Engulo em seco, a imagem da Lily como quem sonhei está tão real como nunca antes, isso me deixa com uma agonia imensa.

Questiono-me quais as chances que me levariam a ter sonhando com algo antes mesmo de acontecer. Como uma visão. Sinto vontade de rir de mim mesmo por tal estupido pensamento.

Oliver estala os dedos na frente do meu rosto. Pisco algumas vezes para voltar ao normal, saindo do transe.

⁃ O que achou? — Lily está com a boina sobre os cabelos.

Apesar de sua aparência vejo em seus olhos que ela não é a garota do sonho. Tento me livrar da tensão nos ombros.

⁃ Ficou incrível. — Digo. Meu sorriso contagia minha irmã, é tão bom vê-la feliz.

Por um momento há um silêncio constrangedor, Oliver e Meg se entreolham, Lily olha pra Alex e ela Olha pra mim.

⁃ Teve algo importante na aula hoje?

⁃ O que planeja fazer no seu aniversário?

Meg acaba falando na mesma hora que eu. O som de nossas vozes fica atropelado.

Meg respira fundo.

⁃ Nada muito útil, quando você tiver bom eu lhe passo minhas anotações.

Tenho minha pergunta respondida, então respondo a dela:

⁃Minha mãe não está em condições de fazer nada.

⁃ Nem um jantar? — Pergunta Oliver.

⁃ Um bolo apenas já seria ótimo. — comenta Alex

⁃ O bolo que sua mãe faz é maravilhoso. — Diz Meg.

⁃ Com certeza. — afirma Oliver.

Lily está rindo, pelo que a conheço ela está pensando em alguma maneira de convencer minha mãe a deixá-la convidar o pessoal para passar a noite aqui. Lily sabe que mamãe diria "Não há nada que eles possam fazer aqui, seria entediante". Sei que eu ajudaria Lily com alguns argumentos se ela precisasse. Qualquer coisa para ver minha irmã feliz.

⁃ Por favor, Lily — Começa Alex — É seu aniversário. O universo irá puni-la se não comemorar.

Lily continua rindo.

⁃ Tudo bem. — Ela diz. — Falarei com ela.

Vejo que Lily já tem tudo que precisa para fazer minha mãe deixá-la dar uma pequena festa.

⁃ Tem que ter uma sessão de joguinhos. — Comento.

⁃ Só se você quiser ser transportado direto pros anos oitenta.

⁃Não julgue os meus joguinhos. — Tento falar sério, mas pequenos risos escapam de mim.

⁃ Cara, seus jogos de tabuleiro parece que foram roubados de um brechó.

⁃E foram. — Lily ri.

⁃ Tudo bem, tenho coisas ruins no passado, mas não podem negar que os RPGs eram legais. — Falo em minha defesa.

⁃ Não mesmo, se você tentar me fazer jogar aquilo de novo eu vou dizer que foi tentativa de estupro.

Meg e Alex começam a rir também.

⁃ Sério, minha bunda ainda está dormente depois de passar cinco horas sentando jogando aquilo. CINCO HORAS.

⁃ Sinto muito. — digo fazendo uma feição triste para parecer que me sinto culpado.

Meg se aproxima de mim.

⁃ Você ainda vai comer isso? — Ela aponta para o prato com algumas tirinhas de dedo de peixe.

⁃ Pode comer, mas acho que está gelado. — Digo.

⁃ Provavelmente sim. — Diz Lily. – Mas, espera um minuto que eu frito novos, você quer?

⁃ Com certeza sim. — Diz Meg com a boca cheia, fazendo o som sair meio abafado.

⁃ Alguém mais? — Pergunta Lily.

Alex levanta a mão.

Lily começa a pegar as coisas para preparar a comida.

Oliver chega perto de mim, e fala algo, baixo o bastante para ninguém além de mim ouvir. Ele pergunta se posso acompanha-lo até o quarto. Digo que sim, mas preciso de ajuda. Levanto-me e me apoiando nele caminhamos até o quarto.

Sento-me na cama e Oliver se põe na cadeira.

⁃ O que tem para falar? — Pergunto sério. Oliver fica incomodado quando eu começo a fazer piadas sobre o que ele está prestes a dizer.

⁃ Conversei com a Meg.

