O milagre de uma lágrima
1 Memórias
Notas iniciais
No bairro Amores localizado na Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, existe um condomínio residencial fechado de classe média alta. Várias casas e apartamentos, além de piscina, salão de festas, quadra, playground, uma praça bem arborizada e um PUB conhecido como La Porte, servem de diversão para os que ali residem. Como todo condomínio, crianças e adolescentes compõem o cenário. É um fim de tarde de quarta feira e como de costume, os finais da tarde são dedicados à diversões e conversas.
Clara e suas amigas estão jogando handebol na quadra. Mariane joga a bola para Clara que corre e lança a bola na rede marcando um gol. Angélica fica a observar com raiva enquanto o time adversário comemora a vitória de 5x1. Ainda irritada, dirige-se a saída da quadra pegando sua garrafa de água que estava ao lado de alguns de seus pertences espalhados pelo chão.
Clara: Ganhamos! -Pega a toalha que estava pendurada na grade da quadra e seca seu rosto enquanto as demais meninas se aproximam pegando seus pertences no chão-
Angélica: Foi um jogo roubado, mas não adianta reclamar. -Reclamou ao ver Clara se aproximar e pegou sua mochila no chão-
Cibele: Ah Angélica! É só um jogo, não uma competição. Não vai levar isso tão à sério. -Retira sua blusa suada e coloca outra que acabara de pegar em sua mochila.
Angélica sempre teve dificuldade com perdas o que a tornou uma adolescente competitiva em qualquer coisa que faça. Um simples jogo é capaz de fomentar brigas exaustivas caso perca. Suas amigas que já passaram por inúmeras situações desagradáveis por conta de seu jeito competitivo, tentam sempre que podem, apaziguar a situação. O diálogo segue.
Angélica: Quer dizer que em um jogo pode roubar mas em uma competição não? -Indagou-
Cibele e Angélica se comportam de forma muito parecida. Ambas, donas de uma personalidade impulsiva, não levam desaforos para casa. A tendência que tem em resolverem tudo na discussão e às vezes com agressões verbais ocasiona, muitas das vezes, constrangimentos para as amigas. Cibele, que já havia entrado em uma briga verbal com Angélica semanas atrás que quase terminou em uma luta corporal por conta de entradas de cinema, intervém.
Cibele: Não garota! -Tom firme- Eu só falei para não arrumarmos outra confusão.
Clara: Gente, se o problema for este, terminamos empatadas. Pronto. -Finaliza na tentativa de evitar uma nova briga entre Cibele e Angélica
Angélica: Não precisamos da sua benevolência Clara. Meu time sabe perder -Desprezou-
Clara: Só não quero criar atrito Angélica. Se você faz tanta questão, deixamos no empate. -Angélica olha para Clara com raiva e responde:-
Angélica: Não sou má perdedora.
Clara: Ok. -Finaliza percebendo a irritação de Angélica. Arrumar uma briga com colega é o que ela menos quer- Acho que devemos tomar um sorvete no La Porte porque está um calor insuportável aqui. -Desconversou-
Isabel: E aí a gente finda esta discussão de vez -Concluiu-
O La Porte que se designa um PUB, a noite recebe o público dos bairros vizinhos mas durante o dia funciona como uma cafeteria. Localizado à frente da quadra de esportes na entrada do condomínio, faz com que o barulho das músicas não incomode aqueles que ali residem. Clara e suas companheiras, ao chegarem, se dirigem a geladeira de sorvetes e picolés ficando a procurar por algum que as interessem.
Thaís: Eu nem gosto de tomar sorvete. -Olhou a geladeira- Isso deve ter umas 200 calorias.
Thaís entrara em uma dieta rigorosa à quase 3 meses para perda de peso. Aos 13 anos, com 1,60 de altura, chega a pesar quase 85 quilos. Desde a morte de seus pais à 3 anos em um trágico acidente de carro, vem engordando significativamente. Por ser a única de suas amigas a não exibir uma silhueta magra, tem graves problemas de auto-estima. Angélica à seu lado, retira seu sorvete de chocolate preferido da geladeira e sem qualquer sensibilidade com o drama pessoal da amiga comenta:
Angélica: Você não vai ficar mais gorda do que já é tomando sorvete Thaís. -Thaís claramente mudou de semblante ao ouvir o comentário da colega-
Angélica, diferentemente das suas outras colegas parece não ter se dado conta do enorme esforço que tem sido para a companheira manter-se em dieta em meio à uma turma que vive cometendo exageros alimentares. Mariane, sensível ao problema da de Thaís, intervém antes que Angélica prossiga com seu comentário carregado de perversidade.
Mariane: Pára Angélica! -Brigou ao perceber a chateação da companheira-
Clara, Cibele, Emília e Isabel que não perceberam o comentário maldoso de Angélica retiram da geladeira seus sorvetes e sentam-se em uma das inúmeras mesas do La Porte. Angélica não querendo arrumar confusão com Mariane se justifica:
Angélica: Foi só uma brincadeira Mari -Defendeu-se com um sorriso maldoso indo sentar-se junto as companheiras-
Mariane sabe que não foi apenas uma brincadeira. Ela e Clara tem um árduo trabalho de controlar Angélica que parece sentir prazer em agredir as colegas com comentários e piadinhas maliciosas. Thaís ainda chateada, deixa de lado seu sorvete sentando-se ao lado de Clara. Ela e Mariane são as duas amigas que mais lhe dão força para que siga firme no cuidado de sua saúde. Apenas elas tem ideia do quão difícil é controlar a vontade insaciável de tomar aquele pequeno sorvete junto às amigas. Thaís sabe muito bem que tem que se manter na dieta se quiser exibir um corpo esbelto como o das companheiras. Cibele que chupa um picolé como se chupasse um pirulito retira seu celular recém lançado nos Estados Unidos da mochila e começa a olhá-lo.
Cibele: Gente, -Exclama- olha que babado este show do Naldo que vai rolar semana que vem -Mostra o celular para as amigas com um fôlder do cantor em um dos grupos que participa no Facebook-
Angélica: Ai que besteira! -Desdenhou após olhar o folder no celular- Eu já fui em um show desse cara. Nem acho ele isso tudo que vocês falam. -Colocou uma colher de sorvete na boca-
Emília: Eu tenho que ir neste show! -Exclamou deslumbrada-
Isabel: Se você for você me leva Cibele.
Thaís: Eu também quero ir.
Cibele: Podíamos combinar de irmos todas juntas.
Angélica: Eu não vou! -Respondeu firme em um supetão- Ainda mais nesse lugar.
Cibele: Aé! A Angélica só frequenta lugares chiques. Esqueci. -Debochou-
Angélica: Claro! Vou me enfiar nesse lugar com gente que nem sei da onde vem? -Pega o celular da mão da amiga mostrando as demais da mesa o folder com várias curtidas e comenta:- Olha o estilo das pessoas que curtiram. Não gente! -Finaliza- Definitivamente, Angélica Alves não colocará os pés neste lugar! -Devolve o celular para Cibele-
Emília: Nem pelas amigas? -Perguntou na esperança de que a melhor amiga mudasse de ideia-
Angélica: Muito menos por vocês! -Respondeu ríspida. Emília se chateia, sendo ela sua melhor amiga, não esperava essa resposta de Angélica-
Cibele: E você Clara? Vai? -Perguntou a Clara do outro lado da mesa-
Angélica: A santa Clara? Duvido. -Comentou provocativa tomando seu sorvete-
Clara: Não gente. Eu na verdade não gosto de shows e nem de nada que envolva muita gente e barulho.
Angélica: Depois a nojenta da turma sou eu.
Clara: Não é por nojo Angélica. Eu simplesmente não gosto -Defendeu-se-
Angélica: Ou a mamãe não deixa? -Cutucou- Aliás Clara e aquele garoto que estava super a fim de você? Ficou com ele ou ainda é BV*? -Perguntou com um sorriso provocativo-
*(BV é uma sigla bastante usada por adolescentes e jovens que significa "boca virgem". Entre os adolescentes e jovens, existe alguma discriminação em relação às pessoas que ainda não perderam o "bv", ou seja, que nunca deram um beijo ou um beijo de língua).
