Notas iniciais
O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente. Mário Quintana.

No capítulo anterior: Mariane e Clara flagram Angélica e André se beijando na praça de alimentação do shopping.

Mariane: Aquela ali não é a Angélica? -Perguntou meio duvidosa pela distância olhando para mesa onde os dois estão-
Clara: E o André do segundo ano? -Perguntou também duvidosa-
Mariane: Vamos ver amiga. Vem! -Puxa Clara em direção a mesa de Angélica-
Clara: Ai! Espera! -Reclamou ao ser arrastada por Mariane-

Angélica não pode negar que beijar André causa-lhe sensações agradáveis. Já se relacionava com meninos desde os 13 anos mas nada que passasse de um beijo casual. Ela não estaria com ele à um mês se não sentisse nada. Se André não fizesse o gênero apaixonado até encararia um relacionamento mais sério. Mesmo não sabendo nada de seu mundo, ele não deixa um garoto gentil e que faz todos os seus caprichos, como seu pai um dia fizera. Após beijá-la apaixonadamente, André a abraça com tanta ternura como se aninhasse-a em um mundo protegido. Para Angélica, todo esse carinho configura-se em uma situação bastante incômoda. Demonstrações de afeto é algo que ela definitivamente não suporta.
Mariane e Clara aproximam-se dos dois sem acreditar no que vêem. Angélica nunca houvera demonstrado interesse afetivo por ninguém, o máximo que suas amigas viram foi alguns beijos trocados sem compromisso e vê-la abraçada à André em um local público como um casal de namorados foi no mínimo inusitado.

Mariane: Oi Angélica! Que surpresa encontrar você aqui! -Disse surpresa ao aproximar-se deles-
Angélica: Oi! -Respondeu ríspida-

Angélica não queria que as amigas a vissem com André. Sabe que isso será motivo de perguntas e especulações por elas e dar detalhes íntimos de sua vida é algo que não a apraz.

—O que vieram fazer aqui? -Continuou com seu jeito seco afastando-se de André-
Mariane: Nada. Só viemos ao cinema e vocês?
Angélica: Dar uma volta.
Clara: Mari, -Olhou para Angélica que se mostrara incomodada com sua presença e finaliza- acho melhor irmos embora. Já está tarde.

O que Clara menos queria era deixar a colega em uma situação incômoda. As duas tem uma relação de intensas discussões por conta da competitividade de Angélica. Por exibirem uma beleza estonteante aos 14 anos a faz as meninas mais cobiçadas da escola. Alguns garotos com quem Angélica se relacionara já se interessaram posteriormente por Clara e isso foi o suficiente para gerar inúmeras brigas entre elas.
Clara já cansada de tantas agressões e provocações sem sentido decidiu não passar nem perto de qualquer menino que tivesse se relacionado afetivamente com Angélica. Vai que André resolve ser seu amigo? Mariane entendendo a reação da melhor amiga completa:

Mariane: É. Vamos. Até mais Angélica.
Angélica: Tchau! -Despediu-se vendo as amigas indo embora enquanto André a abraçou novamente-

Angélica espera que Clara e Mariane sejam suficientemente discretas e não contem o que viu à nenhuma de suas amigas. Não quer ter que ficar dando explicações de um assunto que para ela é tão difícil de falar. Como explicar à suas amigas que está saindo com um menino que sempre disse ser um chato e grudento?
No bairro, já de tardezinha, Thaís acabara de chegar da escola. Toda sexta ela tem atividades extra-curriculares como treino de vôlei e aulas de dança. Mesmo acima do peso e uma baixa estima agravante, ela é uma menina de 13 anos bonita. Com seus cabelos cacheados loiros pelos ombros, olhos de mel e sua simpatia a tonam uma menina bem atraente, mas ela ainda não se deu conta.
Seus pais foram os primeiros moradores do bairro, seus avós se mudaram para lá quando ainda não existia o condomínio em que residem atualmente. Seu pai, juiz à mais de 30 anos e sua mãe promotora de justiça, morreram em um trágico acidente de carro em uma viagem de negócios à 3 anos deixando Thaís com uma herança vitalícia gigantesca mas sem sua presença, o que para ela é muito dolorido.
Thaís vive com seus avós Anna e José, aposentado da Marinha. Dinheiro é o que não falta a ela, em compensação, falta o principal para que seja uma adolescente feliz, a auto-estima. Seus avós sempre lhe deram de tudo, afinal, sempre viveu com ela desde que nascera. Com a morte de seus pais, engordara bastante e com isso, tem lutado ferrenhamente para perder peso em busca de uma vida mais saudável. Com seu sobrepeso vem enfrentando bastante dificuldades nas atividades físicas da escola e isso faz com que sofra piadinhas maldosas por parte de seus amigos. Emília, sua colega de turma e de condomínio que traz um corpo mais rechonchudo vem sendo sua companheira de caminhada já que seus avós beiram os 80 anos e não podem acompanhá-la em suas atividades. É a unica de toda turma que acha que nenhum menino se interessa, mas a verdade é que sua carência e baixa estima acaba sufocando qualquer garoto que se aproxime dela mesmo que por amizade.
Thaís cruza a portaria do condomínio já esbaforida, como estuda perto, prefere voltar a pé para casa. Carregando sua mochila pesada com os materiais da escola adentra-se dirigindo a sua casa. Ela suspira aliviada, não acredita que chegara em casa. Caminhar para ela mesmo que seja por 10 minutos é deveras trabalhoso, seus joelhos não colaboram por conta do peso e sempre ficam inchados a impedindo de caminhar do quarto à cozinha. Mesmo adentrando o condomínio ela ainda tem que caminhar por mais 5 minutos até sua casa. Vizinha de Isabel, sua casa, assim como a de Clara, é uma das últimas do condomínio e diante de tantas casas estilo moderno a sua é a única rústica. Suas paredes em pedras e janelas em madeiras arredondadas chamam a atenção pela diferença em meio à casas de vidrais e janelas de alumínio. Não é uma casa sobrado e nem muito grande, mas é bonita o suficiente para chamar a atenção. Ela então abre a porta. Finalmente chegara em casa.

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Anna está sentada no sofá lendo seu livro religioso. Católica fervorosa, sua sala tem um altar repleto de santos para quem faz orações todas as noites, inclusive para sua única filha que perdera no acidente. A fé é o que tem ajudado-a a superar a dor da perda. Com sua idade avançada, 79 anos, tem sérios problemas de saúde como diabetes e pressão alta o que ocasiona algumas idas às pressas para o hospital. Tudo que ela pede todas as noites além de que protejam a alma de sua filha é que lhe dê saúde o suficiente para que possa conduzir sua neta até a vida adulta.
A ampla sala de estar pintada e um vibrante tom de azul com alguns revestimentos em pedras pequenas para embutir a enorme smartv de 50 polegadas traz requinte ao espaço. Uma mesa de sinuca, jogo preferido de seu avô, dois grandes e confortáveis sofás em tom pastel e um home theater também compõem a jeitosa sala. Thaís entra.

Thaís: Oi vó! Cheguei! -A cumprimenta com um beijo-
Anna: Oi filha! Como foi a escola?
Thaís: Foi normal. Nada de muito diferente -Senta-se no sofá-
Anna: Estou muito orgulhosa de você. Tem se dado muito bem nos estudos.
Thaís: É. Acho que superei o trauma da matemática.

Matemática nunca fôra uma das melhores matérias de Thaís. Aulas particulares sempre fizeram parte de sua rotina de estudos até se mudar para o mesmo colégio que suas colegas de condomínio. Seus pais nunca concordaram que ela estudasse em um colégio que não fosse o tradicional. Ambos acreditavam que nenhum outro era capaz de formar para o mercado de trabalho. Com a morte deles, Anna resolveu apostar em um que tivesse uma metodologia diferente e até o momento vem dado certo. Thaís nunca mais precisou frequentar aulas particulares e seu empenho pelos estudos vem aumentando significativamente.

Anna: Tem almoço no fogão -Continuou-
Thaís: Eu já almocei com as meninas. Sabe vó, as meninas estão pensando em ir no show do Naldo. Eu sou muito fã dele. Quero muito ir também. -Pediu quase que implorando-
Anna: E com quem você vai?
Thaís: O pai da Cibele disse que levaria e nos buscaria.
Anna: Thaís, eu fico tão preocupada com isso. Está acontecendo tanta violência por aí.
Thaís: Vó, eu sei, mas se ficarmos sempre pensando nisso nunca vamos fazer nada.
Anna: Eu verei com seu avô e falo com você, tudo bem?
Thaís: Amo você. -A abraça. Olha para o altar montado por sua avó à frente do sofá onde tem uma foto de seus pais. Com certa dificuldade, pois seus joelhos doem demais por conta da caminhada da escola para casa aproxima-se do altar pegando a foto ficando a olhá-la- Amanhã faz 3 anos que meus pais morreram. -Suspira triste-
Anna: Não queria que recordasse deste fato, -Respondeu do sofá-. Por isso, pensei em sairmos para ver seu vestido da festa da Mariane. O quê acha?
Thaís: Acho que terei de enfrentar esta situação cedo ou tarde. Não dá para tirar as lembranças dos nossos corações por mais que queiramos. Meus pais sempre foram envolvidos com causas sociais. Viajaram a trabalho e sofreram aquele acidente fatal. Foi injusto. -Anna levanta-se do sofá indo até sua neta no altar-
Anna: Nenhuma morte é injusta filha. Todos nós temos um tempo certo nesta Terra. -Comentou olhando a foto nas mãos de Thaís- Tenho certeza que eles têm muito orgulho da menina que você é hoje. Estudiosa, inteligente...
Thaís: ...E gorda! -Concluiu brincando-

José, avó de Thaís tem um costume desde que ela era ainda um bebê. Sempre que ia à padaria trazia uma sacola com um sonho e se não encontrasse na do bairro, ia até a próxima e assim sucessivamente até encontrar. Thaís não aguenta mais comer sonho todos os dias, mas ela não rejeita porque sabe o imenso prazer que seu avó tem em trazer aquele pacotinho mesmo ela estando em uma dieta rigorosa.

