O mistério das quatro

4 CAPÍTULO 4 – O sotão


—Bruno, chega dessas histórias ridículas, vá para o seu quarto, escove os dentes e deite para dormir. E Fernanda, se você insistir em contar essas histórias de terror para o seu irmão, vai ficar de castigo por um mês!

—Mas mamãe, tinha mesmo quatro meninas e elas estavam como nas histórias, e subindo para o sotão!

—Subam agora para os seus quartos! Se elas subiram ou não para o sotão, o problema é delas. Deixem-nas brincando sozinhas por lá.

Dei espaço para as crianças que subiram correndo as escadas e me perguntei se por acaso eu não deveria subir até o sotão da casa.

Subi alguns degraus e me senti temerosa. Eu precisava de Marina ali, mas não havia se assado nem meia hora ainda. Olhei para o relógio e apenas quinze minutos haviam se passado. Sentei na escada e decidi pensar um pouco enquanto esperava o tempo passar.

O tempo parecia ter estagnado. Ainda faltava meia hora, mas decidi que iria buscar minha companheira de histórias sinistras. Caminhei devagar de volta a minha casa – não tão minha – pensando em tudo que acontecera até ali. Não tinha nenhuma explicação lógica para tanta loucura ao mesmo tempo. Entrei na casa e subi direto para o quarto de Marina.

—Já? Te falei pra vir em uma hora. Meus pais ainda não dormiram, provavelmente.

— Acontece que não tinha mais o que fazer lá, e eu precisava de você.

—Para que?

Contei a Marina o que ouvira e a garota se pôs logo de pé ansiosa para o que estava por vir.

—Vamos logo, o que estamos esperando?

—Seus pais dormirem ué...

—Devem já ter ido, vamos.

Segui Marina até a cozinha, que pegou duas lanternas e saiu pela porta dos fundos.

— Temos que ir até o sotão da casa.

Caminharam para a casa e dessa vez com muito mais cuidado, afinal não viam Luana mas viam Marina. Foi muito fácil chegar até a varanda da casa.

—Espere Marina!

—O que foi?

—Aquelas rosas...

—O que tem?

— Elas eram vermelhas. MUITO vermelhas.

—Você deve ter visto errado.

—Ah! Jura? Tanta coisa estranha acontecendo e você acha que estou inventando isso? A rosa está preta!

— Entra, vamos! Deixa isso pra lá!

A casa, eu não havia notado, tinha a mesma planta da minha. Exatamente a mesma. Fomos sem ser interrompidos e com muita facilidade até a porta que levava ao sotão e então entramos.

—Marina, acende a luz.

A escuridão ficou maior quando Marina fechou a porta do cômodo.

—Acende logo, nãos sabemos o que pode ter aqui.

Meus olhos ainda não haviam acostumado a escuridão do lugar, mas olhando para a porta, não consegui ver se Marina estava ou não ali.

—Marina, não tem graça. – tateei a procura dela — Acende a luz e aparece logo.

Minha voz tremia e eu podia sentir o medo emanando de mim.

—Não tem porque ter medo Luana – era a voz de Marina que parecia vir de todos os lados – só queremos sua ajuda.

—Engraçadinha, eu mesma acho o interruptor.

Caminhei tateando para encontrar o interruptor e esbarrei na parede, achei finalmente e o liguei. Senti a claridade em meus olhos e finalmente me virei para ver onde estava Marina.

Marina estava parada do lado oposto do porão deserto com as roupas encharcadas e parecia um pouco inchada.

—Onde você estava? Porque está toda molhada?

Olhei em volta procurando qualquer coisa que explicasse, mas nem sequer rastro de por onde Marina tinha passado, eu encontrou.

—Marina... o que está acontecendo?

—Voce tem que manter a calma e me escutar. Nós só queremos ajuda.

Dei alguns passos em direção a porta e senti que esbarrei em algo molhado. Gelei. Olhei para trás e dei de cara com três garotas encharcadas dos pés a cabeça.

—AAAAAAAAAAAH!- senti o grito rasgar a minha garganta

—Ela não vai ficar calma Marina.

—Silêncio Ana. Precisamos dela.

—Que brincadeira é essa? – Me arrisquei a falar algo

—Você se lembra de todas as histórias que ouviu sobre nós?

—Vocês?

—Não se faça de louca Luana, você ja entendeu quem somos.

—Chega de gracinhas Marina – Me levantei de onde havia caído com o susto e falei tremendo e virando as costas para as quatro – vou embora!

—Vai? Pra onde? Pra sua casa? Como?

Parei um instante, mas decidi não voltar atrás, sentia medo e não queria demonstrar.

—Eu dou meus pulos.

E sai pela porta velha do sotão.

Para a minha surpresa, assim que passei pela porta, me encontrei no mesmo sotão, e encarando as mesmas quatro garotas encharcadas e inchadas.

—Que... O que vocês fizeram?

Sai novamente pela porta e assim que a fechei me viu novamente no sotão com as quatro garotas.

—Não adianta... Você não vai a lugar nenhum se nós não quisermos. – falou uma delas

—Não a assuste Talita, nós queremos ajuda, e não mais uma contra nós.

—Vamos aos poucos – falou a garota que ainda não tinha se pronunciado – Eu sou Amélia, a líder , nasci em 1920. Essa é a Ana – apontou para a garota ao seu lado – ela é a nossa querida amiga chorona, nascida também em 1920. A Marina você já conhece, ela é nossa dramática atriz e nasceu também em 1920. E por fim, Talita, a chatinha aí, nasceu em 1920.

—Todas nós nos conhecemos em 1935, em uma festa na casa de um conhecido e ficamos amigas justamente por nascermos todas no mesmo mês do mesmo ano, setembro. Achamos interessante e ficamos amigas. – Continuou Ana

Meu coração estava disparado.

— Pra que está contando isso? Não tem importância, não é sobre isso que viemos falar – Marina se intrometeu – acontece que no nosso aniversário, decidimos passar juntas e queríamos numa casa de praia. Queríamos ficar sozinhas e fazer fogueira, dançar, brincar, comer... Apenas nos divertir.

—Mas aconteceu algo horrível conosco, e por falta de justiça, nós ficamos vagando durante esses quase cem anos, esperando ela ser feita. Nós aparecemos algumas vezes para buscar uma pessoa que mereça nos ver e saber de tudo, para nos ajudar a fazer justiça.

—Olha... Se eu por acaso acreditasse em toda essa baboseira... Gostaria de saber o que houve com vocês.

—Não finja que não acredita Luana! – Gritou Marina – Nós precisamos de você e sua cabeça dura só nos atrasa.

—Luana, o taxista nos afogou. – Ana falou em prantos.