Clara: Isso é assunto meu Angélica -Respondeu em tom irritado a provocação-
Angélica: É BV -Riu -
Mariane: Pára de implicância Angélica -Interveio tentando evitar uma discussão entre as colegas como sempre acontece-
Angélica: Bom, na verdade pouco importa. -Continuou a tomar seu sorvete-
Cibele: Você está é doida pra ficar com ele. Confessa Angélica! -Provocou a colega-
Angélica: Não fofa! Não tenho interesse no Ramon, apesar dele ter chegado em mim antes de chegar na Clara mas se querem saber, estou interessada em outra pessoa.
Cibele: O Paulo Felipe do terceiro ano. Quem não sabe? Foi sua paixão platônica durante o ano todo.
Angélica: Nunca me interessei pelo Paulo.
Cibele: Então por quê ficava sempre onde ele estava?
Angélica: Cala a boca! -Disse em tom de briga- O Paulo Felipe já foi e nem sei porque dou satisfação da minha vida pra vocês.
Emília: Por que somos suas amigas. -Sorriu para a amiga que desdenha-
Angélica: Ai que papo mais chato de amor! -reclamou cansada- Eu vou embora. Tenho coisas à fazer. -Levanta-se da mesa meio irritada-
Angélica não gosta de dar detalhes de sua vida íntima. O ditado popular: "Pimenta nos olhos dos outros é refresco", serve perfeitamente para ela. Suas interações sempre provocativas geram nas companheiras sentimentos desagradáveis e quando percebe que algum assunto pode envolver sua intimidade sempre desconversa. Isabel continua a provocar a colega a fim de tirar dela alguma informação sobre seu possível envolvimento amoroso.
Isabel: Tem um encontro. -Comentou em tom provocativo-
Angélica: Pode ser. Quem sabe -Respondeu em um ar misterioso sem importar-se com a provocação de Isabel saindo do La Porte-
Cibele: A gente quer saber quem é hein Angélica. -Gritou para Angélica já na porta. Sem dar ideia ao comentário de Cibele, segue para sua casa um pouco mais à frente.
Emília: Será que Angélica tem mesmo algum crush? -Curiosa-
Cibele: Se você que é a melhor amiga dela não sabe, não somos nós que vamos saber gata.
Mariane: Não acho que Angélica seja capaz de gostar de alguém além dela mesma. -Intrometeu-se com um tom seco-
Clara: Nossa Mariane! -Exclamou- Por quê diz isso dela?
Mariane: Não acho que ela seja uma pessoa que se importe com alguém de verdade. Olha a forma como ela te trata.
Clara: Angélica nunca foi com a minha cara e eu nunca entendi também o porquê.
Isabel: Porque você é a mais linda! A mais fofa e a mais amiga de todas nós aqui. -Comentou em tom de mimo como que puxando o saco da amiga-
Clara: Vocês são uns amores! -Sorriu e segurou a mão de Isabel em agradecimento ao elogio-
Anabela chega ao La Porte aproximando-se da mesa de sua irmã Mariane.
Anabela: Mari, minha mãe está te chamando. Meu pai está chegando e não vai gostar de te ver na rua.
Mariane: Já vou. -Respondeu com seriedade para Anabela que continua parada esperando que a irmã se levante para acompanhá-la- Pode ir. -Disse ao perceber Anabela parada impedindo-a de finalizar o assunto com suas amigas-
Anabela: Já entendi. -Completou entendendo a mensagem dada pela irmã e sai do La Porte-
Mariane: Espero que o Senhor Rogério não chegue bêbado como sempre.
Clara: Não diz isso! Ele é seu pai Mariane.
Mariane: Ficaria grata se você não lembrasse disso Clara. -Levanta-se da mesa dirigindo-se a saída do La Porte-
Emília: Que bad* -Lamenta-se ao ver Mariane se retirar. Cibele retorna a conversa para o assunto anterior-
*(Bad na gíria é o mesmo que: Que merda! Que ruim! Que situação e etc...).
Cibele: Então gente, vamos combinar de irmos todas juntas, no carro do meu pai cabe 5 pessoas... -Começa a falar combinando com suas amigas a saída para o show enquanto Clara fica a pensar na resposta que Mariane lhe deu.-
Cai a noite, em outro local um pouco distante do bairro, um enorme hospital particular constitui o cenário de trabalho de Érika e sua melhor amiga, Marlene. Érika administra o Vitte desde que se formara e se tornou chefe à 3 anos por sua enorme competência. Porém, sua dedicação exclusiva à ele sempre foi motivo de reclamação por parte de seu marido que inúmeras vezes, sentiu-se preterido por ela. Seu jeito rude e prepotente na forma como conduz o trabalho tem gerado alguns conflitos internos com seus companheiros que muitas vezes acabam acusando-a de abuso de poder.
Hospital Vitte
Érika, com seus óculos de leitura e um semblante sério está sentada em sua mesa revirando alguns papéis. Marlene que vinha de algum lugar do hospital, abre a porta chamando-a.
Marlene: Érika? Só estamos nós duas aqui. Você não acha melhor deixar isso para amanhã? -Perguntou ao vê-la ainda analisando alguns papéis sobre sua mesa-
Érika: Não Lene, preciso terminar de contabilizar essas faturas. Sabe que não gosto de deixar nada para o dia seguinte -Respondeu sem olhá-la e começou a escrever nas folhas brancas sobre à mesa como se estivesse fazendo contas-
Marlene: A cada dia você se afunda mais neste lugar. Ontem você saiu quase 10 da noite. Não acho que necessite de tanta dedicação. O Vitte vem funcionando muito bem desde que você assumiu a coordenação.
Érika: Estou apenas colocando em ordem toda a desordem que o Júlio deixou por pura displicência. -Respondeu Marlene sem fitá-la juntando as folhas sobre à mesa e guardando-as em uma gaveta ao lado de sua mesa-
Marlene: Sim. À 3 anos. -Ironizou-
Érika: Lene, até você vai começar a me recriminar? -Vira-se parando de guardar as folhas na gaveta-
Marlene: Só me preocupo com você. Não tem mais tempo para ficar com o Carlos, com a Clara. Ás vezes vem trabalhar até aos domingos. Tenho medo que acabe ficando doente. -Disse sentando-se em uma cadeira à frente de sua mesa-
Érika: —Pára o que está fazendo e fica a olhar profundamente Marlene- Sou uma mulher forte Marlene. -Disse triste como se lembrasse de todo o sofrimento que houvera passado durante toda sua vida para chegar onde chegou.- Já enfrentei muita coisa na minha vida para deixar esse tipo de coisa me abater. No mais, é uma escolha minha. Prezo muito o trabalho e você sabe disso.
Marlene: Até mais do que sua família?
Érika: Até mais do que ela! -Disse rude fechando a gaveta-
Marlene: O que aconteceu com você amiga? -Preocupada- Desde que sua mãe morreu à 7 anos você nunca mais voltou a sorrir. Tem sido dura, insensível. Me desculpe a sinceridade, mas parece que você perdeu a capacidade de amar.
Érika: Apenas estou me tornando mais forte Lene. Eu estou melhor assim. Não tem que se preocupar comigo.
Marlene: Estou indo embora. Vamos juntas? -Levanta-se da cadeira colocando sua bolsa sobre os ombros-
Érika: Não. Vou logo mais.
Marlene: Vamos ver se esta semana ainda conseguimos sair pra tomar qualquer coisa. Tenho novidades. -Animada-
Érika: Uau! Namorado novo? -Curiosa-
Marlene: Mais ou menos. Vamos marcar e te conto tudo.
Érika: Tudo bem.
