Eu olhei para Emmy com uma cara de raiva e retomei a olhar para aquele homem.

–Como você pode simplesmente fazer isso? Você sabe qual é minha situação agora? Não tem ninguém em casa e eu tenho que trabalhar! E depois disso ir á escola!

Ele riu consideravelmente alto, parecia até que eu tinha feito uma piada. Eu o encarava com uma cara bem séria esperando que ele fizesse algo a respeito, então quando se cansou, suspirou e pegou seu walkie-talkie, apertou um botão e disse: “Cristina, vem aqui vem uma coisinha”.

Eu fiquei muito puta da vida na hora, mas não queria me estressar, apenas deduzi que eles não iam deixar Emmy entrar, pensei em encarar os fatos antes de aquela mulher chegar para evitar confusão.

Esperamos um tempo até que ela chegasse, quando chegou Emmy se escondeu atrás de mim, provavelmente com vergonha, mas quando eu a vi ela dei uma passo para trás, ela estava obviamente doente, cansada e pálida, na hora pensei em ir embora só para não ficar doente, apenas a observei a moça encostando as mãos no ombro daquele cara mal-humorado, imaginando quantos germes ela passou a ele.

–Olha só, parece até que viramos a casa da mãe Joana. –Disse o homem.

Ele a observou e engoliu a seco.

–Diretora, você está bem? –Disse ele assustado.

–Sim Ricardo, o que você quer?

Eu então retomei a falar, parecia que ela não tinha me notado.

–Bem, eu só queria saber por que não vão aceitar a Emmy, ninguém me falou de nada e eu tenho que ir correndo ao trabalho, não tem ninguém para ficar com ela.

O homem cruzou os braços e balançou a cabeça varias vezes fazendo que “não”, dando um sorriso largo.

–Enviamos bilhetes na sexta para todas as séries, nossa reserva de água acabou antes de ontem, pedimos aos alunos que avisassem aos pais e colassem os bilhetes no caderno, e desde então ligamos aos pais dos alunos, informando que não teríamos aula essa semana, apesar de que abrimos uma exceção ontem, vieram muito poucos, incluindo a Emmy e novamente pedimos que avisasse aos pais e dessa vez eu liguei hoje mesmo para os alunos que vieram ontem. –Disse a diretora.

Eu fiquei com mais raiva ainda, afinal, Emmy poderia muito bem ter evitado tanta confusão, e eu teria ganhado mais tempo e entre outras coisas, e no final já estaria indo para o trabalho, até um pouco mais cedo do que o normal. Mas ainda por cima, deduzi que ninguém havia me ligado, e esse foi provavelmente a maior causa disso tudo.

Cruzei os braços e disse:

–Ninguém me ligou, nem para meus pais.

–Me lembro de que liguei para seu telefone fixo mais de uma vez, ninguém atendeu, estava no ocupado.

–Como? Que horas foram?

Ela me encarou e pegou seu celular. Clicou algumas vezes na tela e me mostrou. Evitei chegar muito perto mais olhei mesmo assim.

–Esse é seu numero? –Perguntou.

Li duas vezes, era mesmo o numero lá de casa.

Fiz que sim com a cabeça e ela clicou nele, deixou no autofalante e ouvimos: “A chamada está sendo encaminhada para a caixa de mensagens, e será sujeita após o sinal”.

–Acho que alguém deixou o telefone fora do gancho. –Disse o homem olhando suas unhas.

Pensei então quando foi à última vez que mexi no telefone, e me lembrei de quando eu liguei para o restaurante japonês, será que eu havia deixado ligado?

–Sinto muito, agora você deveria levar ela ao trabalho, não posso fazer mais nada a respeito.

Então virei meu rosto e fui andando, puxei Emmy pela mão e apertei, firmei o passo e nem dei “Tchau” aos caras da escola.

–Desculpa Ana, eu esqueci! –Disse Emmy puxando sua mão de volta.

Eu a ignorei e atravessei a rua ainda segurando sua mão, o ponto de ônibus ficava perto, mas estava trânsito e provavelmente iria chegar atrasada ao trabalho. Chegando ao ponto de ônibus notei que ele estava estranhamente vazio, apenas umas 3 pessoas, todas mexendo ao celular.

Olhei para Emmy e me enfureci assim que relembrei como foi o dia.

–Você é muito idiota mesmo, olha só o transito! Eu vou levar a maior bronca no trabalho por sua causa, imagina ainda com você lá? Ajudou muito mesmo, muito obrigada.

Ela abaixou a cabeça e puxou sua mão novamente, e eu a soltei.

–Não foi culpa minha. –Disse Emmy baixinho.

–Ah sei, foi de quem então? Do papa quem sabe?

–Não, deixe-me te explicar!

Sem nem dar muita atenção a Emmy, olhei para a avenida, e avistei um ônibus da cor do que eu pegava vindo em direção do ponto, andei até a beira da calçada assim como as outras pessoas que estavam lá, era o ônibus que eu pegava, dei sinal e mandei Emmy entrar, nenhuma outra pessoa entrou, e como sempre cheio fui me estreitando até o cobrador, demorou alguns poucos minutos, paguei as nossas passagens e fui até o fundo do ônibus, fiquei bem feliz o fato de o ônibus passar tão na hora e pensei na possibilidade de chegar ao trabalho a tempo, então acabei esquecendo o que aconteceu na escolinha de Emmy e só pensei sobre o tal protesto na Paulista.

Ficamos em pé sem dizer uma palavra uma com a outra, briga de irmãs, uma coisa normal. Saimos do ônibus 5 minutos atrasada, me impressionei de não ser mais. O ônibus parava literalmente na frente do shopping, então precisei correr com Emmy até a livraria.