José: Cheguei! -Gritou abrindo a porta alegre com um saco de padaria na mão- Olha o que eu trouxe para a minha neta favorita? -Levantou para que Thaís o visse-
Thaís: Como se você tivesse outra né vô. -Brincou indo até ele pegar o saco já sabendo do conteúdo-
José: Como eu sei que você gosta. -Sorriu-
Thaís: Assim você não colabora com a minha dieta, mas... eu não resisto. Vamos na cozinha dividir.
José: Vamos lá e me conta sobre a sua aula... -Diz indo para a cozinha com Thaís enquanto Anna sorri do sofá olhando a foto com saudades-

Já são 6 horas da tarde, a quinta-feira parece passar mais rápido do que deveria. A primavera se inicia, esta estação amena começa a trazer serenidade, energia e prosperidade para um verão que parece vir com tudo. O condomínio mostra-se movimentado, o La Porte está aberto para o público dos bairros vizinhos que saíram do trabalho e foram ouvir uma boa música.
Clara e Mariane parecem ter se perdido na hora vendo vitrines no shopping. As duas se dão tão bem que poderiam passar uma vida juntas. Mariane tem que estar em casa antes das 19 horas, são ordens do seu pai. Ela não concorda mas prefere não ser o motivo de uma discussão na família, despede-se então de Clara com um beijo e segue para a sua casa nas proximidades do La Porte. Sua casa é a primeira do condomínio, ela e Angélica são vizinhas de frente.
Clara segue para sua casa ao final do condomínio. Vizinha de frente de Thaís, é a maior casa do condomínio. Érika se mudara para lá três anos após ter terminado sua faculdade de administração. Ainda noiva de Ventura, ambos tinham planos de ter uma casa ampla para que pudessem abrigar seus sonhos. Um deles era uma casa repleta de crianças. Ventura sempre adorou crianças, já Érika, abominava a ideia de ter 1 filho sequer. O sobrado de 2 andares muito bem pintado em vinho com janelas em vidro fumê, 4 quartos com suítes, biblioteca, cozinha e uma sala gigantesca tecem a moldura de um quadro muito bem elaborado, porém, austero. Os móveis antigos, dão o toque final de uma casa insípida o que configura perfeitamente o mundo de Érika que parece ter se esquecido de todos seus sonhos e projetos desde que rompera com Ventura. Criada nesse ambiente mórbido, Clara parece não ter sido atingida por toda essa morbidez deixada por sua mãe. Com uma energia positiva nata, é capaz de quebrar qualquer clima pesado por onde quer que passe. Assim ela entra em sua casa.

Casa da família Guimarães Diáz

A enorme sala, composta por poucos móveis não parece ser uma casa cheia de apetrechos como as demais. Apenas com 3 sofás e um móvel em uma das paredes com alguns arranjos são o suficiente para compor o espaço. Carlos queria colocar mais coisas, mas Érika, não gosta muito de cômodos com amontoados e cheio de parafernálias. Quando se casara, queria apenas um local onde pudesse conversar sem ser incomodada e os 3 sofás vem garantindo isso. Além de achar que quanto menos coisas em uma casa com criança, melhor e assim se passaram 14 anos.
Clara entra pela sala que dá para um corredor pequeno que leva à biblioteca e à cozinha. Ao lado esquerdo da porta de entrada principal, encontra-se a escada que leva ao segundo andar. Carla babá de Clara, -na verdade, nem Érika e nem Carlos sabem como definí-la agora que Clara cresceu- foi contratada assim que Clara nascera para que fosse sua babá em tempo integral e ficasse também, responsável por alguns afazeres da casa como lavar e passar. Arrumar aquela gigantesca casa nunca foi sua responsabilidade mas ela sempre fez sem reclamar. Ela não é uma empregada, Carlos nunca gostara de se referir assim à aqueles que lhe prestam alguma forma de trabalho, mas também não é uma babá visto que Clara já tem 14 anos e nem é um membro da família. Érika jamais permitiria uma situação assim. Eles então a definem como fiel colaboradora. Carla tem seu cantinho dentro da casa da família e mesmo com toda a liberdade, prefere não se misturar. Agora, ela está terminando de ajeitar algumas panelas. Aproximasse a hora do jantar e Carlos já deve estar chegando. Clara entra na cozinha.

Clara: Oi Carla! -Cumprimentou-
Carla: Nossa menina como você demorou! O que estava fazendo? -Indagou assustada-
Clara: Eu fui ao cinema com a Mari e depois ficamos batendo perna no shopping. Não tem ninguém em casa? -Perguntou sentando-se a mesa-
Carla: Só sua mãe.
Clara: Ela chegou cedo hoje. que milagre! -Espantou-se- Vou falar com ela. -Levanta-se da mesa retirando-se da cozinha enquanto Carla continua a ajeitar as panelas sobre a mesa-

Érika está sentada em sua cama lendo. Seu quarto, composto por uma cama, um móvel com televisão não muito grande que Carlos adora ver quando chega do trabalho, penteadeira, closet e banheiro é o suficiente para que ela se sinta confortável. A meia luz ela lê seu livro. Teve problemas no trabalho, novamente foi acusada de abuso de poder por uma colega. Ela não entende porque existe tanta marcação sendo que só quer fazer as coisas direito. Sempre a primeira à chegar e a última à sair, sente-se injustiçada. Só quer que tudo saia bem. Acha que seus colegas não são suficientemente responsáveis como ela e por isso, sempre merecem uma chamada de atenção. Se faz de durona, mas ser chamada de general, ditadora e outros adjetivos trazem profunda tristeza. Como queria que todos fossem competentes como ela! O dia de trabalho foi tão penoso que se sentiu tão mal e saiu mais cedo, coisa que raramente faz. Ler sempre a ajudou a tirar todas as sensações ruins causadas pelo mundo. É como se ela adentrasse em um mundo imaginário e esquecesse do real por alguns momentos. Não tem um gênero literário favorito. Muito eclética, lê de tudo. No momento, vem se dedicando à um livro de fantasia que ficara em sua gaveta à um tempo. Com o horário puxado do trabalho, não teve tempo ainda de sair do capitulo 1.
Érika escuta bater na porta, não é Carlos, ele não tem o costume de bater, será Carla chamando-a para o jantar?

Érika: Entra. -Respondeu-
Clara: Oi mãe! -Cumprimentou aproximando-se da cama-

Clara estava feliz em vê-la em casa tão cedo, assim, teriam mais tempo juntas e poderia contar sobre o seu dia.

Érika: O quê você quer Clara? -Perguntou ríspida fechando o livro-

Encontrar Clara era tudo que não desejara, já tivera problemas demais. Não queria se defrontar novamente com aquele incômodo sentimento que a toma sempre que vê a filha. Nesse momento, ela não tem certeza se conseguirá suportar.

Clara: Carla disse que você chegou cedo. Como nunca nos vemos, vim aqui. -Senta-se aos pés da cama ficando a olhar sua mãe-
Érika: Estou com dor de cabeça. -Comentou fatigada-
Clara: Quer que eu traga algo?
Érika: Não. Eu só preciso ficar em silêncio. -Fechou os olhos recostando a cabeça na cama por alguns momentos-

Clara sabe que sua mãe não chegaria tão cedo ficando em seu quarto por tanto tempo se não tivesse acontecido algo de muito sério e prossegue:

Clara: Aconteceu alguma coisa no Vitte?
Érika: Nada que você deva se envolver. São problemas de adultos.
Clara: Entendo. -Pausa- Estava pensando de nessa semana, no domingo, sairmos, eu, você e meu pai. Nós podíamos ir à um hotel fazenda... sei lá. O que acha? -Entusiasmou-se-
Érika: Acho que você não entendeu. -Respondeu com contundência- Nós não temos este tempo Clara! Trabalhamos duro seu pai e eu para dar o melhor para você. Uma casa, bons estudos, alimentação, seus luxos como celular, saídas, passeios. Não tem problema de um dia sairmos todos juntos, mas isto tem que ser programado com antecedência e não assim, em cima da hora. -Concluiu-
Clara: Eu tinha pensado em algo simples. Que não fosse gastar muito tempo. -Insistiu-
Érika: O quê você entende de gastar tempo? -Irritou-se-

Sua perguntou chateou Clara que estava apenas tentando propiciar um momento em família. Não desejara magoar sua filha, sua tão amada filha, porém, precisa desse distanciamento para que se mantenha no propósito de cumprir a promessa que fizera à sua mãe antes de morrer. Ao perceber a chateação da filha, ameniza o tom de voz e desconversa:

—Filha, eu tive um dia muito pesado. Queria ficar sozinha e descansar, por favor.
Clara: Tudo bem. -Descontente- Tem certeza de que não quer que eu te traga nada? -Perguntou levantando-se da cama-
Érika: Tenho. Obrigada -Clara retira-se do quarto chateada-

Clara não esperava que a mãe a tratasse daquele forma, só queria ajudar e oportunizar um dia em família. Encostada na porta do quarto chateada, tenta procurar explicações que possam justificar o comportamento frio de sua mãe. Não há explicações plausíveis para a forma que a trata. Chateada, entra em seu quarto.
Ainda no condomínio, um quarto pequeno constitui o espaço íntimo de Angélica. A frente de sua cama king com algumas almofadas e um singelo guarda roupa, uma enorme estante comporta sua televisão, seu áudio, seu vídeo-game e na parte superior, há uma coleção de bichos de pelúcia, os únicos objetos que guardara desde a infância. Todos estão ali, compondo cada lembrança de quando ainda era uma criança feliz. Ao lado de sua pequena escrivaninha fica seu violino exposto em uma base própria. Ela nunca mais o tocara fora das aulas de música desde o último recital que seu pai não pôde comparecer. Pintado em tom de rosa bebê, é um quarto pequeno em relação a enorme casa em que vive, mas é do tamanho certo para comportar seu mundo solitário. Angélica não precisa de muito espaço quando um pouco de música e algumas folhas de papel são suficientes para que ela se sinta preenchida.

