O menino da van

7 O alinhamento dos planetas


Notas iniciais
Olá! Como fico feliz que você tenha chegado até o final dessa história comigo, para descobrirmos o que aconteceu quando, finalmente, Victória e Davi parecem se encontrar. Segue o último capítulo dessa nossa jornada juntos. Apreciem :)

Até que um dia, num raro alinhamento dos planetas, eu e o Davi ficamos solteiros ao mesmo tempo — mais de trinta anos depois daquele primeiro encontro na van…

Tínhamos a distância entre nós, por estarmos morando em estados diferentes, mas também contávamos com o encurtador oficial de distâncias do brasileiro: o aplicativo WhatsApp. Conversávamos o dia inteiro por mensagem. Às vezes, ele me ligava e ficávamos conversando por horas.

Pela primeira vez, ousamos falar sobre o que nunca era falado. Contei a ele a nossa história sob a minha perspectiva.

Também aproveitei para pedir que me explicasse porque ele havia agido tão mal com aquela nossa amiga no passado, e a conclusão dele foi:

— Eu e ela não fomos sábios como você aos 12 anos de idade. Cruzamos a linha e estragamos tudo.

Ele disse que se arrependia de como agira com ela. Assumiu o erro. Lamentou nunca ter conseguido se desculpar como gostaria. Parte de mim gostou muito de ouvir aquilo, porque ia ao encontro da minha ilusão de que ele não era tão ruim assim.

Estávamos pisando sobre a linha. Certo dia, ele me falou que seríamos como Fermina e Florentino. Não entendi a referência e ele não acreditou que eu ainda não tinha lido "Amor nos tempos do Cólera", de Gabriel Garcia Marquez, nem assistido ao filme.

Então, eu assisti. Chorei. Mandei foto da tela e a mensagem: "que filme lindo!"

A história conta sobre um amor de meio século. Florentino espera por Fermina por 51 anos, nove meses e quatro dias e, finalmente, ficam juntos quando já têm mais de 70 anos de idade.

— Ainda faltam uns vinte anos para a gente — brinquei.

— Que bom que você assistiu — ele falou.

É interessante que, na história, eles viviam uma epidemia de Cólera, da mesma forma que vivíamos agora a pandemia de Covid-19.

Alguns dias depois, ele escreveu:

— Vou aí te visitar.

— Vem! — respondi.

De repente, o mesmo medo de mais de três décadas atrás, mas agora sob outra roupagem: e se o beijo e tudo mais não fossem tão bom? Não seria melhor não saber e guardar somente a ilusão?

No entanto, uma parte era exatamente igual: e se eu me magoar e, depois disso, quando vê-lo não sentir mais o mesmo? E se as borboletas da barriga morrerem?

Confiei na minha maturidade.

Ele mandou foto dos voos que ele estava pesquisando no Google Flights.

— Pode comprar para esse dia — falei.

— Vou comprar — ele respondeu.

Nessa época, uma amiga em comum comentou que achava que ele estava interessado em mim. Outra amiga teve a mesma percepção e me ligou para carinhosamente me lembrar que, nas palavras dela, "ele não prestava" e, portanto, eu deveria manter distância para não sair magoada.

Não contei a elas sobre a nossa proximidade recente, e elas também não sabem o que sempre senti realmente.

Faltava uma semana para a data da viagem. Eu sabia que, quando chegasse a hora, eu poderia tomar a mesma decisão da primeira vez. Era possível que faltasse coragem. Ou melhor, sobrasse coragem, porque somente com muita coragem se dispensa um amor desse jeito.

As mensagens, que antes eram tão intensas, ficaram mais espaçadas nos dias seguintes. Quando chegou o dia combinado da viagem, eu já sabia que ele não viria, senão teria falado algo.

— Você não deveria estar aqui hoje? — perguntei brincando.

— Não deu, tive de ficar com meu filho — respondeu.

De uma hora para a outra, ele parou de falar comigo. Algumas vezes, mandei mensagens como de costume, ele respondia mas a conversa não evoluía mais tanto. Até que parei de procurá-lo e percebi que, realmente, se eu não mandasse mensagem, ele também não o faria.

Alguns meses se passaram, sem contato. Mandei feliz aniversário e ele nunca respondeu.

Já faz mais de um ano que isso tudo aconteceu. São várias as possíveis explicações, mas a mais óbvia é a mesma de mais de trinta anos atrás: interesse disperso e volúvel. Só que, dessa vez, ele não tem mais o benefício da dúvida: faltou sensibilidade e cuidado.

A pergunta que não quer calar é: como será da próxima vez que nos vermos? Sentirei a dor desse estranho e inexplicado abandono ou será tudo como sempre foi?

Racionalmente, sei que deveria focar na parte real, aceitar que ele é como é, que os planetas nunca se alinharam realmente e agradecer por nunca termos cruzado a linha.

No entanto, eu gosto da minha ilusão juvenil. Gosto das borboletas na barriga e gosto da minha versão inventada de que a nossa história é especial e nunca deixará de ser e que a protegeremos para que sempre assim seja.

Além da ilusão, provavelmente nem exista "nossa" história. Tenho consciência de que pode ser que ela seja apenas minha. Na verdade, agora ela é de vocês também…

FIM

Notas finais
C'est la vie... Muitos devem estar decepcionados - como eu também estou. Até pensei em criar um final alternativo para essa história, mas depois achei melhor ser honesta com vocês e contar como tudo realmente aconteceu. Afinal, a vida não é um conto de fadas e, quando se trata de amor, o sofrimento costuma andar de mãos dadas com a alegria. Mas que nunca deixemos de acreditar no amor verdadeiro, mesmo que ele seja unilateral. Obrigada por terem estado comigo nessa jornada. Agradeço em especial à Crisântemo Lirium por toda força que recebi. Não só por acompanhar a história, mas por todas as dicas nessa que foi minha primeira publicação no Nyah. Gratidão!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!