O juiz de vidas
7 Sexta Alma: Ashley Teodore Mooney
Notas iniciais
Leonard ligou para a polícia, com toda a calma falou no telefone sobre o corpo e aonde estava, demorou menos de cinco minutos até duas viaturas aparecerem no local, depois uma ambulância, que tirou o corpo do meio da rua e a chuva deu uma amenizada nas manchas de sangue, o sol já estava aparecendo.
— Obrigado... — Leonard começou a falar.
— hã? — Me expressei com um simples som de dúvida.
— Obrigado Ben, — Mesmo que fraco, um pequeno sorriso apareceu no rosto de Leonard. — Por ficar aqui comigo até amanhecer...
— Que isso, — Comecei a falar calmamente. — Estávamos juntos nessa!
— Você realmente não sabe como eu te agradeço... — Leonard literalmente parou de falar quando uma mulher passou entre nós, ficou fixado nela. — Nossa... — Ele superou rápido. — Vamos seguir ela!
— Por que?! — Perguntei.
— Ué, — Leonard começou a me puxar pelo braço. — Não podemos ficar sem trabalhar!
Entre os puxões que Leonard dava, olhei novamente para a mulher, era morena de cabelos longos, tinha um corpo um pouco robusto, uma camisa que ficava um pouco justa nos ombros e um jeans escuro, mas o que mais chamava atenção era a bola azul em seu peito, quase imperceptível.
— Nossa! — Exclamei. — Você nunca vai precisar de óculos hein.
— Vamos lá! — Fábio me fez correr, finalmente soube como Kin se sentia.
Nós conseguimos alcançar a mulher, ela andava rápido para alguém de saltos.
— Pera, — Leonard olhava para os pés dela. — Por que ela usa salto-alto?
— Como assim? — Questionei.
— Ela já é alta para uma mulher, o salto a fizeram parecer muito grande! — Ele estava realmente julgando o estilo dela...
— Talvez ela goste de ser alta... — Repliquei.
— Ora! Me desculpe por entender um pouco de moda! — Ele ficou irritado, mas nada tão sério, hum...
Ela chegou em uma pequena casa, onde tocou a campainha e uma mulher ruiva veio abrir a porta.
— Bom dia Ashley! — A ruiva falou para a morena.
— Bom dia fofa, — A morena, Ashley, olhava para a ruiva, esperando ela falar. — As outras já começaram?
— Sim meu docinho, — A ruiva abriu espaço para Ashley entrar, a seguimos antes que a porta se fechasse. — Devo admitir que você está bem atrasada hoje.
Dentro daquela pequena casa, haviam mais duas mulheres, uma estava medindo a cintura da outra, havia máquinas de costura, tecidos e várias fotos de modelos para todos os lados.
— Uma loja de-
— Roupas! — Leonard não me deixou terminar de falar, antes de começar a pular em uma pilha de casacos do lado com uma placa escrito “Itens em promoção” — Vamos comprar umas roupinhas!
— Leonard, não acha melhor fazermos isso depois? — Tentei acalmá-lo.
— Não acha melhor fazermos isso agora?! — Leonard retrucou, me irritando um pouco.
— Sério Leonard, não dá para fazermos isso amanhã? — Leonard parecia não entender que íamos ter que ficar seguindo aquela mulher por vários dias, não dá para ficar encontrando ela sempre que ele achar uma roupa legal.
— Ok, ok. — Leonard voltou para meu lado. — Você tem um ponto.
— Como assim? — Indaguei.
— Hum... — Leonard ficou pensativo, mas depois se animou — Amanhã vou comprar toda a loja!
Voltamos nossa atenção a Ashley, ela pegou um papel cheio de anotações e começou a trabalhar em uma das máquinas de costura, calmamente, sem falar muito com nenhuma das outras, costurou cada tecido, ficou por horas continuamente.
— Docinho, — A mulher ruiva se aproximou, Ashley não parou de costura, mas sinalizou com a cabeça que estava ouvindo. — A Simone está indo embora mais cedo hoje, será que você teria como tirar as medidas da próxima cliente?
— Claro — Ashley respondeu sem pestanejar. — Só me dê um minuto para terminar com esse vestido.
— Ok, vou deixar a ficha da cliente aqui na mesa, só ir lá que ela já está te esperando. — A ruiva saiu de perto da mesa, deixando uma folha de papel.
Ashley parou de costurar e começou a ler os papéis, suspirou, abriu um sorriso em seu rosto e foi para uma outra sala, nós a seguimos, lá estava uma mulher acenando freneticamente, com longos cabelos vermelhos que lembravam fogo, era Lúcia!
