O lobo a levou

6 Capítulo 6 - A Associação


Notas iniciais
Após um tempinho sem postar essa história, tomei vergonha na cara e postei o novo capítulo.


Com os pés apoiados em um pequeno banquinho, Branca sentia as meias sendo aquecidas pelo fogo da lareira, enquanto a mãe colocava um pesado casaco de neve sobre seus ombros. A menina fechou o punho em torno da boca e tossiu, expressando uma certa raiva com o olhar e impaciência.
— Febre alta. — A mãe repreendeu. — Como você saí no meio da noite e me volta com uma febre! Para onde foi seu juízo, garota?
Branca evitou responder, segurando com firmeza a caneca de chá em torno das mãos e bebendo um longo gole, sem nenhuma vontade de conversar. Há cerca de dois dias, quando voltou da floresta e após reencontrar o rapaz-lobo, Branca pegará um resfriado e estava de repouso. Mas com o pai e a mãe reclamando dia e noite em seus ouvidos, o que ela menos conseguia era descansar. Ela revirou os olhos quando a mãe colocou outro travesseiro de apoio para seus pé.
— Mamãe, estou ótima! — A menina disse. — É um resfriado, não meu leito de morte.
— Estou justamente cuidado de você para que não tenha um tão cedo.
O chá tinha um gosto muito amargo, por isso Branca resolveu que a melhor opção era engolir tudo de uma vez e em grandes quantidades, ir devagar só faria aquilo se prolongar. Em quatro goles ela terminou o líquido e devolveu a caneca à mãe, sentindo o gosto das ervas se espalhar por toda a garganta, um gosto horrível. Era uma manhã com uma fina neve que caía do céu, para Branca, que antes amava o inverno e em sua infância costumava brincar de guerra de bola de neve com os filhos do vizinho, aquela imagem já se tornava enjoativa e um estorvo, ela mal podia esperar para os dias ensolarados de primavera ou chuvas de verão. Quando se crescia, tudo parecia perder um pouco sua magia, para ela não era diferente, mas apenas que agora a neve não lembrava nada de bom, apenas lobos e floresta, mesmo quando não estava mais lá e apenas queria se esquecer.
Alguém bateu em sua porta, Elena, mãe de Branca indo atender. Era apenas Flora, uma gentil e adorável vendedora de velas, muito amiga de sua mãe. A mulher de meia idade entrou na cabana, colocando seu xale rosado sobre um cabide e sendo servida de chá pela sua mãe.
— Vim pegar aquele saco de flores curandeiras que me prometeu.
— Ah, claro. — Elena disse. — Apenas um momento.
A mãe de Branca começou a remexer em algumas cestas de madeira na cozinha, procurando entre as diversas flores e ervas que guardava. A doce vendedora de velas aproximou-se de Branca, acariciando seu ombro.
— A juventude é bela, né meu bem. Mas tem sempre um preço a pagar.
— Não entendi, senhora Flora. — Branca franziu o cenho.
— Se aventurar à noite na floresta, tão perigosa e fria. O resfriado custou sua rebeldia.
A mãe de Branca finalmente retornou com um pequeno saquinho, entregando à senhora Flora. A mulher sentou-se em uma cadeira ao lado de Branca, descansando as pernas e sendo servida de chá pela mãe de Branca.
— Por falar em floresta, souberam dos boatos?
— Que boatos? — Elena perguntou, surpresa.
Branca revirou os olhos outra vez quando as duas ficaram mais perto uma da outra, como ficavam quando cochichavam e trocavam segredinhos, mulheres e homens que adoravam fofocar não era uma novidade naquele vilarejo e nem em nenhum lugar, mas Branca sempre detesta como elas mesmo tratavam como algo confidencial ou proibido, para que tudo aquilo se sabiam que era algo errado?
— A Associação de Caçadores. — Flora murmurou, contando o segredo à ela. — Eles tem ficado populares em vilarejos e vilas vizinhas, é uma associação responsável por...
— Por? — Elena perguntou, curiosa e incentivando a outra.
