O milagre de uma lágrima
8 Contextos.
Notas iniciais
Angélica e Victor saíram caminhando em direção ao bairro. Victor se ofereceu novamente para levar o violino da amiga que não fez qualquer objeção, afinal, ele estava sendo tão gentil. Enquanto caminhavam, Victor ficou à observar deslumbrando aquela garota linda, não imaginava que Angélica poderia ser tão especial. Ela havia se mostrado tão rude no primeiro momento em que se viram no La Porte. Não era a beleza de Angélica que causava nele essa impressão especial, isso nunca chamou-lhe a atenção ao ponto de sentir-se envolvido. Talvez fosse seu gosto por música e seu comportamento rude na maior parte das vezes. Ele também ficou assim depois de tudo que aconteceu. Angélica que até o momento não havia sentido nada de diferente por Victor começou à sentir quando ele tocou seu braço. A delicadeza com que usou os dedos para tirar dele toda a dor foi a mesma que seu pai usava sempre que se excedia nos exercícios de violino. Angélica sentiu-se novamente acarinhada, foi como se Victor tivesse preenchido todo o vazio que havia em seu coração desde que se afastou de Ventura. Victor era como o seu pai! Ele gostava de música, arte, trilha e vídeo-game. Ao lado de Victor conseguiu deixar de ser rude e mostrou todo o seu lado sensível, nem com André conseguira ser tão autêntica em relação à seus sentimentos. Ele na verdade, sempre foi o garoto apenas do de vez em quando como todos os outros garotos com quem já se relacionou. Victor era um garoto diferente, apenas sua presença foi o suficiente para que se sentisse amparada. É tão parecido com seu pai que nem sequer passou pela sua cabeça se relacionar de forma mais íntima com ele, situação essa, que não perderia oportunidade, afinal, era um garoto lindo. Relacionar-se com ele nada mais seria do que se relacionar-se com seu pai. Victor não tem nada de parecido com Ventura em termos físicos. Ele é loiro, magro, um pouco alto e tem 16 anos, mas sua sensibilidade para captar o mundo artístico era praticamente igual à de seu pai. Victor tocava piano, fez curso de arte moderna e gostava de Clarice Lispector além de ter conseguido captar o mundo sensível de Angélica em questão de minutos. Nenhuma outra pessoa conseguiu fazer isso tão bem além de seu pai. A forma como Victor sentiu a música ao ouvi-la tocar trouxe a sensação de que ele era realmente um garoto diferente de todos os que já tinha se relacionado. Mas Angélica não pensa em dar-lhe uns beijos, ao contrário, pensa em tê-lo por perto apenas para sentir-se protegida como sentia ao lado de seu pai.
São 7 horas da noite e o condomínio não está tão movimentado. É noite de terça feira e muitos ainda tem uma longa semana de trabalho. O La Porte toca uma música pop para alguns adolescentes que ali se encontram. Terça feira geralmente não é dia de muito movimento. Emília e Thaís foram para lá cedo, Clara e Isabel não foram. Clara preferiu se dedicar à algumas leituras atrasadas de seus livros preferidos já que não tem mais tanto tempo para essa prática e Isabel teve que cuidar da irmã pequena enquanto seus pais trabalhavam. Mariane após a insistência de Cibele para que saísse de casa acabou cedendo. Rogério estava tranquilo e não iria implicar com sua saída no período da noite, ela tinha mais é que aproveitar. Havia enviado várias mensagens para o whatsapp de Clara mas não teve qualquer reposta. Ela pretende ir à casa casa da amiga mais tarde e por isso aceitou o convite insistente de Cibele. A conversa sobre o show parece estar rendendo, todas as que lá foram ainda tem alguns fatos para narrar às companheiras. Emília havia comentado do quanto se arrependeu em ter ficado com seu colega de turma e agora ele não deixa de insistir em vê-la. Ela não quer se envolver com meninos agora, está voltada para outras atividades como brincar de bonecas e assistir seus desenhos no Youtube. Mariane havia dito que relacionar-se com quem não quer apenas para evitar falatórios era um problema maior do que aguentar as piadinhas das colegas, agora Emília não consegue tirar aquele garoto chato da sua cola. Clara mesmo nunca fez isso. Ela ainda está à espera do menino que mereça seus lábios e não se importa em ser motivo de chacota das amigas. Emília deveria seguir seu exemplo, aconselhou Mariane.
La Porte.
Thaís está na mesa e enquanto suas colegas comem uma porção de linguiça com mandioca, especialidade do La Porte, ela bebe sua água por conta da sua dieta rigorosa. Não pode nem pensar em experimentar. Mariane sensível ao problema da colega sugeriu que pedissem algo que todas pudessem degustar, mas Thaís não queria condenar ninguém à passar fome como ela e não permitiu que tomassem tal conduta. Após Emília ter feito sua reclamação, ela começou a relatar o quanto está chateada porque o garoto com quem ficou no show ainda não fizera contato por whatsapp. Thaís não quer ser pegajosa e mandar uma mensagem para o colega que possa fazê-lo se sentir pressionado e fugir. Já fizera isso algumas vezes e ao invés de ganhar a atenção que tanto desejara, acabou ganhando um bloqueio nas redes sociais. Chateada ela comenta:
Thaís: Acredita que ele não me mandou mensagem ainda? -Olhou o celular-
Cibele: Tem que dar um tempo também. Nada é tão rápido.
Thaís: O da Emília já ligou.
Emília: E eu nem curti ficar com ele. Agora não sai do meu pé. -Reclamou mais uma vez-
Cléris que passou o dia inteiro resolvendo questões burocráticas da empresa com seu pai, cruzou a portaria do condomínio, precisa ajudar sua mãe à deixar o apartamento em ordem já que Rômulo teve que voltar para Copacabana e terminar de ajeitar as poucas parafernálias que ainda quer levar. Ao passar pelo play, avista as meninas sentadas na mesa externa do La Porte.
Cléris: Oi meninas! -Aproximou-se-
Thaís: Oi Cléris! -Saudou-o-
Cibele: Tentei falar com você a manhã toda e você nem respondeu.
Cléris: Gatinha, esse horário eu estava na escola e não podia atender o celular e a tarde eu fiquei resolvendo coisas do trabalho do meu pai. -Sentou-se ao lado de Cibele-
Cibele: Mas podia ter me respondido no whatsapp.
Cléris: Eu esqueci gatinha. Desculpa. -Sorriu-
Cibele: Está desculpado. -Beijou-o-
Emília: Veio nos ver ou ver seu amigo?
Cléris: Na verdade eu vim ajudar minha mãe à ajeitar os móveis. Meu pai teve que ir em Copacabana pegar o restante que falta.
Emília: Já está tudo pronto?
Cléris: Praticamente. Se quiserem, levo vocês lá.
Mariane suspirou irritada com o convite feito e rapidamente interveio antes que o colega pudesse insistir. Ela pelo menos, não tem vontade nenhuma de conhecer a casa de Cléris.
Mariane: Eu vou dar um pulo na casa da Clara. -Desconversou-
Mariane não quer qualquer proximidade com o colega que demonstrou ser um garoto extremamente manipulador. Ele conseguiu deixar todas suas colegas à seus pés e prontas para realizar qualquer coisa que peça. Isso a amedronta, nenhuma delas conseguiu perceber que Cléris não passa de uma garoto que utiliza-se de seu poder para conseguir o que quer com as meninas. Ele continua:
Cléris: Fala para ela vir aqui. É a única que eu não conheço. Até a Angélica eu conheci.
