A avó de Diego estava quieta, algo que não era muito comum. Os dois estavam andando lentamente, nenhum deles tinha pressa de chegar ao cemitério. Ela estava levando algumas flores para a amiga Edna que morrera apenas alguns meses antes do garoto ir passar alguns dias na casa dela. As duas eram muito amigas e a morte abalara muito Carmem.

Diego, com apenas onze anos, sabia muito bem que a morte era motivo de muita tristeza, porém nunca imaginara a avó (uma mulher sempre cheia de alegria e bom humor) ser coberta por esse manto cinzento e depressivo. Refletir sobre a morte não era algo muito bom para fazer, mas muitas vezes é necessário.

Os dois chegaram diante do grande portão de ferro escuro e observaram o local. O cemitério ficava no meio de uma floresta e por isso as lápides e túmulos ficavam por entre arbustos, árvores e grandes pedras. Todo o local era cercado por um simples muro de tijolos. O lugar tinha um ar assustador, talvez fosse por causa de sua localização. Logo após os primeiros túmulos, perto de algumas altas árvores, ficava a pequena capela mortuária, uma estrutura de tijolos no formato de um círculo perfeito com grandes janelas de vidro colorido e telhas laranja.

Capela mortuária.

Esse nome nunca agradou o garoto. Ele sabia que era nesse local onde os vivos davam seu último adeus aos mortos. E era nesse local onde a dor das pessoas se juntava para formar uma impenetrável névoa densa de sentimentos abalados e cinzentos, como o céu antes de uma chuva.

Eles seguiram em silêncio por entre os túmulos e o garoto reparou em alguns: anjos de pedra tocando harpas, segurando livros ou de braços abertos repousavam eternamente em cima de túmulos e lápides, algumas estruturas de mármore estavam velhas, outras cobertas de hera e algumas tão sujas que pareciam abandonadas.

O túmulo de Edna – com um anjo tocando harpa em cima – ficava atrás da capela, perto de um pequeno chafariz que mostrava três anjos dançando. A água límpida saía de um pequeno vaso que o da direita segurava e se espalhava na bacia de mármore, mas essa estrutura não trazia alegria e sim certa sensação de depressão.

Será que os mortos dançam?

A cabeça de Diego era repleta de dúvidas, na maioria das vezes com coisas estranhas.

Carmem colocou as rosas amarelas dentro de um pequeno vaso de porcelana vermelho e ficou observando a foto da amiga. Se estivesse fazendo algum tipo de oração, fazia isso em completo silêncio, nem mesmo seus lábios se moviam.

Sem saber o que fazer, Diego saiu andando para ver se achava algum túmulo interessante, como aqueles em que ao invés de anjos havia estátuas das pessoas que descansavam seus corpos ali eternamente. Não achou nenhum que fosse interessante e então decidiu entrar na parte do cemitério onde eram enterrados os membros da família fundadora da cidade.

Ficou admirado com os pilares gregos em volta das lápides, todos cobertos com hera e musgo. Havia pequenas placas com o nome das pessoas cujos corpos ali jaziam e um ar de riqueza e poder emanava do lugar. Ficou lendo os nomes e reconheceu dois, pois o nome da escola onde estudava levava o nome deles.

Serei um morto famoso um dia?

Ele quase riu da própria pergunta. Soava tão ridícula.

Decidiu então voltar para onde a avó estava. Sabia que o cemitério fecharia em poucos minutos, pois eles estavam fazendo compras na cidade e por isso não tiveram tempo de passar ali antes.

Seguiu até a capela observando o lugar com mais atenção. Alguns nomes eram comuns, mas outros eram muito estranhos. Teve vontade de rir de um nome, mas sabia que isso seria uma falta de respeito com a pessoa. Será que o morto escutaria se ele fizesse isso? Iria tentar assustá-lo para nunca mais achar que os nomes poderiam ser estranhos ou engraçados?

Mais uma pergunta ridícula.

Ele continuou andando tomando cuidado para não tropeçar em nenhum vaso de cerâmica com flores e então quase teve uma parada cardíaca ao chegar ao túmulo de Edna e não ver sua avó ali. Teria ela desaparecido? Olhou em volta para ver se a localizava, mas não adiantou de nada, não havia sinal de Carmem por ali naquele pedaço do cemitério. Teria ela ido atrás do neto e assim ter causado o desencontro dos dois? Quem sabe se ele fosse procurá-la... Não. Era melhor não ir. Se ficasse ali parado esperando seria mais fácil para ser encontrado, não queria causar outro desencontro entre eles.

Mas... E se ela tivesse ido embora? Estava tão triste e perdida em pensamentos que parecia nem notar que o neto a seguia por ali após as compras. Quem sabe ela nem tivesse notado a falta dele e tivesse ido embora esperando encontrá-lo assistindo televisão e comendo biscoitos na sala de estar.

Não pense assim!

Repreender a si mesmo talvez não adiantasse nada. Deveria usar sua mente para achar uma solução e não torturar-se com o que poderia ter acontecido. Olhou em volta mais uma vez na esperança de vê-la, mas de nada isso adiantou, realmente estava sozinho dentro daquele lugar que estava começando parecer assustador com a luz do fim do dia que conseguia penetrar por entre as copas das árvores.

Imediatamente a imagem de fantasmas e mortos vivos chegou como uma infestação em sua mente, mas tratou de se concentrar em pensar numa forma de achar a avó antes que os portões de ferro fossem fechados. Pensou em gritar o nome dela, mas isso não ajudaria, pois o local era muito grande.

Então percebeu outra coisa: não vira mais ninguém além dele e Carmem dentro do cemitério. Deveria haver mais pessoas andando pelo lugar e depositando flores nos túmulos, quem sabe até fazendo limpeza.

Todos sabem que o cemitério fecha ao cair da noite... Por que estariam aqui ainda?

Sua mente fervilhava.

Decidiu então esperar mais um pouco. A escuridão já tomara o local e ele sentia-se sozinho, ameaçado e (acima de tudo) com medo.

Fantasmas não existem! Deixa de ser medroso!

Ele queria, mas não conseguia parar de ralhar com si mesmo. Isso nunca ajudaria.

Então a noite caiu de vez. O silêncio mortal engoliu a floresta e o ar ficou gélido. Os portões iriam ser fechados.

Diego andou o mais rápido que conseguiu e ficou olhando para trás a cada cinco segundos na esperança de ver a avó e também pelo fato de estar com medo de estar sendo perseguido por... Alguma coisa. Já estava alcançando os portões! Iria sair dali e correr até em casa, na pequena vila rural. De carro seria muito mais rápido, mas correndo ele não levaria tanto tempo assim. Quem sabe uns quinze minutos ou pouco mais. Acelerou ainda mais os passos para sair e deixar ali dentro a sensação de estar sendo observado, cada passo estudado por alguma entidade invisível e sobrenatural.

Quando conseguiu enxergar o contorno dos portões, teve vontade de cair no choro. Eles já estavam fechados. Correu e parou diante deles, viu o velho que trancara os portões e tentou gritar para chamar atenção, pedir ajuda... Mas não conseguiu. Sentiu os olhos se encherem de lágrimas. O desespero o tomou por completo, deixou-o sem ar. Ele teve vontade de chorar feito um recém-nascido e nunca mais parar.

Estava preso dentro do cemitério.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.