O nó sinoatrial
25 Caos e cinzas
No fim das contas, Emma não conseguiu ir ao haras no dia seguinte.
Ainda pela manhã, Killian entrou em contato para avisar que os papéis já estavam prontos e que precisavam apenas da assinatura dela para que David pudesse deixar a clínica. Era um procedimento padrão que as assinaturas fossem feitas pessoalmente e não pela internet; dessa forma, os familiares dos pacientes também recebiam orientações da terapeuta sobre o que deveriam esperar e fazer no período pós-internamento.
Ela e David passaram um dia em Los Angeles depois que saíram da clínica. Emma se divertiu ao perceber o pai assustado com o tamanho da cidade, completamente perdido entre tantas pessoas. O que a fazia sentir-se bem era o fato de ele parecer outro homem: havia ganhado peso, estava com uma boa aparência e, sobretudo, mostrava-se calmo e tranquilo de uma maneira que ela tinha poucas memórias de vê-lo assim.
Para David, um dia foi mais do que o suficiente no que ele chamou de selva de pedra. Mesmo assim, fez questão de pedir a Emma que o levasse para ver o hospital onde ela havia trabalhado e até mesmo o prédio onde ficava seu antigo apartamento. Ela foi bem recebida pelos antigos colegas de trabalho, que agora não a viam mais como uma concorrente.
— Eu tenho muito orgulho de você, Emma — Ele comentou mais tarde, quando tomavam café no aeroporto — Ver tudo o que você construiu aqui... e depois deixou para trás. Eu sinto orgulho e, ao mesmo tempo, culpa.
— Não, pai... — Emma sorriu — Sim, seus problemas foram o que me fizeram voltar para Storybrooke da primeira vez, mas quando eu vendi o apartamento e me mudei de vez, foi uma decisão totalmente minha. — Ela deu de ombros — Quando eu voltei de lá, após aqueles primeiros dias, isso aqui pareceu tão... demais. Eu já não tinha a sensação de que estava em casa.
— Storybrooke fez sua mágica. Mesmo assim, eu olho para todas aquelas coisas do passado, aquela gaveta cheia de promissórias que eu deixei, e é como se fosse outra pessoa — Ele desabafou — Hoje, naquele hospital, eu finalmente enxerguei como você brilhou aqui, nesta cidade enorme... Você estava brilhando e eu afundando. — Sem querer pesar o clima, ele logo voltou a sorrir — Por acaso você não conhece nenhuma terapeuta que estaria interessada em se mudar para Storybrooke? Caso contrário, vou precisar ir para a cidade vizinha no mínimo três vezes por semana para as reuniões e a terapia.
— Não fique pensando no passado ou se culpando por ele... De certa forma, acho que foi justamente esse o problema desde o início — Emma respondeu, pensativa — Eu certamente conheço uma terapeuta, mas ela é minha ex e eu preferia não tê-la morando em Storybrooke. Vamos pensar em algo quando chegarmos em casa.
— Minha filha partiu muitos corações em Los Angeles? — David gracejou — Espero que não esteja fazendo o mesmo em Storybrooke... A cidade é pequena demais e pode ficar complicado encontrar uma ex em cada esquina.
Emma manteve o sorriso congelado no rosto, tentando não deixar sua mente se perder. David, que fingiu não perceber, logo mudou de assunto e eles passaram as próximas horas em temas mais amenos, até que o avião chegasse.
O voo noturno ofereceu aos dois o silêncio que precisavam para descansar depois daquele dia de atividades. Emma despertou várias vezes; o ferimento em processo de cura a fazia querer esfregar as costas em algum lugar, como via os cavalos fazendo para se coçar.
O avião pousou no Maine por volta das oito da manhã e eles logo estavam na rodovia, encurtando a uma hora e meia que ainda os separava de casa.
— Ah... Eu acho que esqueci de contar uma coisa — Emma comentou, com os olhos fixos para a frente. Dirigir era sempre a desculpa perfeita para assuntos complicados — Nós temos um novo cavalo, Houston.
— Um novo cavalo? — David levantou as sobrancelhas — Eu quero saber como esse cavalo se tornou nosso.