Marlene: Vamos relembrar os velhos tempos de faculdade. Aliás, tem visto o Ventura?
Érika: Já faz um tempo que não nos encontramos. Sei que ele defendeu seu doutorado em neurologia à 1 mês porque ele me convidou para a defesa e eu não consegui ir -Comentou arrumando alguns lápis e papéis que estavam sobre a mesa-
Marlene: Não conseguiu ir ou não quis ir?
Marlene e Érika são amigas desde a época da faculdade, as duas estudaram juntas administração e dividiram a mesma república por 4 anos. Marlene foi quem acompanhou todo o tempo de relacionamento da amiga com Ventura e por mais que Érika negue, sabe de todas as tentativas que ela tem feito para evitar de encontrá-lo desde que terminaram. Érika prossegue:
Érika: Não consegui ir. Lene, eu não tenho porque fugir do Ventura. Moramos no mesmo bairro e mantemos uma relação amigável. Namoramos por 7 anos e íamos nos casar. Não se esqueça que fui eu quem terminou com ele.
Marlene: E eu até hoje não entendi o porquê, mas... passado é passado.
Érika: Exato. Ventura e eu seguimos a vida como bons amigos. Temos filhas na mesma escola, moramos no mesmo bairro e quase não nos vemos.
Marlene: É outro fanático pelo trabalho. Vocês ainda formam a dupla perfeita -Comentou em brincadeira, mas Érika parece não ter gostado.
Érika: Vai embora Lene! Preciso terminar isto aqui- Respondeu irritada com a brincadeira da amiga-
Marlene: Beijos, até amanhã!
Érika: Até! -Marlene fecha a porta e Érika ri de sua brincadeira continuando a organizar a mesa de trabalho-
A casa da família Fernandes Grácia, é uma das moradias mais simples. Diferentemente das casas do condomínio, geralmente sobrados luxuosos, é uma casa térrea pintada em um tom amarelo escuro com uma janela frontal de vidros transparentes e uma discreta porta de entrada ao lado esquerdo. Cristina havia se mudado para o condomínio 2 anos antes que Mariane nascera. Nessa época, Rogério ainda era um professor de matemática renomado de uma escola para alunos afortunados e possuía uma renda satisfatória para manter o padrão social de sua família em um bairro de classe média alta. Cristina, pretendia mais para frente, aumentar a casa e montar um salão de beleza já que havia feitos vários cursos voltados para essa profissão mas, com o alcoolismo de seu marido que acabou culminando em sua demissão, seus planos tiveram que ser adiados.
Rogério atualmente ganha seu dinheiro dando algumas aulas em alguns colégios sem qualquer vínculo empregatício. Cristina por sua vez, já tentara trabalhar algumas vezes, porém, o machismo de Rogério em ter que manter a casa, nunca permitiu que ela se dedicasse a outros afazeres que não fosse o cuidado da casa e das filhas. Com apenas 5 cômodos e uma pequena varanda que mal cabe a máquina de lavar, é nesse ambiente privado que Mariane e sua família vivem grande parte de seus dramas.
Casa da família Fernandes Grácia
A casa de Mariane mostra-se silenciosa pois já passara das 22 horas e todos estão dormindo. Menos Cristina que está deitada no sofá da sala pensando no que terá acontecido à Rogério que ainda não chegara em casa. A campainha toca.
Cristina: Quem deve ser à esta hora. -Levanta-se dirigindo à porta abrindo-a- Rogério? -Assusta-se ao vê-lo carregado pelo dono do bar em que costuma beber todas as noites-
Romero: Estava caído no bar, como já temos que fechar o trouxe. -Disse com Rogério pendurado em seu pescoço sem conseguir parar em pé.
Cristina: Muito obrigada! -Agradeceu olhando a situação decadente do marido-
Romero: Onde eu deixo? -Perguntou como se estivesse entregando a Cristina um saco de batatas-
Cristina: Pode deitá-lo aqui no sofá. -Apontou para o sofá vazio da sala onde estava deitada- Muito obrigada. -Agradeceu em um sorriso cansado após ajudar Romero a deitar Rogério bêbado no sofá-
Romero: Boa noite Cristina -Despede-se com um aperto de mão. Cristina fecha a porta e dirige-se ao marido que está inconsciente no sofá. Chorando já cansada de enfrentar sempre a mesma situação por anos, fica a acariciá-lo-
Cristina: Rogério, por quê você fez isto de novo? Estávamos esperando você para jantar. Você prometeu. -Lamenta em choro. Rogério que parecia estar dormindo grita bêbado-
Rogério: O que você quer vagabunda? Piranha! -Tenta levanta-se mas por estar muito embriagado, cai novamente no sofá. Cristina então, como sempre fizera durante anos. Ajuda Rogério a ficar de pé-
Cristina: Vamos tomar um banho. -Levanta-o com certo esforço já que Rogério não tem forças para manter-se de pé.- Vem. Mariane, me ajude aqui! -Gritou sua filha já que não tem forças suficiente para levantá-lo-
Mariane dorme tranquila. Já tem muitos anos que não se preocupa com a forma com que seu pai chega em casa. Ao acordar com os gritos de sua mãe na sala, suspira como quem não aguentara mais a mesma situação todos os dias. Mesmo lutando contra seu desejo não de ajudar sua mãe, levantou-se da cama adentrando a sala e encontrou, mais uma vez, seu pai bêbado e sua mãe, como sempre, tentando levá-lo até o banheiro.
Mariane: Até quando mãe? -Sua pergunta conteve uma mistura de lamento e indignação enquanto tentava colocar seu pai de pé-
Cristina: Por favor filha, não me julgue. Apenas me ajude a cuidar do seu pai -Disse em um lamento-
Mariane: Este homem não é o meu pai! -Grita irritada. Sua fala parece ter dado-lhe força para colocar Rogério de pé-
Rogério: -Resmunga sendo carregado por Mariane e Cristina até o banheiro- Quem é essa piranhazinha? Vadia! Cretina! Quero meu copo! Cadê meu copo?
Mariane: Não tem mais copo! -Gritou já de saco cheio- Já chega dessa palhaçada! Será que você não vê o estrago que está fazendo com a nossa família? -Em um sussurro Cristina intervém-
Cristina: Filha por favor não grite assim. Vai acordar os vizinhos.
Mariane: Sim. Que eu me preocupe com os vizinhos enquanto o inferno acontece dentro da minha casa! Eu quero que se dane os vizinhos! Eu não aguento mais isso! -Gritou deixando seu pai caído no box-
Anabela, que acordou pelo grito desconcertante de Mariane. Aparece em um repente, sonolenta na porta do banheiro.
Anabela: Mari, o quê aconteceu? -Perguntou esfregando seus olhos sem dar-se conta do que realmente acontecera-
Mariane: -Tenta disfarçar a situação da irmã- Nada Ana. Eu me assustei.
Anabela tem grande amor por seu pai, ela é a única pessoa que faz com que Rogério não desista de viver, talvez, porque ela seja a única que ainda o enxergue com a pureza de uma criança. Seu jeito doce e sensível é o que impede, muitas das vezes, brigas e discussões quando o assunto é Rogério.
Por ter apenas 7 anos, Cristina e Mariane, decidiram que para o seu bem, Anabela não deva tomar consciência do que acontece com seu pai. Nenhuma das duas querem que ela desenvolva qualquer problema psicológico por conta do alcoolismo de Rogério.
Anabela: —Ainda sonolenta, repara alguém caído no chão do box e pergunta curiosa- Quem está no banheiro?
Mariane: Ninguém. -Disse puxando Anabela pelo braço e levando-a para o quarto para que não perceba nada-
Rogério: Quero meu copo! -Gritou do banheiro enquanto Cristina tira-lhe a roupa-
Anabela: É o papai? -Perguntou curiosa no meio do corredor que dá para seu quarto-
Mariane: Não! Deve ser algum vizinho. -Desconversou pegando em sua mão e levando-a para o quarto- Vamos para o quarto, vem.
