Ele estava apreensivo, mas tentava disfarçar o seu nervosismo da melhor forma que podia antes de entrar no Itaú. Aquele era o território do maior inimigo do país, e aquele dia ele queria por um fim, pelo menos naquela agência; em sua mochila, vários molotovs se encontravam preparados. E foi então que ele sentiu uma mão no sem ombro, e sentiu o seu medo o deixando parado no mesmo lugar. Lentamente virou o rosto.

Quem estava atrás dele lembrava vagamente os ursos que tinha conhecido em um bar em São Paulo (afinal, ele amava todos e todas); a barba bem feita, o sorriso meio debochado, a camisa larga. Aquele rapaz ali era uma verdadeira glória a Deus. Entre a respiração, Daciolo começou a lembrar do Cântico dos Cânticos. E então ele lembrou: conhecia aquele rapaz, era Guilherme Boulos. Imediatamente se esquivou da mão, enquanto uma torrente de sentimentos passava por seu coração, agora mais acelerado. Antes que pudesse fazer nada, Boulos disse com aquela sua voz de 30 anos de militância:

— Eu sei o que você quer fazer, cabo. Mas você não vai conseguir acabar com os bancos sozinhos. Guarde a luta para outro dia, vamos pensar em outras maneiras.

Daciolo olhava fixamente para as mãos de Guilherme, que gesticulavam precisamente marcando cada palavra que falava. Aquele homem não era servo do Deus vivo, mas era uma graça. Mas o conflito só aumentou no coração do cabo: aquele homem também era comunista e pretendia juntar toda a América Latina em uma América grande, América Geral, mas o ódio compartilhado pelos bancos os aproximava de alguma forma. E então, mais rápido que a rolagem da dívida pública, sentiu uma sensação estranha lá embaixo e ficou corado, e, como se desculpando, disse:

— Parece que a minha nação brasileira acordou...

Boulos deu um riso sincero. E bem-humorado, disse:

— É maior que o problema do desemprego...

Nisso o militar não resistiu. Colocou as mãos na nuca de Guilherme e o puxo para si, e o beijou acaloradamente. Nunca estiveram tão perto, nem mesmo nos debates. E o líder do MTST retribuiu o beijo, trocando as paixões ali mesmo, no território do inimigo que era o banco; talvez este também fosse um ato de revolução, mas era mais adequado que um motel, uma vez que os bancos já fodiam todo o povo brasileiro.

E então Boulos interrompeu o beijo, aproximou a boca bem devagar do ouvido do cabo, e disse em uma voz bem baixinha, para que apenas ele pudesse ouvir, mais baixa ainda do que quando o microfone era cortado.

— Eu quero te ocupar todinho, quero fazer com você que nem nos 50 tons de Temer.

O grande problema era a falta de amor, mas aquilo era o que não ia faltar para o cabo Daciolo aquela noite.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.