⁃ Acho que você faz isso sempre.

Oliver me fuzila com o olhar.

⁃ Conversei sobre a gente.

Percebo que Oliver está nervoso.

⁃ Então você gosta mesmo dela?

⁃ Eu acho que sim.

⁃ E ela gosta de você?

⁃ Ela não tem certeza.

⁃ Vocês vai tentar alguma coisa?

⁃Isso que eu queria falar. — Oliver se ajeita na cadeira, tentando achar uma posição que não só seu corpo como também sua mente ficassem confortáveis. — Ela meio que me convidou pra sair.

⁃ Sério?

⁃ Sim... Ela me mandou escolher o lugar. E eu não faço ideia pra onde ir.

⁃ Cinema...

⁃ Eu sentiria obrigação de beijá-la e isso não é o que eu quero ainda.

⁃Vocês podem ir para um café, "Efêmera" seria um ótimo lugar para levá-la.

⁃ Uma loja de HQ?

⁃Você conhece a Meg, o único risco é ela trocar você pela nova edição dos X-men.

Oliver ri. Ele não parece bravo. Fico contente por tê-lo dado o conforto que buscava.

Oliver se recosta e apoia o cotovelo na mesa.

⁃ Isso é verdade.

⁃ Então, vocês saem do colégio, vão para o café, ficam olhando as novidades, você compra uma novela gráfica pra ela. Você sabe que a Meg adora Novelas gráficas. Ela vai ser educada e recusar, você vai insistir, então vocês vão se sentar na mesa acochada. Enquanto você observa ela ler e beber o café gelado.

⁃ Parece bom.

⁃Aí você vai por a mão sobre a mesa, e como uma dança, ela vai parar de ler, esticar a mão para perto da sua, vocês vão se olhar, você vai olhar pra mão dela, ela vai olhar pra sua mão, então você vai poder toca-la.

⁃ Muito bom, mas eu vou evitar fazer planos, se não acabarei morrendo caso as coisas saiam da linha.

⁃ Vou querer saber cada detalhe.

Oliver se levanta e vai até a porta entre aberta.

⁃ Agora vou voltar pra lá antes que comecem a reclamar de nossa ausência.

Oliver sai do quarto sem olhar para trás.

⁃ Ei, cara, você esqueceu de mim. – Digo.

De volta à sala, as meninas estavam comendo. Sentei-me numa das cadeiras, e fiquei ouvindo a conversa. Falavam sobre garotos e festas, diálogos vazios que a Lily usava pra matar tempo. Interrompo-as:

⁃ Vocês viram alguma casa no caminhos pra cá? — Pergunto.

Oliver me olha torto. Alex comenta:

⁃ Acho que há várias caras na cidade, seja mais específico.

⁃ No terreno dos Waldorf.

Meg ri baixinho:

⁃ Vazio como sempre. – Ela diz pondo uma tirinha na boca.

Olho pra Lily que está apoiada em um armário no final da cozinha. Seu olhar parece implorar que eu não diga nada, mas ela também parece não querer dar o braço a torcer.

Meg pergunta:

⁃ Por que?

Não queria ser mau com a Lily, mas já que comecei tenho que dar continuidade.

⁃ Lily disse que hoje viu uma casa lá. Como era a casa que você afirmou ter visto, irmãzinha?

Meg, Oli e Alex se viram para Lily em uma velocidade extraordinária. Os olhos de Lily ficaram marejados, mas ela se põe a falar:

⁃ Uma casa velha, como se tivesse abandonada, a Madeira que a forrava parecia seca.

Oli ergue as sobrancelhas.

⁃ Lily, — ele começa a sussurrar- você andou bebendo alguma coisa?

⁃ Não! — Lily parece exaltada.

Meg fala dessa vez:

⁃Você estava com a cabeça encostada no vidro?

⁃ Tava! — Lily diz grosseiramente depois se acalma.

⁃ E como pode saber que não estava dormindo?

⁃ Eu... — Lily está desnorteada. Ela se cala.

Meg da de ombros, Alex sorri para mim, Oliver ri e diz:

⁃ Não se preocupe, Lily, quando nos voltamos pra casa daremos uma olhada lá.

Meg para o que estava fazendo e se põe de pé.