Cibele: É mesmo? Quando? -Perguntou curiosa-
Por Angélica ser uma garota extremamente ciosa de sua vida particular qualquer novidade à seu respeito interessa por demais Cibele que não perde qualquer informação em relação ao que acontece no condomínio.
Cléris: Ela e o Victor se encontraram no La Porte meio que sem querer, acabaram trocando uma ideia e ficaram amigos.
Cibele é uma garota que tem comportamentos extremamente egoístas. Por gostar sempre de estar no cento das atenções seja contando alguma fofoca de alguém do condomínio ou falando desgovernadamente de si, Cléris não teve nem espaço para contar à ela sobre Victor e Angélica. Cibele sempre estava mais interessada em falar sobre seus feitos e descobertas à respeito das pessoas do que permitir que ele falasse sobre si.
Cibele: A Angélica não é muito das nossas não. Acredita que ela gosta de música erudita?
Cléris: O Victor também.
Thaís: Nem sei direito o que é isso.
Mariane: Gente, eu vou na Clara.
Mariane não quis participar da conversa que já estava ganhando um teor de fofoca.
Cléris: Vamos caminhando juntos. É tudo tão perto mesmo. -Olhou-a e deu um sorriso-
Cibele levantou-se a abraçou Cléris enquanto as amigas a seguiram. Mariane tentou esconder sua cara maçada mas não deixou de sentir aborrecida. Ela não queria que Cléris a acompanhasse em nada, poderia muito bem ir sozinha. Possivelmente, ele irá tirando onda de tudo que conseguiu até chegar em seu apartamento e ela estava sem qualquer paciência para escutá-lo jogar toda sua dominação sedutora sobre as amigas.
Emília: O quê tem achado daqui? -Continuou-
Cléris: Super legal! -Respondeu abraçado à Cibele-
Mariane havia acertado. Enquanto caminhavam até a sua casa no final do condomínio, Cléris ficou à contar com certa vantagem todos os seus feitos do dia deixando suas colegas deslumbradas. Ele contou que seu pai havia deixado-o dirigir pelo bairro mesmo tendo 16 anos e do suborno que fez ao guarda uma vez por andar de moto sem carteira. Não há limites quando se tem dinheiro, ele disse com prazer. Mariane caminhou um pouco mais à frente, não queria dar bandeira de que acha Cléris deveras enfadonho, a casa de Clara já estava perto mesmo.
Carlos está limpando a piscina, geralmente ele paga alguém para que realize essa tarefa mas por estar uma noite quente preferiu cuidar disso sozinho. Érika como sempre chegou do trabalho e trancou-se na biblioteca, tem alguns documentos para analisar para a manhã seguinte. Ela e Carlos sequer conversaram desde que chegaram. Clara está em seu quarto ouvindo sua banda preferida e experimentando o vestido de 15 anos para a festa da melhor amiga. Ele acabara de voltar da costureira para que fosse feito alguns ajustes. Enquanto olha-se no espelho fica à pensar com ansiedade em sua festa de 15 anos que será o ano que vem. Por gostar muito dessas convenções sociais deseja ter uma festa de princesa. Fazer 15 anos é um marco que deve ser comemorado. Érika acha isso tudo uma tremenda besteira, ela não teve uma festa de 15 anos e não deixou de ser o que é por conta disso. Inclusive, acha um investimento altíssimo para apenas 4 horas de festa. Clara teve um trabalho tremendo para convencê-la à fazer uma festa e não quer que poupe nenhum detalhe. Olhando-se no espelho com seu vestido longo, fica à se imaginar dançando valsa e entrando junto com seu pai para ser apresentada como uma mulher para a sociedade.
Casa da família Guimarães Diáz
Mariane abre a porta e ficar à olhar a amiga que parece estar curtindo seu vestido. Ela sabe do desejo de Clara em fazer 15 anos, tem acompanhado esse sonho da amiga à quase 2 anos desde que começou a planejar sua festa.
Mariane: Você vai arrasar no meu aniversário. -Disse da porta-
Ela estava realmente mais bonita do que normalmente é naquele vestido. Clara assustou-se com a voz vinda da porta de seu quarto e olhou para ver quem era.
Clara: Oi Mari! -Desligou a música no celular-
Mariane entrou e sentou-se na cama da amiga.
Mariane: Estou te mandando whatsapp e você nem respondeu.
Clara: Desculpa amiga! Eu me perdi experimentando o meu vestido. Mal posso esperar pelos meus 15 anos. -Olhou-se novamente no espelho-
Mariane: Não acho que mude muita coisa com essa idade.
Clara: No fundo a gente sabe que é um ritual, mas eu não deixo de ficar feliz com isso. Como vão os novos vizinhos? -Começou a retirar seu vestido-
Mariane: Eu não sei. As meninas que são mais amiga deles. O Victor apesar de misterioso parece ser um garoto legal já o Cléris é um insuportável. Ele convidou as meninas agora à pouco para ver a casa dele. Tive o azar de encontrar com ele no La Porte.
Clara: Nossa Mari! Que raiva desse garoto. O que ele te fez? -Perguntou vestindo sua blusa frente ao espelho-
Mariane: Ele coloca a maior banca de que pode tudo. Eu nem te contei ontem que a Cibele havia esquecido de comprar as entradas para o show e ele armou um esquema e elas entraram sem pagar?
Clara: Ué? Mas ela tinha dito no grupo que tinha conseguido com ele os ingressos. -Vestiu seu short jeans-
Mariane: Mentira dela. O Cléris conseguiu com que entrassem de graça. O pai dele parece ser conhecido da organização do show. Você sabe que eu detesto esses garotos que ficam mostrando poder. O Rogério sempre foi assim. Se gabava por colocar dinheiro em casa e a gente tinha que aceitar.
Clara: Talvez ele seja só um garoto com contatos Mari. -Fechou o botão do short-
Mariane: Por via da dúvida eu quero distância. Fora as cantadas baratas que ele tem. É nojento!
Clara: E esse Victor? É mesmo bonito como a Cibele fala?
Mariane: É. Por quê?
Clara colocou seu vestido no cabide e guardou no guarda roupa.
Clara: Curiosidade. -fechou a porta-
Mariane: Desistiu do Ramon?
Ramon é um garoto do colégio que nutre por Clara um carinho à quase 4 meses. Ele e Angélica ficaram em uma das inúmeras festas promovidas pelo CVM em uma tentativa de fazer ciúmes em Clara já que ficou sabendo por Mariane que até o achava bonitinho mas não sentiu que devesse relacionar-se com ele. Era bonitinho mas não era especial. Ela queria ter mais tempo para amadurecer seus sentimentos e checar se Ramon era realmente seu príncipe encantado. Ele se aproximou de Angélica que sem se importar com essas coisas triviais acabaram por ficar minando toda a possibilidade de relacionar-se com Clara. Se Ramon tentou provocar ciúmes na colega na tentativa de aproximá-la ficando logo com Angélica acabou por afastá-la ainda mais.
Clara: Mais ou menos. Eu não me meto com os ex-peguetes da Angélica.
