O gelo também queima
3 Descobertas e Decisões
Notas iniciais
Os dias se sucediam um após o outro sem alterações. Na primeira noite, Ciel ainda sentiu Sebastian por perto, novamente no escuro, sentiu a presença dele mas quando o chamou ouviu apenas o silêncio. Na segunda e terceira noite aconteceu a mesma coisa, Ciel começou a ficar mais triste ainda, a melancolia e a solidão fizeram morada no seu coração outrora tão feliz. Passou a ficar o dia inteiro na cama, mal se alimentando, mal levantando, nem lia mais, nada mais importava além da vã esperança de que, naquela noite, Sebastian voltaria para os seus braços.
Mas o rei demônio nunca falava com ele, nunca o tocava, mesmo com Ciel tendo a certeza que ele estava ali, olhando-o, vigiando-o no seu sono intranquilo e superficial.
Acontece que Sebastian também sofria, nunca havia sido sua intenção se apaixonar pelo humano, mas se viu preso àquele pequeno garoto e a possibilidade de que ele não acreditasse no seu amor era grande demais.
Sim, o primeiro plano seria Sebastian, ainda como Dunkel, ir embora, deixando que Ciel vivesse a vida dele em paz, sem se envolver com um demônio solitário. Afinal, que futuro isso teria? Mas, à partir do momento em que ele havia se ferido por culpa do maior, todo o plano foi por água a baixo. Sebastian ainda teve esperanças que a farpa de espelho mágico não surtisse efeito no garoto mas isso também se mostrou errado quando viu, dia após dia, Ciel murchar em tristeza. Viu isso empoleirado sobre um galho de uma árvore seca e retorcida pela nevasca incessante, que ficava ao lado da janela do quarto do pequeno, sob a forma de um corvo, tão negro quanto Dunkel, um pequeno e novo pingente ali, brilhando no pescoço da ave.
Não havia outra decisão a ser tomada, teria que levar Ciel para seu castelo, lá ele teria como se recuperar pois até a atmosfera do local era mágica e o tempo corria diferente lá. Aos poucos, o humano seria tratado dos efeitos do ferimento encantado. Pensou estar fazendo a melhor coisa, sentia saudade do garoto, gostava da companhia do mesmo, na verdade acreditava estar sentindo algo mais, algo que o fazia sentir frio e calor ao mesmo tempo ao olhar o semblante do menor. Mentalizou de que não deveria pensar coisas desse tipo, mesmo que naquela primeira noite, a paixão tenha falado mais alto e ele tivesse tomado o seu pequeno humano para si, saciando o desejo que há tempos o vinha consumindo. Adorou o toque macio e morno das mãozinhas inexperientes no seu corpo, o gosto daquela boca pequena durante os beijos cada vez mais apaixonados que trocaram naquela noite e nas que se seguiram, a respiração rápida do garoto batendo de encontro ao seu pescoço e como ele gemia com os olhos fechados, as sobrancelhas levemente juntas, numa expressão de prazer puro. Sua longa existência havia virado uma bagunça, apenas Ciel existia na sua mente e ele desejou ardentemente ser um humano comum, para poder ficar ao lado do seu pequeno de olhos tão lindos.
Mas isso não era a sua realidade, assim como ele nem sequer devesse existir naquele mundo, talvez o ideal fosse voltar para a sua dimensão e foi isso que o rei da neve decidiu: assim que Ciel se recuperasse, ele o devolveria à sua residência e então partiria do reino, qualquer outro que o destino quisesse assumiria o trono e ele reinaria onde era o seu lugar: no reino mágico. Não se importando se essa ação iria despedaçar seu coração irremediavelmente.
Ainda assim, seu plano mais uma vez deu errado. Ciel havia caído numa depressão profunda por conta do seu afastamento.Todas as noites, quando ele surgia sorrateiro para observar seu pequeno humano e matar pelo menos um pouco da saudade que o assolava por dentro, o encontrava mais triste e mais apático. Por muitas vezes pensou em responder aos chamados do garoto, cada vez doendo mais no seu coração por não conseguir fazer algo que resolvesse a situação. Queria pegá-lo nos braços, apertá-lo junto ao peito e dizer que estava tudo bem, e que tudo não passava de um mal entendido, que ele jamais iria abandoná-lo.