— Desculpe a demora — Ashley estendeu a mão para cumprimentar Lúcia.
— Que isso, não foi nad- — Antes de terminar a frase, Lúcia nos notou. — O que estão fazendo aqui?
— O quê?! — Ashley se virou para onde Lúcia estava olhando, demorou um pouco, mas finalmente começou a nos ver. — Quem diabos são vocês? — A voz de Ashley engrossou e ela serrou os punhos.
— Ah não... — Lúcia agarrou o ombro de Ashley. — Se acalma, eu... eu conheço eles.
— Como assim? — Ashley se acalmou.
— Este é meu amigo Benjamim, — Lúcia apontou para mim, depois se virou para Leonard. — E este é... é....
— Leonard! — Ele gritou seu próprio nome.
— É memos! — Lúcia sorriu. — Este é o leozinho!
— Leozinho? — Leonard encarou ela. — Nós não somos tão íntimos assim...
— Há! Há! — Lúcia se aproximou de Leonard e sussurrou. — Cara, quer que ela te lembre para sempre como o louco emburrado que apareceu do nada?
— Desculpe, mas... — Ashley não parava de olhar para mim. — Eu te conheço de algum lugar?
— Acho que não, — Respondi meio sem jeito, também reconheço ela, acho que a vi quando estávamos seguindo Tristana.
— Esquece ele! — Lúcia me cortou do foco. — Tá na hora de trabalhar!
— Ok né, — Ashley interrompeu. — Podemos começar a te medir?
— Ah! Claro! — Lúcia começou a olhar para nós. — Vocês dois tem que sair!
— Por que? — Perguntei.
— Você não pode ver uma dama tendo suas roupas feitas! — Lúcia nos empurrava. — E também não quero que me vejam de roupas intimas!
Leonard foi o primeiro a ser empurrado para fora, caindo de cara no chão, mas logo o acompanhei, Lúcia fechou a porta, nos deixando no meio da sala junto com as outras costureiras.
— Nossa, quem é aquela estranha? — Leonard se levantou.
— Ué? — Fiquei surpreso. — Não conhece a Lúcia?
— Lógico que não, — Leonard estava emburrado. — Nunca vi mulher mais vermelha.
— Mas, — Eu estava indignado. — Vocês agiram tão normalmente um com o outro!
— Só foi pensamento rápido de nós dois.
— Mas mesmo assim!
— Será que deveríamos deixar a Ashley sozinha com aquela mulher? — Nós ouvimos as costureiras conversando.
— Que isso, não vai acontecer nada! — A outra costureira, a ruiva que abriu a porta, respondeu. — Ashley é super!
— Pode parar aí, — Outra costureira se intrometeu. — Sem preconceitos, mas Ashley é bem chata.
— Ashley é a melhor pessoa que conheço! — A ruiva gritou. — Agora parem de falar e voltem ao trabalho!
Todas as costureiras se calaram e focaram em seus próprios projetos.
Passou pouco mais de uma hora para Ashley sair da sala, mas sem a companhia de Lúcia.
— Como foi? — A costureira ruiva se aproximou, colocando as mãos nas anotações e tecidos que Ashley carregava.
f— Bom, — Ashley segurou o que carregava com tanta força que quase rasgara um pano. — Ela era um pouco...
— Um pouco?
— Como posso dizer... — Ashley esquivava o olhar. — Um pouco... anômala.
— Anômala? — Perguntou a ruiva, pelo bem de todos que não sabem o que essa palavra significa, principalmente eu.
— Ela agia um pouco estranha, sempre me distraindo, segurando o ar e depois soltando. — Ashley jogou as coisas que carregava em cima de sua mesa, mas sempre as protegendo. — Sem contar que as roupas que ela pediu, são meio, fora do normal.
— Alguma safadeza? — A ruiva conseguiu driblar Ashley pegando suas anotações. — Anh?! Que droga é essa? — O desenho conceitual mostrava um vestido vermelho de gala, cheio de babados e detalhes que eram a cara de Lúcia.
— Pelo que ela comentou, é para uma festa medieval — Ashley tentou pegar as anotações de volta, mas sem sucesso.
— Isso já está fora de moda desde quando as pirâmides eram projetadas!
— Não importa, — Ashley pegou as anotações da mão da ruiva e os tecidos sobre a mesa. — Vou terminar esse vestido em casa. — Ashley deu mais uma olhada nos desenhos. — Sem contar que acho esses vestidos tão... bonitos.