— Regina comprou ele no Texas. Ele é manso, mas não aceita ser montado — A médica deu de ombros — Então ela meio que me deu metade e ele vive lá em casa. Quer dizer... no momento ele está no haras, porque nós não temos celeiro, mas, no geral, ele mora no rancho.
Quando o silêncio se prolongou por tempo demais, Emma se virou e encontrou o pai a olhando com uma expressão divertida, tentando não cair no riso.
— Você e Regina Mills têm um cavalo... juntas? — David finalmente riu — Eu vivi para ver isso. Que tipo de cavalo ele é?
— Um... Paint Horse — Ela respondeu devagar, tentando lembrar corretamente.
David assoviou.
— Emma, querida, você realmente não voa baixo, não é?
Ao chegarem em Storybrooke, David quis que parassem primeiro na clínica de Emma para ver onde ela estava trabalhando. Ele tentou, sem sucesso, esconder as lágrimas que se acumularam em seus olhos ao perceber a placa que havia entalhado balançando sobre a porta da frente. Emma fez um pequeno tour pelo seu local de trabalho, indicando máquinas que o pai desconhecia. A notícia de que Cruella era sua recepcionista e enfermeira foi outro motivo de riso para o homem, que declarou ter pena dos pacientes.
De lá, seguiram direto para o Haras Mills. Emma havia comentado que pretendia visitar os cavalos naquele dia, e David quis aproveitar que estavam juntos; ele também sentia falta dos animais e da própria Regina, para quem devia mais do que alguns pedidos de desculpas.
Emma segurou o volante com força quando passaram pela porteira do haras. Se não conhecesse tão bem a anatomia interna do corpo humano, poderia jurar que seu coração havia se deslocado para cima e agora vivia na garganta.
Como sempre fazia, estacionou o SUV diante da casa principal, ao lado do carro de Regina. David desembarcou primeiro, espreguiçando-se e respirando profundamente o ar puro antes de dar a volta no carro e ir até a cerca, onde um cavalo pastava. Ele ainda analisava o animal quando Emma criou coragem o suficiente para descer do carro.
— Emma... — Regina, que ouvira o carro estacionar, estava parada na varanda e a olhava de uma maneira que a médica simplesmente não conseguia se mover.
Elas apenas se olharam por algum tempo, até que a própria Emma cortou o silêncio, dando alguns passos para a frente.
— Como está o tornozelo? — Questionou, desesperada por um assunto. Foi preciso muita força de vontade para não se abaixar e verificar por ela mesma se a torção havia se curado.
— Está bem... Não dói mais — Regina sorriu, sem humor — Suas costas?
— Coçando — A médica deu de ombros — Mas é um bom sinal, quer dizer que está se curando.
— Entendo.
Para o alívio de Emma, o pai escolheu esse momento para dar a volta no carro outra vez e entrar no campo de visão de Regina, que imediatamente sorriu ao vê-lo.
— David!
— Regina, minha querida – Ele se adiantou e puxou a morena para um abraço, que ela correspondeu.
— Eu não sabia que você já estava de volta – Regina comentou, olhando rapidamente para Emma, enquanto falava – Quando chegou?
— Acho que faz uma meia hora — David riu — Nós acabamos de voltar de Los Angeles, ainda nem fomos para casa. E aquele cavalo ali, é novo?
Ele apontava para o malhado que estivera olhando ainda há pouco, e Regina assentiu.
— Sim, comprei faz pouco tempo em um leilão no Texas.
— Por falar em Texas... — O semblante dele se iluminou ainda mais — Emma estava me dizendo que temos um novo morador no rancho, o Houston. Estou louco para conhecê-lo.
Regina liderou o caminho até o estábulo mais próximo da casa. Não passou despercebido para Emma que os três cavalos haviam sido colocados na mesma ordem de baias que costumavam ficar no celeiro do rancho. Ao ver Emma e o pai, os animais se adiantaram, relinchando.
Emma passou rápido pelas três baias, acariciando rapidamente os cavalos e então voltando para dedicar um pouco mais de tempo a cada um, individualmente. David olhava, maravilhado, para a relação que a filha havia construído com eles.
— Regina... Eu te devo desculpas — O homem começou a falar. Emma, sabendo que aquele era um momento importante para o pai, continuou a dar atenção aos cavalos e fingiu não ouvir a conversa.
