Notas iniciais
Olá Não sei bem o que estou fazendo aqui kkkkkk Já faz alguns anos que eu estava em um bloqueio que parecia não ter fim. Por acaso, topei com o banner do desafio no grupo do facebook e me deu um estalo mental. Sentei e escrevi um capítulo todinho. Acho que ser meu tema preferido para ler e assistir sobre, ajudou. Enfim, espero que apreciem.

O coração humano bate cerca de cem mil vezes por dia, bombeia aproximadamente de sete a oito mil litros de sangue diariamente e, em questão de tamanho, pode ser comparado a um punho fechado, preso com firmeza entre os dois pulmões.

É também o símbolo do amor. Desenhado nas portas de banheiros de escolas por adolescentes ansiosos, pintado de vermelho por crianças.

E Emma sabia que essa atribuição era equivocada. Que as amigdalas tinham, provavelmente, mais sentimentos do que o coração.

Como uma das melhores cirurgiãs cardiovasculares da atualidade, Emma Swan tinha o tato de não revirar os olhos diante de determinadas situações. Mas estava ciente de que o coração de seu paciente não doía por ter sido deixado pela mulher e que o jovem – e já danificado – coração da moça que teria em sua sala de operações naquela tarde, não estava apaixonado.

O coração, embora espetacular em sua anatomia e funcionamento, era um músculo. Um músculo que reagia aos impulsos recebidos de outras áreas do corpo. Ele não amava, não sofria. E quando realmente doía, era mais provável que a causa fosse um infarto e não um divórcio.

— Ok, último ponto – Com maestria, ela puxou a pinça para cima e finalizou o último nó. Conferiu o próprio trabalho, analisando com calma a superfície lisa – Reduza o fluxo para cinquenta por cento.

Emma não desviou os olhos do coração que tinha diante dela. Ouviu o farfalhar plástico e abafado característico das roupas que a equipe usava durante uma cirurgia, percebeu o som da máquina de circulação extracorpórea alterando levemente, se tornando um zumbido um pouco mais baixo.

Tum-tum.

Ele bateu uma vez, vermelho e brilhante sob as luzes do centro cirúrgico. Emma suspirou.

— Pressão estável – O anestesiologista se fez ouvir, olhando para o monitor com a mesma atenção que a cirurgiã olhava para o coração.

— Diminua para trinta por cento – O som das roupas, a máquina se alterando outra vez.

O coração continuou batendo.

As extremidades rosadas na pele e a pressão estável diziam que ele estava pronto para assumir o comando.

Outra cirurgia de sucesso.

A equipe aplaudiu, a família a abraçou. Ela estava triunfante e contente, embora cansada pelas oito horas passadas em pé.

Pela janela, Los Angeles se preparava para o entardecer ensolarado. Pessoas se moviam como formigas apressadas pelas ruas, carros buzinavam. Eles não faziam ideia de que famílias vinham de todos os lugares até ali, para uma consulta com a mulher que os observava da janela do hospital, silenciosa.

Emma tinha construído uma carreira espetacular. Deslumbrada mais com os ventrículos de um coração do que com as cores do pôr do sol, estudara o suficiente para se destacar em meio aos tantos jovens que, como ela, sonhavam em exercer a medicina. Havia se apaixonado pelo coração ainda em seu período como interna, a especialização que veio depois, parecia ser apenas o caminho certo a seguir.

Mas, naquela época, nem ela mesma conseguia imaginar como sua carreira seria.

Era considerada uma cárdio corajosa, que não tremia ao realizar cirurgias que outros cirurgiões declinavam. Alguns a achavam apenas louca o suficiente.

Fosse coragem ou loucura, Emma se dedicava tanto quanto podia em cada caso que aceitava. Continuava estudando e praticando mesmo as etapas mais simples, produzindo artigos médicos sobre os pequenos vasos sanguíneos do coração, que eram quase sempre deixados de lado em prol do nó sinoatrial.

Depois de cerca de uma hora dirigindo no calor das ruas, seu apartamento vazio a recebeu com frescor. Adicionou os arquivos da última cirurgia ao drive no notebook, tomou um longo banho de banheira e se permitiu abrir a garrafa de vinho, que estivera esperando desde a semana anterior.