— Fala para a Nath que desejo melhoras! — Gritou a ruiva enquanto ajudava a Ashley.
— Ela já está bem melhor que antes, — Ashley colocou os tecidos em uma sacola e se voltou para a porta de saída. — Agora mais uns dias de repouso e ela vai poder voltar à ativa.
Ashley saiu sem olhar para trás ou se despedir das outras costureiras, a seguimos, logo a fora achamos Lúcia, que começou a nos seguir.
— Ei garotos, — Lúcia nos abordou. — Advinha quem vai ter um novo vestido!
— Se algo não acontecer antes... — Com um movimento da mão, Leonard fez com que a bola azul aparecesse, ela já estava bem maior.
— Eu falei que precisava para sexta, ela disse que vai trabalhar para acabar amanhã! — Lúcia estava animada.
— Tem uma coisa que me intriga... — Comecei a falar.
— Por que uma mulher tão alta usa salto-alto? — Até Lúcia pensou nisso.
— Por que vocês só pensam em moda?! — Fiquei irritado, mas depois me recompus. — Estou falando de vocês, mal se apresentaram direito um para o outro.
— Isso... — Lúcia ficou pensando por um momento. — Depois de um tempo, juízes começam a não se importarem mais com apresentações, só sequem o ritmo das coisas.
— Isso mesmo! — Leonard sorria para mim. — Tirar essa formalidade de apresentação do caminho.
— Não é formalidade, é algo lógico! — Estava intrigado. — Vocês têm que se conhecerem melhor para poder “seguir o ritmo das coisas”.
— Bem... — Lúcia desviou o olhar
— Olhem! — Leonard apontou para frente, Ashley estava entrando em uma casa. — Vamos entrar antes que ela feche a porta!
Nós corremos um pouco para conseguir entrar, estávamos na casa dela, com um cheiro de mobília nova misturado com produtos de limpeza, nos deparamos diretamente com a sala de estar, com Ashley na frente do sofá, enquanto outra mulher dormia nele.
— Ei, ei, — Ashley tentava acordar a mulher dorminhoca. — Nath, acorda... vamos acorda!
— Hum... Só mais cinco minutos... — A garota dorminhoca, Nath, se moveu um pouco, fazendo com que seus longos cabelos ruivos tocassem o chão.
— Você tem que acordar para comer...
— Eu já comi... — Nath falava sem nem abrir os olhos.
— Acha que eu não te conheço querida, você nunca comeri-
— Se acalme, ela já comeu, — Vindo de uma outra porta, saiu um homem baixo, com curtos cabelos loiros e uma roupa surrada.
— Michael! — Ashley chegou no loiro e abraçou o homem, era notável a diferença de tamanho entre eles, principalmente pelo salto-alto que Ashley ainda não havia tirado... agora até eu estou notando o salto-alto dela. — Por que você não está no trabalho?
— Pedi para sair mais cedo, igual a você! — Respondeu Michael. — Eu cheguei antes de você, então preparei um almoço bom para ela.
— Verdade, — Nath falava do sofá. — Fez até feijoada.
— Lavei a louça e agora estava aproveitando para limpar um pouco a casa.
— Você é tão incrível! — Ashley sorria para Michael. — Obrigado por tudo.
— Que isso Ash, tudo para a doente que provavelmente vai morrer no seu sofá antes que a ambulância chegue — Michael atiçava Nath.
— Há, Há, — Nath riu sarcasticamente. — Se eu morrer te levo junto.
— Melhor interromper antes que isso vire uma guerra... — Ashley ficou entre os dois.
— Tudo bem... — Resmungou Michael.
— Nath, — Ashley chegou mais perto de Nath. — Vou ter que subir para trabalhar, qualquer coisa só me chamar, ok?
— Ok... — Nath se aproximava sua cara de Ashley, até que seus lábios quase se tocassem.
— Parem vocês duas! — Michael botou sua mão na frente da boca das duas, recebendo um beijo dos dois lados. — Vocês têm que controlar esse fogo na roupa para não ficarem se agarrando, a doença é contagiosa!
— Ah... — Ashley olhou para Michael desaprovando. — Um beijinho não ia fazer mal...
— Ele está certo, — Nath tomou a palavra. — Não podemos correr o risco de você ficar doente.
— Tudo bem, então vou subin... — Antes de Ashley terminar de falar, comecei a ficar tonto, meus olhos não conseguiam ficar abertos, desmaiei.
Demorei para recobrar a consciência, me vi deitado em uma casa estranha, minhas roupas com vários zíperes haviam sido trocadas por leves tecidos.
