste.
Por fim, quando percebeu que estava parado ali já há algum tempo, David caminhou até Emma e levantou as sacolas.
— Eu trouxe o almoço – Sorriu quando ela ergueu a cabeça – E antes que diga algo sobre comida industrializada... Eu pedi salada também.
Emma acabou sorrindo também e se levantou. Eles entraram na casa e David foi direto para a mesa, onde abriu as sacolas e organizou a comida, enquanto a filha lavava as mãos.
— Gostei do que você fez com o lugar – Ele comentou, olhando ao redor.
— Eu só limpei, pai – Ela se aproximou, assumindo seu assento.
— Eu sei – David se sentou – Mas eu gostei mesmo assim. É estranho admitir que eu sequer percebi quando a sujeira saiu do controle. Num dia eu estava deixando uma panela para lavar depois e de repente...
— Eu entendo – Ela respondeu, após vê-lo lutar sem conseguir encontrar a palavra certa – Não julgo. Honestamente, não posso dizer que meu apartamento não estaria pior, se não fosse pela moça que o limpa uma vez por semana.
Aquilo era mentira. Ambos sabiam que Emma era cuidadosa demais para que isso acontecesse. Mas também estavam cientes de que era um caminho complexo o que trilhavam para tentar encontrar um assunto em comum e que a paz que compartilhavam naquele momento, era frágil.
Comeram em silêncio, sem saber como falar um com o outro. David estava ciente de que Emma estivera no Haras Mills, um dos funcionários de Regina havia falado sobre isso no bar e pelo tom do homem, era de se imaginar que a conversa entre as duas mulheres não tivesse sido das melhores. Embora quisesse questionar sobre o tema, tinha certeza de que esse assunto deveria começar de outra maneira, já que era inútil continuar tentando manter a verdade escondida da filha.
Algum tempo depois, quando ambos estavam satisfeitos, jogaram fora as embalagens vazias e David abriu duas cervejas, entregando uma para Emma.
— Vamos para a varanda – Pediu.
Emma apenas o seguiu, se sentando em uma das cadeiras estofadas. Não se lembrava de ter compartilhado um momento como aquele com o pai, de ter se sentado para beber uma cerveja com ele.
David encarou a garrafa por longos segundos, o silêncio pesado denunciando o debate interno que travava consigo mesmo. Ele passara os últimos dias fugindo, inventando desculpas no bar e horários estendidos no trabalho apenas para não encarar a filha. Mas vê-la ali, limpando o jardim da mãe após ter ido confrontar Regina Mills no haras, fez David perceber que seu tempo de fuga havia acabado. Se Emma ia descobrir a verdade sobre a ruína daquela família, que fosse pela sua boca, e não pelos boatos da cidade.
— Sabe que, quando comprei essas terras, seu avô me ofereceu uma grande quantia por elas – David começou a falar, encarando o jardim. O cheiro da terra mexida parecia trazer à tona sentimentos antigos – Ele me odiava. Sempre dizia que eu só poderia me casar com a filha dele quando fosse dono de terras férteis. Mas não esperava que eu fosse conseguir comprar qualquer coisa e, quando eu apareci na porta da frente com a escritura na mão, quis comprar minhas terras.
— Mamãe sabia disso? – Emma questionou, olhando para ele.
— Sim, ela sabia – David pensou um pouco – Mas não era com ela que eu pretendia me casar.
— O que?
— Você sabe que eu sou mais velho do que sua mãe – Ela assentiu – Eu a conheci porque namorava a irmã dela, Ginny. Foi por Ginny que trabalhei nas minas, enquanto ela adiava noivado após noivado, esperando por mim. Foi por ela que comprei essas terras, que construí essa casa – Só então, David olhou para a filha – Seu avô só concordou com o casamento, quando Ginny engravidou.
Emma estava tão confusa, que se viu incapaz de dizer qualquer coisa e o silêncio se prolongou por tanto tempo, que pensou que David tinha desistido de contar a história.