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Angélica está trocando de roupa em frente ao enorme espelho pendurado em uma das paredes do seu quarto. Acabara de chegar do shopping onde estava com André. Não é uma menina que se preocupa com sua aparência, ela nem precisa disso. Seus cabelos lisos e pretos pela cintura, olhos castanhos claros, 1,60 de altura em uma silhueta magra, não precisa se esforçar muito para se tornar bonita. Se beleza é herdada, Angélica herdou os 100% de direito. Ela e Clara dividem o duro páreo das meninas mais belas do primeiro ano no colégio em que estudam.
Emília está sentada em sua cama enquanto observa a amiga trocar de roupa. As duas são melhores amigas, na verdade, Emília tem Angélica como melhor amiga. Angélica nunca conseguira desenvolver com ninguém qualquer relação de afeto que não fosse estritamente superficial exceto, com seu pai. Nem Emília consegue entender poque é tão amiga de Angélica se ela nunca demonstrou qualquer reciprocidade. À muito tempo lhe confiou um segredo, mas não é isso que a mantém fiel a Angélica até porquê, mesmo sem demonstrar qualquer sentimento de amizade, ela sempre soube guardar segredos. Angélica por sua vez, não tem muita paciência com Emília que aos 13 anos ainda mantém um jeito que ela considera meio infantil, como brincar de bonecas e de casinha, coisa que a desagrada. Em sua percepção, deveria abrir mão dessas brincadeiras e começar a fazer coisas semelhantes à suas amigas.

Emília: Você vai mesmo nesse concerto musical?
Angélica: Por qual motivo eu não iria? -Colocou sua blusa em frente ao espelho-
Emília: O André deve gostar muito de você para topar um programa tão chato.
Angélica: Programa chato são as baladinhas de vocês atrás desses cantores que brincam de fazer música. -Respondeu rude-

Apreciadora de música clássica, acha inconcebível qualquer pessoa achar que cantores populares produzem músicas de verdade. Para ela, não passa de uma agressão à seus ouvidos. Já frequentara alguns shows, mas foi mais para fazer o social ou para dar uns beijos na boca de algum garoto que estivesse a fim dela do que por prazer.
Emília curiosa pergunta:

Emília: Você está gostando do André?
Angélica: Claro que não! -Mentiu- O André é um chato! -Senta-se na cama ao lado de Emília após ter colocado seu pijama- Não larga do meu pé. É pegajoso.
Emília: Eu acho ele um fofo. -Comentou-
Angélica: Então pode ficar. Te dou de presente.
Emília: Acho que ele só está tentando te agradar, mas você parece não gostar de nada que ele faz. Não sei porquê você ainda insiste em ficar com ele.
Angélica: Eu não insisto em ficar com ele. É ele que não sai de cima.
Emília: Mas chamou ele para um concerto de música.
Angélica: E já me arrependi. André não entende nada de música. Que saudade eu sinto do meu pai nessas horas. Ele entendia tudo. -Lamentou-
Emilia: Quem te ouve falar assim pensa que ele morreu.
Angélica: Para mim ele morreu. -Finalizou-
Emília: Você não gosta nem um pouco do André?
Angélica: Ai que chatice! -Reclamou-

Angélica não gosta que fiquem questionando-a sobre seus sentimentos e muito menos, que isso se transforme em uma conversa sobre relacionamentos amorosos. Com sua característica de menina insensível, acha tudo isso uma tremenda besteira e não se permite envolver mais profundamente com ninguém. Sem dar mais detalhes a respeito de seu relacionamento finaliza:

— A gente está saindo junto. Isso já basta!
Emília: Se ele continuar com os paparicos. Duvido que você não se apaixone rapidinho.
Angélica: Pode ser -Ouve-se bater na porta-
Cíntia: Angélica? -Disse abrindo a porta- Cibele está aí.
Angélica: A fofoqueira! -Emília ri do comentário de Angélica- Pede pra entrar.

Cibele é conhecida no condomínio por jornal de notícias. Sempre atenta à vida das pessoas, nada passa despercebido por ela. Não tendo muita proximidade com Angélica, não foi à sua casa apenas para conversar com a colega. Antes que Cíntia a convide para entrar, Cibele já em um relance, adentra o quarto.

Cibele: Amiga! -A cumprimenta abraçando Angélica que se mostra indiferente-
Angélica: Oi querida! -Respondeu tentando se mostrar gentil-
Cibele: Já estou sabendo que viram você no shopping com aquele gato do André do segundo ano.
Angélica: E você veio aqui só para saber o que está rolando.
Cibele: Claro. Vai, conta tudo, tudinho. -Entusiasmou-se-
Angélica: Conta o quê garota? Por acaso te devo satisfação de alguma coisa?
Cibele: Ahh Angélica me conta vai. Vocês estão namorando?
Angélica: Não! -Respondeu contundente-
Cibele: Então?
Emília: Imagina onde eles vão amanhã? -Intrometeu-se-
Cibele: Onde? Me conta amiga!
Angélica: Eu não tenho que te contar nada Cibele! Eu hein! Inclusive, eu tenho um monte de coisas para estudar, então... -Levanta-se da cama onde está deitada se dirigindo a porta- Caminho da roça... -Abre a porta para que Emília e Cibele se retirem-

Emília que conhece Angélica muito bem, sabe que não terá qualquer informação da vida íntima da amiga e levanta-se chamando Cibele que não se conforma em não ter informações à respeito do suposto namoro da companheira.
Após suas colegas saírem do quarto, Angélica deita em sua cama ficando a olhar seu celular. Como de costume, acessa algumas de suas redes sociais quando é surpreendida por uma mensagem:

Mensagem de celular:

Adorei ter estado com você! Você tem beijo muito doce! Espero poder te ver amanhã na escola! Tenho uma surpresa para você! Um beijo com todo o meu amor!
André.

Ela não acreditou ao ver que a mensagem era de André. Ele não poderia ter mandado uma mensagem apaixonada em tão pouco tempo, ficaram a tarde toda juntos. Este menino precisa de mais matérias para estudar, está muito à toa e a que surpresa ele se referiu? Uma pitada de medo de pavor tomou conta do seu Ser. E se André estiver pensando em alguma declaração pública? Apaixonado como ele está seria bem capaz de aprontar algo assim, pensou consigo mesma. Sem responder, apagou a mensagem como sempre faz. André só podia ter endoidado, definitivamente ela tem que romper com ele, mas já comprara as entradas para o concerto musical. Ela não entende como um garoto pode ter se apaixonado por ela sendo que nunca lhe deu qualquer tipo de retribuição afetiva. Sim, ele deve estar louco! Concluiu após ter deletado a mensagem e voltou a olhar suas redes sociais.
Na casa da família Guimarães, o cantinho de Clara deveria ser como o de uma princesa, afinal, é dessa forma que seu pai a trata, mas não é. Erika nunca permitira que Clara usasse ou se parecesse com uma princesa, para ela, mulher tem que se forte, como ela é e isso refletiu drasticamente na decoração de seu quarto. Os móveis em madeira pura contrastam com as paredes brancas. Uma cama, dois criados e uma grande estante em frente à janela mantém sua televisão, seu computador e um pequeno aquário que Clara gosta de ficar à observar quando está de noite. Nada de bichos de pelúcias, bonecas ou outros objetos que possam compor um quarto de princesa. Clara nunca se importara de verdade com essas coisas, sempre se divertiu em outros cômodos da casa, principalmente no jardim. Agora que cresceu, não precisa de muita coisa para se distrair, o seu celular faz praticamente tudo. Nele ela lê, ouve suas músicas preferidas, conversa com seus amigos e até estuda para as provas da escola. Com um gosto voltado para literatura, pode passar horas lendo diversos livros baixados em PDF. Com uma leveza na alma, nada parece chateá-la ou incomodá-la. Geralmente, está satisfeita com tudo, menos, com a distância de sua mãe. Nunca fôra uma mãe muito carinhosa, desde pequena percebera que dar-lhe atenção era uma tarefa bastante penosa. Érika nunca faltou à nenhum aniversário e nem à nenhuma festa da escola, mas sempre era como se ela não estivesse ali. Ela nunca se alegrou com uma carta de dia das mães, um beijo, um abraço e até mesmo um eu te amo. Por muito tempo carregou a pergunta do quê estaria fazendo de errado para que sua mãe não se aproximasse mas seu pai sempre a ajudou a entender todo o seu jeito frio. Desde que Érika perdera sua mãe tudo piorou, começou a se afundar no trabalho e o que já era frio, congelou. Antes, ainda podia entrar em seu quarto, trocar algumas conversas, agora, desconhece quem é sua mãe. Toda a sua forma de contato com ela por mais superficial que seja, parece forçada.
Clara havia pesquisado na internet no último fim de semana lugares em que pudessem ir sem gastar tempo e dinheiro. Mesmo com dinheiro para esbanjar, Érika sempre foi muito controladora e tirar qualquer coisa acima do orçamento é motivo de briga na certa. Ela administra as finanças da casa tão bem como administra a do hospital em que trabalha.