— Finalmente acordou, — Ainda estava cansado demais para virar a cabeça e ver quem havia aberto a porta, mas sabia que era a voz de Leonard. — Como vai o dorminhoco?
— O que aconteceu? — Finalmente virei a cabeça, vi Leonard e Lúcia, os dois estavam olhando para mim com um sorriso, me esnobando.
— Ora, ora, — Lúcia sentou na cama. — Parece que alguém é mais humano do que parece...
— Como assim? — Perguntei, os dois estavam segurando o riso para não rirem de mim.
— Juízes tecnicamente não precisam dormir, não sentimos sono, só nos sentimos cansados — Leonard começou a explicar, deixando algumas risadas saírem entre as palavras. — Entretanto caso o juiz tenha costume de dormir regularmente, ele não irá conseguir ficar acordado direto.
— Pera, — Eu me sentei na cama. — Quer dizer que eu desmaiei de sono?
— Sim! — Os dois me responderam rindo.
— Mas eu nem me senti cansado! — Exclamei, já tinha recuperando o folego totalmente naquele momento.
— Isso é normal, podemos disser que dormir é um vício, mas que não afeta seu desempenho, — Leonard tirou de baixo da cama minhas roupas. — Se vista, vamos chegar cedo na casa de Ashley...
— Que horas são? — Perguntei para Leonard, enquanto remexia minhas roupas, elas estavam lavadas e com um cheirinho bom de amaciante.
— Vai dar cinco horas da manhã — Leonard me respondeu, estava muito cedo.
— Temos que ir trabalhar cedo! — Lúcia começou a pegar minhas roupas. — Deixa que eu te ajudo!
— Pare! Pare! — Lúcia ficou empurrando as roupas em cima de mim, fazendo a maioria dos zíperes se prenderem entre os lençóis da cama.
— Me ajude aqui Leonard! — Lúcia olhou para Leonard enquanto terminava de vestir a parte de cima da minha roupa junto com uma parte das cobertas. — Ainda temos que colocar a calça dele!
Leonard ficou em silêncio por um momento.
— Ok! — Leonard pulou em cima da cama e começou a puxar minhas calças junto de Lúcia, comecei a chutá-los para pararem. — Me desculpe por não ser a mulher bonita que pediu, mas isso terá que servir.
Demorou quase meia hora para eles pararem de brincarem e me deixarem me arrumar normalmente, em menos de um instante eu estava pronto.
Saímos da casa que estávamos, era uma casa em um bairro residencial à poucas quadras da casa de Ashley, chegamos lá em menos de cinco minutos, começamos a esperar...
— Quando será que ela vai sair? — Lúcia já começou a reclamar.
— Ela não deve demorar muito... — Quando Leonard acabou de falar, a porta de abriu, mas não era Ashley que saia, era um homem alto, de curtos cabelos pretos e uma pele muito limpa, usava roupas um pouco surradas e um moletom para parar o frio que estava, carregava uma sacola cheia de coisas e óculos, que assim que colocou o pé para fora, colocou no rosto.
— Quem é esse? — Lúcia perguntou.
— Talvez Michael tenha tido uma repaginada no visual... — Comentei para ver se alguém ria, mas ninguém nem se quer exclamou uma reação, agora noto que não sou engraçado ou não sei fazer piada na hora certa.
— Talvez um amante?! — Lúcia ficou assustada e, de certa forma, animada.
— Eu acho que não... — Leonard fez um movimento com sua mão, revelando a bola azul crescente no cara, aquela bola azul era totalmente reconhecível, era Ashley!
— Pera! — Lúcia gritou. — Essa é Ashley?!
— É o que parece... — Respondeu Leonard.
— Mas ela, ela é uma mulher! — Lúcia se aproximou, aproveitando que não podia ser vista. — Isto que estamos vendo é um homem!
— Ashley deve ser uma drag queen ou algo do gênero. — Comentei sem muita enrolação.
— Que?! — Lúcia virou para Ashley e depois para mim. — Essa coisa está costurando minhas roupas?!
— Ué, qual o problema? — Comecei a notar um aspecto de Lúcia.
— Ele é um homem que se veste de mulher! — Lúcia exclamou. — Ele está engando as pessoas!
— Como ele se veste é coisa dele, — Retruquei e elevei meu tom de voz. — Como ela se veste é coisa dela.
— Ela?! — Lúcia também elevou o tom de voz dela. — Isso é um homem!
