O nó sinoatrial
2 Hortelã
A cerca precisava de reparos. Foi a primeira coisa que Emma percebeu conforme dirigia o carro alugado pela estrada de terra que levava ao rancho. Lembrava-se com clareza dos arames sempre esticados e dos suportes que o pai até mesmo envernizava para amenizar os danos do clima; à distância, porém, podia vê-los se abrindo em rachaduras que afrouxavam a estrutura. Qualquer animal fugiria daquele pasto. Isso a levou a diminuir a velocidade do carro, correndo os olhos verdes pela paisagem desbotada onde apenas dois cavalos pastavam tranquilamente, com os movimentos lentos e típicos da velhice.
Além disso, ela sentia frio. É claro que Los Angeles tinha sua cota de dias gelados no auge do inverno, mas Storybrooke era simplesmente úmida, todos os dias. As manhãs eram frias, as tardes eram quentes e as noites a faziam sentir como se a umidade estivesse infiltrada em seus próprios ossos.
A porteira estava aberta, o letreiro outrora pintado de dourado, estava sem cor alguma.
Emma fechou os olhos, apoiando o rosto das mãos e deixando que o SUV parasse ali mesmo. Sentiu-se subitamente cansada de uma forma que doze horas em pé na sala de cirurgia não a faziam sentir. Era como se o Rancho Swan estivesse drenando suas energias desde o momento em que se lembrara de sua existência. E Deus sabia o quanto ela havia se esforçado para esquecer aquele lugar.
Garantindo a si mesma que seriam só alguns dias, acelerou outra vez. Certamente que sua influência ou seu dinheiro, conseguiriam resolver o que quer que fosse. Pagaria as malditas dívidas do pai, provavelmente algum dinheiro para a tal Regina e então, estaria livre para voltar para sua vida.
Não havia conseguido falar com David, de modo que deixou uma mensagem na secretária eletrônica, avisando de sua chegada.
O primeiro golpe veio ao ver a casa. A varanda outrora bem cuidada onde a mãe se sentava nos fins de tarde, quando o cheiro do café se espalhava ao redor dos olhos sempre sorridentes de Mary Margaret. Emma desligou o carro, encarando a pintura descascada e a cadeira de balanço vazia. Embora fosse uma entusiasta de silêncios, a ausência do som do motor não lhe trouxe qualquer paz. Ao contrário, era um silêncio de dor e ruína, do luto que se seguiu a morte da mãe, a mulher cuja risada era o suficiente para aplacar a ausência constante do pai.
Assim que saiu do carro, Emma escutou um barulho vindo do celeiro. Por puro instinto, virou-se naquela direção em vez de entrar na casa. O jardim estava florido, como se protestasse contra o abandono usando a própria beleza como escudo. O velho celeiro estava quase como ela se lembrava, exceto talvez por uma ou outra tábua rachada. A estrutura imponente ainda se destacava do resto, remetendo a épocas nas quais ela se escondia na construção gigante, perdida entre montes de feno, trançando os rabos dos cavalos.
David saiu de repente, parecendo tão chocado quanto a filha.
Emma se lembrava do homem austero e de barba por fazer, dos braços musculosos pelo trabalho pesado e a coluna sempre ereta. Do riso fácil, porém, distante. O homem diante dela, contudo, era velho demais, tinha as costas curvadas, os olhos perdidos e a pele pálida de quem não se cuidava.
— Emma? – David sorriu e rapidamente levou a mão até a cabeça, buscando retirar um boné que já não usava há anos – Se você não tivesse os olhos da sua mãe, eu não tinha te reconhecido. Como você cresceu, se tornou uma linda mulher. O que... O que está fazendo aqui?
— Olá, pai – Emma não sorriu, mesmo tentando – Eu deixei uma mensagem avisando que estava vindo.
— Desculpe, querida – Ele deu de ombros, sem jeito – Eu continuo me esquecendo que aquela coisa existe – O silêncio durou tempo demais e David enfim pigarreou – Quer entrar? Posso fazer um café ou um chá se preferir.
— Um... Um chá seria ótimo.
Desde que Emma podia se lembrar, quando saiam do celeiro para a casa, usavam a porta dos fundos e entravam diretamente na cozinha. Seguiu o pai pelo caminho conhecido e levou outro golpe ao passar pela soleira da porta.
Ao que parecia, David agora vivia como um solteirão desleixado. Panelas, copos e canecas se acumulavam na pia, junto de garrafas vazias. A lixeira transbordava embalagens de comida pronta, marmitas e toda a comida industrializada que um homem era capaz de consumir. Tudo ali cheirava a pó.
Como se aquilo tudo fosse normal, David encheu a chaleira na torneira da cozinha, empurrando algumas panelas sujas para o lado antes de colocá-la sobre o fogão. Indo até o armário, escolheu cuidadosamente uma das canecas de Mary Margaret, enxaguou-a e a deixou sobre a mesa, pegando para si mesmo um dos copos sujos na pia.
Emma estava sem reação. Percebeu-se incapaz de tomar as rédeas da situação, questionar ou dizer o que quer que fosse e apenas se sentou, observando o homem que se movia lentamente pelo cômodo.
— Encontrei o seu preferido – David declarou, erguendo a caixa de chá de hortelã que provavelmente estava ali desde antes de ela partir.