Como se as paredes tivessem ouvidos ou tudo ali fosse suspeito, a vizinha observou os cantos, com um sorrisinho arteiro nos lábios. Parecia uma criança que comia sozinha um pote de biscoitos, escondido da mãe.
— Caçarem feras! — A vizinha confessou. — Eles existem há muuuito tempo, secretamente, rastejando silenciosamente por aí e eliminando bestas, feras e monstros que assombram os vilarejos e lares. Só agora, a fama parece ter aumentado e ganhado destaque.
Branca certamente teria cuspido todo o chá se ainda estivesse o bebendo, mas ela se conteve em apenas dar um pulinho na cadeira, algo que, por sorte, a mãe não notara em razão da atiçação por notícias novas. Discretamente e sentindo-se mal consigo mesma por ir contra toda sua ética, Branca fingiu estar muito interessada em um fiapo solto no casaco, enquanto na verdade escutava atentamente a conversa das duas mulheres ao seu lado, sem precisar de muito esforço.
— O amigo do meu marido, que as vezes trabalha na guarda do portão, me contou que diversos homens de nosso vilarejo estão se juntando para ir chamar os serviços da Organização.
— Minha nossa! E eles fazem um serviço bem feito?
— Se fazem? As pessoas de outros vilarejos não falam de outra coisa, dizem que eles estão por toda a parte, prestando seus serviços e viajando por aí. É inacreditável!
— É inacreditável, literalmente! Feras, como é possível!
Feras...
A mente de Branca começou a borbulhar com aquela palavra, então muitas outras pessoas sabiam sobre aquilo, além dela ou de seu vilarejo. E se Killian e sua alcateia não fossem os únicos? E se a Organização viesse e os caçasse? Aquilo era terrível!
Mas se eles os capturassem, tanto sua avó quanto Desmond teriam sua vingança, certo? Não era isso que Branca queria? Se era, então porque seu coração estava inquieto como o pêndulo de um relógio, indo de um lado para o outro sem parar? No fundo ela sabia, mas não queria admitir, que não tinha certeza se Killian era realmente o culpado.
Ela não soube o que fazer além de pensar, naquele momento era o máximo dentro de sua capacidade. Enquanto a mãe e a vizinha ainda murmuravam e espalham fofocas pelo ar tão facilmente quanto o vapor de uma chaleira, Branca sentiu-se cansada. O fogo aquecendo seus pés a deixou cada vez mais confortável, enquanto o casaco feito de pele de urso a deixa quentinha. A pele parecia a consumir, como se de fato a transformasse no animal, pouco a pouco Branca entrava em uma profunda sensação de hibernação. O fogo estalando, o calor do lar e o som das crianças brincando nas ruas lá fora, junto ao leve som de alguns instrumentos que jovens tocavam na praça. Pouco a pouco, aquela ambiente se afastava de Branca, os olhos calmamente fechando-se e dando lugar ao sono. Acomodada contra a pele do casaco, pensava escutar um coração bater contra seu ouvido, junto ao movimento apressado da pele. Branca era carregada pelo animal e sabe-se lá para onde, não era grande o suficiente para ser um urso e ela não estava incomodada. Estar ali, contra a pele quente do animal, enquanto observava eles fugirem pelas montanhas nevadas, sobre um enorme céu cinzento. Ao longe uma música triste tocava, triste, mas muito bela.
O animal não se cansava, carregando a garota sobre a neve gelada. Em seu sonho, Branca estava sobre um animal que ela já conhecia a sensação, já conhecia o toque, já havia sido carregada. Com a capa esvoaçando pelo ar, apenas ela e ele fugindo pelas montanhas nevadas, teve vontade de chorar. Era por um tipo de tristeza diferente, não por estar longe de casa ou da família, mas de tristeza de um presente que estava muito longe. Um sonho, como de fato apenas era.



