Seguiram pela rodovia principal em direção à estrada que dava acesso ao lago. Gargalhavam e beijavam-se enquanto dirigiam ouvindo Creedence cantando ‘Have you ever seen the rain’. Depois de meia hora pegaram a saída da rodovia e entraram na estrada que levava ao lago. Em mais de meia hora de percurso passaram por duas ou três casas apenas. A estrada era esburacada, cercada de árvores pelos lados. Fora aberta no meio de uma floresta. Ao final da via o lago surgiu esplendoroso. O gigantesco espelho de água, liso como vidro, com pinheiros gigantescos rodeando as margens era magnífico. Um lugar mágico, com uma aura incrível. Pássaros e outros animais pequenos se faziam ouvir, revelando os sons da floresta. Aquele lugar estava vivo.

Eles pararam a alguns metros da água e desceram do veículo. Ficaram parados admirando a imensidão reflexiva. Era como se um pedaço do céu tivesse caído, como um disco voador, no meio do nada. Steve sempre sentia como se fosse a primeira vez que estava ali, apesar de já ter estado por diversas vezes anteriormente. Nunca se acostumava com a beleza praticamente intocada do lugar.

Forraram uma grande toalha na areia e sentaram-se pra comer. Estavam com muita fome, de forma que pouco conversaram antes de devorarem os sanduíches de queijo e suco de laranja, fruta que Steve adorava.

Em seguida ficaram deitados de costas no chão, olhando o céu azul. Devido à altura dos pinheiros, o sol não chegara ao local onde estavam deitados, assim ainda fazia um certo frio, mas a temperatura era agradável.

– O que é aquilo no meio do lago? – perguntou Bonnie.

– Parece a proa de um pequeno barco... – disse Steve, levantando-se para ver melhor – definitivamente, é uma proa – confirmou.

– Proa é... ?

– A frente do barco.

– Não é mais fácil dizer ‘frente do barco’?

– Não, porque o nome é proa. – Steve estava tão concentrado no objeto no meio do lago que não percebeu que sua namorada estava caçoando dele.

– Preciso conversar com você sobre algo importante, Steve.

– Fale, estou ouvindo.

– Recebi uma proposta de estágio na sede da emissora.

– E o que isso quer dizer?

– Que vou fazer uma viagem de duas semanas e dependendo de como eu me sair, pode ser que eles me contratem e eu não tenha como voltar.

– Está me dando o fora, é isso?

– Não quero fazer nada sem sua aprovação. Se me pedir para não ir, eu não irei.

– Você está falando sério? Não quero decidir nada por você. Já é grande o suficiente para decidir seu futuro. Além do mais, se você está em dúvida sobre ficar comigo ou ir para outra cidade, é sinal de que já resolveu o que realmente quer.

– Não resolvi nada. Olhe, vamos fazer o seguinte: eu vou fazer o curso e volto para trabalhar na local. Fico por aqui até a gente casar, depois tentamos a vida, juntos, em outro Estado, que tal?

– Faria isso?

– Claro, Steve. Eu amo você. Não teria sentido seguir minha vida profissional sem você ao meu lado.

– Eu também a amo muito, Bonnie.

Dito isso, ficaram abraçados, deitados na toalha, sentindo o calor do corpo um do outro.

– Ei, vamos apostar uma corrida a nado? – disse Bonnie, depois de algum tempo.

– Mas a água deve estar gelada ainda...

– Está com medo, Steve Sodenberg? – provocava.

– Não é isso... Tudo bem, aposta aceita. Vamos ver quem nada primeiro até o barco. Se eu chegar primeiro ganho o quê...?

Ao olhar para trás, Steve viu que Bonnie havia tirado o vestido e estava só de roupas de baixo. Ele, que estava tirando a calça jeans, desequilibrou-se com a cena e caiu com as calças enroladas nas pernas. Ela, então, começou a correr, gargalhando em direção a água. Ei, não é justo! – Gritou Steve, seguindo-a por uns dez metros de atraso, após conseguir livrar-se das calças.

Bonnie entrou na água correndo até cobrir os joelhos e mergulhou em seguida. Ele sabia que ela era melhor nadadora do que ele, mas entrou no jogo e começou a nadar em seguida.