— Olha, ela é o que ela quiser quer ser... — Defendi Ashley, mesmo são sabendo se biologicamente do sexo masculino ou feminino.
— O que?! Vai ficar defendendo este travesti? — Lúcia me encarou de frente, esquecendo
— Qual o problema disso?! — Retruquei.
— Olha Benjamin, — Lúcia se acalmou e encostou a sua mão em mim. — Por acaso você também gosta de se travestir?
— O que?! — Me afastei dela.
— Ora, está defendendo! — Lúcia gritou comigo.
— Lógico que não! — Eu avancei em cima dela, com raiva.
— Ei! Ei! Ei! — Leonard se colocou no meio de nós. — Vamos nos acalmar e só depois de ver toda a história decidimos quem é o que!
— Concordo... — Respondi, tentando me acalmar.
— Tudo bem — Lúcia se virou, mesmo não podendo ver sua boca eu ouvi ela dizer “Vou ter certeza de que esse travesti nunca reencarne como humano novamente”
Seguimos Ashley até seu trabalho, uma pequena caminha em silêncio, todos calados com sua própria opinião. Ele foi na mesma porta, foi atendido pela mesma costureira ruiva e começou a trabalhar no vestido de Lúcia, ninguém lá dentro o tratou diferente.
— Elas já estão acostumadas com este cara? — Lúcia se virou para mim, mas nem me importei em responder. — Eu vou para a frente e pegar o vestido, espero ver vocês lá.
Nós vimos Ashley se levantando e esticando o vestido, era um lindo vestido vermelho, com bordados mais escuros que se destacavam em um véu semitransparente.
— Está perfeito! — Falou Ashley.
— Bem na hora! — A costureira ruiva chegou perto de Ashley. — A cliente chegou!
— Nossa! Que pontual! — Ashley mal faz ideia do motivo da pontualidade. — Melhor eu ir me apressando então! — A costureira ruiva deu um leve tapa nas costas de Ashley.
Ashley colocou o vestido em um manequim, expondo-o em toda sua glória, depois empurrou o manequim até a sala onde Lúcia estava, nós a seguimos. Lúcia esperava impacientemente, até ver nós três chegando junto ao vestido, ela se levantou e gritou:
— Nossa! Que obra de arte!
— Obrigado... — Falou Ashley meio sem jeito.
— Onde está aquela jovem garota? A Ashley — Lúcia perguntou como se não soubesse de nada, lançando um pequeno sorriso de canto para mim.
— A Ashley? — Ashley fez uma pausa. — Eu sou a Ashley.
— Nananinanão, — Lúcia sinalizou negativamente com seu dedo. — Posso ter problemas de memória, mas lembro bem que Ashley era mulher.
— É que de vez em quando eu me sinto mais feminina, — Ashley começou a explicar.
— Se sentir feminina? — Lúcia começou a debochar. — O que você tem entre suas pernas? Uma andorinha ou uma fuinha?
— Fuinha? — Ashley não entendeu.
— Eu não achei nada que rima com andorinha! — Lúcia começou a perder a calma. — Você é homem ou mulher?
— Eu vejo gênero como algo móvel, onde diariamente mudo ao meu belo prazer...
— Pera, — Ver a Lúcia perder a calma enquanto discute com outra pessoa que se mantem calma talvez seja a coisa mais engraçada que eu já tenha visto. — Você está me dizendo que acorda de manhã e decide se vai ser homem ou mulher?!
— Estás a colocar a muito grosso modo, — Ashley falou. — Pense em algo como escolher como vai se vestir de manhã...
— Então você é só um traveco que se banca de mulher?! — Lúcia perdeu o controle.
— Senhorita, pegue seu vestido e se retire daqui... — A costureira ruiva entrou na sala, olhando feio para Lúcia.
— Tudo bem! — Lúcia começou a despir o manequim, jogou em uma pequena sacola que ela trouxe, amassando o vestido inteiro sem nem testar.
— Vou indo! — Lúcia jogou o dinheiro no chão. — Nunca mais volto aqui!
Lúcia saiu e nós a seguimos, ela fingiu que não nos via, mas não deu para ela ficar muito tempo calada.
— Eu totalmente ganhei aquela discussão! — Lúcia gritava.
— Como você disse, — Leonard tinha um sorriso debochado no rosto. — Nananinanão!
— Terá que aguentar ela por ainda muito tempo... — Comentei para Lúcia.
— O escambal, mais um ou dois dias e pronto! — Lúcia apressou o passo.
— Muita coisa acontece em um ou dois dias...