Clara e suas colegas sabem que é problema aproximar-se de qualquer menino que Angélica esteja interessada ou ficando. Já se meteu em intensas brigas e agressões por conta do ciúme e da possessividade da colega. Ainda que Angélica não esteja mais se relacionando com nenhum deles, nenhuma delas atreve-se à se aproximar deles. Angélica fará da vida das companheiras um inferno caso isso aconteça e para manter a boa amizade, todas elas decidiram que nenhuma delas ficariam com os garotos que as amigas tinham ficado. Afinal, meninos tinham aos montes por aí.
Mariane: Que bobeira Clara! Angélica agora está com o André. Acho que ela nem vai ligar se você ficar com o Ramon.
Clara: Mesmo assim. Angélica arrumou briga comigo porque estava conversando com o Paulo Felipe. Eu nem sabia que ela estava gostando dele.
Clara lembrou-se de uma briga que Angélica arrumou na praça do condomínio que atraiu a atenção de todos os vizinhos. Angélica tinha visto Clara e Pedro Felipe, do terceiro ano conversando na porta da escola. Pedro Felipe e Angélica tinham ficado à 6 meses atrás no aniversário de um colega de turma amigo dos 3 e Angélica, como sempre acontece, saiu com ele mais algumas vezes e em um repente não o procurou mais deixando Pedro sem entender o que poderia ter acontecido. O afastamento repentino se deu porque Angélica estava começando a ficar bastante envolvida com o colega e com medo de se apaixonar acabou rompendo com ele sem prévio aviso. Pedro dirigiu-se à Clara apenas para saber o motivo de Angélica tê-lo excluído de suas redes sociais e de seu whatsapp na época. Angélica os viu juntos e arrumou um escândalo na praça do condomínio acusando Clara de pegar sempre seus restos. Clara tentou se explicar mas Angélica com seu jeito impulsivo acabou por atacá-la, se não fosse Ventura ter separado, ambas teriam saído muito machucadas. Desde então, Clara aprendeu que não deve nem chegar perto dos meninos que possam ter se envolvido com a colega.
Mariane: Angélica tem umas maluquices mesmo.
Clara: E também, eu nem sou tão vidrada no Ramon assim. Só acho ele bonitinho. Não acho que valha à pena me arriscar apenas por achar um garoto bonito.
Mariane: Você é quem sabe.
Clara: Está à fim de comer alguma coisa? Posso pedir para a Carla preparar alguma coisa.
Mariane: Contanto que não seja esses matos que você chama de comida por mim tudo bem.
Clara: Um super hambúrguer de carne com queijo, presunto e tudo isso que faz mal.
Mariane: Adoro! -Entusiasmou-se-
Clara e Mariane saíram do quarto e seguiram para a cozinha solicitando Carla que fizesse um hambúrguer para as duas. Para Clara apenas com folhas e para Mariane com muita carne, queijo e presunto.
Victor e Angélica chegaram ao condomínio, eles levaram mais tempo do que de costume caminhando da Lagoa até o bairro em que residem. Ambos não tinham pressa para chegar em casa e por isso vieram lentamente. Angélica despediu-se de Victor ao chegar no portão de sua casa, ele por sua vez, entregou à colega o violino que estava carregando e agradeceu mais uma vez por ter tocado para ele. Com um sorriso doce Angélica pegou o violino e abriu a porta de sua casa. Sua mãe deve estar muito preocupada por ainda não ter chegado. Victor alegre, seguiu para sua casa ao final do condomínio, sua mãe também já deve estar em desespero sem ter qualquer notícia de seu paradeiro. Com tudo que passou, ele não devia ter se ausentado tanto e causado tanta preocupação.
Casa da família Grégis
Olga está na sala assistindo à um documentário na TV deitada no sofá. Por ser tarde, Lucas já está dormindo, terá que acordar cedo para conhecer a nova escola. Está satisfeita por ter se saído bem no primeiro dia de trabalho mas está preocupada com Victor que ainda não voltou. Ele disse apenas que iria dar uma volta pelo condomínio e retornaria em breve. Sem qualquer forma de fazer contato, Olga temeu que possa ter acontecido alguma coisa e ficou à pensar se não seria o momento de dar ao filho um celular apenas para que se mantenham em comunicação. Victor não conhece nada no Rio de Janeiro e tem medo de que tenha se perdido ou até mesmo, sequestrado. Esses medos nunca deixam de pairar em sua mente. Espera ao menos que o filho tenha saído com Cléris. Ao ouvir o portão bater ela respirou aliviada, Victor finalmente chegou.
Olga: Nossa Victor! -Exclamou ao vê-lo entrar- Como você demorou! Fiquei preocupada. Sabe que não pode ficar dando mole por aí. -Sentou-se-
Victor: Eu só fui aqui perto mãe. -Disse com naturalidade-
Olga: Aqui perto aonde? E com quem? -Perguntou preocupada-
Victor: Acho que é Lagoa que chamam. É um bairro perto daqui.
Olga: Foi com o Cléris?
Victor: Não. Fui com uma garota aqui do condomínio mesmo. Nos conhecemos no La Porte.
Olga: Fico feliz que esteja fazendo amizades meu filho.
Victor: Até a gente se mudar de novo. É sempre assim. Nunca consegui ser amigo de alguém por mais de 1 mês. -Sentou-se no outro sofá-
Olga: Dessa vez eu sinto que vai ser diferente. Vamos conseguir nos estabilizar aqui. Agora não estamos mais sozinhos. Eu sei que foi muito duro para você ter visto o que viu e que perdeu a confiança em tudo e em todos. O seu pai acabou com a vida dele mas nós temos que lutar pela nossa.
Victor: A nossa vida nunca é só nossa. Ela envolve todos de nosso convívio. Até hoje eu tenho pesadelos com a morte do meu pai. Ele não podia ter escolhido lugar pior para se matar que a nossa casa.
Olga: Se eu pudesse apagar tudo isso da sua memória com certeza eu faria.
Lucas chegou à sala, acordou com um pesadelo e foi procurar por sua mãe já que Victor não estava no quarto para correr para sua cama.
Lucas: Mãe? Fica no meu quarto comigo? -Sonolento-
Olga: A luz está acesa Lucas.
Lucas: Tem pessoas gritando.
Victor: São os vizinhos seu medroso. -Respondeu rude-
Victor realmente não tem paciência para os medos de Lucas.
Olga: Victor por favor! -Repreendeu-
Victor: Se continuar com esses mimos vai acabar criando uma menina.
Lucas: Manhê! -Reclamou choroso-
Olga: Chega! Vamos. E você Victor, vê se colabora. -Levantou-se-
Olga e Lucas seguiram para o quarto enquanto Victor continuou deitado no sofá pensando no encontro que teve com Angélica. Olga colocou Lucas novamente na cama e ficou a ler um livro de aventura até o filho que adormecesse. Angélica após ter tocado para Victor não deixou de pensar nele com carinho. Suas noites que eram marcadas muitas vezes por poesias solitárias deram lugar à versos que contemplavam momentos de preenchimento e alegria. Ela ficou à pensar em Victor durante toda a noite e compôs um poema sobre tudo que sentiu naquele doce encontro. Angélica não é uma menina de conversar muito, ela nunca conseguiu conversar com nenhum garoto como conversou com Victor. O assunto saiu de forma tão natural que quem os visse em toda aquela prosa diriam que se conhecem à anos. Victor é muito parecido com Ventura até na forma de referir-se à ela. O carinho e o cuidado colocado na massagem parece ter sido o suficiente para minar todo aquele incômodo. Ela nem precisou de remédio para a dor. Só seu pai conseguia tal feito. Victor após ter acordado com mais um pesadelo também ficou à pensar naquela garota linda do violino que tanto trouxe-lhe paz ao coração. Ter rememorado todo o momento com ela horas antes o fez se livrar de toda a tensão provocada pelo pesadelo que teve, mal podia esperar para encontrá-la de novo.