Anabela: O papai ainda não chegou? -Perguntou preocupada deitando na cama com a irmã-
Mariane: Não.
Anabela: Será que aconteceu alguma coisa?
Mariane: Nada de pior pode acontecer à ele. Nada. -Respondeu com raiva acariciando a irmã que deitara em seu colo preocupada com seu pai-
Como desejara que seu pai morresse para que se livrasse do tormento de todos os dias vê-lo bêbado e agredindo sua mãe. Mariane sabe que não pode ter esse tipo de sentimento, mas não consegue evitar. Deitada abraçada a irmã, tentar dormir, tem aula na manhã seguinte.
A noite avança um pouco mais. O bairro mostra-se silencioso já que todos estão provavelmente dormindo. Um silêncio sereno toma conta do lugar onde não é possível ouvir nem os gritos de Rogério que provavelmente, pegou no sono. Até o La Porte que costuma ser um lugar barulhento, encontra-se fechado pela hora avançada em um dia de semana.
Praça dos Amores
Ventura sai de casa, é hora de seu plantão. É um médico renomado na área de Neurologia e por conta disso, tem poucos momentos com a família. Sônia, sua esposa, conhecida por todos por Soninha, desde que se casara com Ventura à 14 anos, tem sido sempre muito dedicada no cuidado com o marido para que nunca lhe falte nada e ele, é muito agradecido a todo cuidado que ela lhe presta. Sônia o espera chegar e sair todos dias, mesmo que seja de madrugada e esta noite, apesar da hora, não seria diferente.
Ventura que trás em seus braços seu jaleco branco lavado com todo cuidado pela esposa e alguns envelopes, abre o carro e se prepara para sair levantando o portão da garagem apertando um botão automático. Érika que chega do trabalho, passa de carro pela portaria do condomínio. Por estar distraída ouvindo seu CD favorito e principalmente por saber da pouca movimentação de carro à essa hora da noite, não percebe Ventura vindo em sua direção. Ventura que saíra de sua garagem com certa tranquilidade, segue a rua e freia bruscamente ao ver um carro à sua frente.
Ventura: Estou dando seta minha filha! -Gritou assustado da janela percebendo ser uma mulher na direção. — Tirou carteira hoje? -Pára o carro-
Érika: Ventura? -Exclamou olhando também pela janela reconhecendo Ventura-
Ventura que saíra do carro, fica a olhar com certa dificuldade quem é a mulher que quase o batera. Em meio as poucas luzes do condomínio, reconhece Érika.
Ventura: Érika? -Perguntou curioso e meio surpreso-
Encontrá-la aquela hora era praticamente impossível, seus horários conturbados, nunca permitiram que se encontrassem com frequência. Por alguns segundos, Ventura sentiu seu coração acelerar como um garoto ao ver sua paixão. Encontrar a mulher que o fizera viver as melhores experiências amorosas sempre foi para ele, um misto de prazer e nostalgia. Mesmo após 14 anos, Ventura sentia seu coração acelerar como na primeira vez em que se encontraram.
Érika que saíra do carro dirige-se a ele surpresa já que também, não esperava encontrá-lo. Ao menos, não aquela hora.
— Me desculpe! Não sabia que era você. -Continuou Ventura-
Érika: Desculpe a mim Ventura -Respondeu sem jeito. Estava distraída na direção ouvindo seu CD favorito- Não imaginava que iria vir um carro à essa hora.
Ventura: Sempre pode.
Érika: É. Foi imprudência minha. -Sorriu envergonhada-
Ventura: Saindo agora do hospital?
Érika: Tive que ficar até tarde resolvendo umas pendências. Sabe como é e você?
Ventura: Indo para o plantão. Hoje é meu dia no hospital. Sabe que hoje eu me lembrei de você? -Encosta-se no carro de Érika ficando à seu lado-
Érika: Verdade?
Ventura: Fui à UFTS pegar a declaração do meu doutoramento.
A UFTS, sigla que significa, Universidade Federal Themes Souza, compõe a memória de Ventura como um lugar que o traz boas recordações. Foi em suas dependências que conheceu Érika e começaram um relacionamento que durou 7 anos.
Érika: Olha! Parabéns! -Sorriu entusiasmada- Lamento muito não ter podido comparecer à sua defesa. Sabe como é difícil sair daquele hospital, mas não posso deixar de dizer que fiquei muito feliz por você. Lembro-me do dia em que me contou que entrou no mestrado. Você estava feliz da vida!
Ventura: Foi logo após sua despedida de solteiro. Eu estava realmente muito feliz, mas não apenas por isso. Estava feliz também, porque uma pessoa muito importante pra mim estava concretizando um desejo de muito tempo. -Fixa seu olhar em Érika que sorri sem graça-
Relembrar seu passado com Ventura, para Érika, é sempre muito desconcertante por trazer lembranças afetivas que atualmente, luta para esquecer. Apoiada em um comportamento frio por proteção, seu desejo é que nenhuma dessas lembranças aqueça novamente seu coração mesmo que ele vibre sempre que encontra Ventura.
Érika: Mas me diga... -Continuou em uma tentativa de se desvencilhar da vergonha para que Ventura não perceba seu incômodo- Por quê se lembrou de mim?
Ventura: A UFTS não te traz boas recordações? -Provoca Érika que responde sem jeito-
Érika: Ventura, não acho que devemos falar sobre isso -Afasta-se do carro sem querer dar continuidade ao assunto-
Érika não consegue entender porquê mesmo após 14 anos, rememorar seu passado com Ventura ainda causa certo aconchego e um gostosismo que ela tenta de todas as formas enterrar. De alguma forma, se permitir experimentar essas lembranças não deixa de ser uma forma de traição.
Ventura mantém a mesma sensibilidade de 14 anos atrás e os momentos intensos que viveu com Érika ainda o permite decifrar cada gesto daquela que agora, é sua amiga. Sabe que o incômodo de Érika é uma tentativa de evitar que estas boas lembranças tomem conta novamente de seu coração e conclui sem querer forçar uma situação desnecessária.
Ventura: Tudo bem, mas não falar disso não impede que me traga boas recordações. -Sorri e Érika desconcertada com a situação criada, desconversa-
Érika: E agora com seu doutorado, o que pretende?
Ventura: Estou com uma pesquisa dentro do hospital. Pretendo dar seguimento à ela e buscar apoio das agências de fomento. No mais, desacelerar, diminuir a carga horária na Climédia e ter mais tempo para minha família, em especial para a Angélica.
Érika: Ela está bem?
Ventura: Está ótima! E Clara?
Érika: Também -Silêncio-
Érika abaixa a cabeça sem graça, por algum motivo não consegue mais encarar Ventura que parece não estar incomodado com o silêncio que se deu entre eles. Na verdade, sabe que esse pode ser o único momento para que Érika sinta aquilo que ele sempre sentiu.
Érika desejou que chão se abrisse naquele momento, faria de tudo para que pudesse sair daquela situação tão incômoda para ela. Sustentar silêncios nunca foi seu forte. Ventura que percebera o incômodo insuportável gerado em Érika começa outro assunto.
Ventura: Vamos marcar um dia de tomar um chopp para comemorar meu doutorado já que não pôde ir a minha defesa. Somos vizinhos, mas quase nunca nos vemos.
Érika: Verdade! Me ligue e combinamos um dia que seja favorável à nós dois. -Sorriu-
Um chamado por Ventura vindo das proximidades finaliza o momento nostálgico experienciado por Érika e Ventura. É Sônia que sempre cuidadosa, abre o portão de sua casa com uma pasta na mão.
Érika sentiu-se aliviada. A presença de Sônia parece ter sido providencial para aquela situação que para ela, estava ficando insustentável.