Dessa vez fiz questão de dormir cedo, logo que cheguei na casa de Leonard, caí no sofá, não queria dormir novamente na cama dele, somente vi Lúcia se despedindo dele e ele indo para outro cômodo.
— Hey, acorda... — Senti uma dor no meu peito enquanto ouvia uma voz feminina. — Ben, está na hora de acordar...
Meus olhos sonolentos se arregalaram, era Marina! A mulher que fez mudar meu julgamen-
— Se concentra aqui! — Marina estalou os dedos. — Você tem que correr!
— Como assim? — Tentava arrumar minha mente. — O que está fazendo na casa do Leonard?
— Não ligue para os detalhes, — Marina começou a me empurrar para fora da cama. — Lúcia e Leonard vão julgar aquela travesti sem você!
— O que?! Eles vão julgar Ashley?! — Levantei da cama.
— Há! Você já associou travesti com A shley! — Marina apontou para minha cara. — Mas sim, parece que Lúcia não é a única que tem ódio por opções de como se vestir...
— Mas ela ainda tinha muito tempo de vida!
— Juízes são cheios de truque... — Marina tocou meu nariz. — Leonard não é de revelar tudo, foi ele que mostrou a bola azul em Ashley?
— Sim...
— Provavelmente ele estava já escondendo o tamanho real para você, ele é alguém muito precavido.
Saí correndo do apartamento, mal dando tempo para fechar todos os zíperes que tinham em minhas roupas, Marina me seguiu.
Demoramos quase pouco mais de dez minutos para chegar na casa de Ashley. A porta da frente estava arrombada. Entramos correndo e vimos uma luz forte, vi Lúcia e Leonard olhando em direção de um homem loiro, se me lembro bem seu nome é Michael, dando uma última facada em Ashley, sangrando por todo o lado...
— A vida não é tão fácil assim! — Gritou Michael antes de sair de cima da Ashley, sentando ao seu lado.
A bola de Ashley estava começando a indicar que ia mudar de cor, quando ela se transformou em laranja.
— Ai vou eu! — Lúcia avançou com a sua serra elétrica ligada, pronta para julgar a alma de Ashley, mas a ponta de um guarda-chuva segurou a serra elétrica com facilidade. — O quê?!
— Me desculpe querida, mas você não julgará essa pessoa! — Marina olhava graciosamente para Lúcia, esnobando com um leve sorriso em seu rosto e que a ponta de seu guarda-chuva conseguiu parar toda a serra elétrica. — Vai Benjamim!
Eu ouvi ela gritar, o sinal para um ultimato, deveria julgar a alma de Ashley.
— Não! — Lúcia se virou para mim, mas foi atordoada com uma forte luz, Ashley tinha aberto seu guarda-chuva, ele brilhava como o sol.
Antes de eu enfiar minha espada no peito de Ashley, olhei para Leonard, que mal tinha se movido. Então, comecei a julgá-la.
Me vi em uma total escuridão e lentamente começaram a surgir os pedaços de memórias de Ashley e entre elas vejo os cabelos loiros de Marina ao meu lado.
— Não é legal julgar sozinho, né? — Marina tocou no meu ombro, eu assenti com a cabeça, sem dar muita atenção para ela. — Então vamos a primeira memória!
Vimos uma casa bem grande e charmosa, cheia de móveis e lustres, poderia dizer que um rei moraria em uma casa tão bem arrumada.
— Anastácia! Anastácia! — Ouvimos uma criança correndo e gritando, era um garoto, por volta dos cinco anos, que pulou para cima do colo de uma mulher, por volta dos cinquenta anos de idade.
— O que foi pintolhinho? — A senhora de idade, Anastácia, segurou o garoto com os dois braços, e este, se apoiou em seus ombros.
— Anastácia! Eu achei mais uma pista! — O garoto tirou um pedaço de papel do bolso e mostrou para a senhora. — Lê pra mim! Lê pra mim!
— Se acalme! Deixa eu pegar esse papel... — Anastácia pegou o papel com muita dificuldade, o garoto já estava agarrado no pescoço dela. — Deixe eu dar uma olhada nisso... aqui diz “se você está lendo isso foi porque pediu para a Anastácia ler isso para você...”
— Parece que papai me conhece muito bem... hehe.
— Com certeza, — Anastácia voltou a ler o papel. — “A próxima dica é bem fácil, para qualquer um que já tenha tomado banho, se enxague bem e mostre o quão lindo e corajoso é! ”
— Só isso? — O garoto ficou meio desapontado.
— Ora Ashley, foi uma boa dica, — Anastácia finalmente tinha nomeado o garoto, era realmente Ashley.