Porém, noite após noite, Sebastian se via preso, incapaz de agir como desejava, pois na sua cabeça, o melhor seria devolver o humano para a sua realidade e não prendê-lo ainda mais à si. Para o Rei da Neve, invariavelmente, Ciel iria se recuperar, iria se apaixonar, casar, provavelmente ter filhos, iria viver uma vida plena e humana e a estadia no castelo gélido não seria mais do que uma lembrança esquecida de um passado distante. Muito ao contrário do que aconteceria com ele, para seres mágicos, o tempo não existe. Se uma fada, elfo ou mesmo um demônio se apaixona, é apenas uma vez, uma única vez e para todo sempre.
E foi com esse pensamento que Sebastian deitou-se na sua cama naquela noite. Olhou pela janela para a noite escura e gélida e lembrou-se do calor morno do corpo do seu humano. Estaria ele dormindo no andar de baixo nesse momento.
Os dias passaram, Ciel definhava sobre a cama, a depressão tomava conta do garoto porém era um depressão causada pelo afastamento e não pelo ferimento do estilhaço mágico e Sebastian decidiu que era o momento de libertá-lo. Durante a noite, surgiu silencioso e tocou o ombro dele, sentiu-o estremecer mas não se moveu.
—Ciel — chamou com a voz baixa e ouviu um murmúrio abafado. Puxou o garoto pelo ombro, virando para si, percebendo que o pequeno estava com o rosto avermelhado, os lábios entreabertos deixava passar a respiração entrecortada.
Sebastian franziu o cenho, correndo os olhos pelo rosto corado e quente, muito quente do Ciel. Estava queimando de febre, balbuciando palavras desconexas, delirando algum pesadelo que o fazia choramingar. Acomodou o pequeno nas cobertas e saiu, vasculhando seus livros em busca do nome de algum remédio que pudesse ajudar, abriu a janela do seu quarto e transformou-se no corvo de olhos vermelhos voando direto para o boticário do povoado levando uma bolsinha de couro no pé, entrou pela chaminé da lareira e quase caiu de mal jeito nos carvões apagados, agradeceu mentalmente estar de noite, do contrário a lareira estaria acesa. Pulou para as estantes com os vidros marrons de remédio, lendo os rótulos até encontrá-lo. Achou o que queria num vidrinho pequeno, de uns cinco a sete centímetros, desses tampados com um conta-gotas, enfiou o vidrinho na bolsa e segurou-a firme com o pé; deixou duas moedas de ouro sobre o balcão e alçou vôo de volta para o castelo.
Entrou pela mesma janela e voltando para a forma humana, se apressou em ir de encontro ao doente. Ciel permanecia deitado, vermelho e ofegante, as pálpebras tremulavam e ele balbuciava.
—Dunkel… Sebastian… — falou num sopro, fazendo o coração do rei demônio se despedaçar, seu pequeno humano o chamava. Por que havia sido tão duro consigo e com o seu pequeno? Por que não se permitia viver esse amor?
Pegou-o no colo e despejou algumas gotas do remédio na boca do Ciel, que fez uma careta mínima e ameaçou abrir os olhos. Sebastian o observou atentamente, estava preocupado com a possibilidade do pior acontecer com o menor, queria que ele abrisse aqueles lindos olhos azuis e o encarasse mais uma vez com a sua doçura costumeira, mas isso não aconteceu. Ciel permaneceu com os olhos fechados, e Sebastian permaneceu com ele nos braços por boa parte da noite.
