O juiz de vidas
1 Introdução - Acordando numa casa de uma velha
Notas iniciais
Acordei... Vi-me deitado numa casa feita de barro, olhei para as paredes e vi algumas pinturas abstratas, com minha visão ainda zonza, vi uma senhora de idade, sentada numa cadeira de balanço, fazendo crochê, ela notou que eu acordei e largou o crochê, se aproximou e me ofereceu uma xicara de chá, rapidamente me sentei e aceitei o chá, quase que no mesmo instante ela voltou para sua cadeira de balanço e recomeçou o crochê, olhei para mim mesmo, meus cabelos castanhos estavam bagunçados e notei que estava sem camisa, e, no meio do meu peito vi uma marca preta, do tamanho de uma ameixa, me perguntava o que era esta estranha marca, mas logo parei de me importar e voltei minha atenção à senhora.
— Onde... Onde estou? – Perguntei ainda receoso.
— Ah, você está em um lugar onde várias pessoas estiveram, todas tristes e amarguradas. – Começou a falar a idosa. – Um lugar onde as pessoas não tem mais futuro, mas tem dúvidas.
— O que? – Perguntei tomando o ultimo gole do chá e colocando a xicara no chão. – Fale coisa com coisa!
— Nunca vou terminar esse crochê... – A velha senhora levantou e deixou seu crochê na cadeira. – Você lembra o que aconteceu com você?
— Ah? O que? – Questionei, mas tentando lembrar o que aconteceu... – Bom, eu me lembro de acordar, fui ao banco para pagar algumas contas, mas acho que não paguei...
— É normal não se lembrar de nada, inclusive o que aconteceu...
— Não lembro de que?
— Bom... – A Senhora chegou muito perto dele, dando para sentir a respiração dela. – Deve ter acontecido alguma coisa para você, que fez você...
Ela deu uma pausa e cafungou, com um olhar meio triste ela disse:
— Isso é sempre difícil de falar...
— O que é difícil? – Perguntei com aflição.
No momento que ela ia começar a falar, ouviu-se uma voz feminina do lado de fora da pequena casa dizendo:
— Ei velhota não teria algum livro sem ser em inglês? Eu mal consigo falar direito, imagina ler! – Uma mulher de belos cabelos pretos lisos, um olhar desconfiado e uma pele bem clara, estava entrando na casa de barro, segurando um livro com tanta força que estava começando a dobrar.
— Temos um convidado Kin! Se comporte! – Exclamou a velha.
— Oh? Finalmente! – Exclamou Kin. – Meu nome é Kin Matsumoto, Qual é o seu nome?
Demorei um pouco para responder, não por que queria, mas sim por não conseguir me lembrar do meu nome ao certo, finalmente quando lembrei respondi.
— Meu nome é Benjamim Martin – Respondi e com um pouco de ansiedade fiz uma pergunta. – O que está acontecendo?
Kin olhou para mim, com um olhar de pena, como se fosse um pássaro com uma asa quebrada.
A velha olhou para mim, suspirou, tomou coragem e começou a falar.
— Você, infelizmente veio... A morrer...
Nesse momento eu fiquei perplexo, olhei para os lados, e acreditei que tudo fosse uma travessura, esperei alguns segundos esperando que alguém chegasse e dissesse “te pegamos!”, mas não foi isso que aconteceu...
Logo a velha parou de olhar para mim e começou a olhar para Kin, deu outra cafungada e disse:
— Pegue minha agenda, vou precisar dela.
— Hun... – Suspirou Kin. – Está na mesa da cozinha né?
— Si... – Antes de a velha terminar frase não resisti e perguntei.
— Que tipo de pegadinha é essa?!
— Finalmente! – Exclamou Kin. – Achei que tu não ias perguntar!
— Você já deve ter ouvido falar de vida após a morte? – começou a falar a velha ignorando Kin. – Isso é praticamente o mesmo.
— O caramba que é igual! – Exclamou Kin. – Somos praticamente escravos!
A velha olhou com raiva para Kin, que assustada, saiu resmungando sobre que isso é trabalho escravo, e dizia que a velha deveria estar num hospício.
Comecei a estranhar essa situação, tanto a velha quando a Kin pareciam não estar mentindo, mas o que elas estavam dizendo parecia tão irreal, sempre esperei algo diferente quando morresse, não uma velha me oferecendo chá e uma mulher que reclama de tudo.