— Nós marcamos a data – Ele continuou, em voz baixa – Mas poucos dias antes do casamento, aconteceu um acidente. Eu estava levando Ginny e Mary para casa, perdi o controle do carro – Outra pausa, na qual David tentou enxugar algumas lágrimas – Mary e eu sobrevivemos. A vida perdeu o sentido, Emma. Eu olhava para essa casa e a única coisa que eu queria fazer era acender um fósforo e deixar que o fogo levasse tudo. Eu me culpava... Eu me culpo, pelo que aconteceu. Seu avô também me culpava, sua avó tentava não culpar, mas... Nunca mais me olhou da mesma maneira.
— E... E a minha mãe?
— Ela era a única que não me culpava – Ele sorriu, com tristeza – Porque culpava a si mesma. É claro que só conseguimos falar disso muito tempo depois, quando Mary finalmente teve a coragem de me falar sobre como se sentia. Eu estava despedaçado pela morte de Ginny, vendo a irmã mais nova dela me contar que era apaixonada por mim há tempos e que o acidente tinha sido culpa dela, porque em momentos de desespero, pensava que gostaria de assumir o lugar da irmã.
— E como foi que... – Emma não encontrou a palavra certa, sua frase não terminada a fez sentir-se boba, mas o pai entendeu.
— Não sei dizer, Emma – Ele balançou a cabeça – As coisas só... Aconteceram. Nós estávamos sempre no cemitério, cada um buscando pela redenção da própria culpa e nos aproximamos. Mesmo que eu fosse mais velho do que Mary, era só um garoto idiota e não tive responsabilidade com os sentimentos da sua mãe. Ela engravidou e bem... Fugiu de casa. Apareceu na minha porta durante a madrugada, com as roupas em uma sacola e um teste de gravidez positivo. Nem por um segundo eu duvidei que a criança que ela carregava, fosse minha.
— E meu avô?
— O velho quase ficou louco – David riu então – No dia seguinte ele veio até aqui com uma espingarda, ameaçando Deus e o mundo, dizendo que eu não estava contente em ter destruído a vida da filha mais velha e levaria também a mais nova. Foi um escândalo. Para ser sincero, naquele dia eu desejei que ele atirasse. Mas sua mãe se colocou entre nós dois.
— Você a amou? – Emma precisaria de um longo tempo para digerir tudo aquilo. Tinha mais perguntas do que conseguia pronunciar e, ainda assim, aquela parecia ser a mais importante.
— Amei. Não no começo, quando eu ainda estava perdido demais em minha própria dor e as coisas estavam mudando rápido demais. Mas amei sua mãe com todo o meu coração, apesar de nunca ter conseguido demonstrar da maneira como ela merecia – Ele deu de ombros, olhando para os próprios pés – Quando eu olho para trás, Emma, tudo o que eu consigo ver é que passei a vida toda amando um fantasma e que sua mãe sabia disso. Mesmo que ela estivesse aqui, me amando como o primeiro homem de sua vida, eu sempre a amei como uma segunda opção.
Dessa vez, quando o silêncio se prolongou, David se levantou. Ele encarou o jardim, o horizonte, as pedras e só muito tempo depois se virou para a filha, que continuava olhando para a garrafa que segurava, sem realmente vê-la.
— Eu sei que temos muito para conversar, Emma – Ele comentou e a médica levantou os olhos, encarando-o – Mas eu preciso de um pouco de tempo antes de conseguir falar.
Quando ele abriu a carteira e entregou para a filha a foto de Ginny, muita coisa fez sentido na cabeça de Emma. Porque olhar para a imagem, era o mesmo que encarar um espelho.
Ela mal registrou o bater da porta de tela, quando David voltou para dentro da casa. Seus dedos trêmulos contornaram as bordas envelhecidas da imagem. Não que ela fosse exatamente igual a tia falecida, mas carregavam os mesmos olhos, o contorno dos lábios – que ela passara a adolescência achando finos demais – e o tom de cor dos cabelos.
Era como se algumas peças estivessem finalmente se encaixando. Os momentos em que pegara o pai a olhando, com uma tristeza tão profunda que a fazia sentir-se mal. Quando dormia chorando, pensando que David estava decepcionado por alguma razão ou simplesmente a odiava. Claro que continuava achando injusto que uma criança precisasse sentir tais coisas, por acontecimentos dos quais não fizera parte. Porém, agora era capaz de ver a situação com outros olhos.
As lágrimas da mãe também já não tinham o mesmo sentido.
Conseguia ver o pai com outros olhos, só não sabia ainda se seria capaz de perdoá-lo.
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