Branca amarrou um pequeno pano por cima das hélices das orelhas, ocultando do nariz ao queixo com o tecido, enquanto pegava uma pequena pá e vassoura, retirando as cinzas acumuladas da lareira. Com o desaparecimento da avó, Branca não havia mais porquê sair do vilarejo, havia retornado às tarefas cotidianas de sempre em casa ou dentro dos muros, para não morrer de tédio, procurava fazer até as minímas tarefas. Naquele lugar, os segundos pareciam horas e os dias séculos. Tanto a floresta quando o vilarejo não pareciam o suficiente para Branca, ela não suportava aquele limite, parecia que com ela ali, o resto do mundo não existia. Era nauseante pensar que só o que ela conhecia era o que existia, desde de seu sonho, queria descobrir o que havia além daquelas enormes montanhas.
O bater da porta alertou-a, afastando de seus pensamentos e se concentrando no pai que retornava do trabalho de posto no portão. Uma cena que sempre se repetia todos os dias.
— Quer chá? — Branca perguntou.
O homem retirou as botas e bateu, retirando a neve e geada acumulada, negando com a cabeça e caminhando até sua cama.
— Não, meu bem. Estou com uma dor de cabeça insuportável, apenas quero dormir um pouco.

Branca assentiu, retirando as cinzas que restavam e guardando em um balde que mais tarde ela jogaria pela janela, para que fossem levadas pelo vento. Branca limpou algumas toras de madeira com um lenço, sua avó, Olga, sempre dizia que a madeira limpa não estalava. Sempre que pensava na senhora Branca tinha vontade de chorar, então reprimiu o pensamento e apenas limpou as toras uma por uma. Como sempre, a mãe retornava no meio da tarde, após ter vendido suas ervas e flores medicinais para os moradores e começava os preparativos para o jantar, Branca como de costume, a ajudou.
Os dias seguiram-se assim, cada vez mais deixando um buraco no peito de Branca, um profundo tédio e insatisfação com os dias repetitivos e a rotina que nunca mudava. Cada dia passava como uma tortura para ela, sem poder sair, sem poder correr. Os pais também trancavam as portas e janelas da casa durante a noite, com medo de outra fuga noturna da filha. Mas depois da noite em que voltou e não parou de levar bronca até seus ouvidos doerem, Branca não pensava em fugir de novo tão cedo.
Em certa tarde, quase dois meses após a fuga de Branca naquela noite, ela havia saído de casa. Com muito esforço, subiu no telhado dos estábulos junto à Arthur, encontrando Desmond parado ali e jogando algumas pedrinhas para além do muro. Branca usava sua capa vermelha, agora finalmente limpa novamente, após ela ter rolado a ladeira de pedras. Os joelhos, que nas primeiras semanas estavam ralados, agora estavam curados novamentes, mesmo que as ervas medicinais da mãe ardessem.

Com cuidado, sentou-se entre Desmond, à sua direita, e Arthur, à sua esquerda. Mesmo sem a neve caindo, o céu estava coberto de nuvens brancas e cinzas, com uma brisa fraca que refrescava. Era um dia calmo de inverno, sem tempestades de neve ou ventania.
— O que tem além das montanhas? — Branca perguntou diretamente, sem se importar se era algo estranho ou não.
Enquanto o olhar dela se fixava ao longe, muito muito ao longe, tentando ver as montanhas distantes, com árvores escuras e agora cobertas de neve, Desmond coçou a nuca, pensativo.
— Cidades, muitas cidades.
— E depois das cidades, nas cidades de porto, existe o mar. — Arthur respondeu, espreguiçando-se sobre o telhado. — Um dia, quando eu ficar mais velho, vou comprar um barco bem grande e ir para lá. Descobrir novas terras.
— Você me leva junto? — Branca perguntou, ainda olhando para as montanhas, na esperança que se deslocassem para os lados e se abrissem, fazendo-a ter vista para além dali.
Arthur abaixou a boina que usava, cobrindo parte do rosto e esboçando um sorriso travesso entre os lábios.
— Depende, só se casar comigo.
Branca riu fracamente, desviando o olhar para ele e se deitando ao seu lado, Desmond revirou os olhos entendiando, pegando mais pedrinhas e jogando além do muro.