— Desculpas? — A morena o encarou, confusa.
— Sim... Muitas, na verdade. Tudo o que você fez por mim e pelas minhas terras, todas as vezes que tentou me salvar de mim mesmo — Ele balançou a cabeça — Eu ficaria horas listando todas as coisas boas que fez por mim e tudo o que eu fiz em retorno foi ser um mal-agradecido. Me afundei e por pouco não levei você junto... E a Emma também.
— Não, não quero que me peça desculpas por nada, David — Ela sorriu, com tristeza. — Você esteve presente no momento em que eu mais precisei, levou isso aqui adiante quando eu não consegui. Eu te ajudei porque você me ajudou, e não por esperar alguma coisa em troca. Considero um retorno ver que você está bem, melhorando e voltando a ser o David que eu conheci.
Eles se abraçaram outra vez e então David se afastou, para rever seus cavalos de perto. Emma inspecionava os cascos de Diana, analisando a pele queimada que estava no mesmo estágio de cicatrização de sua própria ferida.
— Já está cavalgando bem? – David perguntou para a filha.
— Eu? Não, não monto.
— Você mora num rancho com cavalos e não monta? Isso não é certo, Emma – Ele repreendeu, de bom humor – Assim que levantarmos nosso celeiro outra vez, vou te dar aulas de montaria e você vai cavalgar esse meninão aqui.
Ele finalizou sua fala dando alguns tapinhas no pescoço de Houston.
— Ele não – Regina interferiu – Ele é manso, mas não se deixa montar. Ganhei um tornozelo torcido quando tentei. Seria melhor se Emma cavalgasse com Diana, elas já têm uma ligação.
Emma, que se mantinha em silêncio, foi para perto de Houston e o acariciou.
— Eu vou cavalgá-lo, Regina – Ela encarou a morena – A gente não pode deixar de fazer as coisas por medo, não é? O medo nos protege, mas também nos impede de viver as coisas boas.
— Muito maduro, Emma Swan – Regina rebateu, fechando a cara – Não se esqueça que é a única médica aqui e, se cair, além de deixar as pessoas desamparadas, não vai ter quem cuide de você.
— Não é como se eu não estivesse fazendo meus próprios curativos sozinha, Regina.
David olhava de uma para a outra, com a compreensão lentamente se assentando em seu semblante sério.
Quando Regina levantou as mãos, arrastando-as pelos cabelos, como se tentasse conter o próprio nervosismo, foi que Emma percebeu que ela não usava nenhum anel. Mesmo as alianças que trocara com Kristin, no passado, já não estavam mais ali.
— Desculpe – A médica murmurou e, em seguida, se virou para o pai – Eu vou esperar você no carro.
— Pelo visto, o celeiro queimado é o menor dos problemas por aqui – David comentou, vendo a filha se afastar. Regina o encarou, os olhos tristes e cansados fazendo-o se aproximar – Viagens de avião deixam todos cansados... Ela vai estar melhor depois de dormir um pouco. É melhor irmos para casa agora.
Dizendo isso, ele a beijou na testa antes de praticamente correr para alcançar Emma, que já estava ligando o carro.
O trajeto até o Rancho Swan foi silencioso. Emma não deu muita abertura para conversa e David respeitou o espaço da filha, contente em apenas aproveitar o ar gelado que entrava pela janela aberta. Precisaria analisar as provisões que ela vinha juntando para o inverno, calculando que não levaria uma semana para começar a nevar e era necessário que estivessem prontos então.
Ele continuou sem fazer qualquer pergunta quando parecia que todas as portas do armário que Emma abria, precisavam ser batidas com uma força extra ao fechar. Não disse nada quando ela marchou ao redor da sala várias vezes, inquieta demais para permanecer parada. Ainda não falou ao vê-la pegar uma marreta e ir em direção ao que havia sobrado do celeiro queimado. Observou, em silêncio, enquanto a filha derrubava as vigas restantes com golpes surdos e diretos, lançando uma série de palavrões conforme o fazia.
E David continuou sem dizer nada quando, pouco tempo depois, Emma caiu no choro em meio ao caos e às cinzas. Ele apenas foi até ela e a puxou para um abraço, deixando-a chorar até que se cansasse.
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