Foi difícil ela me acompanhar, mas não disse uma palavra, no meio do caminho resolvi levar sua mochila de rodinhas e o Jack, ela resmungou alguma coisa por causa do seu gato de pelúcia, mas quando ela ficava brava nunca conversava comigo, então não foi diferente naquele dia. A livraria ficava no piso dois, precisamos subir correndo pelas escadas rolantes, as pessoas reclamavam pela correria então ela morria de vergonha de pedir licença, eu esperava ela subir, por causa disso demoramos muito mais tempo.

Fiquei falando alguns palavrões bem baixinhos para aliviar o stress em quanto corria, provavelmente a deixei mais nervosa ainda.

Chegamos à livraria correndo, logo quando entrei Nicolas me viu e veio querer conversar.

–Puxa, quem é essa dai ? – perguntou Nicolas

Nicolas, meu quase melhor amigo; era o super nerd que trabalhava na área de Games no mesmo turno que eu, uns dois anos mais velho; ruivo e com olhos verdes; morava com a mãe e seu cachorro Alexander; namorava uma garota que se mudou para a Austrália e depois disso nunca mais falou dela, mas quando tocávamos no assunto ele simplesmente parava de falar com você por um tempo, como a Emmy depois de levar uma bronca. Como posso resumir sua vida? Viciado em vídeo games seria uma boa, mas o que mais ele adorava era...

– Esquece, boas notícias, mais teorias sobre o apocalipse zumbi! Sabia que era verdade, mas agora tenho certeza! O governo da África privou informações para o resto do mundo sobre o que estava rolando lá, aposto que todo mundo está morrendo por causa disso, indícios de canibalismo em todo lugar e adivinha? Também estão evitando dizer o que está acontecendo e... Que foi Ana?

Eu estava com o braço cruzado e com uma cara de puta da vida com o que ele disse.

–Tem uma criança aqui seu babaca, ela é minha irmãzinha, não teve aula hoje e sou eu que estou levando ela para a escola essa semana, então...

– Prazer, eu sou o Nicolas, e você seria...?

– Emmy.-Respondeu com os braços cruzados olhando para seus tênis, provavelmente com raiva do que eu tinha falado.

– Nossa, que anjinhos, agora vamos Emmy, tenho que avisar a Priscilla.– Eu disse pegando a mão de Emmy e andando até a área dos funcionários.

Priscilla era a gerente da loja, cabelo tipo black power curto, morena; tinha uma filha de 2 anos que eu nunca soube o nome; usava roupas como se fosse gerente de um banco, ela só era legal com as pessoas para fazer tudo mais rápido e ninguém ficar enchendo o saco dela. Como resumir sua vida? Ocupada até demais.

A loja era meio que assim: Dois andares, o primeiro piso era a onde ficavam os livros, puffs para leitura, sessão infantil, material escolar como cadernos, canetas e etc. e o balcão com as caixas registradoras; o segundo andar era a área de Games e DVD’s, tinha televisões com os consoles e sempre havia competições e pequenos eventos, tinha um pequeno Café ao lado disso tudo e computadores ao lado do Café como se fosse uma Lan-House, eu ficava na parte dos livros ajudando pessoas a encontrar onde ficava cada coisa, mas de vez em quando eu trocava de lugar com alguém na área Games só pra jogar um pouco, e quem sabe, ganhar em alguma competição.

Priscilla sempre ficava no fundo dos balcões, não atendendo ninguém, só literalmente no fundo, gerenciando a loja online e olhando as câmeras de segurança, mas na maior parte de tempo, pelo menos quando eu não estava lá, ela ficava registrando os livros, ou nos balcões mesmo, pegando o dinheiro e entregando os produtos aos clientes.

Dei bom dia para o pessoal dos balcões e cutuquei Priscilla por traz.

– Priscilla, hoje fui...

– Tô ocupada agora Anabel, espera – Respondeu ela mexendo no seu netbook.

– É importante, só olha.

–Olha só, quem é essa dai? Não me fala que ela se perdeu da mãe ou algo do tipo.

–Não, ela é só minha irmãzinha, ela tem 7 anos e eu tive que levar hoje pra escola de novo, acontece que a escola não ia dar aula hoje por causa da água e não tem ninguém em casa, estava atrasada e não tinha tempo pra voltar e ver que vizinho podia ficar, então trouxe ela para cá, Emmy, essa é Priscilla, espero que não tenha arranjado nenhum problema, desculpa por isso, é que realmente foi o melhor que eu pude pensar na hora.

–Oi... – Disse Emmy.

Ela olhou para mim, bufou e voltou a digitar.

–Tudo bem Ana, se só foi hoje essa passa, mas aqui na loja não vai dar, leva ela na brinquedoteca e deixa-a lá até o final do seu turno, mas vai rápido, você já chegou atrasado hoje, nem pense em enrolar mais .

–Brinquedoteca? AH, certo, obrigada, volto já.

Tinha me esquecido que havia uma brinquedoteca no shopping, fingi que sabia então nem perguntei a onde ficava. Deixei minha mochila na sala de funcionários e sai à procura da brinquedoteca. Rodei o shopping todo, e descobri que ficava no ultimo piso, ao lado do Carrefour, que literalmente pegava o piso todo do shopping e só no final dela ficava a brinquedoteca. O piso estava simplesmente lotado, ouvia pessoas discutindo, estava realmente uma confusão, fiquei meio nervosa, imaginei que Emmy estava mais então eu disse “Emmy, nem liga, aposto que só é uma oferta de algum produto”, mas ela nem prestou atenção. Continuamos andando e vimos a brinquedoteca, que também estava meio cheinha, provavelmente vários pais foram ao mercado e as deixaram lá, fui falar com a recepcionista que estava com uma cara meio doente como a diretora da escola de Emmy, mas já que estava atrasada não tive outra opção.