Sônia: Ventura? -Aproxima-se de Ventura — Oi Érika! Tudo bem? -Cumprimentou com um sorriso simpático-
Sônia parece não demonstrar qualquer ciúme ao ver Érika e Ventura juntos mesmo sabendo do grande amor que uniu os dois por 7 anos. Érika por sua vez, não se sente à vontade sempre que ela os vê juntos e isso faz com que tenham uma relação estritamente formal.
Érika: Oi Sônia! -Retribuiu tímida-
Sônia: Você esqueceu os documentos que o Carlito pediu. Ainda bem que você ainda não saiu.
Ventura: Pois acredite que quase bati na Érika e por isso ainda estou aqui.
Sônia: Meu Deus! -Assustou-se- Como foi? Logo nesse condomínio tão pacato.
Érika: Eu entrei sem olhar. Me acostumei já que este horário não tem muito fluxo de carro. -Explicou-
Sônia: Que bom que estão bem. Meu amor, aqui está a pasta. -Entrega-lhe- Me avise quando sair do hospital por favor.
Ventura: Pode deixar meu bem. -Dá-lhe um beijo em seus lábios-
Sônia: Tchau Érika. -Despede-se seguindo para sua casa. Érika sorri com certa inibição-
Para Érika é sempre uma situação constrangedora encontrar-se com Sônia seja em qual situação for.
Ventura: Bom Érika, eu te ligo para combinarmos nosso chopp. -Comenta finalizando a conversa-
Érika: Fico no aguardo Ventura. Bom trabalho. -Estende a mão rapidamente antes que Ventura despeça com um beijo em seu rosto como sempre faz-
Ventura fica a segurar sua mão e a fitar Érika por alguns momentos. Como desejara que aquele momento não terminasse, sabe-se lá quando a encontrará de novo.
Érika também fica a olhá-lo, percorrendo os olhos por todo seu rosto deu-se conta de que não mudara muito em 14 anos. Nunca havia se permitido observá-lo dessa forma, foi a primeira vez que se deixou ser invadida por aquele sentimento nostálgico que relutava para não sentir.
Ventura despede-se com dificuldade.
Ventura: Boa noite! — Solta a mão de Érika e entra no carro enquanto ela fica a olhá-lo passar pela portaria do condomínio-
Ao perder Ventura de vista, ainda vivenciando a saudade deixada pelas lembranças que ele provocou, entra em seu carro e dirige até sua casa que está localizada duas casas após à dele. Abre o portão da garagem parando o carro em seu jardim ficando à pensar com um semblante nostálgico. Mesmo que relute, encontrar Ventura, sempre remonta em sua memória lembranças agradáveis. Ele foi o único homem com quem pôde viver o amor antes de se fechar em seu mundo frio e solitário. Ainda que não demonstre, sente por ele intenso carinho. Se pudesse, ficaria ali, longe de todos, revivendo com intensa saudade, todas as lembranças boas quem vem à sua mente.
Em todos estes anos, nunca desejara retomar seu romance, sabe que seu amor por Carlos, seu marido, é sincero. Ela mesma optara por casar-se com ele, no entanto, nunca conseguira viver com ele o que viveu com Ventura. Isso faz com que suas lembranças sejam ainda tão vivas dentro de si. Érika então fica ali. É um dos poucos momentos em que se permite viver com intensidade todas as lembranças que insistem em vir à sua memória. Sua música favorita no player de CD ajuda a tornar suas vivências mais intensas.
Um toque no celular quebra o momento. Érika ao pegá-lo no banco do carona visualiza uma mensagem.
Mensagem de celular:
Amor você vai demorar? Por favor me mande notícias. Estou preocupado. Te amo!
Carlos
Carlos está preocupado com sua demora, Érika se dá conta que tem que retornar à sua vida real. Já passa das 23 horas e seu marido a espera. Ela então, sai do carro entrando em sua casa escura.
A enorme sala que atravessa a leva as escadas que dá para o segundo andar. Sem qualquer pressa, sobe as escadas adentrando um longo corredor. Encontra a luz do quarto de Clara acesa, possivelmente, deve estar estudando ou vendo algum filme na TV. Como tem vontade de aproximar-se da filha, perguntar como foi dia, a escola e outras situações corriqueiras, mas não, aproximar-se dela provocará aquele incômodo sentimento que ela não deve se defrontar. É um segredo que levará para o túmulo conforme prometeu a sua mãe antes de morrer. Segredo esse, que a consome dia-após-dia.
Fica a olhar a porta de seu quarto por alguns momentos ameaçando abrir mas desiste, esse não é momento. Já é deveras tarde para incomodá-la. Continua então a seguir pelo corredor entrando em seu quarto onde Carlos está deitado na cama vendo TV.
Carlos: Hoje você demorou mais do que de costume. O que houve? -Perguntou ao vê-la entrar-
Érika: Acabei me enrolando com uns papéis para entregar amanhã. Sabe que não gosto de deixar nada para depois. -Coloca a bolsa que carregara sobre a cadeira em um dos cantos do quarto. Suas memórias nostálgicas dão lugar agora a realidade-
Carlos: Sei e isso faz com que você chegue às 11 da noite. -Reclamou- Clara e eu ficamos te esperando para jantar -Disse em tom descontente-
Érika: Me desculpe Carlos. Eu tentei vir o mais depressa possível, mas você sabe como são estas coisas.
Carlos: Sei. -Levanta-se da cama- Não te recrimino. Só queria que fosse mais devagar. Tenho medo de que você acabe doente. -Aproximou-se carinhoso beijando os ombros de Érika que acabara de retirar a blusa-
Com toda frieza demonstrada por Érika após a morte de sua mãe, Carlos ainda tem por ela intenso desejo. Érika continua.
Érika: Que isso meu bem! Sou uma mulher forte. Trabalho desde nova. De onde tirou estas coisas? -Olhou com ternura abraçando Carlos
Carlos: Apenas uma preocupação com você. -Sorriu-
Érika: Eu te amo! -Dá-lhe um selinho soltando-o em seguida- Sabe quem eu encontrei? -Retira seus brincos e cordões em frente a uma penteadeira localizada ao lado da cama-
Carlos: Um gato? -Brincou deitando novamente na cama-
Érika: Palhaço! O Ventura. Acredita que eu não o vi na rua e quase batemos?
Carlos: E como está o grande amor da sua vida? -Provocou-
Érika: Pára Carlos! Terminamos à quase 15 anos. O que temos é uma amizade. Me disse que concluiu o doutorado. -Respondeu frente ao espelho de sua penteadeira terminando de vestir-se-
Carlos: Você devia ter ido na defesa dele. Eu não iria me importar.
Érika: Tive trabalho no Vitte. Foi de tarde, enfim... Vou tomar um banho porque estou morta e Clara?
Carlos: No quarto. Não deve ter ido dormir ainda. Vai lá.
Érika: Depois. -Desconversa- Agora eu preciso é tomar banho. -Entra para o banheiro enquanto Carlos mexe no controle da TV a fim de procurar algo que lhe interesse-
Amanhece. São 6 horas da manhã de uma quinta feira ensolarada. O condomínio mostra- se com algumas movimentações, ainda é um dia duro de trabalho e de estudos.
Cibele mora com seus pais e sua irmã de 8 meses em um dos apartamentos gigantes do condomínio. Seu pai, empresário de uma concessionária de carros e sua mãe, formada em relações públicas, trabalha em uma empresa internacional, dão a filha mais velha, todas as mordomias que acreditam ser necessárias a uma adolescente de 15 anos.
Casa da família Azevedo Vianna
Cibele está com sua família tomando café da manhã em uma cozinha americana ampla.
Cibele: Pai, estou querendo ir com as minhas amigas ao show do Naldo.
Ricardo: Quando é?
Cibele: Sábado que vem.
Patrícia: Não acho que você deva ir a shows desacompanhada de um adulto Cibele -Retrucou sentada ao lado de Ricardo segurando Janine, sua filha de 8 meses no colo-
Cibele: Mãe, não vai acontecer nada de ruim. Além do mais, é em um lugar super seguro.