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Clara está sentada em sua cama mexendo no celular. Com fone de ouvidos ouve sua música preferida, Shape of my heart da banda Backstreetboys. Já fizera todas as suas atividades escolares e pode agora se dedicar ao seu momentos de lazer. Com seus enormes fones coloridos e com seu inglês fluente, cantarola em voz alta olhando algumas notificações no Facebook. Espiritualista como é, acredita que o ato de cantar traz energia positiva e cantando ela fica até que sua música favorita acabe. Carlos abre a porta e fica a observá-la. Ele gosta de ouví-la cantar. Sua filha foi o melhor presente que a vida poderia ter lhe dado. Se pudesse, ficaria o tempo todo à seu lado. Sempre paciente e prudente acaba por tornar-se um pai bastante complacente balanceando a relação já que Érika tem um jeito totalmente rígido em relação a educação de Clara.
Ao acabar de cantar sua música, Carlos aproxima-se de sua cama.

Carlos: Conversando com alguém neste celular? Um paquera? -Perguntou ao vê-la no celular-
Clara: Pai, você sabe que não tenho paquera nenhum. -Disse retirando seus fones de ouvido-
Carlos: Fico feliz em saber disso pois não vou aceitar dividir minha princesa com ninguém. -Senta-se na cama de frente para a filha-
Clara: Vamos ver -Disse em um suspiro chateado-
Carlos: O que aconteceu? -Perguntou ao percebê-la triste-
Clara: Planejei um passeio com a família este domingo. Achei alguns lugares legais que pudéssemos ir. Fui toda animada falar com minha mãe e ela me deu um banho de água fria. Disse que estas coisas teriam que ser programadas com antecedência.
Carlos: Não entendo o que há com sua mãe.-Pausa- Desde que ela perdeu a mãe à 7 anos ela ficou assim, fechada, meio amargurada. Se dedica ao trabalho para esquecer o que se passou. Não sei, acho que sua mãe nunca superou a morte da sua avó.
Clara: Eu lembro bem pouco da minha avó.
Carlos: Sua mãe e ela eram muito amigas, coladas. Às vezes até me incomodava porque sua mãe sempre contava e pedia opinião à ela, como se sua avó fosse seu sustento emocional. Ficavam horas no telefone, sua mãe ria, era mais alegre, mas então ela veio a falecer e desde então sua mãe nunca mais sorriu.
Clara: E ela nunca quis procurar uma ajuda?
Carlos: Sua mãe? Acho difícil sua mãe aceitar qualquer tipo de ajuda até porque ela não acredita ter um problema. Acha normal se afogar no trabalho para manter a família. Como se ela precisasse disso.

Carlos é engenheiro químico de uma renomada empresa de engenharia química do Rio de Janeiro, a Engequim. Responsável pelo controle de qualidade à 2 anos, sua renda subiu consideravelmente e sua dedicação ao trabalho também. Carlos não é um marido machista, nunca quisera que Érika deixasse de trabalhar. Sua única reclamação vem ao encontro de que ela abandonara a família por conta dele. Érika não poderia dar uma desculpa mais esfarrapada como a de precisar ajudar a manter a família uma vez que sua renda consegue fazer isso sozinha.
Ele prossegue em seu diálogo com a filha:

— É difícil pra mim também, mas vamos tentar compreender sua mãe. Ela ainda não superou a dor de ter perdido a mãe e tudo isso que faz são mecanismos para que não sofra mais do que já sofreu.
Clara: Deve ser muito duro perder uma mãe. Eu não me imagino perder a minha.
Carlos: Sua mãe passou por momentos bem ruins após a morte da sua avó. Ficou deprimida, se isolou. Por favor, não conte nada disso a ela e nem a ninguém. É um segredo! Sabe como sua mãe gosta de se mostrar forte.
Clara: Eu sei. Eu só queria fazer um programa em família. Sinto falta disto.
Carlos: Papai promete que vai planejar algo bem legal para nós.
Clara: De verdade pai? -Entusiasma-se-
Carlos: De verdade princesa.
Clara: Eu amo você pai! -O abraça-
Carlos: Eu também te amo muito filha! Te amo demais! -A beija ficando à pensar na atitude de Érika-

Mesmo com todos os motivos para um possível afastamento, ele não concorda que Érika trate a filha com tanta frieza, principalmente agora que está entrando na adolescência. Diante disso, tenta de todas as formas dar a atenção necessária à Clara para que se sinta mais confortada.
As horas avançam, o La porte começa a ter algum movimento, já são 20 horas e nesse horário o público dos bairros vizinhos chegam para ouvir música eletrônica como acontece toda quinta. O La Porte tem um programa diferente para cada dia da semana. Carolina e Henrique, pais de Isabel, têm investido muito tempo e dinheiro nele desde que era uma simples cafeteria. Nos dias de semana se dedica à tocar música eletrônica, na sexta, Anos 80 e nos finais de semana, música ao vivo. Suas mesas localizadas na parte externa permite um lugar mais tranquilo para quem quer apenas um ambiente mais íntimo para conversar sem a interferência de música alta e dança. A parte interna contempla um enorme salão simulando uma boate. Pensado exclusivamente para um público seleto, o alto preço colocados em seus produtos permite apenas o acesso de uma classe com poder aquisitivo alto. Um simples refrigerante em seu cardápio chega a custar 11 reais. Por ser um PUB dentro de um condomínio, essa foi a única maneira que Carolina encontrou de filtrar o público e manter a tranquilidade de um condomínio residencial.

La porte

Isabel, Cibele, Emília e Thaís estão conversando na parte externa. A mesa repleta de refrigerantes e uma porção bem engordurada de batatas fritas formam o cenário perfeito daquilo que Thaís não pode nem sonhar em sentir o cheiro.

Isabel: Jura que a Angélica estava com o André no shopping? -Perguntou incrédula-
Cibele: Mariane me contou meio que sem querer. Aí fui na casa dela, mas ela não me disse nada.
Thaís: Angélica! Quem diria! Escondendo o jogo.

Angélica nunca fôra de se relacionar com meninos ao ponto de sair com algum deles, ao contrário, ela sempre rompia com eles quando percebia que o envolvimento estava ficando sério demais. Para quem é adepta apenas à uns beijos na boca em situações corriqueiras, estar saindo com algum deles era para suas amigas, uma revelação.

Isabel: É estranho saber que a Angélica está com alguém.
Cibele: Não sei porquê.
Isabel: Ela parece não gostar destas coisas.
Thaís: Só não perde para a Clara que também nunca demonstrou interesse em ninguém.
Cibele: E o que tem de errado nisso?
Thaís: Acho estranho as duas mais pops da escola não estarem nem aí para estas coisas.
Isabel: Então este era o tal garoto que ela falou ontem.
Cibele: Mas pelo que eu entendi, ela não está tão na onda dele não.
Thaís: Ela te disse isso?
Cibele: Não me disse assim de cara, mas deu a entender que ela acha ele um porre.
Isabel: Com aquela cara de bocó até eu acho ele um porre, mas eu achava que era coisa minha porque não gosto de beijar meninos -Completou-

Isabel descobrira seu interesse por meninas desde pequena e assumira sua opção sexual em sua festa de 15 anos onde apresentou sua namorada, uma colega de escola. Sua mãe sempre foi muito liberal em relação à opção sexual da filha. Sua formação em sociologia, deu à ela todas as ferramentas para que conduzisse Isabel em escolha sem que isso lhe provocasse qualquer trauma por conta do preconceito que ainda existe sobre os homoafetivos.
Isabel é a mais velha de toda a turma. Aos 16 anos, praticamente viu todas as suas amigas nascerem e por sua preferencia sexual nunca ter sido escondida de qualquer pessoa com quem convivesse, suas amigas aprenderam a respeitá-la e hoje, ela é apenas uma menina que gosta de se relacionar com meninas. Às vezes ela beija alguns meninos, mas apenas para passar o tempo.
Continua-se o diálogo.