Aos poucos ele percebeu que o sono agitado e gemente do Ciel deu lugar à um sono mais calmo. Ele não mais se movia estremecendo como antes, nem balbuciava, sua respiração havia se normalizado assim como a cor da sua pele. Sebastian suspirou aliviado e o acomodou na cama, ajeitando os travesseiros alvos e fofos sob a cabeça do garoto, cobriu-o com a manta macia e olhou o rosto pálido adormecido. Não resistiu beijar aqueles lábios avermelhados, foi apenas um selinho, apenas para recordar a textura macia daqueles lábios nos seus. Separou-se e fez uma carícia suave no rosto antes de deixar o quarto.
Foi para o seu próprio quarto que ficava no andar superior, Ciel nunca estivera ali, era a parte proibida para o garoto. Sebastian entrou no quarto vazio e achou-o vazio demais, queria voltar para o quarto do Ciel mas não, o melhor agora era deixá-lo descansando e se recuperando da febre. O rei da neve tinha outras coisas a fazer, coisas mais importantes como por exemplo arrumar um jeito de se explicar ao garoto. Mas como explicar seu sentimento se logo em seguida ele iria mandá-lo embora?
Não havia um meio confortável para isso e ele sabia que jamais seria forte o suficiente para dizer tudo frente à frente e ver a tristeza tomar conta daquele semblante tão lindo. Além disso, o rei da neve sempre havia sido um ser solitário, ele não estava acostumado a dizer o que sentia à ninguém. Pensou no que poderia fazer e chegou à conclusão que escreveria uma carta, explicando tudo o que ele sentia e que o estava devolvendo para a sua casa, que aquilo era a melhor coisa a ser feita. Pegou uma folha de papel e a pena, logo se pondo a escrever junto à mesa de trabalho, perto da janela; escreveu por longas horas, refazendo várias vezes, sempre que achava que algum trecho não estava do seu agrado ou que ele achava que não estava claro o suficiente. Terminou depois de muitas horas quando o sol já ameaçava nascer.
Passou a mão no rosto cansado e quando se preparava para um descanso rápido, sentiu a aproximação de uma presença estranha à tudo. Imaginou o que seria, ele sabia que não demoraria para isso acontecer.
Estava de mal humor e cansado e tudo o que menos queria era enfrentar algo que, se tivesse demorado mais um dia, iria ser totalmente evitável.
Moveu os dedos pela fronte, fazendo surgir sua coroa de cristais de gelo e seu amplo manto real surgiu envolvendo os ombros largos. Saiu do quarto em passos decididos, fazendo o manto ondular atrás de si.
***~***~***
A garota loira ajeitava o manto de pele em torno dos ombros na sala de sua casa, tinha a aparência delicada mas via-se em seu rosto uma força determinada. Seu nome era Elizabeth, era amiga de infância do Ciel e nutria secretamente um amor não correspondido pelo garoto.
Quando ficou sabendo sobre o sumiço da sua paixão, começou uma investigação, buscou informações em todos os lugares, interrogou os empregados da casa Phantomhive acerca do que havia acontecido. Todos os criados estavam abalados com o sumiço do seu senhor, e claro, deram todas as informações, todos eles estavam muito tristes e já tinham ido à polícia dar queixa do desaparecimento. A investigação policial não deu em nada e eles tiveram que ouvir que provavelmente o garoto havia fugido de casa por algum motivo qualquer.
Lizzy, como a garota gostava de ser chamada, não aceitou isso tão facilmente. Reuniu todas as informações que conseguiu e desconfiou que havia algo de magia nisso tudo que acontecera ao seu querido amigo Ciel. Foi até a biblioteca da cidade e começou a pesquisar lendas antigas do povoado. Descobriu muito mais coisas, coisas que a deixaram surpresa de como ninguém mais naquele lugar havia se dado conta. Lendo um livro muito antigo e quase se desmanchando, chegou à conclusão que aquele gato que ele havia resgatado naquela nevasca poderia ser algum demônio, pois tais serem são capazes de mudar de forma, leu também que era relativamente fácil reconhecê-los quando disfarçados pois sempre tinham algum símbolo do seu poder. Lembou-se que Dunkel foi encontrado com uma corrente e um pingente espelhado: uma estrela de muitas pontas.