— Que isso! Vou lá reclamar! — Ashley saiu do colo de Anastácia, essa que sorriu enquanto via ele saindo todo emburrado.
Tudo desapareceu rapidamente...
— Que interessante, não é mesmo? — Marina voltou-se a mim.
— Então ele era negligenciado pela família e gostava da empregada como uma mãe ou algo do tipo? — Questionei.
— Acho que não... — Marina esticou o braço, voltando toda a mobília e a cena que estava acontecendo, parando mais especificamente em Ashley mostrando o papel para Anastácia. — Parece que eles estavam jogando algum tipo de jogo, mas é estranho que essa memória seja mais marcante...
— Uma caçada ao tesouro é sempre marcante!
— Vamos ver como isso se desenrola... — Marina abaixou o braço, fazendo tudo desaparecer.
Uma nova cena começou a surgir, a primeira coisa que eu percebia de cara, dois garotos em uma escola conversando, sendo um deles Ashley e o outro um garoto bem branco com o cabelo escuro.
— Mas não entendo, por que você não quer sair com ela? — Indagou Ashley.
— Sei lá cara, — O outro garoto coçou a cabeça. — Não sou muito fã dela.
— Mas ela é uma das minas mais gatas da escola!
— Cara, beleza não é tudo, — O moreno respondeu calmamente. — Tem que ter conteúdo...
— Já sei cara... — Ashley fez uma pausa por um segundo. — Você gosta de peituda!
— O que?! — O moreno corou.
— Acha que eu não sei? — Ashley ficou batendo no ombro dele. — Devo admitir que ela é meio reta, mas ainda assim não tira a graça dela!
— Seu safado! — A memória dissipava com os dois rindo.
— Fofo, não é? — Marina tocou em meu ombro.
— Achei essa memória meio desnecessária. — Fui direto, já aceitando que eu não conseguiria julgar em paz.
— Nenhuma memória é desnecessária querido, — Marina não conseguia ficar parada em um lugar, então ficava rodopiando em minha volta. — Talvez essa seja a primeira vez que ele descobriu que é viado.
— Ashley não é homossexual, — Eu comecei a corrigir. — É transgênero.
— Ok né, — Marina mostrou a língua para mim. — Se prepare, pois as próximas memórias ainda terão mais revelações.
— Como assim? — Estranhei.
— Hehe, você ainda é um juiz novato Ben, com o tempo você terá um controle melhor sobre as memórias das pessoas.
— Pode me dar uma resposta mais clara?
— Ok, — Marina falava enquanto a próxima memória era construída diante dos nossos olhos. — Depois de um tempo, juízes aprendem a ver memórias dos vivos, por isso antes de ela morrer, eu já dei uma olhadinha.
Antes que eu pudesse responder, a próxima cena estava montada, estávamos numa rua, cheia de pessoas, entre elas estava Ashley, um adolescente, olhando para a vitrine junto de seu amigo moreno, não sei o porquê, mas ele me dava uma sensação estranha.
— É isso que você quer tentar? — Falou o moreno.
— Sim... — Ashley estava envergonhado.
— Então vamos entrar na loja! — O moreno começou a puxar o braço de Ashley para dentro da loja, Marina e eu chegamos perto deles.
— Espera! — Ashley gritou.
— O que foi? — O moreno largou o braço dele, assustado.
— É que... — Ashley gaguejou. — Eu estou com vergonha...
— Que isso Ash! — Ele voltou a puxar Ashley para dentro. — Você mesmo disse que era uma loja especializada!
— Pera! — Os dois entraram na loja e a porta bateu.
Nós abrimos e entramos calmamente pela porta, lá dentro vimos uma atendente de loja com um sorriso simpático no rosto e um monte de roupas na mão, uma mulher de longos cabelos azuis, pele branca que ressaltava com seu longo e formal vestido preto e as longas luvas que usava, parecia que estava se preparando para algum baile de alta classe. As duas estavam olhando para o provador.
— Saia daí doce dama... — Ao virar do rosto, revelou que a dama dos vestidos escuros era o amigo moreno de Ashley, cheio de maquiagem no rosto e um leque gigante que não parava de abrir e fechar.
— Eu tô com vergonha... — A voz de Ashley saía do provador.
— Até eu já me transformei Ash! Agora é sua vez.
— Seu idiota! — Ashley gritou com ele. — Para você é fácil, só tá fazendo isso por mim!