— Então... – Comecei a falar, com muitas dúvidas em minha cabeça. – O que acontecerá?
— Você trabalhará para mim... – Respondeu à velha.
— Então aquela garota estava certa?
— Não é uma “escravidão”, é um trabalho para uma recompensa maior...
— Do que você está falando?
— Várias pessoas morrem todos os dias, sabia?
— Ah? – Comecei a acreditar que aquela velha era lunática, mas estava curioso para ver o que ela ia falar.
— É necessário que alguém cuide destas pessoas...
— Então somos assassinos? – Exclamei, já achando que ela tinha um parafuso a menos.
— Não é bem isso, nem todos que morrem passam por aqui, eles reencarnam em outras formas.
— Reencarnação? – Perguntei com dúvida, mas, naquele momento, já achava que a velha realmente era louca, e estava esperando uma explicação lógica.
— E alguns vêm aqui par... – antes de ela poder continuar, Kin voltará com a agenda da velha.
— Aqui está sua agenda! – Kin entrou na casa de barro quase que do mesmo jeito que na primeira vez, gritando e esmagando um livro na mão.
Kin entregou a agenda para a velha, que por sua vez abriu a agenda e começou a olhar número por número, lentamente se perdendo numa lista gigantesca de nomes e números.
Passando-se dois minutos eu e Kin estávamos meio preocupados, não era normal alguém demorar tanto para achar um numero telefônico, Kin tentou perguntar:
— Ei... Velha, você est...
— Aha! – Antes que Kin conseguisse terminar de perguntar a velha começou a falar. – Achei o número dele!
— Ei velha! – Kin voltará a falar. – O que está fazendo?
— Kin! – A velha olhou para Kin com uma cara séria e falou. – Termine de explicar para ele qual será o trabalho de vocês, terei que fazer uma ligação para um velho amigo...
A velha começou a sair lentamente da sala enquanto dava uma ultima olhada em mim, mas logo saiu e fiquei a sós com Kin. Kin se sentou na minha frente e começou:
— Bom, onde ela parou? – Kin perguntou para saber onde continuar sem mais reclamações.
— Ela estava falando algo sobre que alguns Reencarnam e outros vêm para cá... – Respondi.
— Ela explicou o motivo?
— Não.
— Ok. Vamos começar por ai. – Kin se preparou para começar a falar sobre o que estava a acontecer. – As que vêm para cá, tem um trabalho a fazer, que é pegar as almas das pessoas no seu último suspiro.
Neste momento ela parou de me contar sobre isso, acho que foi para me deixar compreender qual era a situação, e realmente, eu precisava desse momento para colocar minha cabeça em ordem. O que estava acontecendo aqui? Isso era inacreditável, algo totalmente irreal, então decidi fazer a pergunta que deveria ter feito logo de começo para aquela velha:
— Se eu estou morto, me prove, prove que isso não é uma brincadeira muito bem elaborada. – Finalmente fiz a pergunta que poderia resolver isso, provar que tudo é um trote...
— He he he. – Kin começou a rir bem baixo. – Eu estava esperando para você dizer isso.
Ela se levantou e foi para a porta, logo me chamou, e sem demora levantei e segui-a até fora da casa, olhei para fora e fiquei surpreendido, estávamos num precipício no alto de uma montanha, e embaixo um uma selva densa, cheia de árvores e animais. Logo só ouvi uma ultima coisa da boca de Kin:
— Bon Voyage!
Com suas mãos ela me empurrou precipício abaixo, senti um medo imensurável, senti o vento bater em meu corpo, pensei que tudo acabaria ali, vi as árvores cada vez mais perto, até que senti o primeiro galho de árvore me batendo, depois o segundo, o terceiro, e até sentir o arrasador chão.
Tudo estava preto, senti que minha vida tinha acabado, até que eu ouvi uma voz falando:
— Vamos logo, se levanta!
Consegui mexer minha cabeça e abrir meus olhos, esperava ver deus, talvez até o diabo, mas quem eu vi foi completamente pior... Era a Kin!
— Como isso?! – Perguntei perplexo.
— Mortos não morrem. – Kin falou com um tom meio triste.
Naquele momento notei minha situação, estava morto, minha vida havia acabado, e a única coisa que pude fazer foi só, gritar.
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