—É isso! Só pode ser isso! — bateu o punho fechado na mesa de madeira, erguendo os olhos do livro — O gato só podia ser um demônio disfarçado mas, qual?
Ela olhou para o nada, pensativamente, tentando achar algo que fizesse sentido, alguma pista, pois agora tinha que descobrir que demônio era aquele e como encontrá-lo. Foi quando olhou para fora da janela, ao longe via-se o palácio real. Era uma construção magnífica que, ao longo de todos aqueles anos, havia se coberto por uma espessa camada de gelo, dando a impressão que ele era feito desse material, Lizzy arregalou os olhos quando viu um mínimo raio de sol que havia atravessado a espessa camada de nuvens bater na superfície congelada que refletiu num brilho prismático: era o mesmo brilho do pingente de Dunkel. Seria possível que isso fosse uma prova ou seria apenas uma coincidência?
A certeza veio quando ela virou os olhos para a parede da biblioteca, e viu o painel de veludo com o brasão do reino bordado ali: era a mesma estrela do pingente de Dunkel! Ficou abismada por não ter ligado uma coisa à outra antes. Estava tudo tão na cara! Fechou o livro e saiu determinada da biblioteca.
Havia descoberto quem havia sequestrado o Ciel, onde ele estava e sabia muito bem do risco de tentar resgatá-lo, mas na sua cabecinha apaixonada, não haveria sinal maior de amor do que esse. Com certeza, Ciel não ficaria indiferente à isso, afinal, ela o traria de volta à qualquer custo, o livraria daquele horrível frio congelante que o pobrezinho com certeza estaria sofrendo ali.
Nem sequer foi para casa, tomou o rumo direto do castelo, que ficava um pouco afastado do centro do reino, não tinha um plano muito bem elaborado, apenas sabia que tinha que tirar o seu amigo de dentro daquele lugar. Nem sequer conseguia imaginar os sofrimentos que ele estaria passando ali. Estava absorto nesses pensamentos quando esbarrou em alguém, olhou para o alto, encarando o rosto do homem.
—Professor Arthur? Tudo bem ? — cumprimentou com um pequeno sorriso o rapaz de feições simpáticas, vestido num grosso casaco de inverno marrom. Ele havia passado um ano longe do reino, viajando à estudos.
—Boa tarde, senhorita Elizabeth. Tudo bem e com a senhorita? — respondeu meneando a cabeça.
—Sim — falou ela deixando transparecer a preocupação — Não sabia que o senhor havia retornado.
—Voltei hoje de manhã. Me diga, senhorita, me parece um pouco preocupada. Aconteceu algo?
A loira suspirou, baixando os ombros, sentia que podia confiar no professor.
—Ciel foi sequestrado. Pelo Rei da Neve.
Arthur fez uma expressão surpresa, não só por saber que aquele adorável e encantador rapazinho, que fora seu aluno, havia sido sequestrado como também por saber que tinha sido o rei a fazê-lo, afinal o monarca era um homem recluso. Tudo parecia fantasioso demais.
—Me explique como isso aconteceu e como você sabe que foi o Rei da Neve quem fez isso. — pediu calmamente, mostrando preocupação na voz.
Então Lizzy explicou tudo sucintamente, narrando desde o encontro do gato no meio da neve até o sumiço do Ciel e claro, tudo o que ela havia descoberto. Lizzy tinha certeza que havia sido o Rei da Neve que havia levado o seu amado.
—Agora com licença, professor Arthur, estou indo para o castelo, irei resgatar meu amigo — falou já caminhando pela calçada molhada pela nevasca da manhã e que agora ameaçava descongelar aos poucos, formando uma lama fria e escorregadia, muito convidativa para se escorregar e cair.
—Espere, senhorita — falou o professor, sua educação de cavalheiro honrado jamais iria permitir que deixasse uma dama correr tal perigo. E também, diga-se de passagem, o homem tinha uma afeição especial pelo pequeno nobre que sempre foi motivo de orgulho pois era muito inteligente e bom aluno — Eu irei com a senhorita!
