O melhor acaso de nossas vidas.
1 Capítulo 1
MELISSA
Melissa era uma jovem pediatra formada com honras na Universidade Federal do Ceará, era uma workaholic no sentido mais estrito da palavra, poderia cobrir o plantão dos seus amigos médicos no momento em que necessitassem. Só havia um dia do ano em que não estava disposta a trabalhar, 5 de março, essa data era reservada para um dia inteiro na biblioteca pública municipal Dolor Barreira desde os seus 18 anos e mesmo quando essa data era um dia de sábado ou domingo ela conseguia acessar o dito local pelo fato do bibliotecário, o senhor Miguel, conhecê-la a anos bem como a história que a levava ali naquela data em específico. O bom velhinho gentilmente sempre estava ali para recebê-la com um sorriso amarelado estampado no rosto que se unia às marcas de 65 longos anos e sempre com uma boina colocada horizontalmente na cabeça, que variava de cor conforme o dia da visita.
Em mais um desses 5 de março lá estava Melissa as 09:30 numa manhã de sábado dentro da biblioteca sentada em uma cadeira de madeira envernizada apoiando sobre a mesa também envernizada um dos livros de poesia de Manuel Bandeira, um escritor que havia chamado sua atenção principalmente por sua história de vida tão trágica e que era refletida em suas obras. A aparência da mulher contrastava com as cores do local no qual predominava o marrom dos móveis, estava com um vestido de malha fina amarrado com alças na parte anterior do pescoço e que era estampado com flores vermelhas que camuflavam o tom pastel da roupa.
Imersa em sua leitura, os sons do mundo a sua volta pareciam silenciar instantaneamente ao ler um livro, e era assim que se sentia naquele momento, até que um barulho de pés caminhando pelo corredor onde estava distraiu sua atenção do livro e ela virou o rosto para avistar a figura de um homem bronzeado andando em direção a sua mesa. Ele trajava uma blusa branca de manga curta com um calção tactel estampado com ondas do mar e calçava havaianas e foi ao notar este último detalhe que ela percebeu como ele fazia tanto barulho ao caminhar ao ponto de distrair sua atenção.
GABRIEL
Gabriel havia acordado tarde naquela manhã de sábado, para ele 8 horas era tarde o suficiente, tomou um banho, vestiu uma roupa e se encaminhou para biblioteca municipal da cidade para atender um pedido da sobrinha Ana de 10 anos que desejava ler um livro indicado pela professora de Literatura intitulado “Ponte para Terabítia” mas até aquele momento não pôde ir à biblioteca buscá-lo pelo fato de sua mãe estar fazendo horas extras no escritório de advocacia onde trabalhava e não poder levá-la e Gabriel como o tio dedicado que era se disponibilizou a trazer o título para a garotinha. Caminhando por um dos corredores da biblioteca teve uma visão que o fez esquecer por um momento o motivo de sua ida ao local e apenas caminhasse em direção a ela, uma mulher negra de cabelos pretos cacheados e que iam até a altura dos ombros com um lindo vestido florido e concentrada em uma leitura certamente prazerosa pois não parecia ouvi-lo chegar perto dela, até que surpreendentemente ela se virou e olhou para ele com olhos curiosos e que ao mesmo tempo pareciam indicar certo aborrecimento, no entanto essa impressão não impediu que ele chegasse até a mesa e se apresentasse a mulher com certa empolgação na voz.
Prazer, sou Gabriel!FIM DO 1º CAPÍTULO.
Algum tipo de força magnética havia conduzido Gabriel até áquela mulher, talvez curiosidade. Houvera poucos momentos em sua vida em que algo havia realmente prendido a sua atenção de forma tão rápida e o momento vivido agora era um desses.Quis se aproximar, falar com ela, olhá-la em seus olhos, teve curiosidade em conhecê-la. Ao apresentar-se ela respondeu em um tom bastante educado apesar de suas feições de aborrecimento.
Prazer, sou Melissa. Tenho que ser sincero, você me chamou a atenção, nunca vi pessoas tão compenetradas em algo a ponto de parecer não ouvir passos vindos em sua direção. Bem, vamos dizer que ler tem esse efeito sobre mim, mas tenho que afirmar que o senhor está enganado sobre algo. Eu percebi sim a sua chegada e devo dizer que o som de seus chinelos auxiliaram muito bem nisso. Desculpe se causei algum incômodo, realmente não foi minha intenção, disse ele com um ar risonho. Está desculpado, mas na próxima seja mais prudente ao andar, principalmente se a pessoa perto de você estiver muito concentrada em algo. Dica devidamente recebida senhorita Melissa. Disse ele em um tom engraçado. Está tentando ser irônico comigo senhor Gabriel? Se sim, não funcionou, detesto que não me levem a sério quando estou tentando ter um tom firme em minhas falas. Calma, quis apenas amenizar o clima, mas se não funcionou, basta-lhe dizer que procurarei não repetir o mesmo erro, disse ele em um tom que buscava denotar sinceridade e ao mesmo tempo surpreso pela reação da mulher, ela parecia levar o ato da leitura muito à sério. Tudo bem, disse em um tom um pouco mais doce. Se não se importa, gostaria de continuar minha leitura. Ok, não irei mais atrapalhá-la. E seguiu caminho em busca do livro que procurava para a sobrinha e pensando que sua curiosidade sobre Melissa havia aumentado ainda mais.15 minutos depois lá estava Gabriel novamente a frente de Melissa, não havia encontrado o livro e o bibliotecário que avistara no local ao entrar não se encontrava em lugar algum. Assim decidiu interromper mais uma vez a leitura da mulher, acreditava que o motivo era válido.
