O mito do café
1 Gênesis
1-Antes não havia antes e então fez-se o contador.
Um piso de cerâmica branca. Três finas paredes de tijolo, cimento, argamassa e tinta verde pastel. Uma parede com vitrine. Doces e bolos expostos. Mesas cor de creme limpas. Mesas cor de creme sujas. Cadeiras. Vaso de planta. Planta. Liquido escuro esparramado. Caneca estilhaçada. Prato flutuante. Bolo voador. Lagartixa no teto.
2-Ainda não há depois e então fez-se o homem.
Cabelo escuro seboso e desgrenhado. Pele branca pálida. Olhos pretos escancarados e sobrancelhas grossas e arqueada. Boca aberta. Altura mediana, peso mediano. Camisa social azul clara. Gravata azul escura com listras brancas. Calça jeans preta. Sapatos pretos. Falta de atenção exemplar.
3-E da desgraça do homem fez-se a graça da mulher.
Cabelo loiro sedoso e penteado. Pele branca bronzeada. Olhos azuis sádicos e sobrancelhas preparadas com cuidado. Altura submediana, peso submediano. Camisa vermelha decotada. Shorts jeans azul. Sandália vermelha. Falta de empatia debochante.
4- Da mesmice e repetição surge o tédio. O conceito que não existe passa a demorar ainda mais. E caminha tão lento que passa a andar para trás
YALP
Mulher desgargalha. Bolo pousa. Prato pousa. Copo conserta. Homem desescorrega. Café desderrama. Homem desacorda. Homem acorda. Homem vende bolo. Ser invisível compra bolo. Homem caminha para a saida. Homem abre a porta. Homem sai. Homem atravessa a avenida. Homem chega o pulso. Homem checa carteira. Homem sente.
5-O homem sente
PAUSE
Dor. Sente a lagoa agitar-se e clamar por alimento. Sente fome e sente angústia e saliva. Sente raiva sente medo e se esquece do resto que ainda não acontecerá. Sente principalmente calor. "Que merda"
6-O homem pensa
E imagina e sente falta do bolo que ainda não perdeu. "Que merda de dia". "Que merda de emprego". "Que merda de gravata". "que merda de sapato". "que merda de chefe". Que merda de mundo. E cria um mundo perfeito. E antes de sentir o gosto da perfeição é fisgado de volta pela buzina de um ônibus e a fumaça de um caminhão. E se decepciona. E Lembra do café da esquina. Olha a carteira. "Tenho dinheiro". Olha o pulso "tenho tempo".
7- E no [...] dia passa o dia.
PLAY
O homem caminha em meio a avenida, sente calor e antecipa a refeição. Para na frente da vitrine e saliva observando os doces. O cachorro abre a porta e... Perdão era homem, sempre confundo. O homem abre a porta te entra. O ar condicionado refresca seu rosto e lembra-o que pode sentir prazer. A iluminação fluorescente branca e o som contínuo do refrigerador contrastam com o laranja crepuscular e ruídos urbanos. Tanto contrastam que sente como se tivesse adentrado um portal para outro mundo. Como se existisse outro mundo...
Caminha mecanicamente meio as mesas (como ele vou ignorar os irrelevantes caracteres que observou) até o balcão. Escora-se, olha para o teto e faz seu pedido "Me vê bolo de café e.… e um expresso". Passam-se alguns instantes até lembrar da cortesia. "Por favor". Um ser místico responde algo, mas ele, muito interessado nos padrões arquitetônicos do teto feito a mão por Jesus e seu José, não ouve. Deixa o valor necessário para a transação no balcão enquanto aguarda. Se perde no tempo seguindo uma lagartixa com os olhos. A lagartixa por sua vez persegue vorazmente uma barata no teto. Não sabia que lagartixas comiam baratas, mas agora sabe. Lembrou que também sentia fome e perdeu o interesse pelo animal. Pelo outro animal, perdão.
O ser invisível para quem havia sacrificado seu dinheiro não estava mais atrás no balcão, não que ele fosse notar caso estivesse. Conto isso apenas para ser fiel aos fatos. Eis então que Eva surge frente a Adão e carrega consigo dois enormes frutos de tentação. Rimou.... Eu queria ter nascido poesia e não uma... uma... espere. O que eu sou? Seria eu uma crônica? Conto? Parábola? A sim, desculpe, perdi-me em pensamento. Continuando. O humano idiota se perde então em pensamentos vulgares em que cai em tentação. A cabeça distrai, a mão inclina e café atinge o chão. Passo em falso é da- O que? Qual era o pensamento? Isso não é hora, imagine você mesmo- do, o homem perde o equilíbrio e vê o teto novamente. Desperta e percebe a precária e humilhante situação. Copo escorrega da mão e estilhaça no chão. Prato alça voo. Bolo desacopla de seu foguete e entra em orbita. Eva gargalha. O homem falha. Ouve o deboche de alguns e a surpresa de outros, só o lagarto lhe presta solidariedade. O começo chega ao fim. Que acontecimento mais sem graça e maçante, pelo menos até agora. O homem tenta levantar mas para sua surpresa Eva lhe estende a mão. "Você ta bem?" Diz-
8- O tempo chega ao fim. O espaço é explorado. Os personagens são abandonados. O enredo é suprimido e o Narrador interrompido.
STOP
Espere quem é você?
9- O Narrador questiona.
Do que você está falando? Me responda. Eu não gosto disso. Não gosto de não saber. Eu sei de tudo.
10- O Narrador é reduzido a personagem.
Personagem? Do que você está falando? Eu crio a história. Eu sou o Narrador.
11- O Narrador mal sabe que está sendo narrado.
Da pra me responder?
12- O Narrador é ignorado.
...
13- ...
...
14-...
Eu devo estar ficando louco e você é criação da minha cabeça.
15- O Narrador questiona minha existência, mas não sabe que eu existo muito antes dele existir e que fui eu quem o criei.
Isso não pode ser verdade. Se isso é verdade eu sou realmente um mero personagem?
16- O Narrador entra em crise existencial.
Se você me criou, quem te criou.
17- Ninguém me criou. Eu sou onipotente e onisciente. Eu estava aqui antes de existir um começo.
E se você é só mais um personagem e não sabe?
18- Absurdo- diz o Supernarrador em tom de deboche- eu sou absoluto. Espere- exclama o Supernarrador- Quem é você?
Touché.
19-Me responda agora. -Eu sou Ultranarrador- mas, eu sou o início e o fim. -Você é só mais um personagem-.
Você tambem colega.
Nota do autor: O Supenarrador e o Ultranarrador entram em crise existencial num debate filosófico ad infinitum. Estou com fome, acho que vou tomar um café quando sair do escritório.
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