É uma linda manhã de terça-feira. Todas as meninas do condomínio já foram para a escola. Clara saiu mais cedo de casa pois queria dar uma lida em toda à matéria antes de fazer a prova no primeiro horário. Ela e Mariane foram juntas para a escola já que Calos gentilmente se ofereceu para deixá-las no CVM. Angélica recusou o convite de Clara e preferiu ir caminhando, assim teria tempo para refletir sobre tudo o que sentiu em relação ao companheiro que acabara de conhecer. André havia deixado várias mensagens desde o dia anterior em seu celular e ela não respondeu nenhuma. Sabe que tem que dar uma resposta ao colega mas André era tão pegajoso que acabou ficando com preguiça.
Colégio Vicente Marques (CVM)
A turma do primeiro ano do ensino médio estão na aula de História e Fatos Sociais que faz parte da grade curricular do núcleo comum do CVM. Esta não é aberta à outros alunos. Com apenas 20 adolescentes, Amanda, professora da disciplina não tem dificuldade em passar todo o conteúdo. Por não ser uma sala de aula tradicional, alguns deles estão recostados nos puffs ou deitados no colo de algum amigo que estão sentados no chão. Mariane, Clara e Angélica estudam juntas esse módulo por serem do mesmo ano. Clara que estava sentada em uma das poucas mesas redondas no meio da sala saiu para tomar água. A turma está discutindo a polêmica do voltar ou não a ditadura nos tempos atuais. Um aluno havia trazido essa questão após ter se lembrado de uma notícia que viu no Facebook e Amanda aproveitando a deixa, abriu uma discussão sobre o assunto. Alguns já colocaram seus pontos de vista, outros preferiram apenas a observar toda a discussão. Com uma turma de ideologias politicas dispares, Amanda tem todo um trabalho de mediar a discussão entre os alunos sem que vire um festival de ofensas. Angélica que está sozinha ao fundo da sala recostada em um puff colorido está a ouvir todas as colocações um pouco irritada, ela não se considera uma garota com ideologias políticas, mas quando peguntam, responde que tende para o liberalismo. Ouvir alguns comentários de seus colegas sobre à volta da ditadura como algo positivo à incomoda muito. Seu pai sempre lhe contou o que as pessoas passaram durante esse período principalmente em relação à arte e deu quando ela tinha 10 anos o livro O diário de Anne Frank, Angélica não poderia mesmo tolerar tanta abobrinha.
Felipe: Eu sou à favor de que volte a ditadura. -Comentou do outro canto da sala com os pés descalços sobre à mesa-
Angélica: Eu também. Assim você pára de encher meus ouvidos com tanta estupidez. Você não tem a mínima noção do que significou isso na história do país. -Retrucou do puff-
Felipe: E você tem? -Cutucou-
Angélica: É claro seu estúpido! Eu estudo!
Angélica costuma dialogar sempre de uma forma bastante rude. Aluna do CVM desde que tinha 2 anos de idade, seus professores levantaram por alguns meses a suspeita de autismo por conta de seu distanciamento do mundo até Camille perceber que não se tratava de uma crianças autista, mas de uma criança que tinha dificuldade em estabelecer laços sociais. Angélica sempre fôra muito inteligente mas não tinha qualquer habilidade para se abrir para o contato social. Apresentava todos os trabalhos e era capaz de discursar por horas sobre todos os assuntos estudados nos módulos, porém, era incapaz de manter uma conversa informal por mais de 5 minutos quando o assunto era seu mundo íntimo. Angélica não conseguia falar de si, a única forma que ela conseguia se comunicar com o mundo era por meio da agressividade fato que chamou a atenção de Ventura. afinal, era tão doce com ele. Preocupada, Camille junto com Ventura, Sônia e a equipe pedagógica pensaram em conjunto uma forma de oferecer para Angélica ferramentas de convívio social mais significativo e um currículo foi especialmente montado para que ela desenvolvesse essa habilidade. Angélica não alcançou 100%, mas vem caminhando bem dentro do possível. Felipe é um garoto que tem ideologias de direita conservadora, além de machista, ele é o responsável por promover várias situações de discriminação que tem acontecido dentro da escola. Essas questões sempre estiveram presentes dentro do CVM e Camille com toda sua sabedoria sempre conseguiu contornar todas essas dificuldades muito bem, mas Felipe estava dando um pouco mais de trabalho. Ele é outro que também teve um currículo totalmente adaptado uma vez que Camille percebeu uma pitada de perversidade no trato com as pessoas, principalmente, com as meninas. O CVM é um colégio que tem ideologias bem rígidas e uma delas é não permitir qualquer forma de discriminação, atitude que Felipe vem tendo desde que entrou na escola no início do ano.
Amanda: Gente! Isso aqui é apenas uma conversa democrática. Angélica, você não precisa fazer uso desses adjetivos para se referir à seu colega. -Olhou-a com carinho-
Uma característica marcante do CVM é a dedicação que os funcionários da escola tem com os alunos. Todos os que ali trabalham conhecem as possibilidades e as dificuldades de cada um que ali estuda, assim como cada aluno conhece as dificuldades de cada funcionário. Amanda que leciona esse módulo desde o início do ano já conhece bem o perfil de Felipe e Angélica e interveio com docilidade na tentativa de evitar uma briga. Se deixar que o diálogo prossiga possivelmente Felipe ofenderá Angélica e ela por sua vez partirá para cima dele em com extrema agressividade.
Angélica: Ele não é meu colega. -Lançou para Felipe um olhar de desprezo que a olhou com ironia-
Amanda: Tudo bem, ao Felipe. -Corrigiu-
Angélica: É que eu estou cansada de ouvir tanta besteira desse pessoal. -Saiu da sala irritada-
O CVM permite que os alunos se retirem da sala quando quiserem ou não se sentirem à vontade para executar determinada atividade. Todas essas situações serão pensadas e trabalhadas dentro do programa educacional estabelecido para cada aluno posteriormente. Angélica desfez amizade no Facebook com várias pessoas do colégio e dos cursos que faz justamente por não tolerar comentários como o de Felipe. Já conhecendo sua dificuldade em não tolerar assuntos divergentes preferiu retirar-se antes de entrar em um bate-boca que poderia enveredar para uma briga corporal. Camille não pode dizer que seu programa adaptado não tem dado certo, Angélica ao menos, consegue evitar uma briga porém, não pode dizer o mesmo de Felipe. Amanda já conhecendo a forma de se comportar de Angélica continua:
Amanda: Vamos continuar. -Disse ao ver Angélica sair pela porta- Quem quer prosseguir com a conversa? -Olhou para turma que está silenciosa após a discussão de Felipe e Angélica-
Uma aluna sentada em uma das mesas à frente de Mariane começou a expor sua opinião enquanto Felipe ficou a rir da colocação da colega que está defendendo a democracia. Mariane que assistia calada toda a cena achou a discussão entre Angélica e Felipe uma tremenda bobeira. Qual a dificuldade de Angélica ignorar um comentário tão sem sentido como os que Felipe faz? Clara que acabara de tomar sua água no bebedouro do corredor vê Angélica passar por ela.