Cibele: Vocês sabem que a Angélica é estranha para estas coisas. Ela nunca vai assumir que está gostando de verdade do garoto.
Thaís: Verdade. Ela até hoje não assumiu que era caidinha pelo Paulo Felipe.
Isabel: Estranho ela estar com o André. Acho ele um chato e pegajoso. Não faz de jeito nenhum o tipo da Angélica.
Cibele: O André é o garoto que todas as meninas querem pegar. Ele é bonito, inteligente... -Suspirou-
Isabel: E bobo! -Completou-
Thaís: Será que eles estão namorando?
Emília: Ela disse que não.
Isabel: Dá pra notar que ele arrasta um caminhão para ela na escola e ela sempre se esquivando dele.O André acabou virando uma pedra no seu sapato. -Riu-
Thaís: Será que um dia eu vou encontrar alguém que arraste um caminhão para mim também?
Cibele: Se você parar de ficar correndo atrás dos caras pode até ser Thaís.
Thaís: Eu não corro atrás dos caras Cibele. Eu apenas digo o que eu sinto.
Cibele: Ahh sim. Aquela declaração que você fez pro Caio na foto que ele postou no Facebook que você nem tinha ficado espantou o menino que ele até te bloqueou.
Isabel: Inclusive, ele está namorando a Isabela do sétimo ano.
Thaís: Como você sabe?
Isabel: Eu vi no Instagram dela.
Cibele: Gente, mas vamos falar do show. Eu consegui que meu pai nos levasse e nos buscasse. Aliás, buscar foi uma condição dele.
Isabel: Ninguém merece! -Irritou-se em um lamento-
Cibele: Melhor do que não ir né gata? Helloooo!!!
Thaís: Será que o Roberto vai? -Perguntou em um suspiro apaixonado-

Roberto é um garoto da escola por quem Thaís sempre fôra apaixonada. Já havia dado à ele diversas cartas apaixonadas mas sem qualquer retorno de sua parte. Espera que com sua perda de peso, consiga fazer com quele se interesse por ela.
Cibele que já conhecera a paixão platônica sem sucesso da amiga reclamou:

Cibele: Aff! -Suspirou- Começou... Por isso você nunca terá ninguém à seus pés Thaís.
Isabel: Eu vou embora. -Disse em um repente- Amanhã tenho aula no primeiro horário. Depois vocês me digam o que decidiram. Fui! -Disse levantando-se da mesa-
Thaís: Tchau Isabel.
Cibele: Então vamos combinar assim.... -Começa a contar entusiasmada-

Angélica está em seu quarto tocando seu violino. Desde seu último recital à 4 meses ela nunca mais havia pegado nele para tocar qualquer coisa sequer. Havia composto uma canção dedicada à seu pai e queria fazer-lhe uma surpresa como agradecimento à tudo que fizera por ela e também, pedir desculpas por todas às vezes que o culpou por ser um pai displicente. Suas aulas sempre aconteciam numa segunda à noite e pagou aulas todos os dias para que pudesse se aprimorar na composição por 4 meses. Foi um preparo muito intenso, sabia que não podia falhar. Seu pai sempre entendeu muito de música e perceberia qualquer nota fora do tom. Ela então, se dedicou dia-após-dia, chegando até a desenvolver tendinite por esforço repetitivo, mas isso não foi o suficiente para que desistisse. Seu objetivo era tocar para seu pai a primeira música de sua autoria. Como ela havia batalhado nisso tirando nota por nota do violino. Estava muito empenhada em fazer tudo certo no dia de sua apresentação, mas como sempre, seu pai teve um problema no hospital e avisou na última hora que não poderia comparecer. Ninguém soubera da surpresa além dela e sua professora. Como sofrera com aquilo! Sentiu todo o seu tempo dedicado jogado fora. Seu pai simplesmente não se importou com todo seu esforço, na verdade, ele nem chegou a tomar conhecimento dele, sequer parava em casa. Mesmo não tendo mais a composição rasgada em um momento de intensa raiva, ela consegue se lembrar bem da melodia e é ela que está tocando no momento. Tocá-la faz lembrar de todo amor que teve em compô-la para seu pai. É uma forma de se manter perto dele desde este último recital onde decidiu romper de vez com ele.

Casa da família Mercantelly Alves

Angélica está sentada em sua cama tocando quando Sônia entra em seu quarto abrindo a porta em um repente.

Sônia: Angélica! -Assustou-se- Você ainda está assim? -Perguntou ao vê-la ainda de pijama- Seu pai não disse que iríamos sair para jantar?
Angélica: Não estou a fim de ir -Respondeu desinteressada sem fitar Sônia-
Sônia: Ah não Angélica! Ele ligou dizendo que já está saindo do hospital e vai passar aqui só para nos buscar.
Angélica: Se não chegar nenhum paciente à beira da morte e ele preferir ele à nós pode ser que ele chegue na hora. -Sônia ao perceber o desinteresse da filha senta-se na cama à sua frente-
Sônia: Angélica, por quê você é tão dura com seu pai em relação à isso?
Angélica: Porque acho que ele se importa mais com o trabalho do que conosco.
Sônia: Você está sendo injusta com ele. Sempre te deu de tudo. -Angélica olha finalmente para sua mãe após ter colocado seu violino sobre a cama-

Sônia sempre fôra uma mãe dedicada mas parece não ter compreendido ainda a importância do presença do pai na vida da filha. Ela não desejara qualquer coisa material, apenas, sua presença nas coisas que considerava importante.
Angélica completa:

Angélica: Um vídeo-game, uma televisão, um celular, um computador, um ótimo colégio. Obrigada! -Agradeceu em tom irônico-
Sônia: Quando ele também se aproxima de você para te dar carinho você coloca ele pra correr.
Angélica: Claro. De quê adianta isso agora?
Sônia: Não consigo te entender filha. O quê acontece com você?
Angélica: Comigo nada. Por quê?
Sônia: Você vive trancada nesse quarto. No celular ou no computador. Não conversamos. Não saímos.
Angélica: Mãe, não temos assuntos em comum.
Sônia: Eu na sua idade tinha uns paqueras.
Angélica: Crush. -Corrigiu- Paquera é coisa de 1980.
Sônia: Você nunca me falou dos meninos que gosta. Eu nem sei se você já beijou alguém e eu gostaria de saber filha. Eu queria ser sua amiga.
Angélica: Ai mãe! Que papo mais chato! Eu não gosto de meninos. -Finalizou-
Sônia: Não?! -Perguntou em tom assustado- Você é lésbica?
Angélica: Não mãe! -Respondeu em um suspiro entediado — Não me interesso por meninos porque acho todos eles muito infantis. -Explicou- Por que é tão importante para você saber da minha vida?
Sônia: Porque eu queria fazer parte dela. Queria que confiasse em mim.
Angélica: Mãe, não está acontecendo nada comigo. Estou bem e não gosto de menino nenhum já que está tão interessada.
Sônia: Seu pai ficou muito chateado por você não ter ido à defesa de doutorado dele.
Angélica: Por quê eu deveria ir à algo que só serviu para afastá-lo mais de casa? Completou começando a mexer em seu celular sem manter contato visual com sua mãe-

A conversa já está ficando deveras enfadonha e o que Angélica mais quer é fugir dela o quanto puder.
Sônia prossegue:

Sônia: Você não consegue entender o trabalho que ele teve para concluí-lo filha. Ele ficava noites acordado para conseguir entregar no prazo. Se estivesse mais presente conseguiria perceber que ele fez isso por nós e principalmente por você.
Angélica: Por mim? -Olhou para Sônia-
Sônia: Tudo que seu pai fez a vida toda foi trabalhar para dar tudo de melhor à mim e à você, principalmente à você. Quando eu fiquei grávida ele trabalhou duro para construir o que temos hoje.
Angélica: Obrigada! -Ironizou-
Sônia: Não é esse tipo de agradecimento que queremos Angélica. -Irritou-se-
Angélica: O quê espera de mim além disso? Devo ser grata, não?
Sônia: Eu quero que você seja mais amorosa e atenciosa com seu pai. Participe mais da nossa vida, dos nossos méritos e também das nossas mazelas. Não ter ido à defesa de algo tão importante para seu pai foi uma afronta. Um total desleixo. Espero que você vá pelo menos ao jantar. Lembre-se que mesmo que não seja da forma que queira, seu pai faz tudo por você. Saímos às 9, esteja pronta! — Finalizou com firmeza levantando da cama e fechando a porta-

Que petulância de sua mãe cobrar sua presença em algo de grande importância para seu pai quando ele mesmo nunca comparecera as coisas que para ela eram importantes, pensou.
Angélica não fôra a defesa de seu pai não porque não queria, ela lutou firmemente contra seu desejo de ir, mas não foi por orgulho. Queria que seu pai sentisse na pele tudo aquilo que ela sentiu em todas ás vezes que se ausentou nas coisas que tinham grande importância. Cobrar uma benevolência com seu pai é algo intolerável para ela. Por quê seria ela a culpada de todo o afastamento que ele mesmo a causou?
Olha o violino sobre a cama, que vontade de quebrá-lo para esquecer tudo o que se passou mas sabe que não pode e nem deve. Suas aulas de musica é o que ainda dá o suporte necessário à sua vida e que não permite que se sucumba. Melancólica, deita-se na cama ficando a olhar seu celular.
Na zona norte, o Hospital Universitário Eldorado, conhecido como H.U.E ou Eldorado, é um hospital público do Rio de Janeiro. Ventura trabalha nele desde que ingressara no curso de Medicina na U.F.T.S. Sempre voltado para a área acadêmica, desenvolveu desde a iniciação cientifica pesquisas na área de neurologia. Estudos genéticos e bioquímicos em afecções neurológicas foi o que estudou no mestrado e no doutorado. Bastante renomado por conta das suas pesquisas, publicações e viagens à congressos perdera o contato coma filha por quem nutre um enorme afeto desde que nascera. Com a morte de seu pai quando tinha 19 anos, desenvolveu uma personalidade resignada e altruísta. Isso o fez alavancar vários trabalhos voltados à população de baixa renda dentro do H.U.E, como a Clínica Neurológica da Família Itinerante conhecida pela sigla C.N.F.I, que objetiva ofertar atendimento e exames de baixo custo para a população que não pode dirigir-se até o hospital.
Assim que perdera seu pai e dois anos depois sua mãe que não suportando a ausência de seu marido, acabou por adoecer e um infarto fulminante a levou à óbito, vivera sua vida sozinho até conhecer Érika que o ajudou a superar as perdas que tão jovem já vivenciara. Leitor de Allan kardec desde berço, sua serenidade parece ser mesmo de outro mundo. Sempre com bom humor e um sorriso cativante, é assim que ele vive sua vida. Ele mais do que ninguém, sabe como é importante manter boas vibrações dentro de uma área tão dolorosa como a Medicina.