— Não vou me casar com você, Arthur. — Branca respondeu. — Mas posso fazer as tortas de pêssego que você gosta.
O ruivo sorriu.
— Trato feito! Posso não ter uma linda esposa, mas teria uma ótima amiga que me fará as melhores tortas do mundo.
O ruivo riu mais alto, levatando-se no telhado e fazendo um pouco de neve cair no chão, ele caminhou por ali, equilibrando-se entre as telhas.
— Vou comprar um barco pesqueiro bem grande, assim não teremos apenas tortas, mas muitos peixes para comer. Talvez camarões e polvos também. Desmond será nosso faxineiro e irá tirar os crustáceos que ficarem acumulados no casco do barco.
— Em seus sonhos! — Desmond respondeu desprezadamente, lançando uma pedrinha sobre o muro de madeira.
— Tá tá, que seja. — Arthur abadonou as mãos no ar. — Mas irei para países distantes e conseguirei uma linda garota, uma garota que me ame e eu vou amar, eu vou me casar com ela!
Branca torceu o nariz, pegando uma das pedrinhas de Desmond e a olhando entendiadamente.
— Você não vale nada. — Ela respondeu, jogando a pedrinha em um pinheiro além do muro. — Há um minuto estava falando de se casar comigo e agora você... Arthur?
A garota desviou o olhar para o ruivo, que parava de brincar e olhava com atenção para os portões do vilarejo, apertando os punhos. Sem entender direito, Branca olhou para Desmond, que deu de ombros e parecia tão confuso quanto ela. Os dois levantaram-se no telhado e ficaram ao lado do amigo, que estava mudo e sério, encarando um aglomerado de pessoas em frente aos portões do muro.
— São eles. — O ruivo sibilou.
— Eles quem? — Branca perguntou, apenas para receber um olhar sério do mais velho sobre ela. Um olhar que raramente Arthur demonstrava, com seu ar brincalhão e travesso.
— A Organização dos Caçadores.
Uma grande carruagem, puxada por quatro cavalos, dois pretos e dois brancos, entrou no vilarejo, junto à homens usando uniformes de sobretudos pretos e de acessórios, tais como cinto e identificações de bronze, junto à botas e armas de fogo que seguravam nas mãos.
Escondidos entre os becos das casas, Branca, Desmond e Arthur observavam os homens uniformizados passarem entre os corredores do vilarejo, cercando em guarda uma carruagem preta quadrada e com detalhes dourados, ao lado das portas, havia um grande emblema, o símbolo da Associação dos Caçadores, sendo um escudo prateado com uma gigante fera por cima, um gigante e feroz grifo. Branca nunca havia os visto antes, mas sabia o porquê da fama, a aura que passavam eram de auto-confiança e intimidação, como se você mal pudesse tocá-los ou fosse inferior a eles, pareciam seres magníficos de outro mundo. Era como os salvadores para as pessoas comuns, os heróis da história. Apenas por os verem, sentia vontade de abaixar o olhar e não os encarar, sentia-se que não estava em posição igual. Eles eram seres superiores, eles eram a salvação.
A carruagem se deslocou até o centro da praça, onde um dos homens abriu a carruagem e um segundo homem alto saiu. Um homem negro e de cabeça raspada, uniformizado igualmente aos outros, a diferença é que a sua identificação era feita de prata, junto às correntes e cintos do seu uniforme. Uma expressão de cansaço e desgosto reinava em sua face, ele aspirou o ar gelado e observou todos ali. O homem deslocou-se da frente da porta da carruagem e logo em seguida uma mulher loira saiu, com o cabelo preso em um rabo de cavalo por grampos de prata, os olhos verdes marcavam uma certa frieza e desprezo. O homem estendeu uma das mãos enluvadas de couro e a ajudou a descer da carruagem. Eles cochicharam algo entre si, algo que ninguém ali conseguiu escutar, mas observavam com curiosidade.
O homem, que ninguém ali até agora sabia quem era, subiu sobre umas bordas do chafariz da praça, retirando um papel amarelado do bolso e desdobrando cuidadosamente. Ele limpou a garganta, antes de iniciar um discurso.


