Emma jogou as roupas descartáveis no lixo, lavou as mãos três vezes e só parou ao decidir que já tinha deixado para trás os últimos vestígios da cirurgia. Mais uma pessoa salva, outra família feliz cujos nomes e sobrenomes ela se esquecia no momento em que entregava o prontuário no posto de enfermagem.

Era seu sétimo dia de volta a Los Angeles e ao hospital. Embora o ritmo frenético a tivesse engolido nos primeiros dias, graças às suas consultas adiadas e emergências, ela se pegava pensando em Storybrooke constantemente. Antes de sua viagem, aquela era uma rotina à qual se apegava, e estava mais do que contente em salvar vidas. Agora, no entanto, sentia falta da conexão que tinha com as pessoas de sua terra natal. Seu trabalho era importante, e ela sabia disso; porém, tinha a impressão de que o que fazia valia mais quando simplesmente media a pressão de Granny do que quando passava oito horas em uma sala de cirurgia.

Algo estava terrivelmente errado com ela.

Aproveitou o período de descanso para pegar um café e conferir o celular. A tela logo brilhou com o nome de Ruby e quando Emma abriu a mensagem, sorriu sem perceber. A amiga havia enviado uma foto de Regina, sentada em sua mesa habitual no diner. O que lhe chamou a atenção, no entanto, é que o livro estava fechado sobre o tampo de madeira e a morena olhava diretamente para a rua, pensativa.

Enviou um emoji revirando os olhos para a amiga e, por puro costume, abriu a conversa com Regina, mesmo sabendo que não teria nada lá. A última mensagem fora uma foto de Apolo e Diana, que soava mais como uma prestação de contas do que qualquer outra coisa e quando Emma tentou quebrar o gelo e perguntou como ela estava, a morena apenas visualizou e nunca respondeu.

— Dra. Swan? – A enfermeira a retirou dos próprios pensamentos e logo Emma estava correndo outra vez pelos corredores brancos demais.

Os dias passavam rápido. A médica sentia-se sufocada, dolorida.

A rotina do hospital a incomodava, seu apartamento a incomodava, o trânsito a deixava mais irritada do que nunca. O fato de o pai não atender a nenhuma de suas ligações só piorava a situação. Ruby e Elsa alegavam que ele continuava no mesmo ritmo, embora mais abatido.

Emma passou a duplicar seus plantões. Estava cansada, mas preferia isso a voltar para o apartamento. Os dias pareciam se tornar um só, as horas e datas se misturando sem contexto e sem espaço.

Em algum momento entre os plantões, estava na cafeteria do hospital comendo uma salada que poderia jurar que era a mais sem graça que já havia experimentado, quando a conversa alta na mesa ao lado chamou sua atenção.

— Me respeitem – Um dos médicos falou, em tom de brincadeira – Eu vou ser a capa da Times no mês que vem e espero todos vocês trazendo suas edições para que eu autografe.

“Vocês, malditos médicos de cidade grande... São todos iguais. Querem dinheiro, fama, aparecer em capas de revistas”.

As palavras do pai a atingiram com a mesma força de antes. Emma empurrou o prato, a salada inacabada murchando diante de seus olhos.

Depois disso, foi inevitável que passasse a prestar mais a atenção ao que ouvia dos outros. Revistas, congressos, salários, sucesso. Cargos maiores, hospitais maiores. Haveria um limite para onde eles podiam chegar, se buscavam sempre mais?

O que a incomodava, era perceber o quanto David tinha razão em seu discurso. Estivera ela mesma tão focada, durante tanto tempo, que sequer percebeu a realidade ao seu redor. Ela mesma estava sempre buscando mais, trocando de carro todos os anos como se o veículo não passasse boa parte do tempo simplesmente estacionado em algum lugar ou buzinando nas longas filas.

Salvar vidas deveria ser o objetivo, ajudar as pessoas. Mesmo assim, poucos cirurgiões se dignavam a realizar cirurgias pro bono. Pelo contrário, a maioria deles sequer aceitava casos simples que não os fariam ser o assunto do momento entre os colegas.

O hospital, que deveria ser sobre os pacientes, se tornara uma competição entre os doutores.

Quando a ideia começou a tomar forma, Emma não lhe deu muita atenção. Seguiu com sua rotina exaustiva, com o trânsito parado e os pacientes gratos, embora a enfermeira-chefe tenha lançado um olhar torto em sua direção ao vê-la usando o computador do posto para pesquisar se era preciso uma licença especial para dirigir a própria clínica.