Em poucos minutos, Bonnie já havia chegado e subido na proa do barco encalhado. Steve vinha em seguida, com muito esforço físico. Ela caçoava dele gritando palavras de ordem e se acabando tanto de rir. Depois de muito esforço, Steve chegou ao barco, com a respiração ofegante, cansado. Subiu com a ajuda dela, que o puxou pelo braço e fez com que sentasse no que sobrara do barco.

Depois de descansar, ele ficou observando ao redor, tentando entender como o barco encalhara daquela maneira. Era como se, dadas as proporções, estivesse assistindo ao filme Titanic e apertasse a pausa no dvd na hora exata em que o barco se inclina como um grande peixe saindo da água. Inerte e firme.

– Fique aqui, vou dar uma olhada lá embaixo — disse ela.

– É melhor você....

Tarde demais, ela já mergulhara. Direto para baixo.

Steve ficou sentado, esperando. Segundos pareciam minutos e os minutos, horas. Bonnie sai de dentro da água às costas de Steve. Ela diz que há uma rocha enorme no fundo do lago e o barco está preso nela. Encalhado por uma pequena parte das ripas de madeira que formam a lateral, e que é perigoso ficar ali.

Após descansarem por alguns instantes, Steve propôs uma nova corrida na volta, e enquanto ele ditava as regras, ela pulou na frente novamente e nadou em disparada. Ele iria logo em seguida, mas na hora que apoiou o pé para dar impulso, o casco do barco se rompeu, puxando a perna de Steve para seu interior, prendendo-o. Em ato contínuo, devido ao movimento, o barco soltou-se da pedra em que estava preso e afundou instantaneamente, pois já estava cheio de água. O jovem foi tragado junto com o barco e afundou por completo antes que pudesse pedir ajuda. Puxado em direção ao fundo do lago, lutava para soltar-se.

Bonnie nadava em velocidade sem perceber o que ocorrera. De repente, ela se vira e leva um dos maiores sustos da sua vida. Steve não a seguia. O barco não estava mais no meio do lago. Gritou duas ou três vezes o nome do seu amado e começou a retornar, nadando na direção de onde estavam antes.

No fundo, o ar de Steve estava esgotando-se. O desespero para soltar a perna fazia com que gastasse mais oxigênio do que poderia e então percebeu que morreria ali. Soltou o ar que restava instintivamente, pois seu pulmão ardia demasiadamente. Sentiu a água lhe invadir o corpo, causando uma dor aguda inicialmente. Sentiu a garganta e seu peito queimarem como se estivesse bebendo fogo líquido. Que ironia, sempre havia dito que as piores maneiras de morrer eram por afogamento ou por queimaduras, dando sempre uma preferência mórbida pela primeira opção. Agora estava realizando seu ‘desejo’ e sentindo queimar como fogo. Morra uma morte e sinta o gosto de duas. Maldita promoção do inferno.

Estava apagando. Sua consciência desligando, como um robô com as pilhas fracas. Sentiu uma paz tremenda, corpo leve, sem gravidade, paz, paz e apenas paz. Escuridão, frio e trevas.

Oxigênio em excesso o invadiu. Luz do sol, quente, o atormentava os olhos. Meu Deus, seria hoje o dia de ser invadido pela natureza. Água e ar? Pressão no seu peito. Muita tosse e água saindo. Então é assim que chegamos ao céu? Pela dor que estava sentindo poderia ser muito bem o inferno, mas eis que percebeu que estava no céu. Pelo menos era assim que gostaria que fossem os anjos do céu. Era Bonnie. Totalmente encharcada, com cara de assustada, debruçada sobre ele. Oh, estava linda daquele ângulo.

O abraçou como se tivesse saído da morte; e realmente saíra. Ele mal conseguia se localizar. Ela contou que pensara que ele já estivesse morto, mas conseguira soltar sua perna direita, que estava presa ao barco, e puxá-lo até a superfície. Não conseguia explicar como conseguiu nadar com ele até a margem e reanimá-lo. Teve muito medo, mas estavam bem.

Três semanas passaram-se e desta vez Steve chegava à casa de Bonnie sem o habitual sorriso no rosto. Ela já se despedia de seus pais na varanda. Havia pedido para ir ao aeroporto de carro com o namorado, pois queria se despedir com tranqüilidade. Sabia que ele não havia lidado bem com a situação, por mais que se esforçasse para demonstrar.