Desculpe te interromper mais uma vez mas eu não estou conseguindo encontrar o livro que vim buscar, será que você poderia me ajudar, o bibliotecário literalmente sumiu e você é a única além de mim nessa biblioteca em um sábado.Melissa não gostou muito da última parte, que mal havia estar em uma biblioteca em um dia de sábado, a leitura poderia se dar a qualquer hora e em qualquer momento que a pessoa estivesse com vontade e disposição mas resolveu ignorar a fala de Gabriel, podia entender que nem todos poderiam ter a sua mesma percepção e principalmente os mesmos motivos que poderiam levá-la à biblioteca em um fim de semana. Decidiu ajudá-lo a procurar o livro e ao descobrir o título teve curiosidade em compreender o porquê de ser exatamente “Ponte para Terabítia” afinal nem todos os adultos se dedicavam a uma leitura destinada ao público infantil.
Você gosta de leituras voltadas para o público infantil? Ah, não. Seria para a minha sobrinha, a professora indicou esse livro mas ela ainda não teve como buscá-lo e então eu me ofereci para isso. Muito atencioso de sua parte, quantos anos ela tem? Obrigada, ficou contente pelo elogio já que parecia não ter causado uma boa primeira impressão. 10 anos. Que curioso, um dos personagens principais desse livro também tem 10 anos de idade. Então já o leu? Ainda criança? Sim para as duas perguntas, disse ela em tom um de riso. Desde pequena fui incentivada a ler e desde então adquiri gosto pelos livros e “Ponte para Terabítia” foi um dos meus primeiros, posso supor que sua sobrinha irá adorá-lo. Palavras vindas de uma leitora que parece ser experiente no assunto são bem confiáveis e dessa vez não foi ironia se assim pareceu.Os dois riram juntos por um momento. Logo após isso, Melissa o levou exatamente ao local onde o livro se encontrava e ele gentilmente a agradeceu.
Obrigada pela ajuda! Acho que agora não te incomodarei mais, espero encontrá-la uma próxima vez. Por nada! Talvez possamos nos ver por aqui por algum acaso já que não frequentamos outros lugares em comum, eu acho. Bem, andando pela biblioteca pûde perceber que ela é bem grande e certamente cheia de diversos títulos, não sou um leitor assíduo mas uma vez ou outra gosto de ler algo que desperte minha curiosidade e também, como disse, pode ser uma chance de reencontrá-la e espero realmente que esse acaso me ajude.Por um momento Melissa ficou ruborizada, não entendia o porquê mas esperava que Gabriel não tivesse percebido.
Tentando disfarçar o nervosismo por suas reações corporais, no tom mais calmo possível para aquele momento lhe respondeu:
Bem, então nos despedimos por aqui, caso nos reencontremos terei prazer em indicar-lhe títulos que podem despertar sua curiosidade.Mal sabia ela que além dos livros, ela também tinha o poder de despertar a curiosidade de Gabriel, pensou ele consigo mesmo.
Então, até breve Melissa, eu espero.Ao sair da biblioteca Gabriel perguntou-se porque não pediu o número de Melissa, assim suas chances de reencontra-la aumentariam e pensou que talvez não fosse o momento, haviam acabado de se conhecer e não queria que a moça pensasse que ele tinha segundas intenções e ao seu ver ele não tinha, apenas estava com vontade de conhecê-la mais e para ele isso poderia não significar algum interesse romântico por exemplo, afinal conhecer pessoas novas sempre era interessante para ele e esperava realmente poder encontrá-la uma próxima vez.
Melissa ficou na biblioteca até as 5 da tarde entre almoço e lanches. Ao encontrar seu Miguel para despedir-se, ele perguntou quem era o moço com quem conversava naquela manhã e ela comentou como eles haviam tido seu primeiro contato destacando o incômodo que ele lhe causara e a razão de sua segunda conversa, aquela que o bom velhinho presenciara após ter voltado ao seu posto.
Conhecendo você ele realmente deve tê-la incomodado mas essa primeira impressão ruim que ele causou foi levemente amenizada, não pela que voce me contou da ultima parte. Disse Miguel de forma brincalhona.Ela respondeu com risos e logo depois saiu da biblioteca.
Ao caminhar pelas ruas indo para casa, Melissa de repente pensou no dia em que havia tido, geralmente 5 de março não era uma data totalmente feliz para ela apesar de fazer algo que lhe dava muito prazer mas naquele dia em especial poderia dizer que mais uma sensação boa, que ela ainda não sabia descrever o que exatamente era, havia surgido em seu coração e de repente pensou no fato de ter conhecido Gabriel, apesar da primeira má impressão que ele lhe causou realmente ficou tocada com a sua atitude atenciosa para com a sobrinha, para ela a leitura era algo extremamente importante pois lhe possibilitava conhecer outros mundos, outras realidades, outras pessoas mesmo que fictícias, para ela os personagens sempre tinham algo a ensinar e Gabriel talvez sem perceber estava possibilitando tudo isso à sobrinha assim como alguém muito importante na vida de Melissa havia feito um dia com ela e continuou sua caminhada com um leve sorriso no rosto.
FIM DO 2º CAPÍTULO.
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