Ricardo: E você está querendo o quê? Dinheiro? Já te dei sua mesada este mês.
Cibele: Não pai. Eu não preciso de dinheiro.
Ricardo: Então o quê você está querendo?
Cibele: Bom, eu achei que poderia ser interessante se você pudesse nos levar.
Ricardo: Levar vocês?
Cibele: É. Menos a Angélica e a Clara. Angélica não frequenta estes lugares porque não faz seu estilo e a Clara você sabe como é.
Patrícia: E quem iria então?
Cibele: Eu, Isabel, Thaís e Mariane.
Ricardo: Tudo bem. Quando estiver próximo ao dia você me comunica que eu levo vocês e busco também ouviu?
Cibele: Tá bom pai, mas pelo amor de Deus! Não vai ficar lá de vigia por que sabe né? Vão estar os meninos da escola e não pega bem.
Ricardo: Ok! Não vou queimar seu filme com seus amigos do colégio dona Cibele. Estou indo trabalhar. Vai comigo para a escola? -Levanta-se da mesa após ter terminado seu café-
Cibele: Não! Hoje eu entro mais tarde. Vou de táxi.
Patrícia: Filha vou deixar sua irmã na creche e volto só a noite. O dinheiro está dentro do pote caso precise -Levanta-se da mesa pegando a filha no colo-
Cibele: Tá bom mãe!
Ricardo: Vamos então Patrícia que já estamos atrasados -Levanta-se pegando sua pasta sobre a cadeira-
Patrícia: Tchau filha! -Despede-se saindo da cozinha com Ricardo-
Ricardo: Tchau! -Responde continuando a comer uma vez que todos se retiraram da cozinha-
A casa da Família Mercantelly Alves é uma das casas mais bonitas do condomínio. Pintada em branco com dois andares, um portão em vidro fumê, uma singela garagem e uma enorme varanda com piscina e churrasqueira dão um toque de leveza e serenidade. A casa muito bem arquitetada, parece ter sido construída sob medida para comportar o furação emocional que é Angélica que desde pequena, sempre marcou com firmeza seus espaços.
Com toda essa aparência leve e serena, qualquer pessoa que adentra a intimidade da família percebe que toda essa leveza e serenidade realmente não passa de uma fachada bem pintada. Desde que Ventura começou seu doutorado em neurologia deixou por diversas vezes, sua família sem sua presença. Sônia, sempre compreendeu seus esforços para dar a ela e a filha o melhor que podia mesmo que a distância fosse necessária. Já Angélica, que desde muito nova nutriu pelo pai extremo carinho e amor, de tanto esperar por ele que nunca conseguia comparecer em qualquer coisa que fosse desenvolveu a ideia de que fôra preterida, sentimento para ela, insuportável.
O cenário que se configura atualmente, é de uma família onde pai e filha não se falam e uma mãe que faz de tudo para contornar a situação que às vezes, se torna insustentável.
Casa da família Mecantelly Alves
Angélica está sentada a mesa colocando suco em seu copo enquanto sua mãe está no fogão terminando de esquentar o leite.
Angélica: Este suco está sem doce. -Reclamou ao experimentar- Não tem mais açúcar nesta casa? -Perguntou procurando por um pote de açúcar sobre a mesa-
Sônia: Seu pai pediu para cortamos o açúcar por um tempo. Vamos utilizar algo mais saudável. -Virou-se para a mesa colocando o leite que acabara de esquentar-
Ventura à alguns meses, pensando na saúde de sua família, resolveu aderir a uma alimentação mais natural. Dotada de uma bela silhueta, questões com o corpo não é um problema para Angélica que nunca deixa de reclamar do novo modelo de alimentação adotado por seu pai. Ela então, prossegue com seu questionamento.
Angélica: Como açúcar mascavo? -Mostrou a sua mãe insatisfeita um pacote de açúcar mascavo que pegou sobre a mesa- Meu pai e esta mania de velho dele. -Joga o pacote sobre a mesa-
Ventura que chegara do plantão, entra na cozinha. Para ele, tomar café com sua família sempre foi uma maneira de aproximar-se já que não tem tanto tempo de estar com ela. Seu bom humor sempre invejável parece quebrar o clima de reclamação criado por Angélica acerca da alimentação.
Ventura: Bom dia família! -Exclamou sorridente entrando na cozinha dando um beijo em Sônia- Bom dia amor! -Tenta dar um beijo em Angélica que esquiva-se de seu carinho- Ihh! Acordou com a pá virada hoje? -Senta-se a mesa para tomar café junto à Angélica-
Angélica: Por quê você resolveu abolir a açúcar por esta porcaria pai? -Perguntou segurando o pacote de açúcar mascavo mostrando a seu pai-
Ventura: Porque é mais saudável -Pega o pacote de suas mãos colocando no copo junto com o suco-
Angélica: Ninguém merece! Vou tomar café na escola -Levanta-se da mesa indignada-
Ventura: Você não vai tomar café com seu pai?
Angélica: Não vou tomar café enquanto não tiver uma açúcar decente nesta casa. Já diminuímos o sal, os temperos, agora o açúcar? Pai, eu sou jovem, não tenho culpa de vocês estarem velhos e cheios de coisas. -Reclamou mais uma vez-
Ventura: Não é questão de ser velho ou novo. É questão de manter uma vida saudável. Você vai me agradecer um dia.
Angélica: Eu quero sentir gosto do que como. Não posso ser grata por comer comida quase de hospital.
Ventura: Ok dona enjoada. Então hoje à noite vamos sair para jantar e aí você pode comer uma comida digamos... decente.
Angélica: Ótimo! -Respondeu saindo da cozinha. Ventura ao perceber sua saída a chama-
Ventura: Quer que eu te leve à escola?
Angélica: Claro que não! -Responde ríspida-
Ventura: Vai sozinha?
Angélica: E eu preciso de companhia para alguma coisa?
A dureza colocada nas palavras de Angélica incomodou Ventura que só estava tentando ser gentil. Aproximar-se novamente da filha é uma tarefa árdua que vem tentando fazer desde que concluiu seu doutorado.
Ventura: Eu só perguntei. Não precisa ser tão rude.
Angélica: Estou indo. -Virou-se não se importando com a fala de seu pai-
Sônia: Se cuide filha. Não fica dando mole por aí.
Angélica: Ai mãe! Que paranóia! -Disse em tom de desconsideração retirando-se da cozinha. Sônia senta-se a mesa de frente para Ventura começando a tomar seu café da manhã como sempre fizera-
Ventura: Como ela se comportou ontem?
Angélica: Bem, não dá pra saber muito da Angélica. Fica a maior parte do tempo no quarto com o celular. Não conversa com ninguém. Não dá para saber o que se passa.
Ventura: Não tem saído nem com as meninas? Com a Clara, Mariane?
Angélica: Tem né Ventura, mas sabe como é. Angélica não é de se enturmar muito.
Ventura: Eu sei. -Chateia-se- Bom, vou dormir meu amor. Estou cansado.
Sônia: Te chamo na hora do almoço.
Ventura: Eu te amo! -Dá-lhe um beijo retirando-se da cozinha enquanto Sônia coloca no copo o leite que acabara de esquentar-
São 9 horas da manhã. O condomínio mostra-se sem qualquer movimento. Todos já estão em seus trabalhos ou na escola, ao menos, deveriam estar. Mariane sai de sua casa com um semblante triste. Não conseguira dormir a noite toda por conta do que acontecera com seu pai. À muitos anos suas noites acordada são verdadeiros pesadelos, se ela pudesse matar seu pai, com certeza o mataria. No fundo, tudo o que deseja, é que sua família possa encontrar tranquilidade nem que seja às custas da morte de seu pai. Com todos estes sentimentos de raiva e ódio borbulhando dentro de si, caminha até a praça. Faltam apenas 10 minutos para a escola e ela não quer levar para seus amigos todos estes sentimentos ruins que carrega dentro de seu coração. Chateada mas sem conseguir derramar uma lágrima sequer, senta-se em um dos bancos ficando a pensar. Refletir na praça sempre a ajudou a seguir em frente.
