O mundo secreto de Alice Slaski
6 Capítulo 4.5 - The End and the Beginnig
Notas iniciais
O rosto refletido no espelho era pálido e pequeno. A luz amanteigada que invadia o quarto através dos vidros sujos da janela do quarto do hotel tornava a face com uma aparência ainda mais quebradiça e espectral, as feições delicadas e pequenas ressaltando mais e mais essa sensação. Havia, no entanto, algo nos olhos amarelos da garota, um misto de furor e desconfiança, que fazia os orbes dourados transmitir a frieza do ouro e a dureza do topázio, suavizados apenas pelos longos cabelos escuros que escorriam pelo corpo.
De repente, um brilho prateado reluziu na cabeleira negra, reduzindo exponencialmente o seu comprimento, fazendo a menina ter um ar mais maduro, e mais perigoso. Ela não gostava muito disso. O cabelo comprido ajudava-a a se destacar menos, mas ela precisaria parecer mais experiente naquele trabalho. Suspirando, guardou a navalha na mochila, e suas mãos chocaram- se contra um objeto volumoso.
Alice retirou com cuidado o artigo retangular, deixando os dedos correrem sobre a superfície de couro trabalhado, abrindo a capa do livro. Anteikirion, a folha de rosto dizia. “A única joia restante da biblioteca de sua família”, o velho dissera. “Ele pertence aos Slaski desde que o mundo é mundo. E, como você é a única sobrevivente, agora ele pertence a você.” Velho... o que ele estava fazendo? Por que ainda não havia contatado Alice? Sua mente voltou- se para aqueles dias enevoados...
“Alice acordou em uma cama macia, o cheiro enjoativo de alecrim invadindo suas narinas. Solomon estava sentado em uma cadeira próxima a ela, aparentemente absorto em um livro, mas não evitou abrir um sorriso ao perceber que a garota acordara.
– Você finalmente abriu os olhos, filha.
– Calado. – A garota sentou-se no leito, a têmpora latejando levemente, deixando-a tonta.
– Vá com calma. – Solomon a entregou uma xícara. – Beba. Você vai se sentir melhor.
– Alecrim? Hugh. Eu odeio alecrim. – Ela afastou a xícara de chá.- Então, até quanto tempo vai ficar me encarando, velho?
– Você devia terminar o chá. Não é só de uma limpeza na boca que você precisa, mas de uma limpeza na alma. – ele suspirou- Seguindo em frente, eu quero um relatório completo sobre o caso.
Alternando entre goles de chá, a garota contou o que havia vivido durante o exorcismo.
– Então foi um djinn, huh? Estranho... Mas isso explica algumas coisas. –Ele franziu o cenho- Mas aquela mulher... Geralmente em casos de possessão, o espírito tenta ligar-se a um corpo cuja personalidade original se assemelhe um pouco com a sua própria. Mas o que Ruby pode ter visto de semelhança com você?
Nada, só que somos duas garotas solitárias contra o mundo, Alice pensou.
– Talvez ela estivesse desesperada demais para se importar com isso, velho.
– É claro que ela estava desesperada, Alice. Todo espírito que tenta a possessão está. Mas isso não deixa de ser preocupante. — Ele encarou a garota.
– Quê?
– Ela tentou possuir seu corpo.
– Nós já sabíamos disso, gênio. E daí?
– E daí? Você não compreende o efeito de uma possessão malsucedida? Parte dela ainda está em você, sua idiota. Ela vai afetar sua maneira de sentir as coisas, e ver o mundo, e sua forma de reagir aos seus impulsos. Vai mudar a sua capacidade de julgamento completamente. Claro, ter a influência de uma pessoa como a Ruby seria muito positivo em uma garota teimosa e agressiva como você, mas no fim, eventualmente, você se tornaria ela. No fim, haveria apenas Ruby, e nenhuma Alice.
– E como eu posso evitar isso?
– Bem, matar o monstro que fez isso com ela ajudaria, mas...
– Então vamos. — Ela se levantou da cama.
– Quê? Espera!- Ele levantou-se, agarrando o braço da garota. — Onde diabos você pesa que vai?
– Caçar um djinn?
– Você enlouqueceu? Você ainda está frágil demais para lutar com um monstro dessa magnitude. Além disso, precisamos fazer uma pesquisa. Nós sabemos pouco demais sobre ele.
– É bastante pra mim. — ela se libertou do braço dele.
– Espera!
– O que é?- ela agarrou o colarinho do padre-Por que você continua me impedindo? AQUELE MONSTRO MATOU A RUBY!
– É assim que começa.
– Que?
–Você. Desde quando você se importa tanto com uma morte?
– Eu não me importo. Eles são só uma parte do caso.
– Então porque você gritou que nós deveríamos caçar aquele djinn por causa da Ruby? Nós vamos caçá-lo de qualquer maneira. Ele provavelmente também está atrás de Andrew.
– Eu não estou nem aí se ele matar Andrew.
– Você está sendo afetada pelos sentimentos dela. Sua mente está tão confusa que você está se esquecendo do básico de ser um caçador de monstros: não importa o caso ou a situação, primeiro nós sabemos o que aconteceu. O principal é a investigação, o resto se divide em estratégia, ação, pensamento rápido e uma pitada de sorte. Primeiro investigamos, depois assassinamos.
Ela sentou-se novamente na cama, amuada.
– Eu sei.
Ele abaixou-se, seu rosto em frente ao dela.
– Eu não faço ideia de como sua cabeça deve estar agora, mas você precisa manter-se focada. Vai me ajudar com a pesquisa?
Ela o encarou.
–Sabe de uma coisa? Você tem razão, velho. E u preciso me manter focada.
– Então, vai me ajudar?
– Claro que não. Faça a sua droga de pesquisa sozinho. Eu vou embora. — Ela levantou-se e começou a jogar suas coisas na mochila surrada.
– Onde você está indo?
Alice piscou.
– Eu já te disse, você está frágil demais.
– Eu não estou nem aí. Eu tenho que esclarecer minhas ideias.
– Você pelo menos sabe para onde vai?
– Mais ou menos. Eu vi nos jornais quando estava vindo para cá que um cara havia morrido em uma cidadezinha no meio do Texas sem um arranhão, com a saúde perfeita.
– Você tem alguma ideia do que isso seja?
–Nenhuma. Mas provavelmente vai ser mais divertido que ficar com você. Me ligue quando encontrar algo.
– Se cuide.
– Pode deixar.”
E lá estava ela. Abotoando a camisa branca, ela foi em direção à janela aberta, respirando profundamente o ar vindo da rua. Ela não sabia como, ou mesmo o quê, mas sabia que algo estava prestes a acontecer. E mal podia esperar para saber o que era.
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