Clara: Ué Angélica? A aula já acabou? -Perguntou curiosa-
Ainda faltavam 10 minutos para o término da aula e Amanda não tem o costume de liberar ninguém antes do horário.
Angélica: Não! -Respondeu séria-
Clara: E então?
Angélica: O Felipe profetizando as merdas dele no módulo de História e Fatos Sociais como sempre. Não tive paciência e saí. Meus ouvidos são sensíveis demais à algumas estupidezes. -Seguiu o corredor em direção ao jardim interno-
Clara: É. A tolerância é a arte da convivência. -Disse para si mesma-
Clara não imagina o que possa ter ocorrido na sala, mas com certeza, seria mais uma das inúmeras discussões que Angélica e Felipe vem tendo ao longo do ano principalmente nas aulas de história. Ao entrar na sala sentou-se ao lado de Mariane. A discussão continua acalorada e Felipe resolveu implicar com outra colega que emitiu uma posição contra.
Mariane: Você perdeu a ceninha da Angélica agora à pouco. Ela e o Felipe arrumaram o maior bate boca e ela saiu batendo o pé.
Clara: Encontrei com ela no corredor.
Mariane: Parece que ele não elaborou muito bem o toco que levou da Angélica. -Comentou com uma risada-
Clara: Deus me livre!
Soa o sinal e Amanda encerra a discussão que foi bem produtiva à seu ver.
Amanda: Turma, continuamos esse assunto polêmico na próxima aula. -Juntou seu material e saiu-
Alguns alunos como Mariane que não fazem o módulo seguinte de Ciências Espaciais estão liberados. Clara e Angélica que optaram por cursá-lo, terão duas horas à mais de aula. Esse não é um módulo obrigatório e é realizado em conjunto outros alunos do ensino médio.
Mariane: Eu vou pra casa.
Clara: Eu tenho o módulo de Ciências Espaciais.
Mariane: Com a Angélica? Boa sorte querida! -Ironizou-
O comentário de Mariane veio em decorrência da disputa que Angélica trava com Clara sempre que cursam algum módulo juntas. Angélica sempre foi destaque em todos os módulos, mas de alguns anos para cá vem tendo que dividir seu estrelato com a colega, situação que não à agrada. Ela abandonou o módulo de Tecnologia por Clara ter ganhado destaque no bimestre passado.
Clara: Ao menos não tem o Felipe na turma gata. Sempre pode ser pior.
Mariane: Você sempre positiva. -Riu-
Clara: Vamos na cantina comigo? Você não tem mais aula mesmo.
Mariane: Já vai me engordar né? -Brincou-
Clara: Um pirulito só. -Sorriu-
Clara e Mariane saíram da sala e dirigiram-se ao corredor que dá para o jardim interno, a cantina fica próxima à ele. Felipe assim que saiu da sala também dirigiu-se à cantina com dois colegas do segundo ano. Angélica está sentada em uma das mesas olhando o seu celular. Felipe ficou à olhá-la com alguns amigos e começou a narrar toda a discussão. Além dela ter se recusado à ficar com ele ainda insinuou diante de toda a turma que era burro e isso ele não poderia permitir. Apesar de bela, Angélica era uma garota insuportável e merecia uma lição. Angélica que estava escrevendo algumas coisas sobre tudo que vivenciou na sala ao perceber a presença do colega e dos amigos um pouco distante olhou-os com desprezo. Felipe era mesmo um garoto bem ridículo em ficar de piadinhas para o seu lado apenas por ter se negado à ficar com ele. Ao receber uma mensagem de André no celular levantou-se e passou no meio deles com seu semblante sério como de costume. Angélica não poderia deixar de esfregar sua beleza na cara daquele que é tão implicante com ela. Dar à Felipe a sensação de nunca conseguir tocá-la dá à ela extremo poder. Com toda sua soberba, Angélica olhou-o nos olhos, jogou seus enormes cabelos para o lado, passou por eles e adentrou o corredor, André está esperando-a no jardim externo e como tem aula no próximo horário não quer se atrasar.Clara e Mariane que tinham acabado de chegar assistiram a cena e ficaram à rir dos colegas que ficaram meio perplexos com a atitude de Angélica. Além de extremamente linda era mesmo bem ousada e provocante.
Aproxima-se a tarde, Olga trabalhou apenas no período da manhã. Comprometeu-se com Elisa em levar Lucas para conhecer a sua nova escola. Desde pequeno ele sempre apresentou problemas de adaptação e acabou piorando com tudo que passaram. Ficar distante da mãe é algo que amedronta muito Lucas. Por diversas vezes, Olga tinha que passar todo o tempo de estudo de Lucas na escola porque ele entrava em pânico se não a visse próxima à ele e ela quer ir a escola para que possa explicar à equipe pedagógica todo o problema do filho para que dêem à ele a atenção necessária. Dessa vez ela não pode passar o tempo com Lucas por conta do trabalho e Victor já disse que não está disponível para esse tipo de frescura. Olga até prefere assim, Victor não tem paciência com as inseguranças de Lucas e acabaria piorando a situação. Elisa selecionou à dedo algumas escolas e achou que o CVM apesar de cobrar uma mensalidade alta seria o mais adequado para Lucas nesse momento. Camille é uma ótima diretora e tem todo um trabalho voltado para as dificuldades de seus alunos. Com todo seu contexto complicado, seria o único colégio em que Lucas poderia se dar bem.
Casa da família Lopes Ferreira
Olga está no apartamento de Elisa no condomínio, ela combinou de levá-la à escola de Lucas já que não conhece o caminho e teme se perder. Olga conseguiu um horário com Camille às 15:30 para conversarem à respeito de Lucas. Enquanto Olga espera Elisa se arrumar em seu quarto ainda meio bagunçado, Lucas já percorreu todos os cômodos do apartamento à procura de uma área de lazer como havia nos prédios do condomínio em que morava.
Lucas: Aqui não tem piscina não tia?
Elisa: Não mas tem a do condomínio que é enorme.
Lucas: Minha mãe não deixa eu usar.
Elisa: Por quê Olga?
Olga: Ainda não conhecemos os vizinhos e não queria deixar os meninos tão expostos. -Respondeu sentada à cama-
Elisa: Tem medo que acabem descobrindo a sua história?
Disse em um cochicho já que Lucas se dirigiu à varanda do quarto e pode ouvir toda a conversa.
Olga: Na verdade não acho que seja isso. Estou com medo de tudo e todos.
Elisa: Você tem toda a razão de ficar assim. Não foi fácil o que passaram. -Terminou de pentear o cabelo frente ao espelho de parede-
Olga: Tenho medo que nos encontrem.
Elisa: Essa é uma possibilidade mas agora você não está sozinha. Tem eu, o Rômulo e advogados para te proteger. Esse condomínio é seguro. Vai ficar tudo bem. -Sorriu tentando passar-lhe confiança-
Olga: Não sei o que seria de mim sem você Elisa. Você sabe que minha família nunca apoiou meu relacionamento com o pai dos meninos.
Elisa: Tente esquecer tudo isso. Aqui é Rio de Janeiro Olga.
Olga: Você tem o endereço da escola do Lucas?