— Caros moradores do vilarejo Nightball. — A voz era profunda, mas muito tranquila. Embora tivesse um olhar ríspido, ele não aparentava ser alguém ruim. — Por meio do contratado com a Assoçiação dos Caçadores, seu vilarejo passa agora a ser uma sede sobre a proteção de nossa Assoçiação.
Todos trocaram murmúrios, perplexos. Branca que estava escondida ainda com os amigos, sentiu a curiosidade falar mais alto e desviou para a praça, observando melhor o homem.
— Branca, volte aqui! — Escutou Arthur a chamar, alarmado. Mas não deu atenção.
Ele não parecia ter mais que trinta anos, alto e forte, com uma expressão rígida e olhos afiados que encaravam tudo e todos. A mulher ao lado dele deveria ter seus vinte anos, embora tivesse um rosto bonito e jovem, estava marcado de antipatia e frieza, com os lábios pintados por um batom vermelho fraco. Diferente dos homens, ela parecia usar o que era uma saia que se estendia até os joelhos, seguido por uma calça fina. Ao invés de um sobretudo preto, usava um blazer fechado, e com correntes de prata saindo de seu bolso, junto à uma identificação acima do seio esquerdo. Era muito bela, se ela morasse no vilarejo, certamente seriam a beldade dali, ao invés de Branca.
O homem ao lado dela pigarreou. Guardou novamente o papel no bolso do sobretudo e deu uma boa e longa olhada para todos, parecendo querer decorar cada indivíduo que estava ali. A inspeção demorou alguns segundos, longos segundos.
— O meu nome é Marcus, sou um dos generais e superiores da nossa Divisão aqui. — Ele olhou para a mulher loira, que caminhou degraus acima do chafariz e ficou ao lado dele.
— Me chamo Carmelia. — A voz era doce, embora ríspida e intimidadora. — Junto à Marcus, somos apenas alguns dos muitos generais superiores que existem na Associação. Nossa nova Sede nesta região do país permitirá que outros vilarejos tenham acesso aos nossos serviços.
— Estamos aqui porque nossos serviços foram solicitados à este lugar. A partir de agora, não precisam temer, a Associação os protegerá. E cada Fera que nesse domínio morar... morrerá.
Os moradores olharam uns para os outros e comemoraram em felicidade. Branca abaixou seu capuz, em meio aquela multidão ela era uma das únicas que não parecia contente. Analisava os rostos dos oficias, que novamente cochicharam entre si.
O olhar de Marcus desviou para ela, a observando por cima dos ombros. Ele tinha olhos cinzentos como as nuvens que pairavam no céu, olhos que denunciavam uma tempestade. Havia um profundo tom de intimidação e suspeita, era como um rato na mira de um falcão. Por longos segundos, ela sentiu-se analisada, como se ele tentasse adivinhar e deduzir cada coisa sobre ela. O homem suspirou e voltou a encarar Carmelia, parecendo que conversavam sobre algo muito sério, provavelmente mais importante do que aquela pequena e insignificante garota pálida que ainda o encarava sem palavras, com a aparência beirando mais para uma assombração do que uma bela dama.
Algo para Branca não parecia certo, era como um quebra-cabeça que surgia a sua frente, mas com muitas peças não se encaixando e faltando. Se todas aquelas sedes existiam há tanto tempo, por que lobos -que na verdade nem eram lobos comuns- como Killian ainda estavam vivos? Era natural que uma Associação tão prestigiada e adorada como eles já tivessem eliminado lobos como aqueles, se fossem de seu conhecimento.


A tarde veio, sendo seguida pela noite. Marcus e Carmelia foram embora do vilarejo, com a promessa de retornar na manhã seguinte com seus "caçadores" como eram chamados os funcionários da Associação e construindo uma instalação oficial no vilarejo. Naquela noite, a cada vez que engolia uma colherada de sua sopa, Branca pensava cada vez mais profundamente sobre aquela misteriosa Associação e sobre o que fariam caso encontrassem Killian. Embora ela não sentisse que eram realmente próximos, ao menos deveria avisá-lo. Ele já havia a salvado antes, mais de uma vez, o mínimo que Branca podia fazer era o alertar do perigo. Mesmo com a incerteza se ele era ou não o assassino de sua avó, Branca senti um enorme peso na consciência.