Clara, em outra parte do condomínio sai de casa um pouco apressada. Diferente de Mariane, está atrasada para a escola. Mesmo estudando na mesma escola e na mesma turma, cada uma tem um horário diferenciado por conta da metodologia de ensino. Com seu fone de ouvido ouvindo suas músicas no celular, carregando sua pesada mochila nas costas e seu fichário nos braços segue caminhando até a praça. Por sua casa ser uma das últimas, passar por ela é um trajeto ritualístico. Ao cantar alegremente sua música favorita na playlist do celular, avista Mariane sentada em um dos bancos.
Praça dos Amores
Clara ao aproximar-se de Mariane retira seus fones e pausa sua música favorita no celular.
Clara: Mariane? O que faz aqui? -Pergunta sentando-se a seu lado-
Mariane: Nada. -Responde sem olhar a amiga nos olhos-
Invadida por um sentimento de ódio e vergonha, não quer que Clara perceba que novamente teve problemas com seu pai. Ela mesma está cansada de sempre reclamar com a amiga sobre as mesmas coisas.
Clara: Foi seu pai de novo não foi?
Mariane: Não diga que aquele monstro que divide a casa comigo é meu pai. -Respondeu com ódio-
Clara: Desculpa. -Lamenta- Força do hábito.
Mariane: Está na hora de começar a perder -Disse com raiva-
Clara: Mariane, sou eu. -Comentou assustada sem entender a reação grosseira da amiga-
Essa fôra a segunda vez que Mariane a respondeu com grosseria. Uma forma que não costuma se dirigir as pessoas, principalmente a ela, sua melhor amiga.
Mariane: Desculpa. Sabe que já queria ter idade suficiente para poder sair de casa e sumir do mapa? -Lançou um olhar para o horizonte que deu-lhe um acalento diante de tudo que vem enfrentando-
Clara: E deixar pra trás sua mãe e sua irmã?
Mariane: Minha mãe é apaixonada no Rogério e a Anabela jamais se afastará dele. Ontem ele chegou bêbado, ficamos esperando-o para jantar.
Sua fala é tomada por uma lembrança que dói a alma. Mariane reluta em não narrar a amiga o triste acontecimento da noite passada mas sabe que se não contar será consumida pelo ódio de toda a situação e continua:
— Romero, o dono do bar que ele bebe todos os dias o trouxe e o jogou no sofá. Ele estava decadente! -Pausou sua fala em um lamento- Minha mãe lhe deu banho. Ele gritava com ela, a ameaçava. Disse que um dia iria acabar com todas nós e com ele mesmo e minha mãe tentando acalmá-lo dizendo que tudo iria passar. Até quando Clara? Até quando minha mãe e eu vamos suportar esta situação? -Finalmente consegue olha para Clara-
Clara: Até quando for necessário Mari -Colocou a mão sobre seu ombro com o intuito de lhe dar força-
Mariane: Eu odeio o Rogério! Odeio ele pelo mal que me faz e faz a minha mãe. -Pronunciou com ódio-
Clara: Seu... -Cortou sua fala lembrando que não deve pronunciar a palavra pai- O Rogério está doente. Ele precisa se cuidar, se internar. O Ventura é meu amigo. Se quiser, podemos conversar com ele. Como médico deve ter alguma orientação para nos dar.
Mariane: Ele não quer ajuda Clara. Já passou por varias internações, tratamentos e nada foi capaz de tirá-lo desse maldito vício. Só não desejo que ele morra porque sei que minha mãe e minha irmã sofreriam muito. O que eu posso fazer é ficar o mais distante dele possível. Sabe por quê o Vinícius e eu terminamos? Porque eu não tive coragem de levá-lo a minha casa e apresentá-lo a minha família. Tirando vocês, ninguém na escola sabe que tenho pai. Quando me perguntam digo que ele morreu em um acidente.
Clara: Eu imagino o quanto é difícil pra você essa situação toda. Queria poder fazer mais, mas só posso te oferecer a minha amizade.
Mariane: Você sabe que é minha melhor amiga e faz muito por mim Clara. -Sorriu agradecida-
Clara: O que você acha de depois da escola almoçarmos juntas?
Mariane: Obrigada amiga -Agradeceu com um sorriso-
Clara: Então muda esta cara e vamos para a escola. Tenho 2 ingressos pro cinema hoje a tarde. Topa?
Mariane: Claro. Fechado! -Alegrou-se-
Clara: Sempre vou estar com você Mari, sempre! -Sorri de forma singela prestando apoio-
Mariane: Eu te amo Clara! -A Abraça. Levantam-se do banco seguindo para a portaria do condomínio-
Passam-se as horas. O céu contempla um entardecer caloroso, o verão aproxima-se rapidamente. Angélica está andando de bicicleta pelo calçadão da praia do Leblon. Essa é uma de suas atividades favoritas e a única que manteve desde que rompeu seu relacionamento com o pai. Andar de bicicleta era uma atividade que ambos faziam juntos todos os domingos, de certa forma, mantendo-a, mantém viva dentro de si a presença de seu pai, por mais raiva que sinta, não quer matar de vez as boas lembranças que ainda tem.
Desde que Ventura ingressara no doutorado, Angélica vem vivenciado momentos de profunda solidão. Seu pai era seu confidente, seu companheiro de caminhadas, de trilhas e de jogos de vídeo-game. Amante de Mozart e um gosto especial por artes, foi ele quem a ensinou a apreciar a música e outras produções artísticas como pintura e dança. Por ter herdado de seu pai um gosto diferenciado, não tem muitos interesses em comum com suas amigas de condomínio.
Com toda sua natureza artística, desde muito nova aprendeu a apreciar a natureza, ingressara em cursos de pintura e música que é o que vem permitindo se livrar de toda solidão que carrega. Esportes radicais, exposições culturais e vídeo-game compõem também uma parte importante de sua existência que pôde ser compartilhada apenas com seu pai que acabava sendo seu fiel companheiro. Com gostos bastante refinados, ambos compartilhavam muitas coisas juntos, até ele entrar para o doutorado. Agora ela não tem nada além de algumas lembranças rememoradas em atividades solitárias e alguns versos poéticos em folhas de papel.
O sentimento de abandono é algo que a consome, já perdera a conta das vezes que ficou esperando por seu pai e também, das vezes que rezou sem cessar para que nada o impedisse de vê-la. Tudo em vão. Seu mundo frio e solitário é agora sua proteção e sua fortaleza.
Praia
Angélica que pedalava pelo calçadão, carrega sua bicicleta jogando-a na areia enquanto senta-se ficando a observar as ondas do mar. O vento balança seus longos cabelos pretos trazendo uma sensação de leveza que não sentia a muito tempo. André que passa de bicicleta pelo mesmo calçadão a vê sentada na areia e vai ao seu encontro.
André: Oi! -Diz colocando a bicicleta na areia sentando-se ao seu lado-
Angélica: André! -Diz assustada- O que faz por aqui?
Angélica não acreditara que aquele menino tão chato estava atrapalhando seu momento de contemplação. Eles começaram a sair juntos à 1 mês após uma festa da escola. André cursa o segundo ano do ensino médio na mesma escola que ela. Além de ser um dos garotos mais afortunados de toda a escola, é também um dos garotos mais cobiçados pelas meninas. Angélica deveria estar orgulhosa por estar saindo com ele, mas não é assim que se sente. Ela nunca poderia imaginar que um simples beijo poderia trazer tanta dor de cabeça.
André contente por tê-la encontrado, responde sua pergunta.
André: Estava pedalando. Acabei te vendo sentada ai e vim te ver. Te liguei ontem e você não me atendeu. Não respondeu minhas mensagens. Na escola não conseguimos nos ver.