⁃ Falando na volta. Acho que temos que ir.

⁃ Vocês acabaram de chegar! — Diz Lily.

⁃ Ela está certa. — Digo.

⁃ Eu sei, cara. — Começa Oliver. — Só viemos aqui para ver como você estava, temos avaliação e se eu não estudar você já sabe o que vai acontecer. Preciso entrar pra uma boa faculdade.

Faço sim com a cabeça. Entendo o que o Oliver quer dizer, eu mesmo tentarei estudar, fico muito grato por meus amigos terem me visitado.

⁃ Obrigado por terem vindo. — digo. Tento me levantar, minha perna se mantém esticada, consigo ficar de pé, apoiando-me na mesa. Oliver vem até mim e me abraça.

⁃ Por nada, cara.

Todos se revezam nos abraços, juntos vamos até a porta, minha vó continua no sofá, bem agarrada com o sono.

⁃ Vocês vão mesmo andando? — Pergunto.

Alex faz sim com a cabeça.

⁃ Eu gostaria de acompanha-los.

⁃ Não precisa, obrigado. — Diz Meg.

⁃ Você não está em condições pra isso, cara. — Diz Oli.

Sorrio e observo eles partirem até o ponto de ônibus.

Lily me ajuda a voltar para dentro de casa, ela me leva até o quarto, ela fica em silencio, talvez eu tenha sido um pouco mau com ela, mas sei que ela vai superar.

— Pega meu celular, por favor? – Peço quando ela me deita na cama. Ela pega o celular sobre a mesa, carregador e fone de ouvido e joga sobre mim. E sai em silencio.

Nossa internet é como um presente do acaso, funcionando em um roteador preso ao poste na rua, que raramente nos abençoa com seu sinal. Quando acontece o milagroso evento costumo aproveitar para baixar algumas musicas, filmes e programas de televisão.

Minha mãe fez um enorme esforço para que fosse comprado computador e celulares para mim e minha irmã, Lily insistiu que não seria necessário ter dois computadores de colo, um apenas bastava, nós dois dividiríamos. Assim fazemos. Lily utiliza-o a maior parte do tempo, não sei o que ela faz nele sem internet, escuto o barulho das teclas batendo freneticamente as vezes. Acho que ela escreve, nunca parei para procurar e ler ao feito por ela. Me sinto mal por isso.

Minha mãe trabalha em uma espécie de departamento de vendas, um lugar que organiza venda de tudo, minha mãe acabou subindo os vários níveis que a firma lhe oferecia. Primeiro passada de porta em porta distribuindo catálogos, em seguida passou a recomendar produtos, viajando as vezes para escolher qual mercadoria entraria no programa. Atualmente ela serve como uma subchefe, trabalha resolvendo as papeladas necessárias, fazendo viagens e editando os produtor dos catálogos. Ainda sim ela não ganha muito.

Meus celulares e os de Lily não são os melhores, ela os conseguiu numa promoção da própria empresa. Ele tem utilidade de MP3 e em conversas urgentes que não podem esperar até o dia seguinte ou o Milagre da Internet.

Verifico o sinal de internet, como já esperado, nada. Vasculho a pasta com blocos de nota na procura de algum resumo, é inicio do ano letivo, ainda existe motivação para estudar.

Leio algumas coisas que deixei salvo. Grito para que Lily me ajude, ela demora um pouco ainda sem dizer nada, peço que ela pegue para mim, os livros necessários e o caderno, assim que me entrega ela se retira do quarto sem nenhuma palavra.

Estudo até minha mãe chegar do trabalho, ela entra no quarto e pergunta como estou, digo a ela que me sinto melhor, o que é verdade, tenho parte dos movimentos. , mas ainda não consigo ficar de pé. Minha mãe avisa que conseguiu folga para o dia seguinte, ela me levaria para o colégio.

Ela disse, e fez. Na manha seguinte minha mãe me ajudou a me preparar, me apoiando nela seguimos a espera do ônibus. Minha mãe me levou até a diretoria e explicou a diretora o que estava acontecendo, mamãe me entregou aos responsáveis pelo colégio e saiu.

Enquanto fazia a prova só conseguia pensar em uma coisa. Por mais que eu tentasse, não conseguia retornar ao mesmo sonho do dia anterior.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.