Elisa: Tenho. Não é uma escola do nível que os meninos estudavam mas dá para terminar o ano pelo menos. -Pegou sua bolsa sobre à cama-
Olga: Já sou grata por tê-lo aceitado praticamente no fim do ano. Lucas vamos! -Chamou-
Lucas que estava olhando o movimento do condomínio pela sacada do quarto de Elisa aproximou-se de sua mãe. Ele está apreensivo em conhecer à nova escola.
Elisa: Eu levo você lá e te ensino o caminho caso queira ir de carro.
Olga: Vai demorar eu ter um.
Elisa: Mas já vai pensando que carro é praticidade ainda mais com filho pequeno.
Olga levantou-se da cama e dirigiu-se com Elisa para a porta de saída. Ela também não deixa de estar apreensiva com a ida de Lucas para à escola. Mesmo tendo conversado com toda a equipe pedagógica do antigo colégio do filho, a escola não permitiu que ele fizesse uma prova para fechar seu ano letivo assim como Victor. Eles estudavam em escolas diferentes e a de Victor sempre foi mais compreensiva nesse sentido. Lucas estava na alfabetização e a escola alegou que ele com todas as suas dificuldades não tinha qualquer condição de seguir para o segundo ano. Ele mal sabia escrever seu nome. Olga sabendo de toda a dificuldade do filho poderia optar por não matriculá-lo na escola esse resto de ano e permitir que ele refaça novamente a alfabetização no ano seguinte, mas ela ainda quer que ele termine pelo menos o ano letivo mesmo que seja reprovado. Elisa, Olga e Lucas entraram no carro e saíram pela portaria do condomínio no mesmo momento em que Emília e Thaís entraram. Elisa buzinou para as duas que acenaram para a mãe de Cléris que conheceram na noite anterior. Olga curiosa perguntou quem eram aquelas duas garotinhas lindas e Elisa respondeu que são as mais novas amigas de seu filho e nessa conversa eles seguiram para o CVM. Emília e Thaís estão vindo da Lagoa, as duas combinaram de correr no período na tarde já que terão que estudar para uma prova à noite. Com suas roupas de corrida e tênis próprio elas caminham em direção à praça. Thaís não tem mais forças para correr, forçou por demais seu joelho e sabe que terá uma noite daquelas se não tomar um analgésico.
Praça dos Amores
Enquanto geme de dor Thaís segue com Emília até um dos bancos da praça. O sol está forte e elas precisam de uma sombra onde possam descansar e beber água. Suada e cansada, Emília senta-se no banco e olha no seu celular que trazia pendurado em um dos braços. Elas correm praticamente todos os dias 1 hora pela Lagoa e Emília vem cronometrando esse tempo por algumas semanas. Ela baixou um aplicativo justamente para esse fim.
Emília: Fizemos um tempo menor que da outra vez. -Disse ao olhar o celular-
Thaís: 5 minutos à menos. -Sentou-se à seu lado ofegante-
Emília: Já é um avanço né Thaís?
Thaís: Sabia que o Marcelo ainda nem me ligou? Acho que ele não gostou de ter ficado comigo.
Emília: Às vezes ele não quer é ficar com alguém sério e não que ele não tenha gostado de você.
Thaís: Angélica e Clara que são sortudas! Não precisam nem ficar preocupadas se os garotos vão ligar ou não. Eles sempre ligam. Daria tudo para ser como elas. -Suspirou triste-
Thaís não é uma menina invejosa, na verdade, o que ela tem por Clara e Angélica é uma profunda admiração por elas serem o modelo de garotas perfeitas para os meninos do CVM. Sua luta diária é em um dia poder se tornar tão magra e bonita como elas. Mesmo Clara dizendo que Thaís é uma menina encantadora ainda que seja um pouco gordinha, ela não acredita. Para ela, uma garota só pode ser bonita se for extremamente magra e bonita por isso, as duas chamam a atenção no colégio. Emília já nem se importa com isso, ela nem sequer consegue perceber que chama a atenção de alguns meninos da sua idade. Sente-se nova demais para esse tipo de conversa.
Emília: O Ramon arrasta a maior asa para a Clara e a Angélica está enrolada com aquele gato do André.
Thaís: E eu aqui, esperando por uma mensagem no whatsapp. -Lamentou-
Clara fecha o portão de sua casa. Ela tem aula de hipismo às 3 da tarde e como sempre está atrasada. Precisa ver se Polly está bem antes de começar às aulas. Com sua roupa própria de montaria e uma mochila para guardar algumas coisas necessárias para a aula, ela segue até a portaria do condomínio cantarolando uma música no celular até passar pelas meninas que estão sentadas na praça esbaforidas de tanto correr.
Clara: Oi meninas! -Cumprimentou ao passar por elas retirando seus fones de ouvido- Já vi que correram muito. -Comentou ao vê-las suando e cansadas-
Thaís: 1 hora.
Clara: E nesse sol? Vocês são doidas!
Emília: Aonde você vai?
Clara: Tenho aula de hipismo agora.
Thaís: Você não tem pena de ficar nas costas de um cavalo fazendo ele pular aquelas coisas todas?
Emília: Se fosse a gente em cima dele com certeza ela teria Thaís!
Clara riu do comentário de Emília. Claro que ela tinha se referido dessa forma por estarem acima do peso e possivelmente achou que causaria algum dano ao cavalo.
Clara: Vocês tem cada uma. -Disse rindo-
Thaís: Quando você vai no La Porte conhecer o Victor e o Cléris?
Clara: Um dia desses. Eu estou cheia de atividades essa semana mas eu vou aparecer. Me manda um whatsapp que eu vou. Agora eu tenho que ir. -Despediu-se-
Emília: Boa aula!
Clara: Obrigada! -Sorriu-
Clara colocou novamente seus fones e seguiu para a portaria do condomínio. Emília e Thaís ficaram a olhá-la sair. Clara além de ser uma menina extremamente bonita era muito doce no trato com elas que são as mais novas de toda a turma.
Thaís: Eu vou também Emília. Tenho prova. -Levantou-se com dificuldade-
Emília: Eu vou junto. Preciso tomar banho. -Levantou-se também ajudando Thaís à caminhar-
Victor saiu de sua casa. Ele ficou praticamente sozinho toda à tarde já que Lucas saiu com a mãe para conhecer o novo colégio. Cléris tem atividades extra-classe no colégio em que estuda e ainda não passou em sua casa para jogarem vídeo game já que haviam combinado no dia anterior. Victor estava jogando alguns minutos antes quando foi tomado por uma saudade inexplicável da garota que ele apelidou de A linda menina do violino. Por um tempo relutou em procurá-la, mas como seu momento de solidão e medo o tomou por completo, sentiu falta daquela que tão doce dividiu com ele momentos significativos. Ela gosta de museus e talvez fosse uma boa ideia convidá-la para sair. Assim ele segue até a casa daquela que ele a considera a garota perfeita. Emília que ajuda Thaís à caminhar cruza com Victor e com um sorriso ela cumprimenta o novo vizinho que também não deixa de retribuir com um sorriso tímido. As duas despedem-se com um beijo e entram em suas casas enquanto Victor segue até a casa de Angélica.
Casa da Família Mercantelly Alves
Angélica está sozinha na imensa sala do 1 andar. Cíntia e Sônia saíram para pagar algumas contas e ainda não voltaram. Sobre a mesa de centro ela estuda Ciências Biológicas, tem prova na manhã seguinte. Com suas folhas de fichário espalhadas ela faz algumas anotações com suas canetas coloridas. Isso ajuda-a a guardar toda a matéria. Ouve-se a campainha, não pode ser sua mãe já que tem a chave de casa. Curiosa ela levanta-se e vai atender a porta.