Ele a alcançou poucos passos adiante, ajeitou o chapéu de feltro marrom escuro e fechou melhor o casaco, sorriu amistoso.
—Isso é muito bom, professor. Obrigada! — a garota sorriu, juntando as mãos demonstrando o agradecimento.
Caminharam lado a lado, ambos comentando por vezes pormenores desse tempo que o professor passou longe do reino. Ele contava as coisas que aprendeu e viu lá fora e até mesmo falou com ânimo sobre como era o sol e o calor, Lizzy ouvia tudo entre o encantamento de saber sobre coisas diferentes e a preocupação do que a esperava quando finalmente chegasse no castelo.
Por fim, a preocupação e a tensão do resgate iminente foram suficientes para exterminar toda a animação do professor em contar suas aventuras. Terminaram a jornada quase quarenta minutos depois, quando finalmente chegaram no castelo de gelo.
Lizzy afastou algumas folhagens pois, com medo de uma possível aproximação dos guardas, eles haviam decidido pegar uma trilha lateral.
—Chegamos! Ali é o castelo, precisamos entrar de algum modo — comentou olhando para o castelo que não mostrava sinais de movimentação de empregados nem nada.
Arthur aproximou-se também, olhando por cima da cabeça da moça.
—Parece abandonado, como sempre — chegou à mesma conclusão.
—Vamos !
Ambos saíram de detrás das árvores, se aproximando e, como haviam suspeitado, ninguém tentou impedi-los. Não havia empregado nenhum, os portões estavam todos fechados mas não trancados e foi assim que chegaram sem problema algum ao salão principal.
Caminhavam com cuidado, olhando para os lados, quase colados um nas costas do outro, atentos ao menor movimento. mas tudo estava vazio. Ou parecia estar.
—Vêem à mim por própria vontade? Isso é interessante! — uma voz profunda e grave soou ecoando no salão de teto alto, reverberando nas paredes de pedra nua.
Os intrusos foram surpreendidos pela voz autoritária mas não brava, era como se o outro estivesse se divertindo com a invasão.
***~*~***
Ciel acordou se sentindo dolorido, havia dormido todo enrodilhado em si mesmo, não porque sentisse frio, isso ele não sentia mais há muito tempo mesmo vivendo naquele castelo congelado. Dormiu encolhido pela solidão e vazio que sentia dentro de si.
Sentou-se na cama, coçando os olhos e tentando esticar as penas e braços finos, sentindo os músculos reclamarem pelas longas horas encolhidos. Tinha a nítida impressão que Sebastian havia estado com ele na noite passada, mas tudo era meio confuso, havia se sentido tão mal e tinha certeza que esteve com febre.
Olhou o café da manhã sobre a mesa, suspirou, levantando-se e passando direto pela comida, não tinha fome alguma. Foi ao banheiro e minutos depois voltou. Olhou para os lados, ansioso e angustiado por passar mais um dia sozinho naquele lugar. Onde Sebastian se escondia durante o dia? O que ficava fazendo?
Abriu a porta, incapaz de passar mais um dia ali, entre aquelas quatro paredes. Caminhou pelo corredor aleatoriamente, e chegou às escadas que levavam ao andar superior. Normalmente haveria uma barreira de gelo ali, Ciel se lembrou do aviso no primeiro dia que chegou: não deveria ir ao andar superior. Mas o que ele iria perder? Já havia perdido a companhia do maior, já havia caído na besteira de se apaixonar sem ser correspondido, pensou analisando as barras de gelo. Então, sem pensar muito, segurou-as entre as mãos, colocando força e quebrando as barras de espessura média, em outras épocas elas seriam capazes de colar a sua pele e arrancá-la. Mas isso não aconteceu, Ciel nem sequer sentiu dor ao parti-las.