Já na cama, ela mal conseguia dormir, fosse pelos longos cochilos que agora costumava tirar em suas tardes ou de preocupação. Sua cabeça estava ocupada pensando na Associação, pensando em sua avó e principalmente, pensando em Killian. Ela nem mesmo sabia porquê e simplesmente queria parar com aquilo, mas não suportava sequer ter o egoísmo de pensar em ignorar aquela situação. Embora não confiasse em Killian e ainda não tivesse desistindo da ideia de procurar sua avó, sabia que no fundo, ele não tinha culpa. Sabia que no fundo, precisava retribuir a ajuda dele de até agora. Não era uma questão de bondade ou não, mas do que era o certo a se fazer. Não soube quando, mas em determinado momento da madrugada finalmente conseguiu pregar os olhos. Acordou com um som nas ruas, bocejando profundamente e olhando, do andar de cima, a mãe preparar algo na cozinha.


— O que está acontecendo? — Branca perguntou, ainda sonolenta.
A mãe esboçava um longe sorriso, enquanto descascava maças para fazer o que parecia ser uma torta.
— A Associação voltou com os novos caçadores.
Branca deu um pulo na cama, assustada. Ainda tão cedo e eles já haviam retornado? Eles eram rápidos, estavam a pelo menos dois passos à frente dela. Branca se levantou, mas logo se arrependeu por ainda sentir a tontura do corpo sonolento. Desceu as escadas com cuidado, procurando o casaco mais quente que encontrou no baú e um par de botinas de couro e um casaco cinza, o vestindo e abotoando por cima da fina camisola. A mãe limpou a mão no avental, observando com descrença para a filha.
— Aonde pensa que vai?
Um pouco desesperada, Branca pegou a primeira coisa que viu pela frente. Uma cesta de piquenique.
— Recolher algumas frutinhas, nas moitas que crescem do lado de fora dos muros. Estou com saudades das geléias que você fazia.
— Branca! — A mãe disse abismada, Branca sentia-se como uma criancinha sendo repreendida, e odiava aquilo. — Sabe que não podemos sair dos muros, enlouqueceu por completo?
— Mas agora com os caçadores aqui não tem problema, eu vou e volto em poucos minutos. Eu juro.
A mãe olhou para os lados, pensando apreensiva. Era óbvio que Branca pretendia bem mais do que colher algumas frutinhas, mas ninguém precisava saber disso. Todos estariam tão distraídos com a milagrosa aparição dos heróis da Associação que nem a notariam ali, ela deveria sair de cantinho, sem ser notada e correr para a floresta. Ia avisar Killian. Pouco importava se quando retornasse iria levar bronca, ficar de castigo ou até proibida de sair de casa, era um pequeno preço a se pagar por uma outra grande ação. Em alguns segundos, a mãe suspirou e concordou.
— Volte rápido. Eu me preocupo demais com você.
A mãe beijou sua testa.
— Está certa, mamãe. — Branca respondeu. — Você se preocupa demais comigo.


A menina saiu, batendo a porta e aconchegando as bochechas contra a gola do casaco. As ruas e casas estavam quase todas sem ninguém, visto que um aglomerado de pessoas encontravam-se parados nos portões, observando pelo menos duas ou três carruagem paradas ali, eram carruagens idênticas a que esteve ali ontem, agora também cercada por diversos homens. Branca caminhou calmamente em direção ao portão, observando Carmelia e Marcus saírem de uma das carruagens da frente. Por algum motivo desconhecido, naquele dia o rosto de Marcus apresentava mais alívio e relaxamento, mas é claro, ainda tinha o mesmo olhar atento ao redor. Branca desviou discretamente da aglomeração, já observando os pinheiros mais próximos dali, fora da visão dos moradores ou dos caçadores. Ela abaixou-se em frente a um arbusto, segurando a cesta e fingiu estar muito interessada em recolher frutinhas.