Victor: Oi! -Cumprimentou ao vê-la abrir a porta-
Angélica: Oi Victor!
Angélica sentiu um frio na barriga ao encontrar Victor, ela não esperava sua visita. Por um segundo sentiu-se desconcertada com sua presença. Isso nunca lhe aconteceu. Estava feliz por tê-lo visto e não deixou de dar um sorriso para o amigo. Expressão que não consegue utilizar com frequência.
Victor: Espero não ter te atrapalhado. -Fitou-a com carinho-
Angélica: Nada. Entra. -Acenou para que entrasse-
Victor: O quê você estava fazendo? -Perguntou ao ver as folhas espalhadas pela mesa da sala-
Angélica fechou a porta e sentou-se novamente em frente à mesa enquanto Victor ficou de pé à olhá-la.
Angélica: Estudando. Tenho prova amanhã. Como você vai fazer para terminar o ano escolar?
Victor: Eu fiz uma prova com as matérias do bimestre e fui aprovado. Só começo à estudar o ano que vem. -Sentou-se à sua frente-
Angélica: Nossa! Que bom! -Sorriu-
Victor: Já que você está estudando eu vou embora. Achei que estivesse livre agora à tarde.
Angélica: Não precisa ir embora por isso. A matéria nem é tão difícil assim. -Fitou-o gentil-
Angélica mentiu ao dizer que a matéria não era tão difícil, ela não queria era que Victor fosse embora. No fundo, gostou de sua companhia e queria que pudesse passar a tarde toda junto à ela, mas isso ela jamais deixaria isso transparecer.
Victor: Ontem você me disse que gostava de museus e aí eu pensei que a gente poderia ir em um. Não conheço muita coisa por aqui ainda.
Angélica: Eu vou adorar! -Entusiasmou-se- Vou procurar na internet alguns museus interessantes e falo com você.
Victor: Está bem! Eu já instalei o vídeo-game lá em casa. Se você estiver de boa mais tarde podemos ir lá jogar.
Angélica: Mais tarde que horas?
Victor: Ahh não sei. A hora que você puder. -Disse com timidez-
Angélica: Eu passo lá à noite. Daqui à pouco eu tenho aquela aula chata de alemão que te falei ontem.
Victor: Pode ser à noite. Não quero te atrapalhar.
Angélica: Então eu te chamo. Eu chego da aula às 19. Acha que é muito tarde?
Victor: Não. Acho um ótimo horário.
Angélica: Estão está combinado.
Victor: Eu já vou.
Angélica: Eu abro a porta. -Levantou-se acompanhou Victor até à porta-
Victor: Tchau! -Despediu-se ao vê-la abrir a porta-
Angélica: Tchau! -Sorriu e fechou a porta-
Victor abriu o portão da casa de Angélica contente por ela ter aceitado ir à sua casa jogar um jogo de vídeo-game. Ele passou a tarde inteira pensando se deveria ou não chamá-la para ir à sua casa. Não queria ser invasivo e muito menos pegajoso. Já percebera que Angélica não é uma garota que curte garotos que ficam no seu pé. Ele seguiu para sua casa, até às 7 da noite ainda tem um longo tempo de espera. Angélica deitou-se no sofá com seu celular na mão, não quer mais estudar para a prova. Sente-se mexida com a figura de Victor, ele lembra tanto seu pai. Gosta de música, Clarice Lispector e museus. Desde a saída com ele ontem vem sentindo sua presença diluir à falta de Ventura Com Victor, Angélica consegue conversar de igual para igual assim como fazia com seu pai. Um acalento no coração ela sentiu quando Victor à convidou para ir à um museu. Ninguém nunca fizera à ela essa proposta além de seu pai. Ela tinha achado alguém que finalmente pudesse suprir toda sua ausência. Alegre ela começou sua busca no celular por algum museu de arte que possa interessar aos dois.
A noite aproximou-se rapidamente, são 7 da noite. Angélica teve uma aula puxada de alemão. Mesmo não gostando nem um pouco do idioma ela sempre se esforça para ser a melhor da turma e acaba conseguindo. Sua dedicação até nas coisas que não gosta é de causar admiração. A unica coisa que a alegra é saber que falta apenas 1 ano para concluir o curso. Lucas gostou da nova escola e ficou comentando com Olga sobre à sala de jogos. Ele achou genial saber que poderá jogar vídeo-game na escola. Victor nem prestou atenção na conversa de Lucas, está ansioso esperando Angélica que deve estar voltando de sua aula de alemão. Mariane e Isabel foram à casa de Cibele, a companheira as convidaram para comer uma pizza que sua mãe havia comprado quando voltou do trabalho. Clara recusou o convite por não comer esse tipo de coisa e gentilmente agradeceu dizendo que iria jantar com seus pais. Emília e Thaís, Cibele nem se atreveu a convidar, elas que não podem mesmo comer esse tipo de coisa e Angélica não respondeu à nenhuma de suas mensagens durante toda à tarde.
Casa da família Azevedo Vianna
Isabel e Mariane estão no quarto de Cibele que está responsável por cuidar da irmã pequena já que seus pais precisaram dar uma saída rápida. Cibele está sentada na cama junto com sua irmã enquanto Mariane e Isabel estão deitadas sobre seu tapete e recostadas em algumas almofadas que tem no chão. Como sempre, a conversa gira em torno de Cibele que estava contando para as amigas sobre seu relacionamento com Cléris e Isabel não deixou de comentar o quanto o achava chato e sem noção. Como Mariane, Isabel acha Cléris um garoto extremamente invasivo. Ele não reconhece qualquer limite relacional e isso o torna um chato.
Cibele: Por quê você achou o Cléris sem noção? -Perguntou dando um brinquedo à sua irmã-
Isabel: Porque ele é! -Respondeu firme-
Mariane: Imagina que ele quis empurrar o Victor para a Isabel.
Isabel: Mesmo eu dizendo que era lésbica. Ainda veio com aquelas piadinhas de que minha preferência sexual era porquê eu não tinha beijado nenhum garoto bom de pegada. Como se eu nunca tivesse beijado meninos e como se química fosse o suficiente para decidir opção sexual de alguém.
Mariane: Eu achei ele ridículo!
Cibele: Vocês estão é com inveja por ele ter investido em mim e não em vocês.
Isabel: Agradecida querida! -Ironizou-
Mariane: Não sei da onde você tira essas coisas Cibele. Ninguém está nem aí para quem você fica.
Isabel: Eu só disse que achei ele sem noção e inclusive, vocês formam o par perfeito. Dois sem noção!
Mariane: Se ainda fosse os garotos tipo os da Angélica até ia né Isa?
Isabel: Mais ou menos, não curto garotos estilo galãs de novela.
Cibele: Você não curte homens Isabel.
Isabel: Não é minha preferência mas pego se me interessar.
Ouve-se um toque no celular. É o de Cibele que pega-o em cima da cama. Cléris está enviando um whatsapp para que ela retorne sua ligação. Quer marcar de vê-la já que irá à casa de Victor mais tarde.
Cibele: É o Cléris! -Disse ao ver a mensagem deixada por ele-
Entusiasmada, Cibele levantou e saiu do quarto para responder à mensagem do companheiro. Ela não quer que nenhuma das meninas ouça o que tem para conversar com ele.