Emma não teve forças para comentar que não gostava daquele sabor desde a morte da mãe.
A chaleira apitou, a água fervente foi servida e o silêncio se prolongou por mais algum tempo, enquanto ambos esperavam pela infusão. O primeiro gole quase a fez rir. De fato, imaginou-se rindo histericamente, como as mulheres nos filmes que perdiam a cabeça e gargalhavam para a câmera. Pigarreou algumas vezes, afastando o embargo da voz e as lágrimas dos olhos.
— Pai... Quem é Regina Mills? – Questionou de repente. Surpreendendo um pouco a si mesma e completamente o pai, que a encarou com a boca entreaberta.
— Regina Mills é... – Ele riu, amargo e sem qualquer traço de humor. Um brilho selvagem esteve presente em seus olhos por apenas um momento, antes de ele continuar – Ela é uma boa moça.
— Uma boa moça? – Dessa vez, a risada amarga veio da própria Emma – Se ela é tão boa moça assim, por que me mandou um e-mail para me informar que está prestes a tomar o rancho?
Os lábios de David formaram uma linha fina. Ele moveu a cabeça de um lado ao outro, finalmente encarando a luz vermelha da secretária eletrônica, que pulsava no mesmo ritmo de um coração.
— Ela fez isso, é? – Ele grunhiu – Talvez eu devesse mesmo checar a secretária eletrônica com frequência.
— O que está acontecendo? – Emma exigiu.
— Ora, nada está acontecendo, Emma – David deu de ombros – Pode voltar para a sua vida na cidade e deixar que eu cuide dos meus problemas.
— Você... Você cuida dos seus problemas? – Ela bateu na mesa com ambas as mãos, fazendo voar o pó que havia se acumulado sobre a madeira – Sua casa parece um lixão, eu recebo uma notificação não formal de que você está perdendo o rancho e você cuida dos seus problemas?
Ela soube, pelo olhar do pai, que estava usando o tom de voz que controlava internos no hospital, que os tirava do pânico quando algo dava errado.
— Não venha me dar lição de moral, Emma Swan – David se levantou – Já disse! Volte para a sua vida na cidade e me deixe em paz, como você tem feito nesses anos todos.
Deixando-a sozinha, ele saiu batendo a porta.
Emma suspirou profundamente. Com a ponta dos dedos, desenhou um emoji sorridente no tampo da mesa, resistindo bravamente à tentação de escrever ‘lave-me’. Desistiu de fingir que beberia o chá e em vez de enxaguar apenas sua caneca, se viu organizando a louça suja. Empilhou panelas, separou talheres e procurou pelo sabão.
Percebeu que as coisas que pertenciam a Mary Margaret, estavam guardadas no mesmo lugar que ela deixava, intocadas. Embora todo o resto se acumulasse em pilhas desordenadas, os utensílios da mãe estavam cheios de pó, parados no tempo. Se Emma não tentasse pensar em onde procurar as coisas, as encontrava por puro instinto e lembrança, se movendo como se nunca tivesse partido.
Decidiu que, na manhã seguinte, iria até a cidade. A geladeira e a despensa estavam vazias e, se pretendia ficar ali mesmo que por alguns dias, precisaria comer mais do que lasanha congelada. Podia aproveitar a viagem e perguntar para as pessoas sobre a tal Regina Mills. Se o pai não estava disposto a falar, essa mulher certamente estaria.
Antes de subir, no entanto, Emma precisava pegar suas coisas. Saiu pela porta da frente e cruzou o quintal escuro até o carro, onde o ar gelado da noite a fez encolher os ombros dentro da jaqueta. Abriu o porta-malas e puxou sua valise de couro, além de uma mochila menor onde carregava os produtos de higiene. O silêncio do rancho à noite era quase sólido, quebrado apenas pelo farfalhar do vento nas árvores distantes.
Com o peso das malas nos braços, ela subiu as escadas rangentes da casa em direção ao seu antigo quarto. O ambiente parecia uma cápsula do tempo poeirenta. Pôsteres desbotados nas paredes e uma colcha de retalhos que sua mãe havia costurado ainda repousavam sobre a cama de solteiro. Emma deixou as malas no chão e encarou o teto escuro após um banho rápido e frio, sentindo o silêncio da noite rural sufocá-la. Em Los Angeles, o som do tráfego e as sirenes distantes eram seu cansaço anestesiado; ali, o estalar das madeiras velhas parecia o eco de discussões antigas que a casa se recusava a esquecer.
O pai chegou pouco depois das quatro, os passos incertos indicando onde ele tinha estado até então. Emma podia jurar que o cheiro do álcool atravessava as paredes até o quarto.
Ela rolou de um lado para o outro, atormentada pela imagem de David envelhecido, curvado e teimoso na cozinha. O rancor que cultivara por anos parecia não se encaixar direito naquele homem quebrado, e isso a irritava profundamente. Quando o vislumbre cinzento do amanhecer finalmente começou a rasgar as frestas da janela, Emma já estava de pé. Não havia conseguido pregar os olhos. Lavou o rosto, ajeitou as roupas e desceu sem fazer barulho, evitando o confronto com o pai. Pegou as chaves do carro e cruzou a porta da frente. Storybrooke a esperava, com todas as suas respostas e fantasmas.
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