O líquido tinto lhe trouxe algum relaxamento, o cansaço pelo dia finalmente se infiltrando em seus membros conforme se sentava na espreguiçadeira da sacada, observando sem atenção o sol que se punha sobre a areia dourada de Santa Monica.

Na sala, a voz robótica do computador ainda ligado anunciou um novo e-mail.

Emma quase cedeu a tentação de ignorar, poderia ver no dia seguinte. Mas lembrou-se de que esperava um artigo, que um médico conhecido deveria ter enviado já há três dias e se levantou, com um suspiro longo.

Massageou o próprio pescoço enquanto se sentava no sofá e puxava o notebook para o colo.

Urgente – Referente ao Rancho Swan

O título do e-mail a fez se arrepender de ter levantado da espreguiçadeira. Bebeu o resto do vinho da taça em um só gole e se esticou, trazendo a garrafa para mais perto sobre a mesa de centro.

— Remetente... Haras Mills – Franziu o cenho – Quem diabos....

Clicou.

Prezada Dra. Emma Swan,

Presumo que seu tempo seja escasso, por isso serei direta.

Meu nome é Regina Mills, proprietária do Haras Mills, vizinho às terras de sua família no Maine. Entro em contato diretamente com a senhora, na condição de herdeira legal, visto que as tentativas de resolução amigável com o Sr. David Swan se esgotaram devido à total inadimplência e falta de gerenciamento dele.

O Rancho Swan acumula dívidas severas de hipoteca e impostos territoriais atrasados com o condado, além de quebras de contrato de fornecimento que já estão em esfera judicial. Como principal credora de parte dessas notas e interessada na expansão das minhas pastagens, formalizei junto aos advogados uma proposta de compra e quitação total dos débitos em troca da transferência compulsória das terras.

O Sr. David recusa-se a assinar a venda administrativa, o que levará o imóvel a leilão judicial em exatamente trinta dias, deixando-o sem teto e com o nome arruinado. Como médica renomada, imagino que não queira o nome de sua família arrastado em um escândalo de falência pública.

Seguem em anexo as cópias dos processos e a minuta do contrato de compra. Recomendo que convença seu pai a assinar, ou que venha ao Maine assinar por ele antes que o tribunal o faça.

Atenciosamente,

Regina Mills

Haras Mills

Foram necessárias duas releituras e três taças de vinho para que o cérebro de Emma voltasse a funcionar. Seu próprio coração parecia ter parado ao ler aquelas palavras.

Inadimplência? Falta de gerenciamento? Quebras de contrato?

Não, nada daquilo se encaixava com David Swan. O homem pai de uma única filha, cujo filho preferido era o rancho que levava adiante.

Simplesmente não fazia sentido.

E essa mulher, Regina. Aparentemente seu interesse nas terras dos Swan era tão grande, que fora capaz de enviar aquele e-mail. Havia conseguido manter suas origens bem longe dos holofotes, durante todos aqueles anos. Sua sorte estava no fato de a comunidade médica não ser perseguida como eram as celebridades. Ninguém realmente se importava em saber exatamente em que local do Maine ela tinha nascido, contanto que soubesse como consertar corações.

Mas então, uma desconhecida tivera culhões o bastante para fazer a conexão e escrever aquelas palavras que provavelmente não passavam de mentiras.

Os documentos, no entanto, pareciam bem reais. A assinatura que claramente era a de seu pai, presente em recibos de empréstimos, adiantamentos.

Quando alcançou a metade da segunda garrafa de vinho, Emma finalmente percebeu. Os recibos não eram de valor alto. Aquilo não era sobre ração para os animais ou maquinário.

— Você está perdendo o lugar onde minha mãe está enterrada, por dívidas de jogo? – Emma falou para a tela inabalável do notebook.

O e-mail enviado para o hospital era simples. Ausência devido a complicações pessoais em sua terra natal. O segundo, enviado para a médica que a substituiria, era mais complexo. Prontuários, instruções, ordens claras.

Ao pegar a mala, sobre o guarda roupa, Emma sentiu as lágrimas vindo aos olhos.

Lembrou-se, com muita clareza, de quando usou outra mala para fazer o caminho contrário. A certeza de que sua vida melhoraria quando deixasse aquela terra e não olhasse para trás, os sonhos e as ilusões que tinha sobre a cidade grande e seu futuro como médica.

Tinha jurado nunca mais voltar para Storybrooke e agora, era exatamente o que estava prestes a fazer.