Notas iniciais
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O vento frio cortava aquela noite. O halo alaranjado dos postes pintava a cidade em uma mistura de ouro e negro, em um chiaroscuro perfeito. Uma garota baixa de longos cabelos negros caminhava silenciosamente como um gato, se esgueirando pela escuridão das ruas como uma verdadeira sombra. Apesar do relógio há muito ter marcado meia-noite, a garota mantinha uma expressão neutra e entediada no rosto, o que a deixava quase comum, mesmo diante de todas as circunstâncias. Havia, porém, algo em seus olhos amarelos e em sua postura levemente relaxada que alertava os raros transeuntes que aquela menina deveria ser evitada.

Mas algumas pessoas ainda insistiam.

– Ei, garota- um grupo de adolescentes que pareciam ter sua idade se aproximou. Um garoto alto de cabelos escuros que parecia ter lhe chamado continuou. – Você tá sozinha? Que tal se divertir com a gente?

O hálito dele invadiu suas narinas, uma profusão de álcool e algo mais pesado. Torcendo o rosto em repugnância, ela seguiu em frente, ignorando-os. Não tinha tempo a perder, pelo menos não naquela noite.

– Onde você pensa que vai? — ele a puxou pelo braço – Calminha, garota. A noite ainda nem começou. Prometo que você vai se divertir muito...

Alice Slaski já tinha passado por isso antes. É isso que dá andar sempre no escuro. O assédio não era novidade para ela, e havia muito que ela já não tinha medo de gangues, não quando enfrentava coisas piores para sobreviver. Mas isso não a impediu de ficar irritada quando puxaram — na pelo braço. E apesar de seu código de conduta desaprovar o ataque a seres não sobrenaturais, ela preparou-se para alcançar uma faca na mochila, e lançou um olhar lupino ao rapaz que tivera a audácia de tocar nela.

– Cara, deixa essa daí de lado, a gente acha coisa melhor... – um dos outros rapazes interrompeu seu líder. Ele estava completamente bêbado, mas havia algo naquela garota que lhe dava calafrios. Ela sim era o verdadeiro perigo ali. E ao ver o rosto dela, suas suspeitas se confirmaram.

–Não, Rick. Eu quero essa vadiazinha aqui. Se ela tá aqui fora é porque ela quer brincar, não é, princesinha?- notando o olhar feroz que a garota lhe dirigia, ele sorriu – O que é, vadia?

– Meu braço. – apesar da expressão, sua voz estava estranhamente neutra.

– O quê?

– Você ainda não soltou meu braço.

– E o que você vai fazer sobre isso? – ele riu.

– Só isso.

Com a mão livre, ela desferiu um soco no estômago do rapaz, deixando-o sem ar. O choque permitiu a garota libertar seu braço e alcançar facilmente uma de suas facas. Ao ver o brilho da lâmina sob a luz, Rick puxou o amigo ainda ofegante e se afastou correndo da garota, seguido pelo resto do grupo. Quando se viu suficientemente longe, gritou:

– Vá se foder, sua puta!

Dando de ombros, Alice seguiu em frente, sem se importar com os garotos. Sabia que não seria importunada novamente naquela noite. Ela já sabia há um tempo longo demais que ser pega um vez era descuido, mas duas era burrice. E ela podia ser muitas coisas, mas burra ela não era.

Após passar por becos e vielas, finalmente chegou ao seu destino. Bateu na porta, e, esperando o anfitrião, começou a roer a unha do polegar.

– Puta merda, quem diabos tá batendo na porta dos outros uma hora dessas?- um jovem magro de cabelos amarelados abriu a porta, o forte cheiro de maconha saindo da residência.

– Oi pra você também, Chris. Tenho um trabalho pra você.

– Alice?- ele coçou a barba rala- O que você tá fazendo aqui? Você sumiu... Mas o que importa? Entra, entra. – Ele se apressou em desbloquear o caminho para a entrada da garota.

O apartamento de Chris continuava na mesma decadência imunda e mal iluminada que estava da última vez que Alice estivera ali. Mesmo sem moradia fixa, a garota ainda não entendia como ele conseguia sobreviver no meio de tanto lixo e tanta imundície, e desistira de algum dia entender. Simplesmente assumiu que o rapaz havia sido uma barata na vida passada, e estava satisfeita com essa explicação. Depois de afastar algumas caixas de pizza e encontrar um lugar relativamente limpo no sofá, sentou-se e colocou os pés em cima da mesa.

– Eu já disse. Tenho um trabalho para você. Coisa básica, nada que esteja além de sua capacidade. — tirou um pacote da mochila e lançou- o para o rapaz – Só o básico. Identidade falsa, distintivos e tudo mais. Até carteira de estudante, se quiser. E eu quero coisa de alto nível.

– Polícia civil?

– Nah, cansei deles. De federal pra cima. FBI, Interpol, até a droga da guarda montada canadense, se possível. E eu quero pra ontem. – olhou-o de esguelha- Você precisa de quanto tempo?

– Só isso? Umas quatro horas, no máximo. E- disse, olhando para o corpo da garota – Se eu tiver um pequeno incentivo, eu posso fazer em menos tempo. –acendeu o cigarro- Quer?

– Não, valeu. Ao contrário de você, preciso de neurônios para trabalhar.

–Vai dormir aqui comigo hoje?

– Como você vai ser um bom garoto, e fazer isso pra mim em tempo recorde, vou dormir aqui sim. Mas não com você. Nem em seus melhores sonhos. Agora comece. E quero isso pronto o mais rápido possível.

Chris saiu do cômodo, deixando Alice sozinha com seus pensamentos. Pegou o celular e ligou para o único contato salvo em sua agenda. A ligação caiu na caixa postal. “Aquele velho não me atendeu de novo’’, pensou. “O que ele tá fazendo? Preciso ir para Jacksonville.” E, perdida em suas maquinações, logo caiu no sono.

– Ei, Alice, achei uma coisa que você talvez goste de ler...- Chris voltou ao aposento com um livro de física quântica na mão. Ao encontrá-la ressonando no sofá, o rapaz sorriu. O sono suavizava as suas feições constantemente endurecidas. “Essa garota, francamente...” pensou enquanto cobria o corpo da jovem. “Ela seria mais bonita se sorrisse mais”.’’

Voltou ao trabalho. Morto de cansaço, acabou adormecendo na cadeira, assim como sempre fazia quando ela dormia em sua casa. Ao acordar, encontrou apenas o pacote de dinheiro. Ela havia fugido mais uma vez, sem deixar nada para trás, nem uma desculpa, nem uma lembrança, nem um bilhete.

Notas finais
*Chiaroscuro:é uma técnica de utilização de luzes e sombras em pinturas,amplamente usada no barroco. *Real Polícia Montada do Canadá:o nome é autoexplicativo. *Como se pode ver, eu não faço a menor ideia de quanto tempo é necessário para se falsificar um documento. Talvez esse capítulo esteja um pouco estranho,mas lembrem-se, ainda é o início.Ainda assim espero que tenham gostado.Aceito críticas,elogios e afins de boa,e vou me esforçar pra melhorar.E um comentário não faz mal a ninguém. Visitem também a história que deu vida a isso: http://fanfiction.com.br/historia/591698/Organizacao_Cacadores_de_Monstros_interativa