— Dra. Swan – A enfermeira a chamou, deslizando um prontuário sobre o balcão – O Dr. Digger pediu para eu repassar esse caso.

A entonação que a mulher usou, já deixou Emma saber que “pedir” não era o termo adequado. Digger tinha o costume de gritar com enfermeiras o tempo todo e embora elas se queixassem disso, o hospital jamais correria o risco de perder sua estrela em ascensão.

— Marca-passo... – Emma leu e sorriu, sem humor algum – Simples demais para o nosso super herói?

— Ao que parece – A enfermeira riu baixo – Dra... Perdão, mas eu preciso perguntar, a sra. está se sentindo bem?

— O que? Estou sim... – Emma franziu o cenho – Por que pergunta?

— Não é nada... É só que eu tenho percebido que está abatida e perdeu uns bons cinco quilos desde que voltou – A mulher apontou para o computador – Seja lá o que estiver planejando... Corra enquanto pode.

No fim das contas, a cirurgia simples foi feita ainda naquela tarde. A última de um plantão de trinta e seis horas que Emma havia escolhido de bom grado.

Sem escolha, ela dirigiu de volta para o apartamento, que a recebeu com uma frieza que ela não tinha percebido antes. Fez uma chamada de vídeo com as amigas, que bebiam cada uma em sua própria casa. Ruby foi a primeira a juntar as sobrancelhas, alegando que a médica estava com uma aparência de merda, e Elsa concordou, apesar de usar palavras mais suaves.

E como se ela não tivesse passado anos trabalhando em uma armadura que nunca deixava o mundo ver como se sentia, Emma Swan transbordou e relatou para as amigas todos os dias de sua rotina. Falou, com alguma surpresa, sobre como a cidade que antes parecia uma mãe de braços abertos para recebê-la, agora soava mais como uma doença que se enrolava em seus ossos.

— Eu também tentei ir embora, sabe – Ruby deu de ombros, quando ela terminou – Fui para Nova York, consegui um trabalho como garçonete e... Em seis meses eu estava de volta. Mesmo que eu estivesse trabalhando exatamente com o que trabalho aqui e ganhando mais, eu não estava feliz. E olha que a quantidade de homens disponíveis era absurda – A piada fez as três sorrirem – Storybrooke fez sua magia em você, Emma, só aceita.

Elsa, que havia se mantido calada até então, suspirou.

— Você conseguiu tudo o que queria, Emma – Ela começou, devagar. Ainda pensando nas palavras que diria – Deixou Storybrooke para trás, estudou, se tornou uma médica fantástica com uma carreira linda... Porque era o que seu coração mandava você fazer. Talvez esteja na hora de ouvi-lo de novo.

— O coração é só um músculo, Elsa – Emma rebateu – Ele não pensa e nem manda.

— Continue repetindo isso, uma hora você se convence.

As amigas estavam realmente dispostas a convencê-la. Embora tivessem desligado a chamada sem voltar para o assunto, os próximos dias foram recheados com mensagens sobre Storybrooke. Uma foto de Belle com seu bebê saudável e Gold ao lado, com os olhos brilhando em lágrimas alegres. O pôr-do-sol no campo, a casa do pai, a entrada do Haras Mills – Ruby havia enviado essa e acrescentado que era o mais perto que chegaria das terras de Regina – Granny com seus olhos suaves e até mesmo a imagem de um pão doce feito por Anna, que fez o estômago da médica roncar.

E todas aquelas imagens lhe davam um aperto no coração, aproximando-a cada vez mais do limite já esticado. Mas foi em uma noite qualquer que a mensagem de Regina Mills a fez tomar uma decisão.

“Ah, Swan... Eu odeio ser sempre a portadora de más notícias. David não está bem. Passei pelo rancho hoje, para ver Apolo e Diana e o encontrei, alguém bateu nele e parece que já faz alguns dias. Foi feio”

Na manhã seguinte, Emma pediu demissão.

Vender o apartamento se provou mais fácil do que ela pensava. Bastou uma ligação para uma conhecida, que havia sido sua namorada por um curto período e naquela mesma tarde, três pessoas enviaram ofertas pelo imóvel de boa localização.

Aquilo talvez se provasse a decisão mais precipitada e estúpida que há havia tomado. Ela, tão prática e racional, se deixando levar por todos aqueles sentimentos que vinha acumulando ao longo do último mês. Mas algo em seu interior, a fazia sentir como se fosse a primeira decisão certa que tomava em anos.

“Estou voltando.”

Aquelas duas palavras que enviou para Regina foram o suficiente para que chorasse como uma criança, cercada pelas caixas com a própria mudança.