Hospital Universitário Eldorado (HUE)

O setor de Neurologia fica no terceiro andar no hospital, sua recepção ampla e poucas cadeiras constituem o cenário. Por se tratar de um lugar de internação e exames de rotina, o ambiente não é muito movimentado a não ser por médicos e acompanhantes que estão sempre transitando pelos corredores.
Ventura está em sua sala arquivando alguns documentos em seu armário. Ele tem uma sala própria desde que ganhara chefia da neurologia à 1 ano. Com uma ampla janela, da sua mesa é possível contemplar a intensa movimentação nas ruas do Rio de Janeiro onde o hospital se localiza. Seu rádio sobre um móvel pequeno ao lado da maca e um CD de Mozart é o que permite às vezes, fugir do barulho ensurdecedor de ambulâncias e buzinas de carros que adentram sua janela mesmo estando fechada. Ele olha no relógio, são oito e meia, vai dar tempo de chegar em casa e buscar sua família para jantar conforme o combinado. Após ter terminado de guardar todos os documentos, fecha a porta do consultório encontrando Magnólia, enfermeira da Neurologia que vinha pelo enorme corredor em sentido oposto.

Magnólia: Já está indo Ventura? -Perguntou ao vê-lo tirar seu jaleco enquanto segue o corredor-
Ventura: Já sim Magnólia. Combinei de sair com a família para jantar.
Magnólia: Aliás, devo dar-lhe os parabéns. Soube que defendeu seu doutorado.
Ventura: Graças à Deus! Foram 4 anos de luta, mas no final tudo deu certo.
Magnólia: O serviço de Neurologia ficou bem feliz por saber que agora você está compondo o quadro dos pesquisadores.
Ventura: É disso que precisamos Magnólia. Temos muitas pessoas para salvar. Deixe-me ir. Se me atrasar Angélica vai ficar bem irritada. -Finalizou não querendo continuar a conversa-
Magnólia: E como ela está?
Ventura: Bem. Naquela fase que vocês dizem "difícil". 14 anos. Sabe como é.
Magnólia: Ai meu Deus! Sei como é. Criei dois.

Magnólia é uma das enfermeiras mais antigas no H.U.E. Seu jeito sereno e sua fisionomia de uma senhora de 50 anos faz com que seja a preferida de todos.
Ventura finaliza rapidamente, não quer se atrasar e novamente, ter um problema com Angélica.

Ventura: Beijos e bom plantão -Despede-se indo em direção as escadas-

Com apenas 3 elevadores para comportar todos os atendimentos do hospital, sempre estão congestionados. Ventura prefere pegar a escadas. Para ele, é mais rápido descer 6 blocos de escada do que esperar 10 minutos por um elevador em que possa entrar sem sentir-se em uma lata de sardinha. Ao descer as escadas, cruza com Sérgio, enfermeiro da emergência que estava justamente indo à sua procura.

Sérgio: Já vai Ventura? -Perguntou ao vê-lo passar por ele apressado-
Ventura: Vou Sérgio- Respondeu apressado continuando a descer as escadas-
Sérgio: Então você não tem tempo para ver um paciente que acabou de fazer uma convulsão? — Perguntou esticando-lhe o prontuário que carregava.

Ventura pára na escada pegando o prontuário de suas mãos. Não é possível! O universo está conspirando! Pensou.

Ventura: Não tem ninguém para ver? -Perguntou folheando o prontuário na prancheta-
Sérgio: Não. Pediram para procurar o doutor em neurologia.
Ventura: —Sorriu- Já dizia Allan Kardec, quanto mais aumenta o conhecimento, mais aumenta as responsabilidades.
Sérgio: A frase é essa mesma?
Ventura: Mais ou menos! -Sérgio dá um sorriso- Vamos lá -Sobe novamente as escadas caminhando apressadamente com Sérgio pelo corredor-

Utilizar-se dos jargões espíritas faz parte do diálogo de Ventura. Ele é muito espiritualista em seus enfrentamentos médicos e tentar passar isso para as pessoas próximas à seu convívio é o que faz sempre, menos para Angélica que vem alegando ser ateia desde que seus pedidos pela presença dele nunca foram atendidos.
No condomínio, Cristina está triste. Acabara de receber um telefonema do colégio onde seu marido dava algumas aulas sem compromisso. Foi encontrado bêbado dormindo em um dos banheiros masculino e com isso fôra demitido. Ele não ganhava um salário que podia esbanjar, mas dava pra manter o padrão de vida que tinham. Agora, ela não sabe como ficará. A mensalidade da escola de Mariane está garantida, ela é bolsista integral. Já Anabela, não tem um futuro tão garantido. O máximo que ela conseguiu com muito custo, foi um desconto de 20% durante o ano, que já está acabando. Rogério chegou a dar à ela durante alguns anos, uma boa quantia em dinheiro para que gastasse com o que quisesse. Como sempre manteve a simplicidade, acabou fazendo uma poupança na intenção de um dia construir um salão de beleza, mas acabou por gastá-la com as inúmeras internações fracassadas de Rogério. Agora não tem absolutamente nada! Nem família e nem dinheiro. O que lhe resta são duas filhas e um marido alcoólatra. A possibilidade de se mudar é algo que a amedronta, ela não quer fingir um status que não tem, apenas, não quer deixar a casa onde construiu sua vida. O desespero toma conta, as lágrimas lutam para cair, mas ela não pode permitir. Anabela está por perto e não pode tomar conhecimento de seu sofrimento.

Casa da família Fernandes Grácia

Mariane e Cristina estão sentadas a mesa remexendo na comida. Nenhuma das duas estão com vontade de jantar. A única faminta parece ser Anabela que devora um prato de carne junto com seu suco de morango favorito. Mariane pega seu celular ao lado de seu prato para ver as horas, seu pai ainda não chegara e ela teme que ele adentre a casa alcoolizado e Anabela presencie toda a situação.

Cristina: Ligaram do trabalho do seu pai.
Mariane: E... -Desinteressada-
Cristina: E o demitiram.
Anabela: O que é demitir mamãe? -Intrometeu-se-
Mariane: Ana você já terminou de jantar? -Interveio-
Anabela: Já.
Mariane: Você não queria mexer no computador? -Anabela balança a cabeça em sinal positivo- Então vai lá. -Concluiu-
Anabela: Você não vai precisar para fazer seus trabalhos?
Mariane: Agora não, pode usar -Anabela levanta-se da mesa terminando de tomar seu suco e em seguida dirige-se a seu quarto-
Cristina: O que faremos agora? -Perguntou chateada assim que Anabela se retirara-
Mariane: Enquanto o seu marido continuar nesta vida ele não vai parar em nenhum emprego.
Cristina: Eu posso conseguir um emprego.
Mariane: Para manter o viciado? -Indagou-
Cristina: Não fale assim dele! Seu pai precisa de apoio e não de críticas. -Irritou-se-
Mariane: Mais apoio do que damos é impossível mãe, fazemos tudo pelo Rogério, aturamos suas bebedeiras, seus xingamentos e até suas agressões. No outro dia é como se não tivesse acontecido nada. À quanto tempo a gente vive nisso? À quanto tempo vamos aguentar esta situação? E principalmente, até quando vamos continuar mentindo para a Ana de que nossa família é perfeita?
Cristina: Anabela não tem que tomar conhecimento do que acontece. Só tem 7 anos.
Mariane: Mas ela vai crescer, vai começar a entender e principalmente, vai ver que o papai que ela tanto ama é na verdade um alcoólatra agressor. Olha pra você mãe! Está se acabando para cuidar dele e o que recebe de volta?
Cristina: Não quero nada em troca. Eu amo seu pai e tenho por obrigação cuidar dele.

Cristina é uma mulher a moda antiga. Por mais que sofra acredita que deve cuidar e proteger seu marido. Separação jamais estará em seus planos. Será uma vergonha se defrontar com a ideia de que não conseguiu segurar Rogério.
Mariane continua a conversa:

Mariane: Quero ver como vai continuar cuidando agora que ele perdeu o emprego porque enche a cara todo dia e não consegue acordar pra trabalhar.
Cristina: Posso conversar com a escola. Seu pai é um bom professor. Os alunos gostam dele.
Mariane: Ele não é nada mãe. Rogério é um alcoólatra e nada mais do que isso e enquanto você não entender isso nada vai mudar-Finalizou sem abrir espaço para contestação. Imediatamente, levanta-se da mesa também se dirigindo ao quarto deixando Cristina a pensar sobre o que dissera-

São 9 e 20 da noite, o La Porte está bem movimentado, a música eletrônica movimenta o público que ali se encontra. Rogério não se conforma em ter perdido o emprego mais uma vez por conta do seu alcoolismo. Acabara de beber todas as cachaças que podia em seu bar de costume. Viera caminhando por mais de meia hora até chegar ao condomínio, queria dar um tempo até que se recuperasse dos sintomas da sua embriaguez. Sempre que bebe, por mais que não queira, fica agressivo e diz coisas que sempre se arrepende quando retorna ao seu estado de sobriedade. Rogério começou a beber na adolescência com mais ou menos, 15 anos. No início, bebia apenas socialmente, foi quando entrou para a faculdade que tudo se agravou. Sem ferramentas emocionais que pudessem ajudá-lo a lidar com suas inúmeras frustrações, encontrou na bebida uma ótima companheira que sempre o fez escapar de seus problemas e assim ele vive até hoje. Ainda não se suicidara porque Anabela ainda é a pessoa que o mantém com alguma esperança na vida.
Em meio ao som alto do La Porte, ele entra no condomínio, envergonhado pela sua condição. O porteiro já está acostumado a receber Rogério nessas condições e sem que precise dizer qualquer coisa, abre o portão para que ele passe. Cambaleando, passa pelo salão de festas se dirigindo ao La Porte.