Já planejava puxar o casaco contra a cabeça e caminhar discretamente agachada pelos arbustos, indo cada vez mais próxima dos pinheiros da floresta, os que começavam a cercas os muros do vilarejos e distantes da entrada principal. Estava pronta para fugir, estava pronta para correr pela floresta quando algo, chamou sua atenção.
— Ai, Meu deus! — Uma das moradoras do vilarejo, quase da idade de Branca, suspirou. — Ele é lindo!
— Acho que me apaixonei! — A amiga ao lado dela arfou, com o mesmo tom meloso e admirado. Abanando a mão em frente ao rosto.
Branca pensou que não era nada, apenas estavam se derretendo por um dos caçadores -que não eram nada feios, pelo contrário, todos tinha um boa aparência e uma certa aura de mistério, atraindo qualquer dama. Mas a curiosidade sempre gritava mais alto dentro da garota, antes mesmo da razão. Ela desviou o olhar e observou por cima do ombro o que estava atrás. Quase engasgou.
Entre alguns caçadores uniformizados, com sobretudos pretos e correntes de prata, Branca identificou um par de olhos que ela conhecia bem. Killian estava ali, entre os caçadores e uniformizado igual a eles. O jovem estava parado ao lado de Carmelia, em uma postura idêntica à ela; braços atrás das costas e cabeça erguida. Mas ao contrário da colega com uma expressão rígida, que parecia mostrar o quanto levava aquele trabalho a sério, Killian preservava uma expressão tediosa, sonolenta e sem interesse naquilo tudo. Os fracos raios de Sol batiam contra seu cabelo, dando ainda mais o destaque ao vermelho misturado no castanho, dando um cor parecia com vinho. De baixo dos olhos azuis pálidos, algumas olheiras marcavam o que parecia uma péssima noite de sono, enquanto uma camisa com gola alta aquecia e ocultava do queixo para baixo. Tinha uma expressão doente, mas ainda estava ali em pé, firme e forte.
Sem poder acreditar em seus olhos, Branca levantou-se e o encarou, analisando cada parte. De fato, era Killian, não havia se enganado. Mas o que diabos ele fazia com a Associação? Ele não era supostamente quem seria caçado? Naquele instante todas as peças que tentavam se encaixar no quebra-cabeça espalharam-se novamente, indo para debaixo de móveis, escapando de sua mão ou se quebrando. Nada mais fazia sentido para Branca, ela pensou que estivesse ainda sonhando. Mas a sensação do frio contra seu rosto, os raios solares aquecendo sua cabeça e a pequena sensação de tontura que tinha na cabeça por levantar rápido da cama afazia acreditar que estava errada. Estava mais do que acordada. Aquilo era a realidade.
Marcus conversou com cada caçador, até ficar ao lado de Carmelia e ambos começaram a lidar uma marcha calma para dentro do vilarejo.
A multidão se abriu, permitindo que os caçadores adentrassem no vilarejo, como uma tropa de soldados. Branca estava em uma das bordas, observando cada rosto que passava, aguardando. Rostos pálidos, rostos com cicatrizes, rostos cansados e rostos com medo. Ela observava cada um, procurando o que queria. Quando Killian passou por ela, algo dentro de si gritou, gritou por ele, gritou para que ele a visse ali. O olhar do rapaz desviou para um dos lados, encontrando-se com os olhos castanhos de Branca que refletiam sua preocupação, refletiam seu pavor, os lábios ressecados mexiam-se sem fazer som, mas cada emoção e palavra parecia ser transmitida e alcançada por ele. Em uma expressão tediosa, Killian apenas negou com a cabeça brevemente e voltou a encarar sua frente, marchando para dentro do vilarejo junto aos outros.
Então, de fato, era verdade. Agora Branca conseguia aceitar. Killian era um caçador.

Notas finais
Por favor comentem sobre o que acharam da história ou capítulos. Os comentários são o que me inspiram a continuar escrevendo a história. Beijão!