— Isso é verdade, — O moreno começou a escalar a porta do provador, mesmo com o vestido atrapalhando um pouco. — Mas também estou fazendo isso para apertar seus peitos! — Quando conseguiu escalar a porta só viu um soco em direção da cara dele.
— Seu idiota! — Ashley destrancou a porta. — Eu vou sair.
Todos ficaram olhando para o provador, a porta se abriu lentamente, Ashley estava usando uma peruca loira que batia chegava até seus ombros, um lindo vestido rosa com laços espalhados em seu babado e luvas pretas que davam um contraste a tudo.
— E aí, — Ashley mal conseguia montar uma frase. — Como tô?
O silêncio predominou por um segundo.
— Perfeita! — O moreno pulou em cima de Ashley, rodopiando em cima de Ashley, maquiada, bem vestida, feliz, consigo sentir a felicidade desse momento só de ver.
Tudo ficou escuro.
— Lindo momento entre os dois, não acha? — Marina tinha um sorriso no rosto.
— Realmente, — Eu também estava com um sorriso no rosto. — Até agora parece que ela foi uma boa pessoa.
— Se gostou dessa memória, você vai amar a próxima. — Marina sorriu para mim, sinto que vai ser uma briga entre Ashley e Anastácia ou algo marcante assim.
A memória começou a aparecer, vi Ashley andando no meio da praça, o sol já estava se pondo, ela estava maior, já era adulta e vestida como mulher, totalmente aceita, ao longe, vi alguém se aproximando, parecia ser o amigo moreno dela, ele também já estava como um jovem adulto, mas algo dele me chamava muita atenção.
— Aqui! Seu vesgo! — Ashley gritou para o moreno.
— Ok! — O moreno respondeu, e começou a correr em direção a Ashley.
— Espera... — Gaguejei isso enquanto via o moreno se aproximar.
— O que foi Ben? — Marina falava cochichava em meu ouvido, dava para ouvir ela segurando o riso. — Parece que viu um fantasma...
O quando mais se aproximava, o rosto do moreno ficava mais definido.
— Não, — Senti uma dor no peito, como um ataque cardíaco.
— O que foi? — Marina estava com um sorriso macabro em seu rosto. — Você reconhece ele?
Não conseguia mais falar, eu reconhecia aquele rosto, aquele corpo, aquela pessoa...
— Ben, está perdido? — Ashley falou as palavras que confirmaram minhas suspeitas.
— O que foi Benjamin? Não quer encarar a verdade? — Marina ria e falava ao mesmo tempo. — Você precisa ver sua cara! Hahaha! — Marina rodopiava enquanto ria. — Por que acha que os seus “amigos” não queriam que você participasse do julgamento dela? Por homofobia? Acho que não! Hahaha!
Mal conseguia piscar.
— Isso mesmo Benjamin! Encare em seus olhos, o amigo moreno dela é você, Benjamin K. Martin!
Estava claro que o moreno era eu, seus olhos, seu rosto, sua cara, a sua forma, ele era eu.
— Hahaha! — Marina estava perdendo o fôlego de tanto rir. — Não se perguntou o porquê você protegia tanto a honra da Ashley?!
Marina desapareceu em meio as suas risadas. Eu me aproximei lentamente de... eu, não conseguia prestar mais atenção no que os dois estavam conversando, cautelosamente comecei a tocar em meu rosto, isso é estranho! Muito estranho! Estranho! Estranho! Estranho!
Eu lembro.
Eu lembro da Ashley.
Eu lembro da Anastácia.
Eu lembro desse Benjamin.
— Ashley... — Essas foram as únicas palavras que consegui dizer.
Todo o ambiente em minha volta começou a rachar, tudo brilhava em cores fortes enquanto novas rachaduras iriam surgindo, parecendo um velho vitral, eu estava a gritar, com toda minha força, mas não tinha mais ninguém para ouvir, tudo brilhava em uma cor várias cores, como arco íris, um som agudo penetrava meu ouvido, dói, lembrar dói, lembro quando eu e Ashley invadimos uma casa de um vizinho para ser o esconderijo perfeito no pique esconde, quando eu fiquei doente e ela pediu férias do trabalho só para cuidar de mim, quando a Nath, lembro da festa do casamento dela. Como eu pude esquecer desses momentos? Como é que se pode existir sem esses momentos de felicidade? Esses momentos eternos? Esses momentos que nos definem?
Abri meus olhos em meio a lágrimas, vi Lúcia pegando minha espada, que estava com a alma de Ashley, sendo balançada para um lado e para o outro, lentamente.
— Ashley Teodore Mooney, julgada.
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