La Porte

Thaís, Cibele, Emília e Clara estão tomando suco e conversando descontraidamente quando Thaís vê Rogério entrar cambaleando.

Thaís: Xii, olha quem vem aí — Comentou-

Clara, Cibele e Emília ao ouvirem o comentário da amiga, olham para a porta e vêem Rogério dirigindo-se com extrema dificuldade ao balção onde Simone atende alguns clientes.
Cibele continua a conversa:

Cibele: Caindo pelas tabelas como sempre.
Emília: Mas hoje ele parece estar pior que nos outros dias. -Reparou-
Clara: Deixa isso pra lá gente. Não é problema nosso.- Encerrou-

Clara abomina qualquer comentário à respeito da vida alheia, principalmente neste caso que se trata do pai da sua melhor amiga.
Rogério embriagado e sem conseguir parar em pé, segue até o balcão.

Simone: Olá Rogério! -O cumprimentou em tom sereno como sempre faz ao encontrá-lo naquela situação-

Simone é a garçonete do La Porte, trabalha nele desde que era uma simples cafeteria e sempre teve muito respeito, sensibilidade e cuidado com o problema de Rogério. Sensibilidade esta que Mariane odeia. Para ela, isso acaba reforçando mais o vício de seu pai.

Rogério: Me vê um copo aí -Disse ríspido apoiando-se no balcão-

Seu tom de voz alto chamou a atenção de algumas pessoas próximas à ele.
Na tentativa de evitar uma situação constrangedora para Rogério e o público que ali estava, Simone cochicha em seus ouvidos.

Simone: Não posso. Sua mulher me deu ordens de não te fornecer bebida alcoólica nenhuma.
Rogério: E quem é ela para dar ou dar ordens? -Gritou- E por acaso eu não sou um adulto capaz de tomar sozinho minhas próprias decisões?

Algumas pessoas assustaram-se com a situação e a presença de Rogério que começara a se mostrar agressivo. Simone ao perceber, tenta evitar um conflito. Como muitos frequentadores do La Porte não conhecem o caso, seu medo é que acabem agredindo-o caso ele cometa alguma grosseria com ela.
Simone serena continua:

Simone: Acho que talvez seja melhor você ir para casa. Já está um pouco embriagado. Se quiser posso acompanhá-lo. -Disse gentil
Rogério: Não preciso de companhia e eu não estou bêbado! -Disse firme- Só estou um pouco alterado como sempre.
Simone: Por isso acredito que seja melhor você ir pra casa. Sua filha Anabela deve estar te esperando para contar as novidades da escola.
Rogério: É. -Pausou- Minha filha gosta de mim. Só ela gosta de mim. -Tom de choro-
Simone: Por isso você deve ir para casa ficar com ela. -Prosseguiu-
Rogério: Eu vou. Eu vou. -Respondeu com dificuldade. A embriaguez já não o permite que fale com clareza- Você é uma pessoa muito boa sabia? -Fitou Simone que sorriu- Eu vou pra casa ficar com minha filha -Disse saindo cambaleando do La Porte apoiando-se nas cadeiras-

Todos, principalmente as amigas de Mariane ficam a olhar a situação deplorável de Rogério. Ao passar pelas mesas, algumas pessoas se esquivam com medo enquanto outras se sensibilizam com toda a situação.
Rogério em um repente cai sobre uma mesa vazia ficando a tremer no chão como se tivesse uma crise convulsiva. Simone e as meninas que viam a cena correm até Rogério para socorrê-lo enquanto outros, levantam-se assustados, nunca haviam presenciado uma cena assim no La Porte. Simone ao ver a cena grita em desespero indo até ele:

Simone: Socorro! Alguém ajuda! -Aproximou-se segurando sua cabeça-

A música que dava espaço à momentos alegres, parou com toda a situação. Alguns que ali estavam, aproximaram-se para ver o que estava acontecendo.
Clara aproxima-se de Rogério assustada, nunca vira uma crise convulsiva em toda sua vida.

Clara: Rogério! -Gritou batendo em seu rosto na tentativa de acordá-lo-
Simone: Alguém precisa avisar a Cristina -Disse em desespero-
Cibele: Alguém precisa chamar um médico. -Completou-
Simone: Eu vou ligar para a ambulância -Retira o celular do bolso começando a discar-
Clara: Enquanto isso eu vou avisar a Mariane -Levantou-se do chão onde estava e saíra correndo em direção à casa de Mariane um pouco mais à frente-

Ventura que vinha do hospital entra no condomínio, com o movimento, tem dificuldade em conduzir seu carro até sua casa. Já atrasara 20 minutos para seu jantar familiar e o que ele menos quer é uma nova briga com Angélica. Como sabe que não conseguirá conduzir seu carro até sua casa, estaciona próximo à quadra e segue à pé. Ele está feliz por poder sair com sua família depois de tanto tempo. Não percebera nada que ocorrera no La Porte, para ele, é só mais uma quinta feira agitada. Estava tão focado em não se atrasar que nem percebera que a música havia parado. Ele toca a campainha de sua casa, só precisa que Sônia e Angélica desçam para irem ao restaurante conforme o combinado.
Clara que caminha apressada e aflita até a casa de Mariane o vê. Ventura parece ter sido enviado por Deus naquele momento. Ela dirige-se à ele correndo.

—Oi Dr Ventura. Ainda bem que te encontrei. -Disse em um alívio-
Ventura: Clara? -Assustou-se- O quê aconteceu?
Clara: O Rogério! Ele chegou bêbado e caiu no La Porte! Está se tremendo todo e não acorda. Acho que ele vai morrer! -Concluiu com aflição-
Ventura: Calma! Fica calma! À quanto tempo tem?
Clara: Foi agorinha!

Angélica e Sônia que ouvira a campainha chegam à frente de sua casa onde Ventura tenta entender o que Clara verbaliza com dificuldade por conta da sua enorme agitação.

Angélica: Pai! Já podemos ir. -Disse ao vê-lo sem dar-se conta da aflição de Clara-
Ventura: Angélica, eu vou ter que resolver um problema filha. Você vai ter que esperar um pouco. -Respondeu paciente-
Sônia: O quê aconteceu? -Perguntou ao ver Clara aflita-
Ventura: O pai da Mariane está caído no La Porte.
Angélica: Normal, ele vive bêbado e caído pelos cantos -Comentou com naturalidade-
Clara: É sério Angélica! -Olhou-a com severidade-
Ventura: Vamos lá ver -Sai em direção ao La Porte-
Angélica: Espera! -Interveio irritadiça ao ver seu pai sair com Clara- Você não está na hora de trabalho pai.
Ventura: Filha, eu preciso ver se ele está bem.
Clara: Vamos rápido -Sai apressada-

Um sentimento de dualidade pairou sobre a cabeça de Ventura. Como médico, tem o compromisso de salvar uma vida e como pai, tem o compromisso de cumprir com o combinado que fizera à sua filha que o olha enraivecida esperando sua decisão. Ventura então segue Clara que está um pouco mais à sua frente. Angélica vai atrás de seu pai junto com sua mãe que ficou sem saber o que fazer diante de toda a situação. Sônia apesar de ser uma mãe e uma mulher muito dedicada, não tem pulso firme para tomar determinadas decisões deixando sempre à cargo do marido a palavra final.
Ventura chega ao La Porte e aproxima-se de Rogério.

Simone: Ventura! Que bom que você chegou! -Disse aliviada ao vê-lo chegar- Ele do nada caiu e começou a tremer e a babar. Não sei o quê fazer! -Desesperou-se-
Ventura: Ligaram para a ambulância? -Perguntou começando a examinar Rogério-
Simone: Estamos tentando -Disse discando novamente pelo celular-
Clara: Alguém vai avisar a Mariane.
Cibele: A Thaís já foi.

Cristina desesperada adentra o La Porte com Thaís. Tem medo do que possa acontecer caso Rogério morra. Mesmo com tudo que vem passado, não deseja que ele morra de uma forma tão triste. Ela ainda o ama como na primeira vez em que se viram.
Mariane e Anabela também chegam até o local onde seu pai está caído inconsciente.

Cristina: Rogério! O que aconteceu com ele? -Ajoelha-se ao lado do marido enquanto Ventura continua a examiná-lo-
Anabela: Papai! -O chamou chorosa-

Anabela em todos esses anos nuca tinha visto o pai naquela situação. Com medo de que algo grave tenha acontecido, tenta se aproximar mas acaba sendo segurada por Mariane que olha toda a situação com indiferença. Ela sim já viu por várias vezes a mesma cena.
Ventura continua a conversa na tentativa de acalmar todos os presentes que observam a situação apreensivos.

