O grito pela Liberdade
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Ajeitei a mochila nas costas, tentando distribuir o peso para ambos ombros. Tirei o cigarro da boca e soltei, lentamente, a fumaça branca, a observando voar pelo ar; livre, leve e poluidora.
Até que meus olhos pararam nele.
E doeu. Refletir sobre ele doeu.
Observá-lo ali, aqueles pequenos olhos refletindo meu olhar, me fez sentir um formigamento em meus braços, minhas pernas... Me fez querer correr, dar cambalhotas, esticar meu corpo o máximo que pudesse.
Mas continuei parada ali, o encarando. Ignorando todo ônibus que passava ao lado, e induzida a fumar mais um trago. E, após sentir a típica queimação na garganta e o leve sabor da menta, soltei a fumaça branca e leve. E a tontura da labirintite me fez compreender melhor a situação.
Ele não retribuía meu olhar, de uma forma romântica e cheia de significado. Mas sim olhava a fumaça dissolvendo-se no ar e desaparecendo. A observava com amor, com desejo,
Com inveja.
E em tão eu senti meu coração cair em um abismo. Senti meus braços quase sumirem de mim, diante a impotência que sentia.
Eu, que apreciava tanto a liberdade. Eu, que não gostava de receber ordens. Eu, que não conseguia ficar em casa por mais de dois dias seguidos. Que me sentia doente se não saísse pelo menos até o mercado em 24 horas. Eu, que gostava de passear cada vez mais e mais, de ver um céu diferente em um lugar diferente, com pessoas diferentes. Eu, que gostava de respirar um ar diferente e caminhar por ruas diferentes. Me sentia tão...
Inútil.
Fraca.
Covarde.
Seu olhar se desviou por alguns instantes e então olhou mais uma vez para mim, diretamente para meu olho. E todos podem falar, apresentar fatos de que “esses seres não têm pensamento” posso garantir que estavam errados.
Pois seus pensamentos eram claros como a água, seu desejo estava nítido. Ele gritava silenciosamente por tudo aquilo que eu sempre busquei e apreciei em minha vida;
Liberdade.
Embora ele não soubesse as palavras, embora ele não soubesse repeti-la em dezenas de línguas diferentes, embora seu idioma fosse completamente diferente do meu... Era exatamente isso que gritava em seu pequeno cérebro.
Liberdade, liberdade, liberdade.
E eu senti as lágrimas escorrendo por meu rosto, enquanto o cigarro tombava no chão após o vento do ônibus o derrubar. E eu quase não sentia as pessoas esbarrando ao meu redor.
Porque as pessoas não importavam.
E seu olhar desviou. E por um segundo a mais eu encarei sua pequena cabeça azulada olhar ao redor, virando-se de costa para mim. E então...
E então eram dezenas de olhos.
Liberdade, liberdade...
E o barulho que muitos acham agradável, estava parecendo para mim uma canção em um enterro.
Era o cantar mais fúnebre que já tinha escutado.
E essa música triste e com um ar desesperado, fez com que minha mente relembrasse todo som semelhante que já escutei.
E deu um sentido diferente a eles.
Não era um canto bonito em uma manhã de primavera, que muitos adoravam ouvir ao acordar em seus apartamentos no centro da cidade. Não era, nem de perto, uma canção agradável que os recordava da natureza quando tudo que tinham era asfalto quente e barulho de buzina.
Era uma canção carregada de dor, de lamento, de um luto terrível compartilhado entre todos. E dezenas deles me olhavam agora, como se pedissem para que mudasse essa canção com um ato criminoso e extremamente emotivo.
Mas eu continuei parada ali, me sentindo fracassada por refletir isso pela primeira vez em 18 anos. 18 anos cercada pelo mesmo canto fúnebre, mas só agora entender o sentido de todo aquele lamento.
E, embora eles gritassem para qualquer um que os encarasse, principalmente a mim, embora eles assanhassem suas assas e me olhassem daquela forma extremamente avassaladora, eu dei sinal para o primeiro ônibus e fui embora. Chorando como se tivesse acabado de ver um assassinato. A maior injustiça do mundo.
E era. A maior injustiça do mundo em que todos estão acostumados e até gostam de viver.
Injustiça essa que não é preciso ir muito longe para encontrar. Basta ir em uma pet shop e você encontrará.
Encontrará aprisionado em gaiolas, amontoados entre si, quando foram feitos justamente para voar longe e nunca serem pegos. Vendidos a preço razoável para cantar em sua sala de estar.
E quando parei de chorar e olhei pela janela, encontrei outros na mesma situação. E, pendurado na frente da gaiola tampando milagrosamente um pouco do sol forte que os afetava, estava escrito de uma forma mais cruel, tratando tanta vida como objeto.
“Promoção de Pássaros: Venham conferir”.
Notas finais
Críticas, sugestões, elogios... são super bem vindos!
Até ;D
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