Saíram em direção ao aeroporto praticamente sem se falarem. De tempos em tempos apenas trocavam olhares carinhosos. Ela seguiu quase a viagem toda com a cabeça recostada no ombro de Steve, fazendo carinho em seus cabelos escuros.

Estacionaram o veículo e seguiram em direção ao portão de embarque dos vôos particulares. Três senhores de meia idade a aguardavam. Eram seus patrões. Ela foi até eles, os cumprimentou e retornou para se despedirem. Ficaram abraçados em silêncio durante muito tempo, apertando seus corpos um contra o outro como se nunca mais fossem se encontrar.

– Steve, quando eu chegar ao hotel ligo para sua casa, tudo bem? Assim que chegar ao hotel.

– Tudo bem. Vá em paz e dê o seu melhor. Duas semanas não podem demorar tanto, não é mesmo? Vou aguardar seu telefonema.

– Deve ser duro deixar a pequenina, não é, meu jovem? – Perguntou o Sr. Boyle, redator chefe da Tv local. – Prometo que trago ela em segurança.

Steve ficou olhando pela imensa janela de vidro, enquanto eles caminhavam em direção ao avião que os aguardava na pista.

De volta a sua casa, algumas horas depois, o jovem encontrou seu pai na sala, assistindo tv.

– Bonnie já ligou, pai?

– Pelo horário, ela deve estar aterrissando ou indo para o hotel. Ela vai ligar em breve. Vá lá pra cima e assim que ela telefonar eu lhe aviso. Descanse. Sei que o seu coração deve estar ansioso com isso tudo.

Subiu as escadas e deitou-se em sua cama. Não conseguia segurar a ansiedade, e a vontade de ligar era tremenda. Pensou que deveria ter anotado o telefone do hotel antes de ela embarcar. Fitava o teto, imaginando a jovem desembarcando no outro aeroporto, entrando em algum táxi... Deveria ter dito que aceitaria a proposta de escolher o destino dela nesse dia, pensava. Diria para ela não ir, se tivesse oportunidade.

No andar de baixo, Carl estava assistindo Tv. Ao seu lado repousava o telefone, sobre uma pequena mesinha de madeira. Estava sentado com os pés em cima de um velho suporte, quando o telefone tocou bem baixo. Apontou o controle remoto para a tv, tirando o volume da mesma. Atendeu logo, de forma que Steve não ouviu no andar de cima.

– Alô.

– Sr. Ambrose? Carl Ambrose?

– Sim, quem está falando?

Enquanto falava ao telefone, Carl sentiu as pernas fraquejarem. Largou o telefone ao chão e sentou-se no sofá, incrédulo. Não conseguiu despregar os olhos da tela da Tv. Mudou o canal, como lhe fora indicado pelo telefone e aumentou o volume.

Um repórter estava no local onde um jato fretado por uma pequena emissora do interior de Oklahoma havia caído. Segundo informações, o piloto havia feito contato com a torre, pouco antes do pouso, alertando sobre uma pane elétrica. O avião aterrissou de bico no chão, a poucos metros da pista, matando todos os seis integrantes. Seriam eles: Mark Silverman – piloto, Samuel L. Collester – co-piloto, Jonas A. Redclif – Presidente da KCH TV, canal 9, Mathew A. Redclif – Filho do presidente, Harold J. Lee. – Advogado do canal 9 e Bonnie A. Green – funcionária da mesma emissora.

A porta do quarto de Steve se abriu lentamente. Carl parecia ter acabado de ver um fantasma. O garoto sentou-se na cama de um salto, perguntando se Bonnie havia ligado, mas logo percebeu que algo estava errado.

O pai contou o que havia acabado de ver na Tv. Uma sensação de impotência o tomou. O chão sumira sob seus pés. Suas pernas estavam fracas. Queria ver Bonnie a qualquer custo. Olhava ao redor com os olhos arregalados e o ar lhe faltou. Desespero.

Carl o abraçou forte e ambos choraram. Dezenas de pensamentos lhe invadiram. Poderia ser o vôo errado. Os jornalistas poderiam ter feito confusão. No fundo ele sabia que não. Imaginava sua amada morta, coberta com um plástico preto. Somente um pé calçado com o sapato vermelho com o qual embarcara. Dor abissal no seu peito. Era como se houvesse ali um grande buraco. ‘Meu Deus, porque a Bonnie?’