Mariane: E o que você achou do Victor? -Continuou após ver Cibele sair-
Isabel: Um bocó! -Respondeu com firmeza indo cuidar da irmã de Cibele já que ela simplesmente à largou em cima da cama para atender a chamada de Cléris-
Mariane: Sério? Coitado Isa.
Isabel: Fica com aquela cara de bobo e não fala nada. -Deu um chocalho para a irmã de Cibele-
Mariane: Ele e a Angélica estão meio que bests está sabendo né?
Isabel: Mas ele é a cópia dela, só que em versão masculina.
Mariane: Isa você odeia mesmo os homens.
Isabel: Eu não odeio ninguém! O fato de eu não pegar homens me torna uma odiadora deles agora? Eu hein Mariane! Cada uma!
Isabel incomodou-se. Sempre que alguém diz que o fato dela não beijar meninos é porque sente ódio do sexo oposto percebe o quanto ainda é incompreendida pelas amigas. Isabel não odeia os homens, ela simplesmente não se sente atraída por eles.
Mariane: Desculpa! Mandei mal. -Desculpou-se-
Isabel balançou á cabeça em sinal negativo e voltou a brincar o a irmã de Cibele. Mariane sentiu-se envergonhada pelo comentário que fez à amiga. Ela sabe o que move Isabel a relacionar-se com mulheres. De fato, deu uma mancada feia.
Clara arruma-se para dormir, são quase onze horas e ela pretende dormir cedo já que tem prova no primeiro horário. Sua aula de hipismo foi exaustiva e ela precisa descansar. Ao sair do banho tirou seu roupão e vestiu seu pijama que deixou sobre à cama. Conferiu as últimas notificações no celular e colocou-o no modo silencioso para que não fosse acordada com as inúmeras mensagens das meninas no grupo que parecem não ter hora para dormir. Já chegou a receber mensagem às 3 da manhã. Após ter apagado o abajur ela se preparou para dormir. Érika chegou do trabalho e após ter passado praticamente parte da noite conferindo alguns papéis foi para o quarto assim que terminaram de jantar. Por um milagre conseguiram ter uma jantar familiar e Clara pôde contar para seus pais como foi na escola e na aula de hipismo. Érika fingiu escutar tudo o que a filha tinha a dizer e não deixou de mais uma vez criticar o gasto enorme com o Polly, ela nem poderá competir no final do ano porque o cavalo se acidentou. Polly estava dando mais despesas do que benefícios, alegou mais de uma vez. Carlos como sempre, protegeu Clara e todo o carinho que sempre dedicou à ele, não importa se ela não competir o que importa é que Polly se recupere de verdade. Érika acabou dando de ombos à todas as justificativas de Carlos e após o jantar cada um subiu para o seu quarto. Clara deu uma revisada na matéria antes de se preparar para dormir e Érika ficou à ler seu livro deixado em sua gaveta da cabeceira à alguns meses.
Casa da família Guimarães Diáz
Carlos que assistia à televisão sentado á cama enquanto Érika lia está ao telefone à quase 2 horas. Ele tem um irmão que mora em Brasília e só se veem no fim do ano quando viajam para lá em férias. Mariano e Carlos foram criados no Rio de Janeiro, com 2 anos de diferença um do outro, formaram praticamente juntos. Mariano formou-se em Direito e assim que casou com Paula, também advogada, mudou-se para Brasília por conta do trabalho. Algum tempo depois tiveram Lavinha, prima de Clara. Mesmo morando longe, elas estão sempre em contato uma com a outra ou por intermédio das redes sociais ou por whatsapp. Paula é promotora de justiça, Mariano é advogado com doutorado em direito trabalhista e leciona em uma universidade particular em Brasília à quase 5 anos. Ele e Paula receberam por e-mail um convite para um curso de 3 meses na frança. A faculdade de Mariano arcará com todas as despesas e sem ter com quem deixar Lavinha por tanto tempo, ligou justamente para perguntar se Carlos poderia ficar responsável por seus cuidados até que regressem próximo às festas de fim de ano. Carlos obviamente adorou a ideia em ter a sobrinha tão próximo á ele. Lavinha é sua unica sobrinha e sente muita a sua falta. Mariano e Paula sempre estão viajando à congresso ou à cursos de curta duração. Mariano por ser professor universitário tem carta branca para viajar e se especializar, Paula que apesar de não lecionar, também está sempre se atualizando junto com marido. Ela concluiu mestrado e o doutorado na área criminal. Geralmente, Lavinha ficava por conta da empregada mas dessa vez, achou o tempo longo demais para deixá-la sozinha. Ela só tem 15 anos, pode acabar precisando de alguma ajuda e sem ter parentes próximos não terá à quem recorrer. Mariano deixou Carlos à par de toda a situação, principalmente em relação ao ano letivo, Lavinha terá que terminar os estudos em alguma escola do Rio de Janeiro. Alegre, Carlos que andava de um lado para o outro no quarto despediu-se do irmão. Já conseguiram resolver todos os detalhes para a vinda da sobrinha que ocorrerá no próximo domingo.
Carlos: Claro Mariano! Imagina! Problema nenhum. Saudade também! Tchau! -Desligou o telefone-
Érika: Que milagre o seu irmão te ligar. O quê ele queria? -Olhou Carlos por cima do livro que lia-
Carlos: Ele e a Paula vão viajar para a França em um curso de 3 meses e pediu se poderia deixar a Lavinha aqui.
Érika: E você disse que não né?
Carlos: Não. -Eu disse que sim. -Disse temeroso-
Carlos sabia que Érika iria se irritar com a noticia. Ela nunca foi de ter qualquer vínculo de proximidade com sua família. Até quando viajam em férias, Érika preferia isolar-se à participar da conversa ou dos momentos em família.
Érika: Você enlouqueceu Carlos?! -Fechou o livro indignada- Não sabe a responsabilidade que é ficar por conta dos filhos dos outros, ainda mais adolescente. A gente já trabalha o dia inteiro. Quem é que vai cuidar dela?
Carlos: Érika, a Lavinha é uma adolescente de 15 anos. Não requer tantos cuidados.
Érika: Essa é a fase que necessita mais atenção.
Carlos: Então por quê não dá toda essa atenção à Clara? -Provocou-
Érika: Não estamos falando da Clara. -Desconversou- Nós não temos tempo de se dedicar à ela que dirá à sua sobrinha. -Insistiu-
Érika não quer ter que se responsabilizar pela sobrinha de Mariano que tanto trabalho dá. pelo pouco que a conhece percebeu que tem um gênio e ideologias bastante contrárias à tudo que pensa e à tudo que ensinou Clara. Teme que possa acontecer alguma coisa ou que possa ser uma influência negativa para a filha.
Carlos: Eu não estou pedindo que você se dedique à cuidar dela. Eu não exijo mais que você cuide nem da Clara e se o problema for dinheiro, já aviso que o Mariano vai mandar a quantia necessária para mantê-la aqui até eles voltarem.
Érika: Você acha que o problema é dinheiro?
Carlos: Nunca se sabe! Tudo é possível! -Disse irritadiço-
Érika: Carlos é uma responsabilidade enorme isso que está fazendo.
Carlos: Eu assumo essa responsabilidade Érika. É meu irmão e minha família. Eu não posso fazer nada se você não tem uma. -Olhou-a com desprezo-
Continua...
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