Ventura: Calma! Está tendo uma crise convulsiva e vai precisar ir para o hospital para se desintoxicar.
Anabela: O quê houve com meu papai? -Perguntou já em choro-

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Clara que estava sentada em uma das mesas do La Porte próxima à Rogério chama Anabela para que não veja o desfecho de toda aquela cena.

Clara: Ana, vem cá comigo -Segura sua mão sentando-a em seu colo- Seu pai não se sentiu bem e desmaiou. Você sabe que as pessoas quando não se alimentam direito desmaiam. Não fica assim. -Disse com ternura ao vê-la chorar- Ele vai ficar bem. -Consolou-

Angélica que está ao lado de Clara observando a cena com irritação já que também não suporta a forma benevolente como Rogério é tratado, conclui sua fala com uma pitada de maldade.

Angélica: É melhor dizer que as pessoas quando enchem o pote desmaiam e dão trabalho para os outros.
Sônia: Angélica! -Repreendeu-a-
Angélica: Pai? A gente não ia sair? -Insistiu enquanto seu pai continua examinando Rogério-
Ventura: Angélica, podemos combinar amanhã. Eu preciso esperar a ambulância. Não posso deixar o Rogério aqui.
Angélica: Pai, a gente tinha combinado! -Irritou-se-
Ventura: Amanhã filha -Concluiu-
Sônia: Angélica, podemos ir amanhã filha.- Intrometeu-se na tentativa de evitar um conflito-
Angélica: É sempre assim! Sempre! Eu sempre sou a última em tudo. Até um bêbado é mais importante para meu pai do que eu! -Gritou irritada saindo do La Porte empurrando algumas cadeiras que estavam atrapalhando sua passagem-
Sônia: Angélica espera! -Gritou ao vê-la sair-
Ventura: Deixa ela Sônia! -Intrometeu-se continuando a examinar Rogério-

Ventura sabia que Angélica havia ficado muito chateada. Mais uma vez falhara com ela por conta de um paciente, mas seu desejo de ajudar falou mais alto. Ele definitivamente não podia deixar Rogério na situação em que se encontrava sem socorro médico. A ambulância já estava demorando mais do que o esperado e ele tinha que tomar os procedimentos necessários.

Cristina: Será que a ambulância vai demorar a chegar? -Perguntou preocupada-
Ventura: —Olha no relógio- Me ajudem a colocá-lo no carro. Vamos levá-lo para o HUE.

A convulsão de Rogério já havia passado mas ainda assim ele precisa ser hospitalizado e não podiam esperar mais. Ventura e algumas pessoas que estavam no La Porte levantam Rogério que ainda desacordado não consegue se manter em pé.

Cristina: Eu vou com você! -Levantou-se do chão-
Anabela: Eu quero ir mãe -Disse chorosa no colo de Clara-
Cristina: Não. Você vai ficar aqui com sua irmã. Mamãe te manda notícias.
Anabela: Papai. -Chamou-o chorando-

Anabela estava muito assustada em ver seu pai sendo carregado daquela maneira. Muitas coisas passam pela suca cabeça, principalmente, o medo que ele morra. Ela não suportaria perder seu pai, tem por ele um enorme amor..
Ventura leva-o para o carro estacionado nas proximidades-

Clara: Calma Ana! Eu pai vai ficar bem, acredita em mim. Vem cá. -A senta novamente em seu colo- Me dá um abraço. -Anabela a abraça chorando-

Angélica caminha rápido até a praça. Não podia acreditar que mais uma vez seu pai a havia deixado para cuidar de outra pessoa. Decidiu ir porque achou que dessa vez seria diferente. Estava começando a acreditar que seu pai, realmente, após o doutorado, teria mais disponibilidade para as atividades que sempre fizeram juntos. Uma mistura de raiva e abandono invade seu corpo e sua mente começando a trazer lembranças de todas as vezes que já se sentira assim. Se não tivesse cedido ao pedido de sua mãe em ir junto com seu pai, talvez, não tivesse que sentir novamente o que sente, como se arrepende! Senta-se em um dos bancos da praça, resiste em chorar. Prometera não chorar mais por essa situação, mas as lágrimas insistem em cair e ela se odeia por isso. Sente-se fraca e indefesa. Como detesta se sentir assim e em um choro contido, fica a rememorar toda sua vida em questão de segundos.
Mariane que percebera a forma como Angélica saíra do La Porte, dirige-se até ela. As duas não são amigas, Mariane não gosta da forma maldosa que ela se dirige as amigas e à algumas pessoas que por ela tem algum afeto, mas não podia deixar de prestar solidariedade a situação já que fora seu pai que causara.
Angélica ao perceber a aproximação de Mariane vira-se de costas e seca as lágrimas pois não gostam que a vejam chorar.

Mariane: Desculpa ter estragado seu jantar com seu pai Angélica. -Diz enquanto Angélica continua de costas para Mariane-
Angélica: Vocês deveriam era internar este bêbado que inferniza o bairro todo -Disse com raiva-

Clara que chega com Anabela à praça a procura de Mariane, ao aproximar-se ouve o comentário de Angélica e rebate imediatamente.

Clara: Pára com isso Angélica! O Rogério está doente!
Angélica: Por isso! Lugar de alcoólatra é em um centro de tratamento -Olha para Clara dizendo em tom de raiva-
Anabela: Não fala assim do meu pai. Ele não é alcoólatra -Gritou chorando-
Angelica: É verdade. Ele é um bêbado.
Clara: Pára Angélica! -Irritou-se- Não deixe que sua raiva te torne cruel. Você está falando com uma criança.
Mariane: Deixa ela Clara! Angélica tem razão.
Clara: Ninguém tem razão ao dizer coisas cruéis por estar com raiva. -Olhou para Angélica em repreensão-
Angélica: Quem é você para me dar algum ensinamento moral santa Clara? -Levanta-se do banco em que estava irritada-
Clara: Ninguém, mas seu pai não saiu com você porque tinha que cuidar da vida de alguém. -Tom sereno-
Angélica: E da minha quem é que cuida? Quem? -Gritou empurrando Clara e Anabela que estavam à sua frente seguindo chorando para sua casa enquanto Mariane e Clara ficam a olhá-la-

Clara ao ver Angélica entrar em sua casa continua o diálogo.

Clara: Se quiser eu vou pra casa com você Mari. Fico lá até ter notícias do Rogério.
Mariane: Obrigada Clara. Não precisa. Já estamos bem acostumadas com isso -Diz levantando-se do banco dando as mãos para Anabela-
Clara: Se precisar promete que vai ligar?
Mariane: Claro.
Clara: Eu sempre vou estar com você! -A abraça-
Mariane: Eu também! Vem Ana. -Dá as mãos para a irmã-
Clara: Tchau Ana! Me dá um beijo. -Anabela a abraça- Seu pai vai ficar bem.
Anabela: Tá -Sorri para Clara e sai caminhando de mãos dadas com Mariane. Clara olha as duas indo embora ficando chateada com o que aconteceu-.

Angélica entra em seu quarto chorando compulsivamente. Novamente estava revivendo todas aquelas sensações de abandono que vem lutando para não sentir, por isso rompera a relação o seu pai. Como se arrepende por ter dado à ele mais uma chance, acreditou que dessa vez poderia ser diferente e mais uma vez, se enganou. O sentimento de raiva e ódio invade sua razão. Sobre sua cama, há algumas composições que havia feito horas antes enquanto treinava no violino. Movida pela raiva, pega todas as folhas e rasga-as. Com seu choro entre soluços, dirige-se à sua estante de bichos de pelúcias jogando-os no chão. Ao lado de seu vídeo-game há uma tesoura, ela não hesita em pegá-la e começa a cortar com extremada raiva alguns de seus bichos na tentativa de que essa atitude apague todas suas boas lembranças da infância que vivera ao lado de seu pai. A sensação de abandono corta sua alma, sente-se como se estivesse levando muitas facadas por todo o corpo e a única que ela faz é transferir esta dor à seus objetos de afeto.
Por alguns minutos fica ali, destruindo seus bichinhos tão queridos, muitos deles, dados por seu pai que sempre que voltava de alguma viagem, trazia um como forma de mostrar que se lembrou dela. Já havia chorado diversas vezes por sua ausência. Como tem carinho por esse pai, mas prometeu para si mesma que essa fôra a última vez que derramaria qualquer lágrima por ele. Sua raiva parece ter passado após ter destruído muitas de suas lembranças infantis. Senta-se no tapete branco ao chão de seu quarto onde encontra-se apenas restos de seus bichos favoritos. Suas mãos ficam a tocá-los, o sentimento é de leveza como se tivesse tirado de dentro de si qualquer lembrança positiva de seu pai. Não arrepende-se do que fez, talvez, quando estiver mais racional, olhe para sua estante vazia e perceba ter se excedido, mas não agora. No momento, ela só quer se livrar da dor que novamente a toma sem controle. Mais tranquilizada, levanta-se do tapete onde estava e deita-se na sua cama. Suas enormes almofadas em branco e rosa para combinar com toda a decoração do quarto servem de aconchego para suas lágrimas que ainda insistem em escorrer e assim, adormece.

Continua...

Notas finais
Se pela força da distância você se ausenta, pela força que há na saudade você voltará. Pe. Fábio de Melo.