Steve livrou-se do abraço de seu pai e correu pela casa, em direção ao quintal. Correu pelas ruas e entrou no bosque. Sentou-se embaixo de uma grande árvore onde dias antes haviam marcado o tronco com seus nomes, usando um canivete. Passou a mão lembrando-se do momento e desabou no chão. Chorou como nunca havia chorado. Sofreu como nunca sofrera e, achava, nunca sofreria dessa maneira novamente. Gostaria de voltar no tempo e impedir que ela embarcasse. ‘Se eu soubesse... Oh, se eu soubesse... ’

Meses passaram-se e Steve não dava indícios de recuperação. Não sentia fome ou sede. Havia deixado de ir ao emprego na agência de carros usados, onde trabalhava. Seu tio permitiu que voltasse quando estivesse em paz. O emprego era seu. Havia emagrecido alguns quilos, pois só comia quando seu pai insistia. Estava em um quadro de depressão aguda. Nunca aceitou a morte de Bonnie. Sofria por não ter feito a escolha que ela lhe havia proposto. “Não quero fazer nada sem sua aprovação. Se me pedir para não ir, eu não irei.” Esse pensamento o consumia. Quem sabe, se tivessem embarcado juntos. Os dois estariam mortos agora; e lhe ocorreu que a morte, talvez fosse o único meio de produzir um reencontro. E se ela estiver esperando em algum lugar. Steve não conseguia tirar a idéia da cabeça. A morte poderia ser um recomeço?

Mais alguns meses se passaram e Steve seguia nos trilhos da depressão. Seu sistema imunológico já estava comprometido. Se continuasse nesse ritmo poderia pegar alguma doença e aí seria muito mais difícil curar-se. A idéia da morte o acompanhava dia a dia.

Em uma certa manhã, levantou-se estranhamente animado.

– Bom dia, pai – disse assentando-se à mesa com uma aparência alegre, beirando os dias anteriores ao acidente com o avião. Carl assustou-se.

– Bom dia, meu jovem... Vejo que está mais... Digamos, disposto, hoje...

– É verdade. Andei pensando muito durante esses meses e resolvi que é hora de dar um passo. Seguir em frente.

– Fico feliz, Steve. Agora coma algo, você precisa.

O jovem comeu seus ovos fritos, suco de laranja e uma xícara de café. Ele estava diferente, sim. Parecia feliz, mas algo em seu olhar estava fora de contexto. Carl percebeu, porém limitou-se a observar seu filho levantar-se e pegar as chaves, que ficavam penduradas num suporte de madeira, na parede.

– Vai sair, filho?

– Vou dar uma volta.

– Está tudo bem com você? Você está diferente...

Steve abraçou seu pai com força.

– Eu te amo pai e nada vai mudar isso, acredite.

Entrou no seu carro amarelo e saiu calmamente. Seu pai sentia novamente um incômodo na sua alma. Não soube explicar, somente sabia que algo estava errado, mas não podia prender o garoto.

Steve acelerava e dirigia cantando alto, como fazia com Bonnie. Sentia o calor do sol em seu rosto, e sentiu o espírito daquele dia agradável de verão. Algumas pessoas notaram a expressão alegre em seu rosto enquanto passava pelo centro da cidade em direção a rodovia principal e sentiram-se bem de ver que o jovem voltava à normalidade, porém havia intrínseco na sua alma. Algo que nem o melhor observador notaria.

Dirigiu pela estrada de chão que conduzia ao lago. Em poucos minutos estava lá, de frente para o espelho de água em que a decisão da viagem fora tomada. Ficou por uns dez minutos olhando fixamente. Reviveu em pensamento cada momento que vivera ali com sua amada. Engatou a marcha ré, manobrou e seguiu por uma estreita estrada de chão batido que circundava o lago. Pelo lado direito ela começava a subir, seguindo o contorno de uma montanha. Já havia dirigido por ali. Sabia que quando a estrada atingisse cerca de vinte metros de altura, em relação ao nível do lago, havia uma pedra de onde os jovens saltavam para uma parte profunda.

Morte. Reencontro. Na melhor das hipóteses encontraria Bonnie em poucos instantes. Na sua cabeça estava tudo se encaixando. O lago, a decisão, o salvamento, o amor que ambos sentiam. Poderia jurar que essas idéias eram colocadas em sua mente por ela própria. Achava que, talvez, seu espírito o estivesse induzindo a tomar essa atitude drástica para que ficassem juntos eternamente.