Angélica: Eu estive meio ocupada ontem André. Foi isso -Respondeu fingindo gentileza-
André sempre teve grande interesse por Angélica mas seu jeito arredio nunca permitiu qualquer aproximação até a um mês atrás quando trocaram seu primeiro beijo. O que para Angélica era apenas um beijo sem compromisso, afinal, que mal haveria em beijar um dos garotos mais pop de toda a escola? Para André, tornou-se algo bastante sério. Angélica não se importaria em continuar trocando beijos com ele se não tivesse se tornado tão pegajoso.
André: Sabe Angélica. -Pega sua mão- desde que começamos a ficar não saímos mais. Você nunca mais ligou...
Angélica: Eu nunca te liguei André! -Completou em tom áspero puxando a mão-
André: Mas a gente estava tendo um lance legal. A verdade é que você sempre gostou do Paulo Felipe né?
Angélica não podia acreditar que essa história novamente estava sendo repetida em seus ouvidos. Nunca entendera porque seus colegas de escola ainda comentam um beijo que aconteceu à mais de 6 meses sendo que nunca demonstrara qualquer interesse por ninguém por mais a fim que tivesse.
Angélica: Se for começar com essa história eu vou embora. Eu nunca gostei do Paulo Felipe. Se gostasse, estaria com ele. -Finaliza meio irritada-
André: Tudo bem. Não vamos brigar por isso. -Silêncio-
Angélica: Você não vai viajar para fora do país este ano? -Perguntou na tentativa de quebrar o silencio-
André: Meu pai acabou tendo uma viagem de negócios e desistiu. Sabe como é. Preferimos adiar. Talvez consigamos ir no início do ano mas ainda não é nada certo. Você vai ficar por aqui?
Angélica: Pretendo. Não temos nada planejado ainda. Meu pai não está de férias.
André: Eu senti sua falta estes dias que ficamos sem nos falar. -Fita-a- Você aceita sair comigo para tomar alguma coisa?
Angélica: E onde iríamos?
André: Não sei. Podemos ir ao shopping. É aqui perto mesmo.
Angélica sabe que se aceitar a proposta de André estará indiretamente, dando a ele esperanças de um relacionamento sério, o que ela não quer. Mas ao mesmo tempo, vem sendo agraciada com tantos mimos e presentes que tem dificuldade de recusar qualquer convite feito por ele.
Angélica: Não sei André. Eu não estou com fome.
André: O que acha então de darmos uma volta e aí a gente decide no caminho?
Angélica: Tá bom! Vamos -Levantam-se pegando as bicicletas jogadas sobre a areia empurrando-as pelo calçadão-
Shopping
Mariane e Clara saem alegres do cinema que durara quase 2 horas. O gênero comédia, é um dos poucos gostos que tem em comum. Clara gosta de música pop, química, novela, literatura e de ficar em casa nos finais de semana. Mariane gosta de metal melódico, português e baladas. Clara por ser espiritualista, tem uma alimentação totalmente vegetariana enquanto a amiga acha tudo isso uma tremenda bobagem. Como é possível uma vida sem carne? Se pergunta sempre que vê a melhor amiga degustar um belo prato de salada.
Algumas pessoas questionam como duas meninas com gostos tão diferentes podem ser melhores amigas. Para elas, é exatamente essa diferença que proporciona a manutenção de uma amizade tão duradoura.
Clara: Eu adorei este filme. -Comenta entusiasma se dirigindo a escada rolante-
Mariane: Eu vi em cartaz, mas sabe como é. Nunca temos dinheiro para nada.
Clara: Acredite que a situação vai melhorar Mari. Nada é tão ruim quanto parece.
Mariane: Tem horas que acho que não vai melhorar nunca sabia? Parece que a cada dia piora mais as coisas.
Clara: Não vamos pensar em coisas tristes. Sua festa de 15 anos está aí.
Mariane: Não estou com clima para ela Clara.
Clara: Como não? -Indaga incrédula- Você sempre quis. Sua mãe juntou dinheiro para te dar a festa de seus sonhos e você não está no clima?
Mariane: Minha mãe quer que eu chame o Rogério e eu não quero.
Clara: Você sabe minha opinião a respeito disto.
Mariane: Eu sei. Por isso não tem como eu estar feliz sabe? Não quero que ninguém da minha escola conheça o Rogério.
Clara: Não sei se você conseguira esconder isto por muito tempo amiga. Nem acredito que este seja o melhor caminho, mas não posso interferir na sua decisão.
Mariane: Deixa as coisas assim. -Seguem para a vitrine de algumas lojas após descerem a escada rolante- Vamos ver esta loja, adorei esta blusa. -Aproximam-se da vitrine ficando a observar as roupas expostas-
Clara, tem um estilo próprio de se vestir. Uma blusa de malha e um short básico compõem seu figurino básico quase que diariamente. É uma das poucas de seu condomínio que não se importa com roupas caras e de marca. Tão pouco, com o que está na moda. Para ela, o importante é estar confortável.
Mariane, adepta de um estilo mais despojado vem enfrentando problemas com seu vestuário para sua festa de 15 anos. Vestidos longos e cheios de apetrechos nunca compuseram seu estilo de roupa favorito, mas sua mãe insiste que ela se vista como uma princesa. O que ela faz questão de não ser.
Enquanto seguem olhando algumas vitrines, na praça de alimentação, Angélica toma seu milk-shake de chocolate. André fica a fitá-la como se contemplasse uma bela imagem. Diferente da companheira, para ele é um motivo de orgulho estar saindo a tanto tempo com a menina mais pop do primeiro ano. Angélica apesar de se relacionar afetivamente com vários meninos, nunca havia ficado tanto tempo com alguém e ele sentia-se premiado por isso.
Angélica: Por quê você está me olhando assim André? -Perguntou incomodada ao perceber que André não parou de olhá-la desde o momento que sentaram à mesa- Ficou maluco?
André que pareceu ter se perdido na beleza de Angélica retoma o diálogo como se tivesse voltado a realidade.
André: Estava pensando em ir a Lapa amanhã. Queria muito que fosse comigo.
Angélica: Eu tenho uma ideia melhor. E se fossemos no concerto musical que vai ter na Lagoa amanhã? Eu sou louca por música. Acho que você deve saber.
André: Eu sei. Acho que pode ser legal mas eu não entendo nada de música.
Angélica: —Suspirou irritada-
Angélica não queria que André fosse mais um garoto com quem saía e não pudesse compartilhar seus gostos inusitados. Ela já havia dado à ele alguns toques sobre produções artísticas para que experienciasse seu mundo. André pareceu não ter compreendido nada ao chamá-la para a Lapa e principalmente após ter dito não entender nada de música já que ela havia deixando com ele meses antes, um livro sobre história da música que ganhou quando ingressara em sua aula de violino à 5 anos.
Na tentativa de comprovar um possível equívoco de sua parte continua o diálogo:
— Como vão as aulas de violão? -Perguntou já esperando uma possível abandono-
André: Eu saí. Definitivamente tocar instrumento de corda não faz o meu tipo e as suas aulas de violino?
Angélica: Estão boas. Fui para o módulo avançado semana passada.
André: Queria muito te ver tocar.
Angélica: Não adianta me ver tocar se você não entende nada de música André! -Comentou irritada-
Ela realmente não desejava que André fosse apenas vê-la em um de seus recitais sem sequer entender o que aquilo representava artisticamente como muitos fizeram e ainda fazem. Sem ter ninguém para dialogar, desistira de convidar André para o concerto e finaliza-
— Tudo bem se você não quiser ir ao concerto musical comigo.
André: É claro que eu quero ir ao concerto com você. -André fica a olhar Angélica e a beija em seguida-
Mariane e Clara que acabaram finalmente de ver as inúmeras vitrines pelo andar do shopping, entram na praça de alimentação lotada. A procura de algum lugar vago em meio a multidão, Mariane vê Angélica e André aos beijos.
Continua...
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