Subiu as escadas que circundavam o eixo principal, imaginou que estaria indo para uma das torres, já que a escada subia por uma suave curva contínua e, no topo, descobriu um quarto mais ricamente mobiliado que os outros, correu os olhos pelo ambiente: a ampla cama com lençóis de seda negra e azul claríssimo; a lareira apagada e limpa, mostrando que não havia sido usada nos últimos anos; uma mesa de madeira perto da janela com alguns papeis e uma pena no tinteiro ainda destampado, como se Sebastian houvesse interrompido algum trabalho. Olhou para o lado e viu vestes numa espécie de manequim, encostado num dos cantos. Não era como se estivesse esquecido ali, estava numa posição em que a claridade da janela batia em cheio, dando destaque ao traje imaculado.
Aproximou-se curioso, a roupa era branca e cintilava discretamente como a neve quando o sol bate, era decorada na barra e decote com rendas tão delicadas quanto os cristais de gelo. Havia uma espécie de laço atando a roupa ao manequim, mas quando Ciel passou os dedos pela renda, este se desfez como por mágica. Sorriu deslizou os dedos pelo enfeite que ele julgou deveria ser usado na cabeça, eram lindas mas pequenas demais para um homem do tamanho do Sebastian. Sentiu borboletas voarem pelo seu estômago, a roupa só poderia servir nele. Seria um presente? Sebastian estaria preparando algo para ele?
Sorriu, acariciando com os dedinhos os detalhes delicados da roupa, olhou em volta novamente. Onde estaria Sebastian?
Andou até a mesinha, curioso do que estaria escrito naquela folha de papel, aproximou-se e pegou o papel de cor clara, arregalando os olhos, era uma carta dele. Seus dedos tremeram ao ler que Sebastian o observava há muito tempo, que ele havia se encantado com o jeito do garoto, leu a parte em que ele não se conteve em apenas o observar de longe e tramou o resgate do gato, para ter uma desculpa para entrar na casa do garoto e passar mais tempo com ele e como esses momentos foram preciosos para o demônio na forma felina. Não conseguiu esconder o sorriso tímido e feliz que surgiu nos seus lábios ao ler que ele sentia o feitiço perdendo o efeito e que ele teria que deixá-lo mas que todas as vezes em que pensava sobre isso, a dor era tão imensa que ele preferia fechar os olhos para o aviso claro de que o fim do encanto estava próximo, preferindo aproveitar todos os minutos possíveis ao lado do pequeno.
Cada parágrafo que Ciel lia, ele sentia seu coração bater mais descompassado. Então Sebastian o amava? Então ele o amava há mais tempo ainda, o amava em segredo, o observando de longe, sob o disfarce encantado de um gato negro? Olhou para fora, para a nevasca que ameaçava cair, o céu enegrecendo rapidamente embora ainda fosse de manhã.
Voltou a ler as poucas linhas que restavam e seu semblante escureceu, franziu o cenho, prestando mais atenção ainda nas palavras escritas. Ali dizia que Sebastian iria devolvê-lo, iria deixá-lo em casa novamente, pedia desculpas porque ia fazer isso enquanto o encantamento para dormir fazia efeito. Dizia que não teria coragem para uma despedida porque sabia que jamais seria feliz depois de tê-lo deixado e explicava que preferia isso à possibilidade de fazer Ciel infeliz. A carta terminava por aí, com Sebastian dizendo que o amava e que por isso, queria vê-lo feliz, tendo uma vida humana normal e plena.
Ciel deixou o papel cair de volta na mesa, estava trêmulo e as lágrimas ameaçavam transbordar dos seus olhos. Não conseguia entender, se ambos se amavam, por que não poderiam viver juntos? Por que Sebastian ia fazer aquilo? Seu coração se apertou no peito, ele se sentia infeliz e cansado, tinha que tomar uma decisão, tinha que fazer algo para dar fim à essa situação. Mas ia fazer isso à altura, não faria com isso com aquela roupa comum que estava usando.
Respirou fundo e caminhou na direção do manequim.
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